quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dia de Lisboa - O s golfinhos e as gaivotas da Augusta Clara e os Madredeus - moram todos em Lisboa.


Augusta Clara de Matos (texto e foto)

Da minha janela não vejo o Tejo. A pior coisa que pode acontecer a uma alfacinha. Não tem água que chegue é só meio alface. Já mo tinham dito mas por outras razões.

Com as alfaces é muito complicado. Têm as folhas tenras, precisam de água. Duras é que elas não são e com a secura não se dão.


Por isso, quando saio, é para lá que me viro. Vou descendo, descendo, até chegar à beira da água e apetecia-me ficar lá a morar.

Sou a Menina do Mar da Sophia e, se encontrasse o rapazinho da casa branca, havíamos de mergulhar os dois à procura dos golfinhos do Mar da Palha que eu via quando era do tamanho dele e atravessava o Tejo no cacilheiro.

Eram nossos amigos, não nos tinham medo. Nós debruçados na amurada com os pés no ar e eles nadavam, nadavam com a espuma e connosco, à frente, ao lado do barco. Felizes, fazíamos uma algazarra. E eles respondiam.

Nem nos apetecia largar o barco. Mas, na volta, lá estavam eles para nos levar a casa.

Para onde foram os meus golfinhos do Mar da Palha? Quem os maltratou para já não nos quererem acompanhar na travessia?

Agora, sempre que alguma emoção forte me toca, há um pólo magnético que me convoca a ir vivê-la para a beira-rio. Seja um sentimento feliz, um desgosto ou, apenas estar comigo própria, com um bom livro ou só a olhar o movimento do Estuário.

No meio desta cidade turbulenta onde está a ser cansativo viver, é lá que encontro paz.

Nunca mais vi os golfinhos. Agora tenho as gaivotas. E o Tejo, sempre o meu Tejo.

“E mesmo que esteja frio e os barcos fiquem no rio, parados sem navegar”…eu gosto de lá estar.


Madredeus – Moro em Lisboa

13 comentários:

  1. Muito bonito, Augusta. Até uma portuense ferrenha tem de render-se a este retrato tão bonito de Lisboa

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  2. Que beleza Augusta,que sentir imenso a nostalgia da ausência, a saudade do tudo que fomos no nada que somos, o frio desta paz hipotecada no calor arrefecido à beira da àgua onde apetece ficar e morar. Que porra, é assim em tudo! À beira do Tejo, à beira do Douro ou nas margens do Caima da minha infância mais que perdida. Porra!

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  3. Adão, tu tens uma capacidade de traduzir em palavras sentimentos e emoções que há muito me acompanham e que não consigo exorcizar.O que faz o escritor, escrever? O pintor, pintar? O poeta,comunicar? Compreender, chegar-se aos outros em solidariedade, na perda da juventude, a saudade sentida...a Augusta, saiu-se com uma obra prima.

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  4. O texto é muito bonito, mas não me surpreendeu - sei que escreves bem. Lembro-me de atravessar o Tejo no cacilheiro e ver golfinhos a saltar. Desapareceram - morreram ou a colónia emigrou, como às vezes acontece. A grande surpresa foi a fotografia. Tens mais? Querem ver que vais competir com o Zé e fazemos uma série de fotopoemas contigo? A terceira, porque da segunda já estamos a avançar. Se não foi sorte de principiante és uma excelente fotógrafa.

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  5. Que lindo, Adão, o que tu dizes! Mas quem não perde a infância? Para mim, estas recordações são muito agradáveis. A minha pena é que os golfinhos já não andem por aqui. Era tão bonito, nós miúdos adorávamos aquele convívio. Um beijinho

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  6. Não tenho muitas assim tão bonitas. Só dos gatos :) Vou ver. Já estás livre das tarefas, lisboeta raça pura?

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  7. Augusta, os golfinhos tal como outras espécies estão a voltar ao Tejo, porque as ETAR em conjunto com as marés estão a devolver a vida ao rio.

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  8. Eu nunca estou livre, Augusta Clara. Digamos que o tsunami passou. Da gataria, podes guardar. Agora se tiveres uma dúzia como esta da torre, pensamos na série. Se quiseres, claro, Clara Augusta.

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  9. Espero bem, Luís, para eu voltar a andar de cacilheiro. Também já tenho sdaudades disso. Já andam no Sado.

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  10. Tenho quase só à beira-rio. No último fim de semana é que tirei algumas a uns sobreiros que me fizeram lembrar o poema da Florbela "Árvores do Alentejo"...olhai e vede, também eu ando a gritar morta de sede, pedindo a Deus a minha gota de água". Lindo!

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  11. Carlos, mas eu não faço fotografias como as do Zé. Eu só disparo. O Zé deve ter filtros e aquelas técnicas todas. Alguma vez eu era capaz de fotografar aves a voar como se estivessem paradas? Aqui foi o sol que se pôs em pose.

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