Mostrar mensagens com a etiqueta águia-de-bonelli. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta águia-de-bonelli. Mostrar todas as mensagens

sábado, 20 de novembro de 2010

A nossa encantadora Natureza – 11, por Andreia Dias

Águia de Bonelli (Aquila fasciata)


Destas águias, não me é particularmente fácil falar. Falo e logo sinto borboletas que me pululam nos pés e rapidamente me chegam às orelhas, E tudo isto, devido ao carinho que lhes tenho. Afinal de contas, dediquei-lhes na íntegra, os últimos 4 anos. Foi um amor à primeira vista… pela sua “fragilidade e robustez”. É um contra-senso, eu sei, mas é daqueles “amores-paixão”, dos que nunca viram ódio.
É difícil falar do que se gosta muito, quase tanto como falarmos de nós próprios. Por instantes, ponho o meu profissionalismo de lado para falar de um animal. Estas águias aniquilam o mais robusto humano, apenas com o olhar. Hoje, quase viro poeta, só de escrever sobre a águia de Bonelli, perdoem-me os tantos (verdadeiros) poetas que me lêem…

Esta espécie foi descoberta para a ciência pelo italiano, Andrea Bonelli (1819) e não fosse a coincidência… a Andreia das Bonellis!



Sei exactamente quando e onde vi o primeiro ovo, o primeiro “bebé”, a caçarem, a dormitarem, a copularem… as que tiveram bebés e com as asas abertas as protegeram do sol ou da chuva, as que ficaram sem ninho porque caiu, as mais exibicionistas e as mais discretas, as mais escuras, as mais clarinhas, …
Qualquer observação fugaz, que aos meus olhos era eterna… inundava-me de alegria para enfrentar os dias seguintes sem novas observações.

E tê-las na mão!? Quando o meu batimento cardíaco se funde no delas e não consigo sequer distinguir qual o que bate mais forte…

As águias de Bonelli, têm estatuto de “Em perigo” e têm sofrido um acentuado declínio nos últimos anos.
Pode ser encontrada desde a região mediterrânica até ao Sudoeste asiático, em pequenas e fragmentadas populações. Na zona da Indonésia e Timor-Leste existe uma forma distinta, sendo defendida por uns como uma subespécie e como espécie diferente por outros.

Em Portugal, existem cerca de 115 casais. Ao contrário do Nordeste Transmontano (ou mesmo do resto da Europa) onde nidificam exclusivamente em rocha, no Sul de Portugal a população tornou-se arborícola e curiosamente encontra-se em expansão.

É a ave de rapina que se reproduz mais cedo na Europa. Podem pôr 1, 2 e raramente 3 ovos (ocorreram 2 casos inéditos em Portugal do nascimento e voo de 3 crias em 2007 na zona do Vale do Guadiana).
Os pequeninos quando nascem, assemelham-se a bolinhas brancas de algodão e à medida que crescem, vão adquirindo uma plumagem mais escura. Através da evolução desta plumagem, é possível avaliar a idade das crias.



Quando atingem cerca de 65 dias começam a efectuar os primeiros voos. Permanecem perto do ninho cerca de 2 meses.

Alimentam-se
de coelhos, perdizes, pombos e outras aves de médio porte.

São fiéis ao território e ao companheiro (por vezes ocorrem divórcios). Podemos observá-las todo o ano.
As principais ameaças são os cortes de grandes árvores (devido à sua exigência no que respeita a altura e robustez para suportarem os grandes ninhos), degradação do arvoredo (doenças, incêndios), tricomoníase, linhas eléctricas, disparo e perturbações na época de reprodução.

É talvez a ave de rapina mais discreta que conheço… a mais singela e mais ágil (atendendo ao tamanho).
Quase de torna mitológica quando avistada, altura em que os sentimentos ficam ofuscados com tanta beleza.
Que sorte a minha, que sorte a minha…

Curiosidades: os juvenis, depois de dispersarem, regressam ao local onde nasceram, pelo menos 1 vez na vida.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Esta nossa encantadora Natureza - 3 (Andreia Dias)

Bom dia!


Acabei de ler o conto maravilhoso... e fiquei encantada. Quando leio, rapidamente visualizo o cenário e projecto-me para o local. Por momentos, também eu disse mentalmente à rola: "Voa, voa, voa!". Fiquei ainda mais "presa" por se tratar de uma passagem em África. Tenho muita curiosidade em conhecer a África continental à qual estou ligada sentimentalmente desde criança.



Quanto à caça e aos caçadores... a gestão e conservação da natureza não é de todo incompatível com a caça. É até por vezes, necessária. Trabalhei uns anos com caçadores e conseguimos fazer um bom trabalho em conjunto. Com a filosofia do "não consegues vencer os teus amigos, então junta-te a eles!" . Eu própria, que tenho medo de armas, tirei a carta de caçador, para saber o que é necessário saber para se ser caçador (o que dava outra conversa). É claro que nunca dei um tiro nem nunca mais voltei a pegar numa arma após o exame. Mas fiquei a falar a linguagem deles.

Em determinados casos, é necessária a intervenção dos caçadores. A título de exemplo, numa população de veados, quando os machos lutam pela posse das fêmeas, se um macho tiver apenas uma haste (por "defeito", já que as hastes dos veados são renovadas anualmante), nas lutas, a haste vai matar o adversário pelo facto de se colocar entre as hastes do outro macho e lhe perfurar a cabeça. Este macho "defeitooso" será sempre o vencedor e será o que vai procriar continuamente. Deste modo, o património genético daquela população será muito semelhante e sabemos que se for atingida por alguma doença, a possibilidade de resistência será maior quanto mais variabilidade genética houver. Ora, se este macho não pode ser eliminado por selecção natural porque é o mais forte, terá que ser eliminado pelo homem para bem da população. Aqui a presença dos caçadores é importante.

Mas outra questão é a própria gestão cinegética do nosso país. Sobre este tema teríamos muito que falar também. O calendário venatório nem sempre respeita o ciclo biológico das espécies cinegéticas e deveria, a meu ver, haver mais plasticidade de gestão regional. Um exemplo prende-se com a realização de montarias ao javali no Sul do país, em zonas de nidificação de Águia de Bonelli. Esta é uma espécie protegida e a ave de rapina mais precoce da europa. no que respeita a ciclo reprodutor, já que se inicía em Dezembro. Em Janeiro já realiza posturas, coincidindo com a época das montarias ao javali. É uma águia extremamente sensível a perturbações, pelo que, uma montaria, com todo o ruído dos cães e batedores, pode induzir a um voo rápido do ninho e a um arrastamento dos ovos (pelo facto de ser uma ave grande). É claro que se pode fazer (e temos feito) uma gestão de modo a que a mancha a montear seja deslocada para uma zona de segurança e não inviabiliza a realização da montaria.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Esta nossa encantadora Natureza (1) - por Andreia Dias

(Colocado por Adão Cruz)

Uma paciente minha, Andreia Dias, distinta bióloga, que eu vi no consultório no passado mês de Julho, enviou-me dois mails, com promessa de mais, relacionados com a sua apixonante profissão. Como eu os achasse muito interessantes, resolvi transformá-los em post, ao que ela não se opôs. Aqui vai o primeiro.


Dr. Adão:

Sou a Andreia, de Arouca, sou bióloga e trabalho com águias de Bonelli. Estive no seu consultório em Julho passado e fiquei de lhe enviar fotografias das belezas que vou vendo nesta nossa encantadora Natureza. Peço imensa desculpa por só agora o fazer, mas como ando sempre a saltar de terra em terra, tinha deixado o seu contacto em Arouca. (...) e já me sinto muito melhor. Estou cheia de energia para lutar e rapidamente voltar a estar apta a subir montanhas e fazer a minha vida normal.

Em anexo envio uma foto de uma águia-de-Bonelli que capturámos em Maio para colocação de um emissor/GPS. Pode ver o site do projecto em  http://www.ceai.pt/