Carlos Loures
Na segunda metade do século XIX, Santarém, apesar da sua proximidade da capital, era uma cidade tipicamente provinciana. A visão de uma vila adormecida, bucólica, como a que Almeida Garrett nos descreveu em Viagens na Minha Terra, não sofrera alterações de monta nas poucas décadas que entretanto tinham decorrido. A cidade portuguesa que aparte Lisboa segundo o polígrafo Alberto de Almeida Pimentel, mereceu dos estudiosos de arte um mais elevado número de obras, a chamada capital do gótico. Bela, mas entediante. Bucolismo e tédio que os poderes vigentes procuram manter num sono vigiado por um «bom senso» de uma elite burguesa que tudo controla em termos económicos, políticos e sociais. Nada escapava à abrangente visão desse grupo dominante, muito menos as manifestações culturais.
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo XII
Etapa 4: De Santarém a Azóia de Baixo
A saída de Santarém é demorada, justapõe arquitectura tradicional, urbanizações recentes, quintais, garagens, armazéns, pequenas empresas, num conjunto heteróclito, porém as ruas estão limpas, cuidadas – e há passeios na maior parte do trajecto. Nota-se algum respeito pelo habitante.
Passo Casais da Besteira. Começo a sentir-me no campo. Hortas. Oliveiras. Prados verdes. Cheira a terra molhada. Chego a Azóia de Baixo, uma terra calma e limpa, casas com barras coloridas, o luxo de alguns bancos públicos. Um luxo?... Estranhará o leitor. Eu explico: se compararmos com tantos lugares por onde passei. Converso com uma habitante, inquiro como é a Azóia. Já foi melhor, diz ela, noutros tempos havia sempre gente a passar, agora os novos trabalham longe, os velhos vêem televisão; não se encontra ninguém. Ela tem uma dor ciática e uma filha na Amadora. Sente-se desamparada.
Caminhei oito quilómetros. O céu continua azul com, aqui e além, nuvens de algodão. Sinto já calor. Bebi uma garrafa de água, compro outra, devoro uma sanduíche com carne de javali assada, o que para mim representa o cúmulo do exotismo: hei-de contar esta aos meus amigos gauleses.
E prossigo.
Na saída de Azóia sinto dúvidas quanto ao caminho a seguir. Devo virar à direita, viro na primeira estrada, desço uma encosta muito íngreme, subo outra igualmente inclinada, caminho um bom quilómetro, chego a um hotel rural, toco à campainha, vem uma rapariga à porta.
Só sabe que por ali vou enganada.
Retrocedo, portanto. Desço, subo e, pouco depois, vejo a direcção indicada por um marco: caminho de Fátima.
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