quarta-feira, 21 de julho de 2010

Memorial do recolhimento (Prosa exemplar)

É com Luiz Pacheco que começamos uma série (não diária) de textos que consideramos exemplares. Neste mesmo espaço, publicaremos comentários extensos, de colaboradores efectivos ou não, que esta prosa exemplar suscite.
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Luiz Pacheco


Aqui há uns meses, chateadíssimo de viver sozinho, resolvi recolher a um lar de terceira - idade. Calcula-se o que é. Antros de horror, para onde os velhos são atirados porque aborrecem ou incomodam em casas de família, dos filhos. Não sei ao certo de onde veio esta moda, mas calculo. E veio para fiar. Normas comunitárias, subsídios que transformam idosos incapazes em rendosa matéria-prima; despojos humanos vampirizados por gente sem escrúpulos nenhuns e gulosa dos apoios oficiais, apenas. Lares? meros depósitos de pré-cadáveres. Pobre gente no derradeiro patamar da vida, apoquentada pela idade avançada, a insânia do caruncho, a doença, a invalidez física.


Tinha visto. Visitado para avaliar. Ficado horrorizado. Um filho meu, que uma vez me acompanhou, declarou quase soluçante: ó pai, não quero chegar a velho para isto! O pior, o mesmo fatal, é que a velhos chegam todos aqueles que não tiveram o azar de ficar pelo caminho… essa é que é essa. Com o meu conhecido pavor da Morte, o meu ainda alerta instinto de conservação, acostumei-me a fazer anos, a chegar aos setenta e picos. Também aconteceu ir parar, mas pelo meu pé, por opção voluntária e consciente, a um lar da dita terceira-idade. Ora, passados vão dois meses de recolhimento, entregue a árabes que não me consentem o vinho nem a carne de porco (e que nenhuma falta me fazem; e é esse o único fundamentalismo que lhes noto, no mais humaníssimos) só me posso felicitar. E felicito. Estou rodeado de ternas velhinhas, avós e bisavós bem estimadas e tratadas, tão satisfeitas quanto a idade e os achaques lhes permitem. Ao ouvir na televisão o Manuel Freire a cantar a Pedra Filosofal do Gedeão, diz uma, em êxtase: versos tão bonitos!

E tenho trabalhado. E tenho editado. E me considero privilegiado por isso. E surgiram-me apoios e palavras boas. De pessoas até desconhecidas. E lancei dois livros meus, edições aqui feitas. E não me considero arrumado. E não faltei nem uma quarta-feira nesta pequena tribuna do Diário Económico. E se padeci sustos e flatos e, às vezes, isto parece uma casa de orates, não perdi a vontade de rir de mim, principalmente, o que é óptimo sintoma. Dêem-me os parabéns. Tudo tem um fim, sei, sabemos todos. Aquela história que os elefantes conhecem a morte (e morrem) tem a sua beleza e a sua nobreza. E quando me surge um neto pequenino… e quando Raio de Luar vier… fazem-me o favor de me invejar. Há razões que o coração tão bem conhece. E a razão aprova.

Último texto de “Isto de estar vivo” – Luiz Pacheco e Alice Geirinhas, Contraponto, Agosto 2000, Palmela.




“Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal. É uma frase do Manuel da Fonseca. Para o Manuel acabou, coitado. Ele caiu de uma escada abaixo, os amigos estavam à espera dele no café, ele não aparecia, foram lá a casa dele, e deram com ele inanimado. Depois ficou em coma profundo e morreu daí a uns 8 dias, talvez. Isto [o lar] não é uma casa alegre. Não pode ser. É o terceiro lar onde estou e já sei que não há hipótese de arranjar melhor. Agora, para pagar isto é que me vejo um bocado aflito, porque eu não tenho dinheiro que chegue para isto. Como é que faço? Olhe, faço os possíveis. Isto custa para cima de mil euros por mês. O que eu recebo não dá para estar descansado. Tenho uma situação muito incerta.


Tenho um subsídio vitalício de 120 contos por mérito cultural. Há muita gente que tem. Agradeço isso ao Alçada Baptista. E ao Balsemão. Foi o Balsemão que inventou um decreto, que era o do mérito cultural, para legalizar estas pensões. O meu subsídio em princípio é vitalício, é um subsídio pelo passado. Mas com essa maluca das Finanças - por acaso até é gira, é muito feia mas é gira, é uma mulher a sério, não é o Peixoto, aliás o Barroso! - nunca se sabe. Mas não, porque se uma pessoa tem mérito cultural não o perde por causa da Ministra das Finanças.

Eu até estou um bocado resguardado. Enfim, estou bem aqui. Este quarto é um bom quarto, apetece trabalhar. Eu é que já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.

As minhas doenças, sei que está tudo mais ou menos controlado. São coisas antigas, tenho a minha medicação. Moralmente depende muito dos dias. Sou muito influenciável por qualquer coisa, por qualquer dia de sol. Se é bom? Ó faxavor! Você nem faz ideia!

Ai fulano de tal está cheio de papel? Quero lá saber! Qualquer dia morre!




























ntraponto, Agosto 2000, Palmela
Em Abril de 2004, numa entrevista à Pública, dizia:

1 comentário:

  1. António Gomes Marques23 de julho de 2010 às 20:18

    Lembro-me do Luís Pacheco no Chiado, na Livraria Opinião, a subir ou a descer entre um local e outro e em outros locais da cidade. Ainda não tínhamos apertado a mão e o Luís, sem falhar uma vez sempre que me apanhava sozinho, «Eh, pá!, empresta aí 20 paus.» E, nem sempre, eu emprestava, isto é, dava 20 paus ao Pacheco, e no início o raio dos 20 paus faziam-me falta. Havia, no entanto, momentos que o Luís nada me pedia - sempre que eu vinha acompanhado pelo Costa Ferreira (tinham, ao que parece, laços familiares a ligá-los). Nesses momentos, o próprio Costa Ferreira, logo que o via, puxava da carteira de imediato e dava uma nota ao Pacheco. «Sr. Dr. como está?», «Obrigado, Sr. Dr.», eram as palavras que se ouviam, enquanto apertavam as mãos. Nunca o Pacheco teve de pedir 20 paus ao Costa Ferreira, pelo menos na minha presença, sempre o Pacheco o tratava por Sr. Dr.
    Ah, como eu gostaria de dar ainda hoje os 20 paus ao Luís Pacheco (hoje, teria de ser, no mínimo, 2 euros)!

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