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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Memorial do recolhimento (Prosa exemplar)

É com Luiz Pacheco que começamos uma série (não diária) de textos que consideramos exemplares. Neste mesmo espaço, publicaremos comentários extensos, de colaboradores efectivos ou não, que esta prosa exemplar suscite.
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Luiz Pacheco


Aqui há uns meses, chateadíssimo de viver sozinho, resolvi recolher a um lar de terceira - idade. Calcula-se o que é. Antros de horror, para onde os velhos são atirados porque aborrecem ou incomodam em casas de família, dos filhos. Não sei ao certo de onde veio esta moda, mas calculo. E veio para fiar. Normas comunitárias, subsídios que transformam idosos incapazes em rendosa matéria-prima; despojos humanos vampirizados por gente sem escrúpulos nenhuns e gulosa dos apoios oficiais, apenas. Lares? meros depósitos de pré-cadáveres. Pobre gente no derradeiro patamar da vida, apoquentada pela idade avançada, a insânia do caruncho, a doença, a invalidez física.

O telelixo (A televisão é para estúpidos?)

Carlos Loures



Definamos telelixo, palavra que tenho utilizado nestes textos nascidos sob a égide do Luiz Pacheco, mas que (ainda) não vem nos dicionários. Diria talvez assim:

«Telelixo, s. m. – Forma de fazer televisão que se caracteriza por explorar a morbidez, o escândalo, os crimes, os aspectos mais sórdidos da natureza humana, tais como o sensacionalismo e outras aberrações, utilizando-as como instrumentos do aumento de audiências. O telelixo caracteriza-se pelos temas que aborda, pelas personagens que coloca em primeiro plano, pela visão distorcida a que recorre para tratar esses temas e personagens.»

Um caso ocorrido num canal privado de televisão trouxe, quanto a mim, ao primeiro plano da actualidade nacional a questão do telelixo, pois reúne tudo o que de nocivo existe naquele conceito tabloidizado de informação e, a ser verdade o que consta sobre a causa próxima subjacente, põe a nu a fragilidade moral das estruturas do poder no nosso País. Lixo televisivo, eventualmente misturado com lixo político. Uma mistura explosiva.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Operação Papagaio – a acção armada dos surrealistas contra a ditadura.(a realidade competindo com a ficção)

Carlos Loures

Quando se fala nas acções armadas contra a ditadura, recorda-se a ARA e a sua espectacular ofensiva contra o aeródromo militar de Tancos, destruindo 28 aeronaves, aviões e helicópteros, ou nas acções das Brigadas Revolucionárias contra as instalações da NATO ou ainda a LUAR, de Palma Inácio, com o seu audacioso plano de tomada da cidade da Covilhã. Mas esquecem-se os especialistas neste período da nossa História recente, da «Operação Papagaio». Inconsequente, com o seu quê de anedótica, organizada por civis – ainda por cima, poetas surrealistas. Contudo, se alguém quiser pegar nesta investigação deparará com a falta de fontes. Luiz Pacheco em “Prazo de Validade” (Contraponto, 1998) dedica um capítulo à operação. Com muitas falhas, a começar pela data. Logo no começo do texto, diz que tudo aconteceu quinze anos antes da Revolução de Abril, o que situaria os acontecimentos em 1959. Impossível.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

A televisão é para estúpidos?

Carlos Loures

A frase que dá o título a esta série de crónicas que hoje inicio, foi dita pelo escritor e editor Luiz Pacheco (1925-2008) , que aqui à direita nos pisca o olho tornando-nos cúmplices das suas digressões pelo seu pequeno inferno pessoal. No decurso de uma entrevista conduzida por João Paulo Cotrim: quando este lhe perguntou se a televisão estava a matar a literatura, Pacheco respondeu desabridamente – «A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos!»

Não sei se Cotrim, com a sua pergunta, não estaria a aludir à clássica passagem do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo, quando o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.», isto matará aquilo.

Groucho Marx (1890-1977), o genial actor norte-americano, costumava dizer a frase que a par com a de Pacheco, inspiraram este trabalho - «Acho a televisão muito educativa – logo que alguém a liga vou para outra sala ler um livro».

No fundo, as duas frases dizem a mesma coisa, por palavras e com intensidades diferentes. Em ambas está presente o pressuposto da prevalência do livro como instrumento e como veículo de cultura. No título desta série de crónicas, substituí o pachequiano ponto de exclamação por um ponto de interrogação.

domingo, 13 de junho de 2010

O pintor D’Assumpção e a Pirâmide


Carlos Loures

O falecimento de António Manuel Couto Viana veio, por associação de ideias recordar-me a revista “Tempo Presente” e, por consequência, um “aviso aos distraídos” que, a propósito dessa publicação, saiu numa revista que coordenei – a “Pirãmide”.

Já aqui falei antes na Pirâmide, revista publicada entre 1959 e 1960, da qual fui um dos coordenadores. Como disse, mais por circunstâncias fortuitas do que por razões de adesão consistente, a publicação esteve ligada ao movimento surrealista português. Porém, em 1965 travei uma acesa polémica com o papa do movimento em Portugal, Mário Cesariny de Vasconcelos. Talvez um dia me resolva a descrever essa polémica que me valeu a informal expulsão de um movimento do qual já me auto excluíra, pois nessa altura aderira a um grupo político, fui preso e o meu surrealismo superficial (fascínio pelo su revestimento formal) não resistiu à lógica da inevitabilidade do socialismo revolucionário que então imperava. Fui excluído, mas voluntariamente eu já saíra.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A Pirâmide


Grupo Surrealista de Lisboa -I (Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949).
Na foto, da esquerda para a direita: Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos.

Carlos Loures

A revista «Pirâmide» da qual, entre Fevereiro de 1959 e Dezembro de 1960, se publicaram três números, e da qual fui um dos coordenadores, teve uma história curta, mas atribulada. Na Primavera de 1958, passei a frequentar o Café Gelo, onde se reunia o grupo dos surrealistas, com figuras como Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Raul Leal, António José Forte, Ernesto Sampaio, Virgílio Martinho e tantos outros, surrealistas ou não. Havia os que não eram tão assíduos, como o João Vieira, o Gonçalo Duarte, o Mário Henrique Leiria, o Manuel D’Assumpção e muitos outros.

Participara na edição de um «poema-manifesto» - “O Menino que não saltou a Cancela”, coisa incipiente, reflectindo a confusão que me ia na cabeça: leituras apressadas, de Marx, Sartre, Breton, alguma determinação antifascista e pouco mais. Porém, o opúsculo serviu de cartão de ingresso naquela tertúlia tão elitista como permissiva. Bastava ser-se um pouco louco, ou mesmo apenas fingi-lo, para se ser aceite. A figura dominante era Cesariny, que funcionava como aglutinador de personalidades tão diferentes como Luiz Pacheco, Herberto Hélder, Raul Leal, Manuel de Castro, António José Forte, Ernesto Sampaio e outros. O deus tutelar, António Maria Lisboa, que morrera em 1953, deixando uma obra reduzida em extensão, mas plena de sugestões geniais.



Um depoimento que prestei ao Daniel Pires para o seu «Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa», diz o essencial. Daí transcrevo algumas linhas: «Com a impaciência, o pragmatismo e o voluntarismo próprios de quem quer resolver a sua confusão interior pela ordenação do mundo exterior, nós, os recém-chegados ao grupo, entendemos que era importante que aquela reunião quotidiana de talentos se traduzisse em algo de concreto - uma revista. A ideia foi acolhida com alguma ironia pelos elementos mais parasitários e com entusiasmo pelos mais valiosos, nomeadamente por Cesariny, que sugeriu o título e que organizou verdadeiramente o primeiro número, o mais ortodoxo dos três que se publicaram.» (…)
«Dadas as vicissitudes de um grupo tão heterogéneo como aquele, onde a intriga representava um papel determinante, o segundo número, surgido em Junho de 1959 (quatro meses depois do primeiro), representava já uma contestação à “liderança” de Cesariny. «O número 3, publicado em Dezembro de 1960, estava já quase totalmente esvaziado do inicial conteúdo surrealizante. É, no entanto, o mais autêntico, pois é o único em que ninguém nos “segurou a mão”. Aliás, foi já realizado fora do grupo do Gelo, com gente que parava uns metros adiante, no Café Restauração». Grupo constituído pelo Alfredo Margarido, Edmundo Bettencourt, Manuel de Castro e outros.