Manuela Degerine
Capítulo LXI
Décima sexta etapa: em Vilarinho
O refúgio de peregrinos situa-se algures, num centro polidesportivo, deparo com vários edifícios, arquitectura pública, agora tudo fechado, não avisto ninguém, chove cada vez mais e eu ignoro por onde entrar. Vou e venho sem encontrar fechadura para nenhuma das chaves, volto atrás e toco à campainha da casa mais próxima. Explicam-me com gentileza: tenho que abrir um portão, atravessar um relvado – muito enlameado.
Num lugar que parece uma escola, encontro uma sucessão de portas, onde vou experimentando as numerosas chaves. Após várias tentativas, entro numa divisão: dois beliches, uma mesa, um lava-loiça, uma bancada com placa eléctrica e, por debaixo, armário e gavetas. Largo a mochila... Continuo a procurar, aqui não abre, a seguir tão-pouco, prossigo a busca – descubro a casa de banho. Experimento a água do duche: fria. Bem... hoje não transpirei.
Quando tiro a capa verifico que a mochila está ensopada e, por isso, hoje, bem me parecia, ainda mais pesada. E eu própria tenho a camisola a pingar. Então... Não compreendo... Terá entrado água por cima, entre o capuz e o pescoço?.. Penduro tudo a secar no beliche. Lavo-me, como posso, sem coragem para me lançar para debaixo do duche frio. Lavo também as calças, as cuecas, as peúgas e a camisola. Visto a roupa seca que me resta. Sinto-me gelada...
Abro o armário por debaixo da bancada, encontro um tacho, encontro até um pacote de massa, deixado por precedentes peregrinos. Posso portanto jantar massa com queijo. Deste modo aqueço-me e, sobretudo, já não volto a sair. Sensata solução: chove a cântaros e sinto-me cansada. Problema… Não há prato. Mas não desisto, comerei no tacho.
Começo a inquietar-me. As paredes têm uma espessura de cartão: vou gelar durante a noite.
A farmacêutica informou-me que, na véspera, dormiram neste espaço sete peregrinos. Onde?... Para além dos quatro lugares nos beliches há, no chão, entre os beliches, espaço para um saco-cama e, talvez, outro ao fundo, entre os beliches e a bancada.
Estendo o saco-cama num beliche de cima: desde que vivi, há muitos anos, na pousada da juventude de Badajoz, com o meu irmão, uma noite de terror, durante a qual quase fomos devorados por ratazanas – desconfio destes dormitórios. E não sou medrosa porém, neste sítio tão isolado, preferia não ficar sozinha.
Chegará mais alguém hoje?
terça-feira, 27 de julho de 2010
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Mulher coragem!
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