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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine 

 Capítulo LXVII

Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (conclusão)

Chegamos a Góios, depois a Pereira, onde por fim deixamos a N306, voltamos ao campo, atravessamos aldeias, caminhando até, durante alguns metros, debaixo de uma latada.

Vemo-nos por fim nos arredores de Barcelos. Gérard Rousse despacha os últimos quilómetros com duas frases; é uma constante em cada fim de etapa. Explico isto a Sérgio.

- O Gérard já vai cansado...

Passamos por uma rotunda, debaixo de uma via rápida, ao lado do cemitério. Doem-me os pés e as costas cada vez mais e começo a tropeçar de vez em quando; apoio-me na vara de eucalipto. Vinte e cinco quilómetros deve ser, com uma pesada mochila às costas, a medida da minha energia: para além desta distância, perco um pouco os reflexos.

domingo, 1 de agosto de 2010

Novas Viagens na Minha Terra



 Manuela Degerine

Capítulo LXVI

Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (continuação II)

O italiano chama-se Sérgio. Para esconjurar mal-entendidos, aviso, sem precauções oratórias, apenas se aproxima, não só sou lenta, também gosto de parar, de olhar, de conversar, não vim aqui fazer ginástica, perder quilos, mortificar o corpo, passear o tédio, mas ver, ouvir e apreciar, por conseguinte, se lhe apetece devorar quilómetros, avante e boa viagem, voltaremos a encontrar-nos, se tal for o nosso fado. Ele replica, algo surpreendido, que não tem pressa: apanhou o avião para andar a pé.

sábado, 31 de julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo LXV

Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (continuação)

Sigo pela N306, quilómetro 78 e seguintes. A beira da estrada é verde com algumas flores amarelas, há uma barreira íngreme, também verde, identifico feto, musgo, sedum e, lá em cima, de um e do outro lado, uma mata de eucaliptos. O temporal espalhou pernadas pelo meio da estrada; puxo as maiores para a valeta. Chego à ponte que atravessa o rio Ave. Não a ponte romana, de que o roteiro fala; esta é moderna. Paro para olhar: de um lado, eucaliptos, do outro, ao longe, terrenos cultivados, um pouco de vinha, talvez outras culturas, das quais só distingo os rectângulos e as diferentes tonalidades de verde.

Chego à Junqueira quando – de repente – reparo: não trouxe o bordão! As finlandesas camuflaram-no por debaixo de oito varas e suspenderam vinte impermeáveis por cima. Com tamanha barafunda naquela divisão e, para mais, não acendendo as luzes, para não as incomodar... Não admira que o não visse.

Que fazer? Caminhei cinco quilómetros. Voltar atrás? Juntar dez quilómetros de caminhada aos vinte e oito da etapa? Pedir boleia? Passam raros carros... As finlandesas terão saído, encontrarei o abrigo fechado, idem para a farmácia, por ser domingo, a farmacêutica estará ou não em casa... Prefiro não arriscar.

O bordão evitou-me decerto algumas quedas. Daqui em diante, quando tropeçar, como me equilibro?

Ocorre-me a história de Gandhi: tendo partido o espelho, barbeou-se sem ele, sentindo-se mais livre. É a versão indiana da peripécia grega... Diógenes, vendo uma criança beber nas mãos, também abandonou a supérflua tijela. Sou menos filósofa do que Gandhi e Diógenes: lamento a perda do bordão. Porém... O que não tem remédio, remediado está: comprarei outro, logo que possa. Como uma barra, para me consolar – e prossigo o caminho.

Quando atravesso Bagunte, chuvisca um pouco. Tiro o impermeável da mochila? Prevendo a chuva, arrumei-o no cimo. Entro no café para beber um copo de leite e adiar a operação, compro uma bola, demasiado branca – não há outra variedade. Apesar de se sentirem pouco confortáveis, talvez os meus pés não tenham bolhas; prefiro prosseguir sem mais pormenores.

Deixou entretanto de chuvinhar, embora pareça que, levantando os braços, me penduro na borracha cinzenta que tapa todo o céu. As quedas de água da madrugada não esvaziaram os aéreos depósitos...

Desço um trilho inclinado, pelo qual a chuva terá, durante a noite, corrido em enxurrada, transformando-o em ribeiro, atenta para não escorregar, entre pedras e lama, quando aparece o peregrino italiano.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo LXIV

Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos

Após o dilúvio da madrugada, os caminhos continuam alagados. Portanto, novidade do dia: arrumei os crocs. Impossibilitada de usar este imaterial calçado, interroguei-me, algo inquieta, enquanto redobrava o nó dos atacadores, que parte dos vinte e oito quilómetros caminharia com as botas. Talvez poucos metros...

Se não as aguentar, abandono a caminhada, pois será insensato, com feridas nos pés, enfiá-los em lama e águas sujas. No entanto, uma vez saída de Vilarinho, até a desistência se complica, por não haver transportes públicos. Restar-me-á pedir boleia – um recurso do qual, por razões de segurança, não convém abusar.

Sempre que, excepcionalmente, recorri a esta solução, conheci pessoas com as quais, de outra maneira, nunca teria contactado. Quase todos dispomos, mesmo vivendo numa capital, de um círculo de relações homogéneo e eu, tanto em Lisboa, como em Paris, convivo com pintores, escritores, doutores, seres únicos e preciosos – os meus amigos. No entanto também me interessa ouvir os outros, aqueles cujos trabalhos eu não imaginava de maneira concreta: transportar – e descarregar – papel para reciclagem, desenhar barras sinaléticas nas estradas, levar água às vacas nos prados... Estes condutores, capazes de parar, de levar uma desconhecida, contaram-me, nos limites de um trajecto, as suas ocupações e preocupações, as suas vidas familiares, os seus sonhados projectos; tais conversas, algumas muito curtas, outras de uma ou duas horas, representam contributos decisivos para o que hoje sou – e ensinaram-me mais do que a maioria dos professores na Faculdade de Letras de Lisboa. (E no entanto tive boa formação universitária.)

Consciente dos riscos de um mau encontro, reservo contudo a boleia para circunstâncias excepcionais. Na verdade... Uma mulher prudente não partiria agora para Bagunte.

Estou a vê-la... Entra no café e, embora pareça só, o dono não se surpreende, por cada dia atender, às mesmas horas, gente com mochila e bizarros costumes. Todavia esta mulher encomenda em português um galão e inquire a que horas passa a camioneta de Vila do Conde. Aqui ele mira-a com mais atenção: de manhã os estrangeiros costumam prosseguir a pé e só à tarde, quando o abrigo se enche, buscam meios de transporte colectivo.

- É portuguesa...

- Sou.

- Não vai para Santiago?

- Ia... Mas tenho várias bolhas, não posso calçar as botas, mais vale regressar a casa.

- Vem a pé de onde?

- Do Porto.

A Mulher Prudente não pode vir de Lisboa. Se vem de Lisboa, abandone ou não a caminhada em Vilarinho, sem ser imprudente, opta todavia por – em certas circunstâncias – correr alguns riscos. Já o leitor tirou as lógicas conclusões: não sou esta mulher. Por isso – agora parto. (Descubro-me como oximoro ambulante: a ousada prudência e a cautela aventurosa são a minha especialidade.)

É domingo. Seis e meia da manhã. Vejo um céu carregado de cinzento – convém aproveitar enquanto as nuvens hesitam. Sem dúvida, em alguns lugares, a tromba de água arrastou pedras, criou torrentes... Será possível prosseguir? E se de súbito algum temporal transformar em ribeira o trilho onde me encontro? Ocorrem-me imagens de telejornal, pontes derruídas, carros arrastados, casas demolidas, ravinas derrocadas, árvores arrancadas, em plena Europa, alguns em Portugal, até em lugares por onde passo: perto de Queluz, morreu uma mulher, dentro de um carro, levada pelas águas, num percurso quotidiano.

O meu roteiro indica um atalho através da mata. Desta vez, por causa da lama e destes receios, prefiro caminhar à beira da estrada – agora não há carros.

É de manhã, levo as botas calçadas: sinto a mochila leve e caminho com gosto. Devoro uma sandes. Depois, sentindo ainda fome, vou trincando nozes, uma barra, uma banana... Conservo um apetite de ogre. Bom sinal.

Cai-me, ora na cara, ora nas mãos, de vez em quando, uma gota de chuva.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine


Capítulo LXI

Décima sexta etapa: em Vilarinho

O refúgio de peregrinos situa-se algures, num centro polidesportivo, deparo com vários edifícios, arquitectura pública, agora tudo fechado, não avisto ninguém, chove cada vez mais e eu ignoro por onde entrar. Vou e venho sem encontrar fechadura para nenhuma das chaves, volto atrás e toco à campainha da casa mais próxima. Explicam-me com gentileza: tenho que abrir um portão, atravessar um relvado – muito enlameado.

Num lugar que parece uma escola, encontro uma sucessão de portas, onde vou experimentando as numerosas chaves. Após várias tentativas, entro numa divisão: dois beliches, uma mesa, um lava-loiça, uma bancada com placa eléctrica e, por debaixo, armário e gavetas. Largo a mochila... Continuo a procurar, aqui não abre, a seguir tão-pouco, prossigo a busca – descubro a casa de banho. Experimento a água do duche: fria. Bem... hoje não transpirei.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra -

 Manuela Degerine


Capítulo LX

Décima sexta etapa: do Porto a Vilarinho (conclusão)


Como o roteiro é vago, mais adiante, penso outra vez, na minha pressa de chegar, que entrei em Gião.

- Não, aqui é Vilar: Gião é mais adiante.

Está a chover com força. Entro no café, bebo um copo de leite, vou à casa de banho. Depois sento-me, no exterior, nos degraus de uma escada, a ver cair a chuva.

domingo, 25 de julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine




Capítulo LIX

Décima sexta etapa: do Porto a Vilarinho

O Rafeiro dos Olhos Amarelos

Como Almeida Garrett, no capítulo IV de Viagens na Minha Terra, aviso o leitor de que será preferível passar à leitura do capítulo LX. Receio impacientá-lo com um episódio que na verdade só narro para eu própria chegar – se possível – a compreender...

O animal está todo molhado e não parece agressivo.

- Olá...

Começa abanar a cauda. Tem olhos amarelos e orelhas expressivas. Faço-lhe uma festa, digo-lhe adeus. As orelhas inclinam-se num movimento que me parece pungente.

- Estás todo molhado… Por onde andam os teus donos?

terça-feira, 20 de julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine



Capítulo LVIII

Décima sexta etapa: do Porto a Vilarinho (conclusão)

Ainda com o coração aos pulos, sigo a direcção apontada pela seta – aos sobreviventes. Lívida e cega (a chuva é um irresolúvel problema para quem como eu usa óculos: sem lentes não vejo porém, com gotas de água nas lentes, também não vejo ou, na melhor das hipóteses, capto imagens deformadas por minúsculas lupas), recriminando-me, uma vez mais, pela insensatez desta aventura. Devera seguir o Camino Francés, que tantos milhares de peregrinos percorrem cada ano, não correria o risco de saltar os separadores nas vias rápidas, não é Portugal, certo, mas é Europa, oitocentos quilómetros em França, sem riscos nem surpresas, outros tantos em Espanha – estes já na península ibérica.

Subo a encosta. A temperatura continua fresca, portanto não transpiro e, consequência da emoção, sinto uma intensa vontade de urinar; nenhum café à vista. Passo por um local onde se organizam banquetes de casamento: bonito solar com bonitos jardins. Estão a enfeitar a sala, chega o bolo de noiva, nota-se grande azáfama... Inquiro se posso ir à casa-de-banho. Conduzem-me ao responsável que, apesar de tão ocupado, me acolhe com simpatia e insiste em oferecer uma bebida; conversamos um pouco. Saio mais reconciliada com a Maia.

Continuo a subir a encosta, chego a uma praça, a igreja com azulejos, avanço por uma calçada provinciana, avisto o solar da quinta de Santa Cruz, rosas pelo muro abaixo, vinha por cima dos muros – a parte mais antiga e preservada da Maia.

Interrogo-me, enquanto caminho, pois hoje a veia é filosófica, obrigando-me a questionar, por que razões a calçada, o muro branco, as pedras de granito, as folhas de videira me parecem belas. Que critérios que me levam a qualificar esta rua como bonita e os prédios, do outro lado, como feios? Em primeiro lugar, há nesta rua o granito – e sou, mais do que outras pessoas, sensível aos atractivos da pedra: a cor, o brilho, as formas, os desenhos, o contacto... Depois, enquanto as ruas de prédios repetem um número restrito de formas, o que vejo aqui é único: as pedras, cortadas com tamanhos distintos, foram ajustadas num painel único, que se prolonga na calçada, se completa na vinha e na roseira... Em seguida há uma harmonia de volumes entre o meu corpo e o espaço por onde circulo. E, por fim, como passam poucos carros, resulta o silêncio, o sossego, a qualidade do ar que agora aprecio. Ou seja: o equilíbrio, a variedade e a singularidade, tal como o bem-estar que em mim suscita são (alguns) componentes do belo. Isto é ou não válido para os outros, mas mantém-se fácil de explicar – porém como analisar com rigor a estética das pedras? O conjunto é portanto subjectivo e outros acharão Almada mais bela: a variedade dos graffiti, a novidade na esquina da rua, os prédios em tons vários de humidade, aquilo a que, num eufemismo que me diverte, amigos meus designam como vivo. (Eu, quando saio da ponte 25 de Abril, olho para os centros comerciais, um deles de cor roxa, para variar… Pela forma imaginei uma mesquita: fazem afinal sacrifícios a Hermes.) Quando era professora, surpreendia-me por alunos de família portuguesa, com pais originários de aldeias trasmontanas, descreverem imagens de Óbidos como casas velhas; e, embora eu sublinhasse a diferença entre velho e antigo – não os convencia.

Dirijo-me para a zona industrial, que longamente atravesso até Gemunde; e que não entra, de maneira nenhuma, para mim, na categoria do belo. Viro enfim na direcção de Vilar de Pinheiro e, mais adiante, de Vilar e Gião. Interrogo-me se Vilar e Vilar de Pinheiro serão a mesma terra, os mapas de que disponho não me esclarecem todavia, como o destino de hoje é Vilarinho, outra terra com nome semelhante, deduzo que não.

O roteiro indica 7,5 quilómetros entre Gemunde e Gião. Atravesso vários aglomerados urbanos, penso que é Vilar, ainda não, informam os habitantes. Percorro, uma vez mais, um território de povoamento disperso, nem realmente urbano, nem francamente rural, vários pedaços de paisagem entrariam na categoria do meu belo, se não olhasse para o que está ao lado. Quintas, solares, vinhas, prados, de mistura com entulho, barracões, buracos no alcatrão, candeeiros horrendos, azulejos de cozinha, colunas e mais colunas...

Continua a chover. Uma chuva que não molha os pés mas obriga vestir a capa e o impermeável. Há areia no chão; por isso tenho, de dez em dez minutos, que me apoiar no bordão, levantar um pé ou o outro, tirar o croc, às vezes até, tirar a meia, sacudir uma pedra. Sigo na beira de estradas estreitas, quase sem berma, com curvas frequentes e muita circulação automóvel; apesar de a paisagem começar a ser mais rural e, não raro, até bonita, não é um percurso agradável. De vez em quando, há uma paragem de autocarro: sento-me um pouco, para aliviar os ombros.

Atravesso Mosteiró quando noto, com o focinho entre as grades de um quintal: um rafeiro.