domingo, 19 de dezembro de 2010

Um conto de Natal de Augusta Clara de Matos - O “Caga Lume” e Afinal Era O Jesus Verdadeiro

Não se trata propriamente de um conto, mas de dois episódios relativos ao Natal da minha infância. Vistos à distância do tempo, podiam ser da infância de qualquer um. Por isso, tive vontade de os contar.


I

Também a nós nos aconteceram peripécias daquelas que aparecem nas crónicas dos escritores, espelhando com ironia os usos e costumes desta quadra.

Éramos ainda crianças – a mais velha das três era eu e tinha dez anos - quando fomos morar para um bairro de vivendas numa zona de Lisboa, então, chamada Vale Escuro. Chamava-se assim porque, nas traseiras do bairro, havia, de facto um vale sem luz que interrompia a avenida hoje existente e muito movimentada em direcção a Sapadores e à Graça.

Naquela altura o vale era genericamente chamado Ribanceira e a miudagem gostava muito de ir brincar para a Ribanceira onde se sentia à solta, longe dos olhos dos pais, sobretudo das mães que, na sua maioria, não trabalhavam fora de casa. Uns anos passados, seriam os namorados que para lá iriam procurar refúgio.

E havia o “caga lume”, um velho pouco menos que andrajoso, vestido com roupa que alguém lhe dava, de tamanho nitidamente superior ao seu, pois lhe sobravam foles nas pernas das calças quais balões de Santo António. Ao “caga lume”, de que nunca soube o nome, tinham dado, também, um boné e uma chave que lhe conferiam a função de todos os dias, ao fim da tarde e ao amanhecer, numa caixa da central eléctrica da zona, situada na área de domínio da Ribanceira, acender e apagar respectivamente os candeeiros da iluminação pública do bairro. A crueldade infantil levava a miudagem a acirrar o pobre homem gritando-lhe aos calcanhares o epíteto que lhe tinha aplicado.

Mas o “caga lume” não faz parte deste episódio. Lembrei-me dele porque era um personagem típico da Ribanceira onde, mais tarde, foi encontrado morto, e, na época do Natal, toda a gente ia buscar o musgo, que lá nascia em abundância, para construir os presépios.



Foi num desses primeiros anos naquela nova casa, ainda muito cumpridoras dos princípios da religião católica, que metemos na cabeça que havíamos de construir um presépio do tamanho duma sala, com muita luz e com movimento.

Montado numa estrutura alta, com a ajuda da família, durante uma semana, o presépio lá se foi compondo com várias idas à Ribanceira para arrancar o musgo que o atapetava, no meio do qual um espelho simularia um lago, provavelmente o Tiberíades, embora dessa identidade não estivéssemos conscientes. As tradicionais figuras foram tomando o seu lugar. Por fim, só faltava a electricidade para dar sequência ao projecto e para cuja instalação se tinha oferecido um primo uns anos mais velho do que nós e que andava precisamente a tirar um curso de electricidade.

Os nossos pais tinham decidido ir, nesse dia, comprar um fogão. Confiantes de que, com os quatro, a casa ficava em segurança, saíram e deixaram-nos entregues ao entusiástico projecto de pôr o presépio em movimento.

Mas a sorte não os assistiu a eles nem a nós porque nada ali correu como se esperava: ao fim de várias tentativas infrutíferas de provocar movimento no meio daquela paisagem bíblica, com ligações de fios estabelecidas por aqui e por ali, um estrondo pôs definitivamente toda a casa às escuras.

O electricista voluntário correu a mudar os fusíveis, aqueles fiozinhos de cobre da espessura de cabelos que se enrolavam nos espigões metálicos dos suportes de porcelana. Mas os fusíveis estavam todos lá e bem de saúde. O que se tinha queimado era o aquele que, encerrado numa caixa selada, só o piquete da empresa de electricidade podia reparar. Não tínhamos outro remédio senão esperar que os donos da casa, os nossos pais, chegassem e tratassem da resolução do problema.

E foi assim que aconteceu: carregados com um fogão tirado de dentro de um táxi, quando julgavam ir entrar numa casa cheia de luz, onde tudo mexeria e, quem sabe, até se ouvissem sinos a tocar, mal meteram a chave à porta, deram com uma total escuridão e uma imensa dificuldade em levar o fogão até à cozinha.

O aprendiz de electricista sabia que os tios gostavam tanto dele que nunca o iriam penalizar mas, pelo sim pelo não, já que não tinha conseguido cumprir a tarefa para a qual se oferecera, isto é, dar iluminação e movimento ao presépio, e, ainda por cima tinha deixado a casa sem luz, deu corda aos sapatos e pôs-se a andar o mais depressa que foi capaz, antes que eles chegassem.

Creio que foi a última vez que fizemos um presépio.

II


Muito mais pequenas, ainda, não vivíamos aqui. Morávamos noutra zona da cidade mais perto do rio e tínhamos por amigos dois irmãos que intercalavam connosco as idades e as brincadeiras. Foram os nossos grandes amigos de infância que a vida nos fez perder.

Um deles, o Carlos, com um grande e doce coração de menino, era o meu companheiro nos exames da primária e, uma vez que uma borracha me fugiu no fim do exame, percorreu toda a sala de aulas de gatas por baixo das carteiras até encontrar o objecto da sua amiga, o que colou um sorriso terno ao rosto da examinadora. Não sei se, alguma vez, voltei a ter um amigo como ele.

Quando crescemos e já não morávamos juntos, e veio a guerra colonial, o Carlos resolveu desertar. Foi-nos procurar para se despedir. Ia para a Suécia e tantas coisas se passaram, e umas quantas vezes mudei de casa que nunca mais, até hoje, nos voltámos a ver. Procurei-o no Facebook. Mas o Facebook só serve para achar quem já se encontrou.

Tal como o anterior, este episódio era para ser sobre o Natal. E é.

Para além dos irmãos Carlos e Rui, tínhamos um vizinho, verdadeiro mestre em talha de madeira. Tinha uma filha já crescida e chamava-se Jesus. Gostava muito do grupo dos cinco miúdos – éramos os cinco e mais um cão. A nós, “as miúdas”, fazia-nos mobílias para as bonecas, que eram verdadeiras obras de arte em miniatura. Todos os Natais aquelas maravilhosas pecinhas nos apareciam no sapatinho, convencidas nós de que o Menino Jesus – ainda não se usava por cá o Pai Natal – as tinha ido desencantar sabe-se lá por que recantos do paraíso.

E todos os anos a festa se repetia: mal raiava o dia, aí estavam os manos Carlos e Rui, para conferirmos, em conjunto, o que nos tinha calhado em sorte. Nós os cinco a acreditarmos no Menino Jesus. Até um dia.

Era inevitável, porque os encantamentos da infância desfazem-se primeiro na cabeça de uns, enquanto outros resistem a quebrá-los ou a permitir que alguém os quebre. Acreditar no Menino Jesus e esperar um ano inteiro pelas surpresas do sapatinho na manhã do Dia de Natal era um dos momentos de suprema felicidade da infância do tempo em que a vivemos.

Chegou um ano, porém, em que, dentro de um de nós os cinco se tinha primeiro quebrado o encanto. E, nesse Dia de Natal, o nosso amigo Rui, qual galito de crista levantada, resolveu fazer-nos prova da sua precoce sabedoria, informando-nos que não havia Menino Jesus nenhum, que eram os pais que punham as prendas nos sapatinhos e, perante a nossa recusa em aceitar tão crua verdade, pórtico do fim do período mágico da vida, acusou-nos de sermos parvas se continuássemos a acreditar nisso.

E, como na vida temos sempre que nos render à evidência, baixámos as armas e admitimos que aquelas preciosos brinquedos não tinham sido trazidas pelo Menino Jesus.

Por mim, ainda hoje, que ele já cá não está, fico feliz quando me lembro que foram feitos pelo Jesus verdadeiro que amava as crianças que nós fomos.

4 comentários:

  1. E, naquela altura, era o que verdadeiramente importava.

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  2. Bonito, Augusta, e muito bem escrito

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  3. Esta tua maneira de contar prende-nos até à última linha. Cada vez que nos tens apanhados por uma figura que evocas dizes-nos que não é sobre ela que vais falar, dás meia volta e lá vamos nós atrás de ti. Muito bem contado, Augusta, parabéns

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  4. Ah, agora achei-te graça, Carla, nunca tinha dado por isso :)) Obrigada.

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