O edifício do Cinema Rex, na hoje degradada zona lisboeta do Intendente, foi sede da Federação Espírita Portuguesa, fundada em 1925. Ficava ao lado do Real Coliseu onde depois abriu a garagem Auto Lis., junto ao belo chafariz do Desterro. Quando a Ditadura Nacional se transformou, por obra e graça do referendo de 1933, em Estado Novo, a Federação seria perseguida pelo regime e, em 1939, a sede passou a ser um cinema – o Rex. A propriedade do edifício continuou a ser da Federação Espírita, mas a exploração foi atribuída a um particular, o senhor Eduardo Ferreira, que procedeu às obras de adaptação e construiu um belo cinema com capacidade para 478 espectadores.
Por cima da sala, equipada com um palco que podia funcionar para espectáculos teatrais, havia um grande salão onde se celebravam carnavais e réveillons. O cinema encerrou em 1967, reabrindo em Dezembro do ano seguinte com o nome de Teatro Laura Alves. Actualmente, implantado na zona mais degradada do centro de Lisboa, está transformado em superfície comercial.
O meu pai era afilhado do Sr. Eduardo Ferreira, concessionário do cinema Rex (como ele, chamava-se Eduardo). Às terças-feiras, na sessão da noite, tínhamos um camarote reservado, o nº 9, Todas as semanas, eu e minha mãe víamos dois filmes. O meu pai, geralmente, deixava-nos no cinema e depois ia-nos buscar. Entretanto, andava por ali, falava com o padrinho e a madrinha que tinham um gabinete no andar superior onde ficava o grande salão. Outros tempos. Mas foi assim desde que me lembro até o edifício, propriedade da Sociedade Espírita Portuguesa, ter sido vendido. Já eu tinha casado e saído de Lisboa.
As terças-feiras eram, pois, dia sagrado. Íamos os três até ao Rex, a pé se estava bom tempo, de táxi se chovia. Naquele tempo, podia, sem problemas, andar-se por Lisboa e por aqueles sítios de noite. Hoje, não recomendo. E lá víamos a sessão completa – actualidades, desenho animado, intervalo, primeiro filme (mais antigo), intervalo, segundo filme (mais recente).



