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terça-feira, 15 de junho de 2010

Blogosfera - universo em expansão

Carlos Loures

O que é um blogue? Uma feira de vaidades onde se exibem habilidades ou um espaço plural onde se expõem opiniões, sujeitas depois, a críticas, favoráveis ou desfavoráveis? Será também um meio de aliviar tensões, deitando cá para fora o que nos aflige ou preocupa. A esta função catártica há mesmo quem chame blogoterapia. Um blogue parece ser um pouco de tudo isto. Fonte dinâmica de informação e de entretenimento, os blogues possuem também o tal poder catártico, pois dizem-se coisas que doutro modo ficariam sepultadas e, quem sabe, a remoer dúvidas, a adensar angústias dentro das cabeças dos bloguistas. Aliviando tensões, os blogues terão salvo vidas, evitando suicídios, embora quem viaje um pouco pela blogosfera encontre comentários, disputas, susceptíveis de provocar suicídios. Porque é preciso cuidado com as pulsões que se libertam - podem transformar-se em rottweilers à solta e sem açaimo.

Dizia-me há semanas um amigo que os blogues, mais tarde ou mais cedo, implodem devido às quezílias que se levantam entre os colaboradores. Lutas ideológicas, religiosas, clubísticas, regionalistas, quando não mesmo a luta pelo poder dentro do blogue, vão criando rancores, os comentários azedam e o blogue extingue-se. Porém, neste momento estão a ser criados mais de 80 blogues, pois é o que acontece em cada segundo que passa; cinco mil por minuto, 120 mil por dia... Em todo o mundo, devem existir cerca de 200 milhões. Nesta perspectiva, acabar um blogue, não é grave, pois a blogosfera é um universo em permanente expansão. Agora, vejam esta definição:

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Carta de Carlos Loures a Carlos Matos Gomes

Carlos Matos Gomes, meu caro amigo:


Muito obrigado pela tua resposta que, embora não sendo aquela que desejava, foi tão amável, esclarecedora e transparente.

Sobre os blogues, digo-te que até há bem pouco tempo não era nem produtor, nem consumidor. Uma experiência anterior, atenuou alguns preconceitos que tinha contra este meio de comunicar e confirmou outros. Continuo céptico em muitos aspectos. Julgo que uma das grandes vantagens que este meio tem sobre qualquer outro – a interactividade, o contacto entre quem escreve e quem lê - é também o seu calcanhar de Aquiles. Lêem-se coisas admiráveis a par de outras de uma total ausência de decoro, de cultura, de consciência cívica. É um meio aberto, como uma empena branca exposta aos grafitistas – a par de pinturas de grande beleza, surgem obscenidades e tags marcando os territórios do narcotráfico. Compartilho muitas das tuas ideias e reservas. E, como dizes, o risco de implosão por quezílias internas existe sempre.

Porém, como também dizes, o « blogue é o que os seus membros querem que seja». Quando o Luís Moreira me desafiou para esta aventura, ficou combinado que queríamos um blogue aberto a todas as ideias, apenas vedado às que neguem a liberdade e a democracia. Sou amigo do Luís há muitos anos, mas, não pensando da mesma forma relativamente a muitas coisas básicas, somos um bom exemplo do convívio democrático e civilizado de ideias diferentes. A coesão ideológica que detectas não é, pois, real. Haverá uma maioria de esquerda, interpretando o termo num sentido lato, pois o que há é um leque de ideias que vai de um quase neo-liberalismo a um quase anarquismo. Não nos estando vedado «conversar» entre nós, o nosso principal objectivo é «falar para fora», para usar a tua expressão. Este blogue não é caixa de ressonância de qualquer ideia política, corporativa ou de qualquer outra natureza.

domingo, 9 de maio de 2010

A Comunicação Social e a Democracia

João Machado

É comum ouvirmos dizer que hoje em dia existe liberdade de expressão. Contudo essa afirmação não resiste a uma observação mais aprofundada. A maior parte dos cidadãos dificilmente consegue transmitir qualquer opinião mais significativa através da chamada comunicação social, mesmo quando disso sente necessidade. Muitas forças políticas e sociais também encontram muitos obstáculos para conseguirem fazer chegar ao público uma mensagem mais elaborada. Quando tentam fazê-lo vêem frequentemente deturpadas as imagens e ideias que pretendem dar a conhecer.

Também se ouve com frequência gabar a sociedade em que vivemos e o nosso sistema político por permitirem o convívio de diferentes ideias e de modos de vida. Novamente, temos que constatar que esta segunda afirmação não contém muito de verdade. Existem, é verdade, diferentes maneiras de ser e de pensar, mas os valores dominantes colocam-nas numa escala pré-determinada, que influencia decisivamente a opinião da maioria.

A comunicação social é controlada pelo Estado e pelos grandes grupos económicos. Os pequenos jornais, as rádios locais têm públicos restritos e debatem-se com cruéis limitações que dificilmente ultrapassam, apesar do enorme valor de muitos dos seus responsáveis.

O escritor e activista britânico George Monbiot escreveu a semana passada, na coluna que mantém no Guardian, que a mentira mais perniciosa em política é que a imprensa é uma força democratizante. Alguns afirmarão que constituirá uma incongruência escrever esta frase num jornal de grande tiragem. Pessoalmente, penso que Monbiot dificilmente conseguiria publicar a sua coluna noutro jornal que não o Guardian, e nunca na maioria dos países do mundo. Mas também penso que culpar a imprensa e a comunicação social em geral pelas limitações à democracia é um pouco como matar o mensageiro que nos traz uma má notícia (o problema muitas vezes é que nem consegue transmiti-la). O problema está obviamente nas pressões e limitações que incidem sobre toda a comunicação social. No chamado mundo ocidental são sobretudo (não só) de carácter económico. As indignas manipulações que se constatam são um reflexo deste facto. Foi outro britânico, Lord Acton, que disse abertamente aquilo que todos instintivamente sabemos, que o poder corrompe. Não é preciso contar o Citizen Kane para concluirmos que o poder da comunicação social não é excepção.

O movimento dos blogues tem constituído uma maneira de contornar aquelas pressões e limitações. Em muitos lados do mundo é uma maneira razoavelmente eficaz de fazer conhecer factos e ideias, em alternativa à comunicação social tradicional. O seu alcance depende obviamente de muitos factores, como por exemplo a disseminação da internet. Mas o fundamental é contribuir para contrariar o crescimento do pensamento único, cada vez mais forte nas últimas décadas, à sombra de pretensas políticas realistas, de apregoados apaziguamentos ideológicos, que apenas servem para camuflar pretensões de afirmação e de eternização do poder que nada têm de democráticos, nem têm a ver com as liberdades ou os direitos fundamentais.