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domingo, 21 de novembro de 2010

A operação “Mar Verde” foi há quarenta anos

Carlos Loures
Faz hoje quarenta anos estava prestes a ser desencadeada a “ Operação Mar Verde”, nome de código atribuído a uma operação militar planeada pelas Forças Armadas Portuguesas levada a cabo em 22 de Novembro de 1970. Em Portugal, o governo de Marcelo Caetano, prosseguindo a rota traçada por Salazar, e ao contrário do que dera a entender que faria, mantinha a Guerra Colonial nas três frentes africanas. Em Portugal, onde se acalentara a esperança numa abertura - falava-se numa «primavera marcelista» - o novo presidente do Conselho limitara-se a mudar o nome a algumas coisas – A PIDE passou a DGS, a União Nacional  transformou-se na  Acção Nacional Popular… cosmética, nada mais.
Os órgãos de comunicação, controlados e impedidos de contradizer os comunicados oficiais, davam-nos do conflito a imagem de algo sem importância – acção de grupos terroristas que, vindos do exterior, atacavam e fugiam. Nesta versão poucos acreditavam – se era uma coisa tão simples, por que durava há tanto tempo?

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O Tanque (Mais um conto – verdadeiro –da Guiné)

Adão Cruz


O alferes Almeida foi meu companheiro de quarto em Bigene, no norte da Guiné, se é que podemos chamar quarto ao alpendre onde dormíamos. Cerca de oito anos mais novo do que eu, o Almeidinha fez-se meu amigo de verdade. Amigo desde o acampamento da Fonte da Telha, do quartel de Porto Brandão e da Amadora.
Embarcámos para a Guiné no velho Uíge, empurrados pelo magnífico patriotismo de Salazar, entalados entre o belo gesto das senhoras do movimento nacional feminino e o malabarístico safanço dos filhos dos ricos e patriotas da situação. Embalados pelas ondas do mar quente da Mauritânia, e sossegados pelas ricas ementas flamejantes do cozinheiro de bordo, demos à costa da Guiné no dia 13 de Maio de 1966.
O Almeida e eu pertencíamos à mesma companhia. Eu como médico e ele como atirador, comandante de pelotão. Nos primeiros tempos da nossa comissão na guerra da Guiné estivemos separados. Eu fui destacado para Canquelifá, perto da fronteira da Guiné-Conakry. Ele esteve de intervenção durante algum tempo. Quando a companhia se fixou em Bigene, já eu lá me encontrava.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Abibe Tal

Adão Cruz

Mais um conto verdadeiro da Guiné



O Abibe era muito feio. Negro como um tição. A única coisa que no seu corpo branqueava eram os dentes, inseridos à distância da boca. Mas tinha um coração grande, muito maior que a feiura. Não o coração de carne que lhe batia no peito, mas o irmão gémeo, o coração dos sentimentos e dos afectos.

O Abibe pertencia à milícia e era nosso empregado, ajudando na cozinha e na limpeza. Fez-se por sua livre vontade meu impedido, afeiçoado e amigo. Limpava o quarto, fazia a cama, conseguia arranjar uns mangos e umas bananas e tratava de tudo o que eu lhe pedia.

A densidade de incidentes bélicos no pequeno território da Guiné era muito maior do que nas outras colónias. A terrível fama da sua guerra alastrou como fogo. Comparada à do Vietname. Ser destacado para a Guiné constituía uma condenação ao apodrecimento e ao risco de regressar encaixotado. Os aquartelamentos eram rodeados de arame farpado e troncos de palmeira, com abrigos subterrâneos, frequentemente flagelados. Eu próprio ajudei a cavar trincheiras, ligando os nossos quartos às casernas e a uma enfermaria subterrânea, onde guardava soros e medicamentos de urgência, indispensáveis em situações de ataque. Em tais condições de vida, era grande o valor de um companheiro e amigo como o Abibe Tal.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Guiné – IrkutsK

Adão Cruz


(mais um conto, verdadeiro, da Guiné)

Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.

Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.

Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.

Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Terreiro da Lusofonia: Narf e Manecas Costa

Temos um grande prazer em trazer aqui ao nosso Terreiro Narf e Manecas Costa, artistas unidos pelo idioma comum - Narf é um cotado cantor galego. Manecas Costa é um dos artistas mais conhecidos da Guiné-Bissau, um exímio cantor e executante na guitarra, um grande, grande artista. Um galego e um guineense cantando... em Moçambique, no Teatro Avenida do Maputo.Um quadro lusófono perfeito. Vamos ouvir com atenção - "Alô, irmão!":