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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Coimbra na Literatura

João Machado

Coimbra é uma cidade milenária. Tendo em conta a sua localização e atendendo aos factos históricos não admira que tenha sido sempre um pólo de atracção importante. Foi capital de Portugal até ao reinado de D. Afonso III. Ali se realizaram as primeiras cortes de que há memória, em 1211, de onde saíram as primeiras Leis Gerais do Reino, que centravam o poder nas mãos do rei, e tentavam acabar com os abusos da nobreza e do clero. A implantação da Universidade confirmou a cidade como um grande centro cultural, e a maior cidade do centro do país.

Camões dá-nos uma imagem da importância de Coimbra, referindo-se a D. Dinis:

Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
O valeroso ofício de Minerva;
E de Helicona as Musas fez passar-se
A pisar de Mondego a fértil erva.
Quanto pode de Atenas desejar-se
Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
Do bácaro e do sempre verde louro.
(Lusíadas, Canto III, estrofe 97)

E mais adiante, numa nota triste:


Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano de alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
(Lusíadas, Canto III, estrofe 120)

domingo, 19 de dezembro de 2010




A homenagem ao velho poeta




Carlos Loures



No princípio daqueles anos 60 do século XX, apesar da boa e mítica reputação que a década viria depois a adquirir, as coisas eram muito diferentes do que hoje são e nem sempre a diferença era para melhor. As minorias étnicas ou religiosas, as mulheres, as crianças, os homossexuais, eram segregados de uma forma impiedosa e os seus direitos, mesmo aqueles que estavam consagrados na letra das leis, espezinhados com a cumplicidade de muitos progressistas e até, por vezes, de alguns dos lesados. Também se deve dizer, para sermos justos, que talvez nenhuma outra geração tenha feito tanto para derrubar tabus e preconceitos, barreiras e estúpidas ideias estratificadas ao longo de séculos e que tinham rastejado e sobrevivido a quase dois mil anos de cristianismo, às revoluções francesa e soviética, a um século de socialismo, a duas guerras mundiais, à proclamação de múltiplas independências em África e na Ásia, chegando quase intactos àquela época, aos famosos e progressistas anos 60.



sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

VerbArte - A vida sem fim


A Vida sem fim

Paulo Borges
Conheci a poesia intensa de Ethel Feldman quando a sua paixão incendiária e luminosa visitou o meu blogue Serpente Emplumada e o da revista Cultura Entre Culturas. Porque a poesia de Ethel é isso: fogo e luz. Fogo de um amor cuja saudade o recria em tudo e luz de quem redescobre a eternidade dessa fusão a cada instante. Poesia de mulher total, que assume todas as possibilidades do feminino, da carne ao espírito, em seu âmago se celebra o encontro-beijo redentor que suspende a ilusão de haver dois:

“Sou a puta da esquina, sou a virgem Maria.
Se o teu tempo for só de um segundo será nele que inventarei a eternidade.
Se o teu tempo for de um compasso, que seja de pausa, porque urge o silêncio.
Se for um desenho que seja branco – tão intenso.
Eterno é o momento quando me beijas por dentro”


É esse o tempo “sem hora marcada”, o “tempo sem tempo” e por isso “com tempo de ser”, epifania que advém no seio da mais funda embriaguez, essa em que a amada se torna o vinho que o amante bebe, em versos cúmplices da atmosfera do grande Rumi:

“Dá-me vinho antes do amanhecer
Com o cálice a transbordar
Banha-me nele até que embriagada
Eu seja o vinho que agora bebes”


O beijo dos amantes culmina num “eterno abraço” que fulgura no “intervalo” do existir, vazio e espaçoso, “modo de ser sem ser”, pois esta poesia, de paixão e “fogo-posto” sob a pele, também o é de desprendimento, o sapiencial desprendimento da vida que, tal o poema, renasce a cada instante da própria morte e voa ainda para além de si, pela comunhão desse “presente” onde cessa todo o “enredo”:


“Como o poema que nasce em cada estrofe
Morrendo abro caminho à vida”


“Nascer e morrer no mesmo dia. Entre nascer e morrer – voar.
[…]
Qual é o enredo da vida quando se encontra o presente?”


Tal como a vida que há nela, também de si mesma esta poesia se evade, ciente de só se habitar o mundo a partir do tácito abandono das prisões do dizer:


“Se quiseres continuar a estar
Abandona a palavra que te prende”


Unindo o que visões mais estreitas separam, aqui é a própria paixão que conduz ao cume meditativo em que a presença do mundo se avoluma na consciência de como é “preciosa” essa “vida” que nas mínimas coisas se agiganta, pelos silêncios intervalares que as fazem cintilar na plenitude do vazio que entremostram:


“Parece que o mundo cresce dia após dia. Uma flor que nunca vi. Uma nota que passou desapercebida. A migalha de pão esquecida na mesa. Preciosa é a vida. Cada intervalo de silêncio ampliado até à plenitude deste imenso e fantástico vazio”

Tudo isto porque Ethel, ou quem por seu nome assina, vem de “Outras Paragens”, esse “lugar
desconhecido” que afinal todos trazemos “mesmo junto do coração”. Se “em cada homem o universo se exibe inteiro”, este belo e comovente livro é também de cada um e de todos nós. Assim nos deixemos adubar da consciência disso, para que, como diz a poeta, em nossa mão também possa nascer uma “flor”, a flor de na sua leitura nos lermos, desencantando esse mais fundo sem fundo que em tudo sem tardar nos espera.


Obra cuja “façanha” é nascer do coração, bem entremostra toda a imensidade de onde tão singelas e fundas palavras brotam:

“Quem dera a vida nascesse do fim
E os que tudo esqueceram
Amassem quem nunca aprendeu
Quem dera a vida fosse
Um leve calafrio na espinha
Um beijo na boca
Um tímido ai
Um dia sem data
A vida sem fim”


A vida não é porventura senão isso, Ethel. E este Paladar da Loucura, tão “sem fim” como a vida que canta, confirma o que escreveu Platão:

“[…] o delírio, segundo o testemunho da Antiguidade, é uma coisa mais bela do que o bom senso: o delírio que vem de um Deus é melhor que um bom senso cuja origem é humana” (Fedro, 244 d).


Assim é. Assim seja.














domingo, 5 de dezembro de 2010

O que é ser gente?

Adão Cruz

Quando eu era criança, diziam-me os meus pais que eu tinha de fazer tudo para ser gente. Ser gente? Mas o que é ser gente?

Ao ver hoje o que se passa à nossa volta, ao ver a deterioração mental, a total ausência de escrúpulos, o desprezo da honra e da dignidade, a proliferação de criminosos, corruptos e vigaristas de toda a espécie, mais evidentes nos estratos superiores da sociedade e nos sectores da Administração e do empresariado, de onde deveria vir o exemplo e não o assalto miserável a quem trabalha, eu entendo o que os meus pais quereriam dizer, com o ser gente. Ser gente seria, porventura, ir mais além do que trabalhar com seriedade e honestidade. Ser gente pressuporia a construção de alguma coisa dentro de nós e fora de nós que assenta, a meu ver, em quatro pilares fundamentais:

1-O pensamento. O pensamento é o suporte mais poderoso e a armadura mais forte do homem, a mágica força da sua criatividade e da sua razão de ser. Sem pensamento o homem não pode ser gente, o homem não passa de um céu brumoso, sem ponta de sol. Por isso o pensamento tem tantos inimigos! São inimigas todas as inúmeras formas de anestesia mental, falsamente lúdicas, falsamente festivaleiras, falsamente religiosas, falsamente futebolísticas, levando a sociedade à ignorância, através de uma espécie de coma vigil que a impede de raciocinar. É inimigo o vazadouro de lixo mental da televisão, com que a sociedade vai enchendo a disquete da sua metacultura. Inimiga a perversão mediática da política, que deveria ser a nobre arte de uma verdadeira democracia participativa, inimiga a política pornografada em degradantes guerras de interesses que escamoteiam os verdadeiros problemas nacionais, inimiga a política atafulhada no maior lamaçal de corrupção de sempre.

2-O segundo pilar do alto edifício que é ser gente decorre do primeiro e chama-se cultura. Não se trata da cultura do enciclopedismo balofo, somatório de vagos conhecimentos, empilhamento de ideias improdutivas, a cultura-cassete dos tempos de hoje, a cultura-espectáculo, mas sim a cultura do dia-a-dia, a cultura autêntica da dignidade da vida, a cultura irrepreensível do percurso.

3-O respeito pelos outros constitui o terceiro pilar. Simplesmente, não há respeito pelos outros se não houver respeito por nós próprios. Quem não se respeita a si mesmo não pode respeitar os outros. E quem tem respeito por si próprio não pode ser falso, corrupto, ladrão, indigno, especulador, manipulador de pessoas e ideias, criminoso, traficante e sabujo. O respeito dos outros é o espelho de nós próprios.

4-O quarto pilar desta edificação é a solidariedade, a solidariedade no seu sentido global, já que a solidariedade pontual, ainda que louvável, não conduz a nada em termos sociais. É o caso da caridade, que não sendo de forma alguma negativa, pode ter, ao contrário do que acontece com a justiça, efeitos nefastos quando pregada como fim em si mesma. O primeiro passo da solidariedade está no entender da indispensabilidade da justiça social e no seu consciente reconhecimento como prioridade das prioridades, a todos os níveis. O segundo passo reside, por parte do cidadão, no cumprimento correcto da lei, no cumprimento escrupuloso e competente dos seus deveres de cidadania, no mais correcto exercício da sua profissão e da missão de que cada um está incumbido. Viver dos outros, implica viver para os outros.
É triste reconhecermos que uma parte dos homens de hoje, dos homens que mandam, dos homens que podem, dos homens que estão à frente de governos e de instituições de alta responsabilidade não são gente, nunca foram gente nem para lá caminham. São verdadeiros exemplares da mediocridade e da ausência de formação e de escrúpulos, a ocupar grandes e rendosos postos, arremedos de gente, excrescências malignas da sociedade, contrafacções da honra e da dignidade, são a parte podre da humanidade. A epidemia de corruptos é disso exemplo, e o que conhecemos é a ponta do iceberg.

A esses, os que se apresentam como cabotinos deste palco da vida, para os que não reconhecem a sua inutilidade e dilatam dia a dia a sua perversidade, e pensam que a roubar é que são grandes e que a viver à grande e à francesa à custa da miséria e do trabalho dos outros é que estão acima do mundo e do homem comum, eu lembro que no seu estômago já não cabe mais nada e nos seus cofres o dinheiro já não passa de entulho. Ainda bem que existe a morte, o único mecanismo democrático da vida.

(Ilustração de Adão Cruz)

sábado, 4 de dezembro de 2010

Natureza

 
António Sales
A nuvem poluída
investe sobre o dia,
desce o vale vermelho
ocultando a limpidez do céu.


Murcha o olhar das árvores indefesas
no silêncio da sua solidão.
Secam flores campestres
fecundadas nas raízes da beleza.


As trevas já castraram
os corpos de paixão.
A terra fica fria, laje de sepultura,
até que a Natureza
renasça da sua escravatura.




segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ausente

Ethel Feldman

cala a gargalhada, solta o pranto, soluça baixo o escárnio, dança sem modos o canto. desagua o rio quando nasce. ri quando chora, cala o pranto.
grita em silêncio o  engano.

voa a gaivota outro canto. branco tão branco

mar ou rio, salgado ou doce, nada o peixe
não ri
não chora
nada

nada/oco/vazio
espanto/branco
dor/sem cor/sabor
amargo/azia/azedo
medo/começo/morto
terra/semen/fértil-estéril
ventre/entre/mente/
vazio/oco/nada



cala a gargalhada - nada
solta o pranto - oco
Soluça baixo o escárnio - vazio
dança sem modos - branco
nada o peixe - ventre
caminha - mente


nada/oco/vazio

grita em silêncio o engano
baixio/lodo/lama/lótus




nasce a lua na noite

despe o sol o dia

morre a poente

no colo do ausente

domingo, 21 de novembro de 2010

Será que não bato bem?

Adão Cruz

.

Não é que eu me considere tolo, embora os meus amigos digam que às vezes eu não bato bem. Eu penso, de facto, que há uma ou outra vez em que eu não aperto bem, ou melhor, aperto à minha maneira, que não é exactamente a maneira como os outros apertam.



Dá-se o caso que, vindo eu de Lisboa, de uma reunião médica, saí da auto-estrada para ir almoçar ao centro de Ílhavo. Estacionei o carro e procurei um restaurante, o qual, por acaso, estava ali mesmo à beira. Restaurante Villa Madrid.


Agradável, aconchegado e com um ambiente acolhedor. Televisão abafada, só com imagem, e no ar uma música suave e melodiosa que já não é habitual ouvir-se na maioria dos restaurantes: a Barcarola, dos contos de Hoffman, de Offenbach.


Sentei-me. A meio da refeição, uma Senhora idosa, dos seus oitenta anos, que me pereceu muito bonita, entrou na sala e sentou-se na mesa em frente à minha. Tinha um rosto vincado e sofrido, uma daquelas caras que parecem estar sempre prestes a chorar. Os nossos olhares cruzaram-se duas ou três vezes durante a minha permanência na mesa. O suficiente para eu achar, com efeito, que aquela Senhora deveria ter sido muito bonita.


Paguei a conta, levantei-me, e quando passava junto à Senhora coloquei-lhe suavemente a mão no ombro e disse: A Senhora desculpe o meu atrevimento, não leve a mal, mas eu gostava de lhe dizer que a Senhora deve ter sido muito bonita.


Ao contrário do que eu esperava, ela não se mostrou surpreendida. Calmamente poisou o talher, colocou serenamente a sua mão direita sobre a minha mão direita que eu havia apoiado na mesa e respondeu: Pois era. Era, de facto, muito bonita. Meu caro Senhor, muito obrigada pelas suas palavras que me souberam melhor do que a refeição. E, já agora, meu caro e desconhecido Senhor, deixe-me fitá-lo bem nos olhos, porque eu não quero esquecer a sua cara.


Fiquei meio paralisado. Com o melhor sorriso de que sou capaz e com uma inesperada sensação de estúpido, voltei a pedir desculpa e afastei-me.


Sentei-me no carro, com a porta aberta, e em voz alta atirei para o ar: Porra! Eles têm razão, eu não devo bater muito bem! Mas no fundo, bem no fundo senti-me feliz. Que belo momento, pensei! E quase senti uma lagrimeta no canto do olho. Não sei o que ganhei com o meu gesto. Não sei o que perdia se o não tivesse feito. Sei que há momentos tão subtis na vida real como os milhões de subtis mecanismos que geram o nosso mundo interior, e dos quais não nos damos conta. Há momentos cuja grandeza vai dos escaninhos da nossa alma à dimensão universal. Que se apresente aquele que seja capaz de os medir.


(Ilustração pormenor de Adão Cruz)

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Roma



Marcos Cruz

Passava horas ao espelho. Revia-se nele. Eram ambos incrivelmente superficiais. O reflexo da sua imagem pouco lhe importava, era mesmo pelo espelho que ficava ali, horas e horas, para desespero da namorada, que o tinha como o maior narcisista à superfície da terra. Dizia-lho vezes sem conta, mas ele não se aborrecia. Gostava de ouvir a palavra superfície, fazia-lhe lembrar o espelho. Ela, no seu profundo desespero, procurava mostrar-lhe que havia outros espelhos. "A lua, por exemplo, é um espelho do amor". Ele não fazia caso. Dizia "pois" e continuava a perscrutar a magnífica superficialidade daquele objecto pendurado acima do lavatório. Daí saltava, às vezes, para a televisão, quando dava futebol, mas depressa perdia o interesse no jogo e focava o olhar no ecrã, fazendo análises comparativas entre este e o espelho, que saía sempre vencedor. O mesmo se passava com as janelas, os pratos, as ruas ou o corpo da namorada. Eram subperfícies, cópias imperfeitas do espelho, esse sim a verdadeira expressão formal de Deus. Um dia, ao ter este raciocínio, sentiu-se profundo. Ficou doente. Feliz mas preocupada, a namorada levou-o a um médico, depois a outro, a outro e a outro. Nenhum lhe soube dizer qual era o problema. "Mas ele anda estranho, opaco, senhor doutor! Parece um fantasma, uma sombra do que era", insistia ela, já sem sequer esperar pela resposta. Não tardou muito a que os papéis se invertessem: ela a estudar o espelho e ele a estudá-la a ela. Foi assim durante anos, precisamente os mesmos que ele passara a olhar o espelho. Até que, enjoado de olhar para eles, o espelho se partiu. Cristalizados, ela e ele olharam-se como nunca antes e nunca depois. Num mundo sem espelho, lua ou futebol, foi amor à primeira vista.

(ilust. Manel Cruz)


domingo, 14 de novembro de 2010

Poetas do trigo



Eva Cruz


Sementes de água
gotas de trigo no chão duro
cresce o pão mal repartido.

Ergue-se o punho erguido
de Homens Inteiros
poetas do trigo
na fome da Revolução.

Ceifeira da noite
com medo do dia
semeia a morte
mais pobre a seara.
Ceifeiras do dia
foices vermelhas
cantares de esperança
não deixam a morte
matar a seara.

Sementes de água
gotas de trigo
não morre a seara
não morrem os Homens
os Homens Inteiros
poetas do trigo repartido.


(Ilustração de Adão Cruz)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Química

Marcos Cruz

Olha o Falso! Então, Falso? Há que tempos! Tás fixe? Olha, esta é a Foca, uma amiga minha. Que cena, pá! Tás bem? Fogo, olha, a gente vem dali, tá lá assim uma cena mesmo indescritível, um electro meio marado, misturado com não sei o quê… Ó pá, nem é rock nem é aquele pop pop, sabes? E o gajo mistura maaal, Falso! A sério, não tás a ver! Eu e a Foca já nos távamos a passar. [faz uma festa no peito de Falso como se lhe estivesse a limpar o pó e volta à carga] E tu? Tás aqui, quê, a fumar um cacete? [Falso não fala, só sorri, meio envergonhado] Iá… Ó pá, mas tás fixe? Que cena, já não te via há bué! [Foca, essa, está prestes a deixar cair o sorriso] Este gajo [virada para Foca] é que é o guitarrista dos Phones! Eu tenho de te mostrar Phones, estes gajos são muito fora! Mesmo! [este “Mesmo!” é dito com os olhos em brilho, toda ela parece uma espinha de deslumbramento a rebentar] E… e já têm cenas novas? [hesita na pergunta porque se apercebe, finalmente, de que os amigos de Falso estão com cara de sopa azeda] Ah, desculpem lá: eu sou a Cláudia. Ela é a Foca. [eles ruminam, em jeito de anuência] [fica um silêncio agreste] Pois é, Falso… Vê lá se dizes alguma coisa! Ainda tens o meu telemóvel? [Falso faz sinal de que sim] Tens qual? O 91? [ele repete o sinal] Ah, é que eu agora também tenho um 93, se calhar dá-te mais jeito [Falso faz sinal de que não] Iá, então olha, a gente vai bazar! Bute aí, Foca? [Foca arrota, nervosa] Xau, pessoal! [elas afastam-se, com o estilo possível; eles certificam-se disso] [por fim, Falso fala] Ó Brito, faz esse!

(Ilust. Manel Cruz)

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Limão e malagueta


Adão Cruz

A malagueta nasce verde verde como o limão olham-se verde no verde ela cora e ele não.

Um empalidece outra faz-se rubor há qualquer coisa de astuto qualquer coisa de comum entre os dois e o amor.

A malagueta abre-se à cor em carne viva ardendo da penetração quente do sol da carícia de febre luz vibrada e tacto de seda.

Não fenece enquanto à sua volta tudo morre e envelhece.

O limão nem mole nem duro sumo de virilidade sumo de alegria denso de seiva sabor amargo ou doce ao sabor dos descuidos da verdade e da melancolia.

A malagueta não é séria nem puta é luta de vida numa vida de luta

madura de ilusões lábios maduros palpando as vozes e as palavras

na ponta da língua.



O limão não sofre de amores nem de esplendores nem de ignorância presunçosa jogo de toda a moda da vida imbecil.

Se o encontro se dá solta-se o sangue em torno dos ideais nos rútilos prados da malagueta amada malagueta mulher orvalhada pequenina e nua

capricho de um ventre fecundo na cintilação da madrugada como se a vida fosse um desejo de amarga doçura decúbito de sílabas erguidas ao som da música entre espaços de côncavo silêncio cristal e solidão.

Dilatada angústia pernoitada na eterna penetração de fulgor da malagueta desabrochada ao paladar da última gota do livre limão.

(ilust. Adão Cruz)




terça-feira, 9 de novembro de 2010

Ela

Ethel Feldman

Vou só falar dela, dessa menina que acabo de conhecer.  Diz  sempre não.
- É tão pequenina!
Não sei se é velha ou criança. Não sei!
Tem sempre a mão na barriga e uma lágrima lenta na face.
Sempre a tive por dentro, sem corpo nem rosto. Quando seu coração apertava, doía-me o corpo todo.
Assim, uma pontada que se espalha como se eu fosse sua seara.
Sempre a tive por dentro, descompassada sem espaço nem tempo
Agora que a vejo fora de mim, é tão pequenina!
Diz o menino que acaba de nascer que a embale em meu colo, limpe a lágrima que persiste em sua face.
Diz-me o menino, agora homem que abrace a pequena
até que volte a crescer-me por dentro
com um sorriso na face.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Evento - o novo jogo do Estrolabio

O nosso colaborador Sílvio Castro que, aqui nos lançou o repto de revelarmos quais os dez livros do Século XX que mais nos tinham impressionado, lança-nos um outro desafio – Evento. Diz. «Trata-se de um jogo, sério, muito sério, que os amigos do Estrolabio de todos os Países de Expressão Portuguesa poderão enviar, exaltando um evento de uma das Literaturas dos 9 Países de Expressão Portuguesa. O conceito de evento é o mais amplo possível: pode referir-se a uma data, a uma obra, a um episódio, a um movimento etc, etc.»


E, dando o exemplo, envia-nos já três textos - um relacionado com a literatura brasileira, outro com a portuguesa, um terceiro com a angolana. Publicamos já hoje, dentro de uma hora, o que se refere á literatura brasileira.


Portanto, a ideia é – colaboradores e leitores mandarem-nos textos que exaltem um evento relativo a uma das nove literaturas de língua portuguesa. Pode repetir-se literaturas já referidas. Por exemplo, quem entender que o evento mais relevante para a literatura brasileira não foi o apontado por Sílvio Castro, deve fazer um texto sobre o «seu» evento.

domingo, 7 de novembro de 2010

És tempo do tempo


Maria Aguiar





és tempo do tempo de alguém
serva, escrava de ninguém
memória de seivas sorvidas
deidade de asas caídas
rio de tábuas soltas
vozes acerbas e roucas
labareda lusitana
em cama de milho rei
és oriunda da terra
e só a terra é a tua lei!



homenagem póstuma

a uma vítima de mobbing
2005

(ilustração de Adão Cruz)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cor Espiritual

António Sales

Quem chama por Apolo
no templo de Delfos
prostrado pelo desânimo
de não encontrar
o Jardim da Criação?

No mundo inferior em agonia
as larvas da obscena vida
cristalizam andrajos de dor.

Ninguém encontrará o caminho
que os deuses negarão
à cegueira dormente da triste solidão

Retoma a vida em ti
pois cada dia é teu.
Semeia no teu ser a cor espiritual
do tempo em lantejoulas.

Piton levar-te-à ao Jardim
do Parnaso
onde encontrarás a suprema luz
do poder redentor.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A ruína do J

José Magalhães

O estrondo, enorme e contínuo, baralha as ideias, impede o pensamento e perturba o imperturbável caminhar das horas e dos dias.

As casas, os prédios e as pontes, caem como baralhos de cartas, lançando a destruição à sua volta. As estradas, as ruas e os caminhos, desaparecem, deixando no seu lugar, uma amálgama de trilhos sem sentido e sem indicação de rumo.

No meio de tanta desgraça, J sente-se perdido. Olha à sua volta e só a devastação e a ruína se encontram à vista. O desespero ameaça tomar conta das suas acções. As soluções não existem, os caminhos não se vêm, a solidão está presente.

Os familiares, mesmo que voltassem com os seus esforços e cheios de boa vontade, não apagariam a tristeza nem acalmariam a desesperança.

J é a imagem personificada do desânimo.

Ao seu lado, não tem companheiros de infortúnio. Ninguém repara no seu sofrimento, ou ao menos se importa. Cada um tem a sua própria dor. E as dores dos outros são sempre privadas.

A solidão que o assalta é avassaladora. Esse isolamento, nos momentos em que mais necessidade se tem de companhia e compreensão, sempre se impõe a tudo e a todos, mesmo quando, ou até apesar de gritarmos o nosso pesar aos quatro ventos.

Se


Maria Aguiar

 
se o pensamento isento tem sido adormecido com contínuos atentados fundamentados em falsas verdades,
se se caiu no erro de imitar o erro e se abriram as portas ao belicismo e a escravatura alastrou como uma praga e a realidade é uma amálgama disfuncional, se a democracia é utopia, a civilização um atestado de servidão, a cultura um doutoramento de cadeira, e o saber nunca premeia…
se caminhamos a misantropia e negligenciamos o legado histórico que nos foi legado, se todos os dias a mentira conveniente silencia a verdade sem esperança e os sinais do progresso são o retrocesso da alma, se somos mil(eu) as infâncias do estado novo SILENCIADAS, atropeladas e compelidas para o futuro sem futuro da falácia global deste mundo desigual, levante-se do tempo o poema, afie-se bem a palavra, resgate-se com resistência serena a terra que o homem lavra.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

O problema

Marcos Cruz

Durante a vida experimentamos várias formas de lidar com o mesmo problema, mas muitas dessas formas são, simplesmente, formas de não lidar com o problema. O problema é a vida ela própria, somos nós - ou, melhor ainda, somos os nós, os nós que somos, cada um de nós.

Hoje sento-me aqui para escrever mais uma forma e não mais do que uma forma, mas uma forma de lidar com o problema. O meu problema.

Não sei quando me dei conta de que tinha um problema, mas provavelmente foi à nascença, ou então não teria desatado a mamar, a chorar, a espernear, a lutar com unhas e sem dentes. Hoje leio pessoas que falam poeticamente sobre a morte, sobre a primeira vez que viram a morte, sobre a incompreensão da morte e a recusa em confrontá-la, em chegar perto dela, em sentir-lhe o cheiro, quando esse cheiro é o mesmo da merda e do leite e a morte é, afinal, o mote da vida.

Mamar, andar, falar, estudar, trabalhar, casar, procriar para que outros mamem, andem, falem, trabalhem, casem e procriem - eis a puta da vida tal como se nos apresenta. Pois eu digo: hoje sei que a minha vida não é isto. Não é só isto, não é necessariamente isto. A minha vida é a minha vida. Por entre essas etapas todas a que não renuncio, a minha vida é também romper a placenta de culpa que me precede.

Entre as formas que já experimentei de lidar com o meu problema encontram-se vários ismos. Todos eles foram sombras que se me descolaram do corpo a cada pôr-do-sol. A cada morte. Hoje não tenho um ismo para dar. Tenho sentimentos intensos, tenho oitos e oitentas, tenho vida em bruto.

Este é o primeiro passo para uma pessoa como eu lidar com o problema. É assumi-lo. É pô-lo cá para fora, dar-lhe luz, dá-lo à luz. Todo o tempo gasto a experimentar formas de não lidar com o problema é tempo pré-Natal, é cadeia genética no sentido mais prisional do termo. Lapidar o diamante exige tê-lo.

Hoje é a hora de o meu problema sair à rua. De sair inteiro, impróprio para consumo. É o dia de vomitar o mundo e dizer que já o trazia dentro, este mundo, há colhões. É o momento de trabalhar para um outro mundo, com as competências todas de quem o conhece como a palma da sua mão, cansada de bater punhetas.

A crise e a depressão acompanharam-me o crescimento - essas, sim, sombras implacáveis -, foram o meu mundo, o meu segredo. Hoje o mundo dos outros conhece-o, estou nu. Tão nu como esse mundo aos olhos de si mesmo. Somos tão verdade com verdade como as batatas são batatas com batatas. O problema, pelo menos o meu, está objectivado.

Portugal é um País, o nosso País. Os mercados são, hoje, o mundo. E o país Portugal cresce ou decresce a mando desse mundo. Porquê? Porque Portugal não existe. Portugal está em coma num leito límbico, com os pés algemados por D. Sebastião e as mãos por Salazar, espelhos virados um contra o outro, reflectindo a infinitude, o cronismo, a inescapabilidade, para o caso de Portugal querer acordar do coma.

Em cada empresa, em cada emprego, a generalidade dos portugueses não atravessa nem um nem outro desses espelhos. São como esquinas à noite. A verdade é que, não o fazendo, a mesma generalidade dos portugueses está a ser atravessada por eles, em cada casa, em cada desemprego.

Chegou, pois, a hora do salto quântico. Aquilo de que sempre estivemos à espera surge com a imagem que menos esperávamos. Valham-nos as leis da física. O corpo, o nosso corpo, o meu, o teu, o dele, o nosso, o vosso, o deles, vai ter de se sentir em todas essas dimensões, únicas e múltiplas, pessoais e universais, o melhor que possa e saiba, e mexer-se, andar para a frente com os seus próprios pés.

Em menos de nada, o segredo do País vai estar tão cá fora como o meu segredo. Um novo espelho nascerá da fricção dos outros dois, como fogo vindo das pedras, e nele poderemos rever-nos, juntos, os que até hoje nem em separado se reviam.

Durante anos, uns, e décadas, outros, muitos de nós estiveram mergulhados em drogas, legais ou ilegais; durante esses anos, esses nós sentiram que o seu mundo estava doente, por não encaixar no mundo dos outros. Hoje, os mesmos nós podem saber que o mundo dos outros é, afinal, o mundo de uns quantos, poucos, muito poucos, que não querem encaixar no nosso mundo. Por isso é que o mundo, o mundo de todos, está em crise.

Chamem-me irresponsável, bipolar, o que quiserem. Sou isso tudo e mais alguma coisa. A minha forma de lidar com o problema é cada um de nós mudar o paradigma, virar o disco, venha quem vier: irmos para dentro cá fora, deixarmos de nos adiar em antidepressivos e sermos nós os antidepressivos do mundo. Cada um de nós.

Talvez assim se desatem os nós e o meu problema seja o teu e o dele e assim sucessivamente até, quem sabe, deixar de ser um problema.

(ilustração de Adão Cruz)


terça-feira, 2 de novembro de 2010

Uma casa grande

Eva Cruz





É uma casa grande
tem dentro o mundo
em recantos de lenda
e história.
Alma de poetas.
Retratos e santos
recordações de vida
por todos os cantos…
Livros nas paredes
seu melhor recheio
quadros a saber a poesia
e o vento que agita a figueira
a entrar pelas portas adentro.
Música de um bandolim adormecido…
Levanta o pó
descobre Marx, Brecht
e Nietsche.
O vento da história
acorda a memória
aconchegada ao canto da lareira.
É uma casa grande
com escadas
onde se brinca às escondidas
e as crianças inventam anjos
pelos cantos…
Gostam da casa
correm-na a rir
sem medos de partir
o que por lá há.
É uma casa grande
tem dentro o mundo
onde só vale
a alma do que lá está.

(ilust.Adão Cruz)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

As telhas voaram, chove e venta, faz mau tempo!

José Magalhães


Acordo sobressaltado. Um estrondo enorme tinha sido o responsável por isso. Eram quatro da madrugada de uma noite que se transformou em pesadelo.

A chuva, imensa, entrava com o à vontade de quem se sente da casa, pelo telhado sem telhas. Eu via-a entrar, sem cerimónia. Estranho, dei por mim a pensar, entra como se o meu quarto não tivesse teto. E não tinha, fazia agora parte do chão, dos móveis, da parte esquerda da cama.

Corro a pegar em baldes, na esfregona, em toalhas e panos de cozinha, e começo a tentar tirar a água, que está por todo o lado, mais depressa do que ela entra.

Enquanto luto contra o tempo (os minutos e a intempérie), vou-me lembrando dos últimos acontecimentos.

Horas antes os "gajos", uns senhores diga-se de passagem, chegaram a um acordo. Acordaram em nos encharcar a vida com dificuldades.

Eu sei que foi uma decisão difícil e que eles, não queriam que assim fosse. Mas tinha de ser, e como nenhum dos intervenientes, uns e outros e os que eles representavam, é ou foi alguma vez responsável pelos acontecimentos que provocaram esta decisão, nem vão benificiar pessoalmente com ela, sofreram muito quando a tomaram.

Cheguei a ter pena deles, coitados.

Mas agora tenho é pena de mim, aqui no meio deste quarto, ainda madrugada, a remar contra a maré de chuva que por aqui me entra. Não pára, a sacana. Quanto mais tiro mais entra. Não dá sinais de abrandar.

Até parece o jogo de ontem do meu clube. Chovia que Deus a dava. No pantanal Coimbrão, às vezes nem os jogadores sabiam onde parava a bola, tanta era a água que escondia a relva. Naquela batalha, que tinha algumas parecenças com futebol, os jogadores visitantes arriscaram muito e jogaram no limite para conseguirem ganhar.

Como eu, aqui no meio desta água toda. Um passo em falso e ainda parto algum osso do meu querido corpo. Escorrego em todo o lado. E a estuporada da chuva que não pára. E esta noite que é mais comprida uma hora que as outras. Pensava eu, no meio de todo aquele horror.

É quase manhã. A chuva vai parando, a espaços, dando-me tempo de quase retirar a água toda. Já aí virá a ajuda de amigos e familiares, pois que, já já, lhes vou telefonar. Mal o sol nasça.

Ups, nasceu...