Manuela Degerine
Capítulo XV
Etapa 5: Da nascente do Alviela a Minde
Chego à nascente do Alviela. O sítio terá sido mais bonito antes de o transformarem em praia fluvial, perdeu entretanto o aspecto bravio, há pontes, tanques e mesas de merenda, restam vários penedos, árvores imponentes, o rio a sair de uma caverna.
Aproveito aquela cópia de mesas e bancos, abanco numa delas para o merecido banquete. Devoro a sandes (enorme) que em Pernes mandei preparar, figos e damascos secos, nozes, uvas, maçãs, chocolate preto... Parto com a mochila mais leve.
Mas não durante muito tempo. Avanço por um caminho pedregoso, encontro pedaços de quartzo transparente, que me parecem muito bonitos, resisto aos primeiros, embora com dificuldade, acabo por sucumbir a três outros – como se me faltasse lastro na mochila.
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quinta-feira, 10 de junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
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terça-feira, 8 de junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo XIII
Etapa 4: De Azóia de Baixo a Arneiro das Milhariças
Avanço agora por uma estrada bonita e sossegada, com grandes sobreiros e carvalhos, chego a uma zona cultivada, o ar perfuma-se com essências vegetais, aqui um eucalipto, além um pinheiro, depois hortelã brava, florida nesta época, vejo corvos, vejo uma salamandra... Alcancei o campo limpo. A chuva dos dois últimos dias criou grandes charcos à beira da estrada mas o sol continua a brilhar, um sol agora ameno, que uma brisa refresca.
Pela primeira vez desde o início desta viagem caminho com um prazer intenso. Trouxe de Paris as velhas botas das caminhadas – que já percorreram centenas de quilómetros e nunca, até hoje, me fizeram bolhas. Não me doem os pés, não tenho sede, a mochila não me incomoda, não me sinto aniquilada pelo calor, avanço na encosta, faço neste momento parte dela, sou a natureza em movimento, como a doninha ou a formiga. Aprecio este alargamento de identidade.
Passo pelas ruínas do que me parece um antigo lagar, vejo mais campos cultivados, a terra ganhou uma intensa cor de laranja, subo outra encosta, caminho entre vinhas e olivais, chego ao cimo de um planalto.
Começo a ver lixo, começam cães a ladrar. Atravesso a aldeia de Vale Flores, cujos habitantes me olham com hostilidade, terá havido algum assalto na região (ou na televisão), avisto num quintal uma porca com leitões, tento fotografar esta família porcina porém, apenas me aproximo, os bichos fogem grunhindo – aqui até os animais desconfiam dos forasteiros. Consigo sair da aldeia antes de levar um tiro.
Capítulo XIII
Etapa 4: De Azóia de Baixo a Arneiro das Milhariças
Avanço agora por uma estrada bonita e sossegada, com grandes sobreiros e carvalhos, chego a uma zona cultivada, o ar perfuma-se com essências vegetais, aqui um eucalipto, além um pinheiro, depois hortelã brava, florida nesta época, vejo corvos, vejo uma salamandra... Alcancei o campo limpo. A chuva dos dois últimos dias criou grandes charcos à beira da estrada mas o sol continua a brilhar, um sol agora ameno, que uma brisa refresca.
Pela primeira vez desde o início desta viagem caminho com um prazer intenso. Trouxe de Paris as velhas botas das caminhadas – que já percorreram centenas de quilómetros e nunca, até hoje, me fizeram bolhas. Não me doem os pés, não tenho sede, a mochila não me incomoda, não me sinto aniquilada pelo calor, avanço na encosta, faço neste momento parte dela, sou a natureza em movimento, como a doninha ou a formiga. Aprecio este alargamento de identidade.
Passo pelas ruínas do que me parece um antigo lagar, vejo mais campos cultivados, a terra ganhou uma intensa cor de laranja, subo outra encosta, caminho entre vinhas e olivais, chego ao cimo de um planalto.
Começo a ver lixo, começam cães a ladrar. Atravesso a aldeia de Vale Flores, cujos habitantes me olham com hostilidade, terá havido algum assalto na região (ou na televisão), avisto num quintal uma porca com leitões, tento fotografar esta família porcina porém, apenas me aproximo, os bichos fogem grunhindo – aqui até os animais desconfiam dos forasteiros. Consigo sair da aldeia antes de levar um tiro.
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sábado, 5 de junho de 2010
Novas Viagens na Minha Terra
Manuela Degerine
Capítulo X
Etapa 4: Chegada a Santarém
Bem sei quem era Camões, e quem sou eu.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009, incerta quanto ao tempo, não pus o despertador a tocar. Acordo às sete horas, vou à janela ver: a rua e as grades da varanda encontram-se molhadas mas parece-me que, neste momento, não chove. Tal circunstância reforça a esperança – talvez a chuva não persista. Saio de casa às oito e meia, apanho o metro para o Oriente e o comboio para Santarém.
Previ caminhar vinte e um quilómetros até Arneiro das Milhariças. Começo a subir a encosta que na última vez desci, vejo a vegetação molhada de chuva recente, porém o sol brilha radiante, como radiante eu subo. Dormi bem e sinto-me disponível para novas descobertas.
Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett conta a peregrinação do autor a Santarém – porém esta viagem é o que as Viagens menos contam. No capítulo XXIX o autor defende-se das expectativas: Muito me pesa, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver nesse título, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a marco, as léguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos edifícios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resumisse a história de cada pedra, de cada ruína?... Almeida Garrett escrevia numa época em que a literatura europeia, após A Viagem Sentimental de Sterne e Tiago, o Fatalista de Diderot, praticava a digressão com arte e malícia.
Estas digressões das Viagens deliciaram-me desde a primeira leitura mas não aos outros alunos da minha turma; e torturaram sucessivas gerações de alunos obrigados pelos programas a lerem-nas numa idade em que, na sua maioria, não tinham adquirido os conhecimentos necessários para, nem digo as apreciarem, ao menos as compreenderem. Uma amiga minha, a Isabel, na primeira leitura, pensava até que o A. em, por exemplo, Faz o A. modestamente o seu próprio elogio, significava o Almeida... Claro: tínhamos dezasseis anos.
Longe de mim insinuar que tais programas eram demasiado exigentes. Os programas devem ser sempre exigentes. Devem ser sempre ambiciosos. Devem sempre obrigar-nos a interrogar, a procurar – a aprender. Devem surpreender-nos sempre. A falta de exigência nos programas é uma forma de desprezo: assenta na convicção de que a caixeira só existe para se sentar em frente da caixa, não tem uma vida interior, uma sensibilidade, uma compreensão, uma memória e portanto, para ser caixeira de supermercado, só precisa de conhecer as notas e as moedas do euro. Sinto-me contente por ter sido formada numa época em que os programas obrigavam a ler integralmente as Viagens, quer mais tarde eu me tornasse escritora, quer fosse mulher da limpeza, em que os programas contavam com a minha inteligência, em que apostavam na minha capacidade para entrar no pacto da leitura. E todos os meus colegas, mesmo aqueles que gemiam com a leitura de Os Maias, tantas páginas, cresceram nelas incomparavelmente mais do que os alunos de hoje com os documentos que agora lhes apresentam. Apenas um exemplo: participei numa reunião de formação dos assistentes durante a qual um folheto da McDonald’s do Brasil era proposto como documento pedagógico para o ensino do português língua estrangeira em França. (No comment.)
Faço a presente digressão pelo ensino para afinal aqui declarar que, tal como Almeida Garrett, também não faço a descrição pormenorizada de Santarém. Estas Novas Viagens contam um percurso pedestre de Lisboa a Santiago de Compostela, atravessam um Portugal que só pode ser visto desta maneira – a pé. Não vou por isso descrever-te, leitor curioso, os monumentos de Santarém; que tu conheces. Os quais eu aliás desta vez também não vi. Visitei-os noutras ocasiões em que aqui cheguei de carro. E hei-de revê-los quando aqui voltar.
O objectivo da viagem é agora outro: atravessar o Portugal que existe para além das cidades e das auto-estradas. (Almeida Garrett lembrou que havia Portugal fora do triângulo situado entre o Chiado, a Rua do Ouro e o Teatro de S. Carlos.)
E, como Almeida Garrett não passou para além de Santarém, entro agora, digamos... numa terra incógnita da literatura.
Vamos juntos descobri-la.
Capítulo X
Etapa 4: Chegada a Santarém
Bem sei quem era Camões, e quem sou eu.
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009, incerta quanto ao tempo, não pus o despertador a tocar. Acordo às sete horas, vou à janela ver: a rua e as grades da varanda encontram-se molhadas mas parece-me que, neste momento, não chove. Tal circunstância reforça a esperança – talvez a chuva não persista. Saio de casa às oito e meia, apanho o metro para o Oriente e o comboio para Santarém.
Previ caminhar vinte e um quilómetros até Arneiro das Milhariças. Começo a subir a encosta que na última vez desci, vejo a vegetação molhada de chuva recente, porém o sol brilha radiante, como radiante eu subo. Dormi bem e sinto-me disponível para novas descobertas.
Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett conta a peregrinação do autor a Santarém – porém esta viagem é o que as Viagens menos contam. No capítulo XXIX o autor defende-se das expectativas: Muito me pesa, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver nesse título, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a marco, as léguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos edifícios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resumisse a história de cada pedra, de cada ruína?... Almeida Garrett escrevia numa época em que a literatura europeia, após A Viagem Sentimental de Sterne e Tiago, o Fatalista de Diderot, praticava a digressão com arte e malícia.
Estas digressões das Viagens deliciaram-me desde a primeira leitura mas não aos outros alunos da minha turma; e torturaram sucessivas gerações de alunos obrigados pelos programas a lerem-nas numa idade em que, na sua maioria, não tinham adquirido os conhecimentos necessários para, nem digo as apreciarem, ao menos as compreenderem. Uma amiga minha, a Isabel, na primeira leitura, pensava até que o A. em, por exemplo, Faz o A. modestamente o seu próprio elogio, significava o Almeida... Claro: tínhamos dezasseis anos.
Longe de mim insinuar que tais programas eram demasiado exigentes. Os programas devem ser sempre exigentes. Devem ser sempre ambiciosos. Devem sempre obrigar-nos a interrogar, a procurar – a aprender. Devem surpreender-nos sempre. A falta de exigência nos programas é uma forma de desprezo: assenta na convicção de que a caixeira só existe para se sentar em frente da caixa, não tem uma vida interior, uma sensibilidade, uma compreensão, uma memória e portanto, para ser caixeira de supermercado, só precisa de conhecer as notas e as moedas do euro. Sinto-me contente por ter sido formada numa época em que os programas obrigavam a ler integralmente as Viagens, quer mais tarde eu me tornasse escritora, quer fosse mulher da limpeza, em que os programas contavam com a minha inteligência, em que apostavam na minha capacidade para entrar no pacto da leitura. E todos os meus colegas, mesmo aqueles que gemiam com a leitura de Os Maias, tantas páginas, cresceram nelas incomparavelmente mais do que os alunos de hoje com os documentos que agora lhes apresentam. Apenas um exemplo: participei numa reunião de formação dos assistentes durante a qual um folheto da McDonald’s do Brasil era proposto como documento pedagógico para o ensino do português língua estrangeira em França. (No comment.)
Faço a presente digressão pelo ensino para afinal aqui declarar que, tal como Almeida Garrett, também não faço a descrição pormenorizada de Santarém. Estas Novas Viagens contam um percurso pedestre de Lisboa a Santiago de Compostela, atravessam um Portugal que só pode ser visto desta maneira – a pé. Não vou por isso descrever-te, leitor curioso, os monumentos de Santarém; que tu conheces. Os quais eu aliás desta vez também não vi. Visitei-os noutras ocasiões em que aqui cheguei de carro. E hei-de revê-los quando aqui voltar.
O objectivo da viagem é agora outro: atravessar o Portugal que existe para além das cidades e das auto-estradas. (Almeida Garrett lembrou que havia Portugal fora do triângulo situado entre o Chiado, a Rua do Ouro e o Teatro de S. Carlos.)
E, como Almeida Garrett não passou para além de Santarém, entro agora, digamos... numa terra incógnita da literatura.
Vamos juntos descobri-la.
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