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terça-feira, 7 de setembro de 2010

A FIFA enxovalha Portugal e Espanha!

Luís Moreira

A FIFA é uma das mais poderosas companhias internacionais do planeta, com um poder exclusivo sobre o Futebol mundial e os respectivos campeonatos do mundo. Milhoẽs, muitos milhões que escapam ao controlo das autoridades não estivesse, a boa da FIFA ,sediada muito propositadamente, na Suiça.

Poia a FIFA anda por aí atarefada a ver as condições que Portugal e Espanha reunem para se poderem candidatar ao Mundial de 2018 ou ao de 2022. Ver estádios, lotações, condições de acessibilidades ,capacidade de alojamento e tudo o mais que a poderosa FIFA vem cá ver.

O chefe da comitiva lá deu a sua comunicação pública para "basbaque" ver, como se os nossos estádios não tivessem sido construídos há 6 anos e como se a Espanha não tivesse já sido sede de um Mundial. Mas esta gentinha não dá ponto sem nó, o que o senhor queria dizer é que se a Espanha e Portugal construíssem o TGV então é que era, "trigo limpo" dificilmente nos escaparia o Mundial.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio -

Ao contrário do que tem sucedido nos média africanos, o fracasso da recente Cimeira Europa-África não tem sido objecto de qualquer análise séria nos média europeus. No contexto global em que vivemos, esta ausência é preocupante, pois revela que a Europa ou nunca entendeu a África ou deixou de a entender. O silêncio afirma ruidosamente: "Isto é África. O que se espera?" E a pergunta é retórica. Perante ela, os africanos perguntam-se perplexos: "Que Europa é esta que pensa assim?" E, ao contrário dos europeus, procuram respostas já que, depois de séculos de colonialismo, não se podem dar ao luxo de não entender a Europa.

Há um ditado africano que diz: "Enquanto a história da caça ao leão for contada pelos caçadores, os leões serão sempre perdedores". O pouco de história de África que os europeus conhecem é a história do caçador, a história europeia de África, e enquanto isto não mudar a África só confirmará aos europeus o que já "sabem" dela. Ou seja, nada que sirva para fundar outro tipo de relações que não as coloniais e as neocoloniais. Para começar, seria importante ter em mente que a recente cimeira ocorreu no seguimento de várias outras – a Cimeira África-EUA, em 2005, a Cimeira África-América Latina, em 2006, e a Cimeira África-China, em 2007 – e que todas elas, sobretudo as duas últimas, tiveram resultados palpáveis, apesar de terem ocorrido com parceiros para quem a África, até há pouco, era algo estranho e remoto. Ou seja, ao contrário da Europa, os novos parceiros não tiveram dificuldade em entender a nova África.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio: A Fome Infame


Há muito conhecido dos que estudam a questão alimentar, o escândalo finalmente estalou na opinião pública: a substituição da agricultura familiar, camponesa, orientada para a auto-suficiência alimentar e os mercados locais, pela grande agro-indústria, orientada para a monocultura de produtos de exportação (flores ou tomates), longe de resolver o problema alimentar do mundo, agravou-o. Tendo prometido erradicar a fome do mundo no espaço de vinte anos, confrontamo-nos hoje com uma situação pior do que a que existia há quarenta anos. Cerca de um sexto da humanidade passa fome; segundo o Banco Mundial, 33 países estão à beira de uma crise alimentar grave; mesmo nos países mais desenvolvidos os bancos alimentares estão a perder as suas reservas; e voltaram as revoltas da fome que em alguns países já causaram mortes. Entretanto, a ajuda alimentar da ONU está hoje a comprar a 780 dólares a tonelada de alimentos que no passado mês de Março comprava a 460 dólares.

A opinião pública está a ser sistematicamente desinformada sobre esta matéria para que se não dê conta do que se está a passar. É que o que se está a passar é explosivo e pode ser resumido do seguinte modo: a fome do mundo é a nova grande fonte de lucros do grande capital financeiro e os lucros aumentam na mesma proporção que a fome.

A fome no mundo não é um fenómeno novo. Ficaram famosas na Europa as revoltas da fome (com o saque dos comerciantes e a imposição da distribuição gratuita do pão) desde a Idade Média até ao século XIX. O que é novo na fome do século XXI diz respeito às suas causas e ao modo como as principais são ocultadas. A opinião pública tem sido informada que o surto da fome está ligado à escassez de produtos agrícolas, e que esta se deve às más colheitas provocadas pelo aquecimento global e às alterações climáticas; ao aumento de consumo de cereais na Índia e na China; ao aumento dos custos dos transportes devido à subida do petróleo; à crescente reserva de terra agrícola para produção dos agro-combustíveis. Todas estas causas têm contribuído para o problema, mas não são suficientes para explicar que o preço da tonelada do arroz tenha triplicado desde o início de 2007. Estes aumentos especulativos, tal como os do preço do petróleo, resultam de o capital financeiro (bancos, fundos de pensões, fundos hedge [de alto risco e rendimento]) ter começado a investir fortemente nos mercados internacionais de produtos agrícolas depois da crise do investimento no sector imobiliário. Em articulação com as grandes empresas que controlam o mercado de sementes e a distribuição mundial de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros na expectativa de que os preços continuarão a subir, e, ao fazê-lo, reforça essa expectativa. Quanto mais altos forem os preços, mais fome haverá no mundo, maiores serão os lucros das empresas e os retornos dos investimentos financeiros. Nos últimos meses, os meses do aumento da fome, os lucros da maior empresa de sementes e de cereais aumentaram 83%. Ou seja, a fome de lucros da Cargill alimenta-se da fome de milhões de seres humanos.

O escândalo do enriquecimento de alguns à custa da fome e subnutrição de milhões já não pode ser disfarçado com as “generosas” ajudas alimentares. Tais ajudas são uma fraude que encobre outra maior: as políticas económicas neoliberais que há trinta anos têm vindo a forçar os países do terceiro mundo a deixar de produzir os produtos agrícolas necessários para alimentar as suas próprias populações e a concentrar-se em produtos de exportação, com os quais ganharão divisas que lhes permitirão importar produtos agrícolas... dos países mais desenvolvidos. Quem tenha dúvidas sobre esta fraude que compare a recente “generosidade” dos EUA na ajuda alimentar com o seu consistente voto na ONU contra o direito à alimentação reconhecido por todos os outros países.

O terrorismo foi o primeiro grande aviso de que se não pode impunemente continuar a destruir ou a pilhar a riqueza de alguns países para benefício exclusivo de um pequeno grupo de países mais poderosos. A fome e a revolta que acarreta parece ser o segundo aviso. Para lhes responder eficazmente será preciso pôr termo à globalização neoliberal, tal como a conhecemos. O capitalismo global tem de voltar a sujeitar-se a regras que não as que ele próprio estabelece para seu benefício. Deve ser exigida uma moratória imediata nas negociações sobre produtos agrícolas em curso na Organização Mundial do Comércio. Os cidadãos têm de começar a privilegiar os mercados locais, recusar nos supermercados os produtos que vêm de longe, exigir do Estado e dos municípios que criem incentivos à produção agrícola local, exigir da União Europeia e das agências nacionais para a segurança alimentar que entendam que a agricultura e a alimentação industriais não são o remédio contra a insegurança alimentar. Bem pelo contrário.


(Publicado na revista "Visão" em 8 de Maio de 2008)