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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Coimbra , cidade real

José Hermano Saraiva






Mudou de mãos várias vezes e só em 10… foi definitivamente incorporada no domínio cristão, sob o governo prudente do moçárabe Sesnando.


O fundador da monarquia habitou muitas vezes a alcáçova da cidade e quis ter sua última morada na Igreja do Mosteiro de Santa Cruz, cuja fundação promoveu em 1132. E fizeram-lhe essa vontade. A modesta sepultura foi transformada, no século XVI, por este esplendoroso monumento. Os documentos, e quando eles faltam a tradição dá como nascidos em Coimbra, o filho de D. Afonso Henriques, Sancho I; o neto, Afonso II; o bisneto, Sancho II; o outro bisneto que destronou o irmão, Afonso III; o trineto, D. Dinis; o tetraneto, Afonso IV; o tetraneto, Pedro o Cru, e o filho deste D. Fernando, todos nasceram em Coimbra. O irmão bastardo de D. Fernando, Mestre de Avis, não se sabe onde nasceu, mas é certo que quando a revolução lhe entregou o trono, escolheu para lugar de eleição a cidade de Coimbra. E desse modo nasceu aqui a segunda dinastia real portuguesa.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Pronúncia do Norte

Fernando Moreira de Sá

Nestes tempos estranhos de crise leio muito blogger a culpar o D. Afonso Henriques desta nossa desdita. Eu, ignorante, atribuía a culpa a outras personagens, assim de raspão: José Sócrates, Teixeira dos Santos ou Pedro Silva Pereira. Afinal estava equivocado. Ou não.

Na verdade, nunca percebi a estratégia de D. Afonso Henriques. Ele preferiu rumar a Sul em vez de tomar o Norte. Reparem, o Sul é como um galanteador, uma espécie de vida paralela de visita esporádica. Nunca um compromisso eterno. No caso, um local de rara beleza – Lisboa é uma donzela de caracóis loiros e tentadora de tão bela e o Alentejo é estonteante de tão sedutor – mas não pode ser levado a sério nem devemos com ele assumir compromissos de longo prazo fruto de ser estouvado, gastador e com a mania das grandezas. Independentemente dos sopapos que o nosso Primeiro terá dado a sua Mãe (uma mentira pois um verdadeiro Homem do Norte jamais seria capaz de bater numa mulher, bem pelo contrário) o seu verdadeiro primeiro erro foi geográfico.

O problema de D. Afonso Henriques foi a falta de um estrolabio e não ter tido um consultor de comunicação. Nem, tão pouco, ter escutado os Deuses. Caso contrário, a tomada das terras galaicas, da actual Galiza, teria sido a estratégia seguida. O estrolabio indicaria, com precisão, o caminho a seguir (Tuy, Vigo, Pontevedra, Ourense, Lugo, Santiago, Corunha, Ferrol, em suma, o Alto Minho); o consultor de comunicação preparava toda a estratégia justificativa da opção tomada e os Deuses saberiam inspirar e convencer o jovem guerreiro da importância da empreitada. Foi uma tolice.

Por isso, neste primeiro semestre do Estrolabio, só espero que este instrumento de elevada precisão me possa ajudar a manter-me atento ao horizonte e perceber que a Sul está a beleza mas é a Norte que encontro a inspiração.

Por Toutatis, Pinto da Costa e Hulk, F.C.Porto, Celta de Vigo e Depor. Pelo Douro e Minho, sem esquecer, Abadín, Baxoi, Arnoi e Asma. Uma mesma Língua e Geografia, um mesmo Povo. Um grande abraço a todos os companheiros de blogue e aos nossos leitores neste primeiro semestre de existência!

sábado, 23 de outubro de 2010

A televisão, D. Afonso Henriques e o fado

Carlos Loures

Não me recordo precisamente de quando foi – há 15, talvez há 20 anos – num dicionário de História de Portugal cuja edição coordenei, na entrada sobre D. Afonso Henriques, dava-o como nascido no ano de 1109 em Coimbra. As gentes de Guimarães deram paus por pedras: não podia ser, exigiam que a editora publicasse um desmentido. Era uma «gralha»? – perguntavam alguns. Numa obra com diversos volumes, mais de um milhar de páginas, muitos milhares de entradas e milhões de palavras – e com prazos rigorosos a cumprir – quem coordena não pode ler tudo e, aquele pormenor tinha-me passado. E, mesmo que tivesse lido, talvez tivesse estranhado, mas teria de aceitar, pois quase todas as entradas tinham sido entregues a especialistas. Era o caso.

O autor da entrada era um credenciado medievalista da escola de José Mattoso, um jovem mas prestigiado professor da Universidade Nova de Lisboa. De Guimarães começaram a chegar à editora cartas, postais, telefonemas e até uma entrevista telefónica em directo tive de dar para a Rádio Fundação. Queriam desmentidos. Cheguei à fala com o autor e ele mostrou-se inamovível – não desmentia nada: se D. Afonso Henriques nasceu em 1109, não pode ter nascido em Guimarães - nesse ano a corte estava em Coimbra. Naquela época, não havia as «barrigas de aluguer» e os filhos nasciam onde as mães estavam. A administração apertava comigo – e lá estava este vosso amigo entalado entre o ardor do regionalismo vimaranense e a justificada teimosia da ciência histórica. Não vou fazer do episódio um romance policial. Vou já revelar como é que o imbróglio se resolveu porque o que quero contar é outra história.