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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Noctívagos, insones & afins - Ray Bradbury

O PEÃO

Ray Bradbury

Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de Novembro, pousar os pés sobre o sólido passeio de cimento, pisar as fendas com ervas, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as ruas banhadas pelo luar nas quatro direcções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só. Tomada uma decisão definitiva, escolhido um caminho, começaria a andar, soltando baforadas de ar congelado à sua frente, como o fumo de um cigarro. Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com as suas janelas escuras; era como caminhar por um cemitério, pois só leves clarões de luz fantasmagórica eclodiam por detrás das janelas. Súbitos e cinzentos espectros pareciam surgir sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-túmulo estava ainda aberta.

O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, os pés sem fazer ruído no pavimento irregular. Há muito que, prudentemente, passara a usar sapatos de ténis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam a sua caminhada com latidos, se usasse calçado com sola de couro, as luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, toda uma rua se alvoroçar com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de Novembro.

Nesta noite, em particular, tomara a direcção Oeste, rumo ao mar, invisível. Havia um frio cristalino no ar que cortava o nariz e fazia os pulmões arder por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava com prazer o calçado macio empurrando delicadamente as folhas de Outono, assobiava frio e baixinho, entre dentes, arrancando ocasionalmente uma folha de passagem, examinando o desenho esqueletal, à luz de um raro candeeiro público, enquanto caminhava, aspirando seu odor ferruginoso.

-- Ó da casa -- murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. -- O que passa hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Para onde estão correndo os "cow-boys", e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?

A rua silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, no meio de uma planície. Fechou os olhos, e permaneceu imóvel, gelado. Podia imaginar-se no meio de uma planície, numa pradaria americana, sem ventos, inverno, sem qualquer casa num raio de mil milhas - só leitos secos de rios, como aquelas ruas.
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-- E agora, o que temos? -- perguntou para as casas, olhando o relógio de pulso -- Oito e meia? Hora de uma dúzia de episódios de assassínios? Um concurso? Um musical? Um comediante tropeçando e caindo do palco?

Terá ouvido um murmúrio de risos, vindo de uma das casas brancas ao luar? Hesitou, mas continuou, quando nada mais aconteceu. Tropeçou numa irregularidade maior do passeio. O cimento estava a desaparecer, sob flores e mato. Em dez anos de caminhada, noite e dia, por milhares de milhas, nunca encontrara outra pessoa passeando, nunca, nem uma só vez. Chegou a um cruzamento deserto, onde duas avenidas principais atravessavam a cidade. Durante o dia, era uma trovejante corrente de carros, os postos de gasolina abertos, um grande farfalhar de insectos, e um incessante mudar de posição, enquanto os carros-escaravelho, uma névoa de incenso saindo dos tubos de escape, corriam para casa, nas mais diversas direcções. Mas agora, estas estradas, eram como os leitos de rios secos no Verão, banhados pelo luar.

Virou numa rua secundária, de regresso a casa. Estava a um quarteirão de chegar, quando, subitamente, um carro solitário dobrou a esquina e fez incidir um forte cone de luz branca sobre ele. Deteve-se, aturdido, como uma borboleta, atordoado pela luz, mas por ela atraído.

Uma voz metálica advertiu-o:

-- Fique onde está! Não se mova!

Parou.

-- Levante as mãos!

-- Mas... – disse ele.

-- Mãos para cima! Ou atiramos!

A polícia, claro, mais que coisa rara, incrível; numa cidade de três milhões de habitantes, restava só um carro de polícia, não era isso? Já havia um ano, desde 2052, o ano das eleições, que a força policial havia sido cortada de três para um carro. O crime estava a desaparecer; não havia necessidade de polícia, excepto este carro solitário vagueando pelas ruas desertas.

-- O seu nome? -- disse o carro, num chiado metálico. Ele não podia ver os guardas lá dentro, por causa da luz muito forte nos seus olhos.

-- Leonard Mead -- respondeu.

-- Mais alto!
- Lonard Mead!

-- Negócio, ou profissão?

-- Acho que me pode considerar um escritor.

-- Sem profissão -- disse o carro-patrulha, como que falando sozinho. A luz mantinha-o fixado como um espécime de museu, com uma agulha espetada no meio do peito.

-Pode-se dizer-se assim -- afirmou o Sr. Mead. Havia anos que não escrevia. Já não se vendiam livros e revistas. Tudo continuava como sempre nas casas-túmulos, à noite, pensou. Os túmulos, mal iluminados pela luz da televisão, onde as pessoas se sentavam como os mortos, as luzes cinzentas ou multicoloridas tocando suas faces, mas nunca tocando o seu íntimo.

-- Sem profissão -- chiou a voz fonográfica. – O que está a fazer cá fora?

-- A passear -- disse Leonard Mead.

-- A passear?

-- Só a passear -- disse, simplesmente, percorrido por um arrepio.

-- Passeando, passeando, passeando?

-- Sim, senhor.

-- Indo para onde? Para quê?

-- Para apanhar ar. Passeando para ver.

- A sua morada.

-- Onze, Sul, rua Saint James.

-- E não há ar na sua casa; o senhor não tem ar condicionado, Sr. Mead?

-- Sim.

-- E tem uma tela visora, na sua casa?

-- Não.

-- Não? -- Houve uma interrupção crepitante, que em si era já uma acusação.

-- É casado, Sr. Mead?

-- Não.

-- Não casado -- disse a voz policial atrás do facho, que queimava. A luz estava alta e clara, por entre as estrelas, e as casas escuras e silenciosas.

-- Ninguém me quis -- disse Leonard Mead, sorrindo.

-- Não fale, a menos que seja interpelado!

Leonard Mead esperou, sob a fria noite.

-- Apenas passeando, Sr. Mead?

- Mas ainda não explicou com que propósito.

-- Já expliquei; para apanhar ar, ver, e simplesmente pelo prazer de andar.

-- Já fez isso muitas vezes?

-- Todas as noites, há anos.

O carro-patrulha estava estacionado no meio da rua, com sua garganta de rádio zumbindo fracamente.

-- Bem, Sr. Mead -- disse.

-- Isso é tudo? -- perguntou, polidamente.

-- Sim -- respondeu a voz. -- Por aqui. -- Houve um sopro, e um estalido. A porta traseira do carro da polícia escancarou-se. -- Entre.

-  Olhe lá, eu não fiz nada!

-- Entre.

-- Protesto.

-- Sr. Mead.

Avançou como um homem subitamente embriagado. Ao passar pela janela dianteira do carro, olhou para o interior. Como esperava, não havia ninguém no assento dianteiro, não havia ninguém no carro.

-- Entre.

Pôs a mão na porta e olhou para o banco traseiro, que era uma pequena cela, uma pequena cela escura, com grades. Cheirava a aço rebitado e a anti-séptico forte; um intenso odor higiénico, metálico. Nada era macio, ali dentro.

-- Se tivesse uma esposa que lhe desse um álibi -- disse a voz de aço. -- Mas...

-- Para onde me vai levar?

O carro hesitou, ou melhor, houve um zumbido abafado, como se a informação, algures, fosse dada por cartões perfurados, e olhos eléctricos -- Ao Centro Psiquiátrico de Pesquisa sobre Tendências Regressivas.

Entrou. A porta fechou-se com um som abafado. O carro da polícia rodou pelas avenidas, a meio à noite, com os faróis acesos.

Passaram por uma casa, numa rua, um momento depois, uma casa, em toda uma cidade de casas escuras, mas esta casa, em particular, tinha todas as luzes bem acesas, cada janela uma berrante iluminação amarela, quadrada e quente na fria escuridão.

- Aquela é minha casa -- disse Leonard Mead.

Ninguém respondeu.

O carro foi pelas ruas vazias, como leitos de rios secos, afastando-se, deixando as ruas vazias, com os seus passeios vazios, sem som nem movimento, na fria noite de Novembro.

Extraído de E de Espaço © 1978 by Hemus-Livraria Editora Ltda -Título original: S is for Space © 1966 by Ray Bradbury

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Pronúncia do Norte

Fernando Moreira de Sá

Nestes tempos estranhos de crise leio muito blogger a culpar o D. Afonso Henriques desta nossa desdita. Eu, ignorante, atribuía a culpa a outras personagens, assim de raspão: José Sócrates, Teixeira dos Santos ou Pedro Silva Pereira. Afinal estava equivocado. Ou não.

Na verdade, nunca percebi a estratégia de D. Afonso Henriques. Ele preferiu rumar a Sul em vez de tomar o Norte. Reparem, o Sul é como um galanteador, uma espécie de vida paralela de visita esporádica. Nunca um compromisso eterno. No caso, um local de rara beleza – Lisboa é uma donzela de caracóis loiros e tentadora de tão bela e o Alentejo é estonteante de tão sedutor – mas não pode ser levado a sério nem devemos com ele assumir compromissos de longo prazo fruto de ser estouvado, gastador e com a mania das grandezas. Independentemente dos sopapos que o nosso Primeiro terá dado a sua Mãe (uma mentira pois um verdadeiro Homem do Norte jamais seria capaz de bater numa mulher, bem pelo contrário) o seu verdadeiro primeiro erro foi geográfico.

O problema de D. Afonso Henriques foi a falta de um estrolabio e não ter tido um consultor de comunicação. Nem, tão pouco, ter escutado os Deuses. Caso contrário, a tomada das terras galaicas, da actual Galiza, teria sido a estratégia seguida. O estrolabio indicaria, com precisão, o caminho a seguir (Tuy, Vigo, Pontevedra, Ourense, Lugo, Santiago, Corunha, Ferrol, em suma, o Alto Minho); o consultor de comunicação preparava toda a estratégia justificativa da opção tomada e os Deuses saberiam inspirar e convencer o jovem guerreiro da importância da empreitada. Foi uma tolice.

Por isso, neste primeiro semestre do Estrolabio, só espero que este instrumento de elevada precisão me possa ajudar a manter-me atento ao horizonte e perceber que a Sul está a beleza mas é a Norte que encontro a inspiração.

Por Toutatis, Pinto da Costa e Hulk, F.C.Porto, Celta de Vigo e Depor. Pelo Douro e Minho, sem esquecer, Abadín, Baxoi, Arnoi e Asma. Uma mesma Língua e Geografia, um mesmo Povo. Um grande abraço a todos os companheiros de blogue e aos nossos leitores neste primeiro semestre de existência!

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Edgar Allan Poe (1809 - 1849)

João Machado

Introdução

Passou no dia 7 de Outubro mais um aniversário da morte de Edgar Allan Poe. Ocorrida em circunstâncias que não estão completamente estabelecidas, pôs fim a uma vida difícil, recheada de dramas e dificuldades de toda a espécie. Entre elas, o do reconhecimento no seu próprio país, que só aconteceu bastantes anos depois.

Poe é hoje reconhecido como um dos vultos mais interessantes da literatura norte americana. E mesmo da literatura mundial. Contudo é famoso em primeiro lugar pelas histórias de terror e mistério que escreveu. Já o é menos pelo seu talento como poeta. E ainda menos por ter sido o criador da chamada detective story, que nós vulgarmente chamamos história policial, ou romance policial, e ser assim o precursor de Conan Doyle, Agatha Christie e tantos outros escritores famosos. E é muito pouco conhecido por ter sido um teorizador da literatura, à qual pretendeu mesmo dar um carácter científico.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Insones, noctívagos & afins - Ray Bradbury

O PEÃO



Ray Bradbury

Penetrar naquela quietude que era a cidade às oito horas de uma nebulosa noite de Novembro, pousar os pés sobre o sólido passeio de cimento, pisar as fendas com ervas, e andar, de mãos nos bolsos, pelos silêncios, era o que o Sr. Leonard Mead mais gostava de fazer. Ficaria numa esquina de um cruzamento, olhando as ruas banhadas pelo luar nas quatro direcções, decidindo por onde ir, mas realmente, não faria diferença; estava sozinho, neste mundo de 2053 a.D., ou, como se estivesse só. Tomada uma decisão definitiva, escolhido um caminho, começaria a andar, soltando baforadas de ar congelado à sua frente, como o fumo de um cigarro. Às vezes, andava durante horas, milhas, e voltava para casa só à meia-noite. E, no caminho, via casas, grandes e pequenas, com as suas janelas escuras; era como caminhar por um cemitério, pois só leves clarões de luz fantasmagórica eclodiam por detrás das janelas. Súbitos e cinzentos espectros pareciam surgir sobre as paredes das salas, onde uma cortina ainda estava aberta para a noite, ou cicios e murmúrios onde uma janela num edifício-túmulo estava ainda aberta.


O Sr. Leonard Mead parava, inclinava a cabeça, ouvia, olhava, e continuava a marcha, os pés sem fazer ruído no pavimento irregular. Há muito que, prudentemente, passara a usar sapatos de ténis para passear à noite, porque os cães, em alguns quarteirões, seguiriam a sua caminhada com latidos, se usasse calçado com sola de couro, as luzes poderiam acender-se, e rostos aparecer, toda uma rua se alvoroçar com a passagem de um vulto solitário; ele mesmo, no começo de uma noite de Novembro.

Nesta noite, em particular, tomara a direcção Oeste, rumo ao mar, invisível. Havia um frio cristalino no ar que cortava o nariz e fazia os pulmões arder por dentro, como uma árvore de Natal; podia-se sentir as luzes acendendo e apagando, os ramos cheios de uma neve invisível. Escutava com prazer o calçado macio empurrando delicadamente as folhas de Outono, assobiava frio e baixinho, entre dentes, arrancando ocasionalmente uma folha de passagem, examinando o desenho esqueletal, à luz de um raro candeeiro público, enquanto caminhava, aspirando seu odor ferruginoso.

-- Ó da casa -- murmurava para cada casa, por todo lado, enquanto passava. -- O que passa hoje no Canal 4; Canal 7; Canal 9? Para onde estão correndo os "cow-boys", e onde está a Cavalaria dos Estados Unidos, para sair daquela colina, e salvar a situação?

A rua silente, longa, vazia, apenas com a sua sombra movendo-se, como a sombra de um falcão, no meio de uma planície. Fechou os olhos, e permaneceu imóvel, gelado. Podia imaginar-se no meio de uma planície, numa pradaria americana, sem ventos, inverno, sem qualquer casa num raio de mil milhas - só leitos secos de rios, como aquelas ruas.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Insones, noctívagos & afins - O gato preto

Edgar Allan Poe

Não espero nem solicito o crédito do leitor para a tão extraordinária e no entanto tão familiar história que vou contar. Louco seria esperá-lo, num caso cuja evidência até os meus próprios sentidos se recusam a aceitar. No entanto não estou louco, e com certeza que não estou a sonhar. Mas porque posso morrer amanhã, quero aliviar o meu espírito. O meu fim imediato é mostrar ao mundo, simples, sucintamente e sem comentários, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram-me, torturaram-me, destruíram-me. No entanto, não procurarei esclarecê-los. O sentimento que em mim despertaram foi quase exclusivamente o do terror; a muitos outros parecerão menos terríveis do que extravagantes. Mais tarde, será possível que se encontre uma inteligência qualquer que reduza a minha fantasia a uma banalidade. Qualquer inteligência mais serena, mais lógica e muito menos excitável do que a minha encontrará tão-somente nas circunstâncias que relato com terror uma sequência bastante normal de causas e efeitos.

Já na minha infância era notado pela docilidade e humanidade do meu carácter. Tão nobre era a ternura do meu coração, que eu acabava por tornar-me num joguete dos meus companheiros. Tinha uma especial afeição pelos animais e os meus pais permitiam-me possuir uma grande variedade deles. Com eles passava a maior parte do meu tempo e nunca me sentia tão feliz como quando lhes dava de comer e os acariciava. Esta faceta do meu carácter acentuou-se com os anos, e, quando homem, aí achava uma das minhas principais fontes de prazer. Quanto àqueles que já tiveram uma afeição por um cão fiel e sagaz, escusado será preocupar-me em explicar-lhes a natureza ou a intensidade da compensação que daí se pode tirar. No amor desinteressado de um animal, no sacrifício de si mesmo, alguma coisa há que vai direito ao coração de quem tão frequentemente pôde comprovar a amizade mesquinha e a frágil fidelidade do homem.
Casei jovem e tive a felicidade de achar na minha mulher uma disposição de espírito que não era contrária à minha. Vendo o meu gosto por animais domésticos, nunca perdia a oportunidade de me proporcionar alguns exemplares das espécies mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixes dourados, um lindo cão, coelhos, um macaquinho e um gato.

Este último era um animal notavelmente forte e belo, completamente preto e excepcionalmente esperto. Quando falávamos da sua inteligência, a minha mulher, que não era de todo impermeável à superstição, fazia frequentes alusões à crença popular que considera todos os gatos pretos como feiticeiros disfarçados. Não quero dizer que falasse deste assunto sempre a sério, e se me refiro agora a isto não é por qualquer motivo especial, mas apenas porque me veio à ideia.

Plutão, assim se chamava o gato, era o meu amigo predilecto e companheiro de brincadeiras. Só eu lhe dava de comer e seguia-me por toda a parte, dentro de casa. Era até com dificuldade que conseguia impedir que me seguisse na rua.

A nossa amizade durou assim vários anos, durante os quais o meu temperamento e o meu carácter sofreram uma alteração radical – envergonho-me de o confessar – para pior, devido ao demónio da intemperança. De dia para dia me tornava mais taciturno, mais irritável, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Permitia-me usar uma linguagem brutal com minha mulher. Com o tempo, cheguei até a usar de violência.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Insones, noctívagos & afins - O conde Drácula

Woody Allen


Algures na Transilvânia, Drácula, o monstro, jaz adormecido no caixão à espera que a noite caia. Como a exposição aos raios solares lhe causariam, por certo, a morte, ele protege-se na câmara orlada a cetim, com o nome da família gravado a prata. Quando o momento da escuridão chega, através de algum instinto miraculoso, o Demónio emerge da segurança do seu esconderijo e, assumindo as abomináveis formas do morcego ou do lobo, vagueia pelos campos, bebendo o sangue das vítimas. Por fim, antes que os primeiros raios do seu arqui-inimigo, o Sol, anunciem um novo dia, regressa sem demoras à segurança do caixão escondido e dorme. O ciclo recomeça.

Ei-lo que começa a mover-se. O estremecimento das pálpebras é uma resposta a um qualquer instinto remoto e inexplicável que lhe diz que o Sol está prestes a ocultar-se e que é chegada a sua hora. Esta noite, sente-se particularmente esfomeado e enquanto permanece deitado, agora completamente desperto, com a capa e o casaco de Inverno debruados a vermelho, à espera de sentir, com misteriosa percepção, o preciso momento da escuridão antes de abrir a tampa e sair, decide quais vão ser as vítimas da noite. O padeiro e a mulher, pensa de si para si. Suculentos, disponíveis e insuspeitos. Pensar no incauto casal, cuja confiança tinha cuidadosamente cultivado, excita febrilmente o seu desejo de sangue e quase não consegue aguentar os últimos segundos antes de trepar para fora do caixão em busca da presa.

Subitamente apercebe-se de que o Sol se pôs. Como um anjo do Inferno, ergue-se com rapidez e, transformado num morcego, voa atabalhoadamente em direcção à casa das vítimas que longamente esperara.

- Conde Drácula, que bela surpresa – diz a mulher do padeiro, abrindo a porta para o deixar entrar.

(Tinha de novo assumido a forma humana, quando entrou na casa, dissimulando com charme os seus objectivos rapaces.)

- O que é que o traz cá tão cedo? – pergunta o padeiro.