Mostrar mensagens com a etiqueta jenny marx. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta jenny marx. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 22 de junho de 2010

Heresia: esse direito de Saramago e Ratzinger

Escultura de Gustaf Vasakyrkan em Estocolmo "Os santos triunfam sobre a heresia

…para José Saramago…



Heresia (do latim haerĕsis, por sua vez do grego αἵρεσις, "escolha" ou "opção") é a doutrina ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha (m) um sistema doutrinal organizado ou ortodoxo. A palavra pode referir-se também a qualquer "deturpação" de sistemas filosóficos instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros. A quem funda uma heresia dá-se o nome de heresiarca, ou linha de pensamento contrária ou diferente de um credo ou sistema de um ou mais credos religiosos que pressuponha (m) um sistema doutrinal organizado ou ortodoxo.

A palavra pode referir-se também a qualquer "deturpação" de sistemas filosóficos Instituídos, ideologias políticas, paradigmas científicos, movimentos artísticos, ou outros.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A religiosidade de Marx,as ideias de Lutero e os comentários de Ratzinger-3

Raúl Iturra


O domínio da terra tinha quatro direitos nos tempos do feudalismo e em sítios onde ainda hoje impera a enfiteuse, como na Beira Alta, em Portugal, no Sul de França e em terras ao pé da Cordilheira dos Andes, especialmente no sítio que estudo, Comunas da Pencahue, Corinto e Chanco : útil ou usufruto, directo ou propriedade, direito de uso e, o mais Chanco : útil ou usufruto, directo ou propriedade, direito de uso e, o mais importante para o proprietário privado e directo da terra, o direito de raiz, direito que define a vinculação de propriedade privada da terra entregue em enfiteuse ou usufruto . O direito de raiz era o mais cobiçado pela burguesia. A terra era entregue a habitantes rurais (trabalhadores que tomam a designação de caseiros ou rendeiros, entre outras, dependendo da parte do mundo em que os trabalhos rurais sejam exercidos) que a trabalhavam como se fosse deles, até ao ponto de a poder herdar (por várias gerações). Certo, e de direito legislado pelo Código Civil, é o dever de entrega de metade do fruto da terra ao proprietário directo (o do direito de raiz), como tenho definido em vários livros . Esta convenção entre o proprietário do direito de raiz e o usufrutuário ou quem goza de usufruto, era um problema económico histórico que preocupava Marx, Engels e a Liga Comunista. Para tratar deste e de outros assuntos, reuniram-se em Londres comunistas de várias nacionalidades, donde saiu o texto Manifesto, publicado em inglês, francês, alemão, italiano, flamengo e dinamarquês .

Marx, o ideólogo do Manifesto, refere o conceito religião em curtas frases. O objectivo era só referir as mudanças que experimentam as crenças ao longo do tempo. Engels mencionou apenas dois princípios básicos do comunismo e as suas consequências, assim: O trabalho industrial moderno, a sujeição do operário pelo capital, tanto em Inglaterra como em França, na América como na Alemanha, despoja o proletário de todo o carácter nacional. As leis, a moral, a religião são para ele meros preconceitos burgueses, por detrás dos quais se ocultam outros tantos interesses burgueses . Para provar o que ele já sabia, fez acrescentar, à redactora Jenny, estas palavras: Quanto às acusações feitas aos comunistas em nome da religião, da filosofia e da ideologia em geral, não merecem um exame aprofundado . Penso que Marx se enganou com este seu comentário. As acusações da burguesia eram tão fortes e de tanta falácia, que quer o Partido Comunista , quer a Liga Comunista precisaram de permanecer na clandestinidade. O nome dos autores do Manifesto Comunista, eram desconhecidos por todo o mundo, ainda mais, os dois eram membros membros da Liga. Poucos bovesianos de Marselha, membros da instituição que tinham solicitado a redacção de um Manifesto para honrar a Babeuf, conheciam a autoria. Essas 21 páginas foram publicadas como panfleto, por outras palavras, um folheto escrito em estilo violento, ou obra impressa de carácter não periódico, com mais de quatro e menos de 48 páginas, sem contar com as da capa. O segredo da autoria derivava da perseguição que a burguesia, já não revolucionária, fazia dos radicais revolucionários, quer do Partido Comunista (organizado por Marx), quer da Liga dos Comunistas, derivada dos princípios de Babeuf. Não apenas era real a ameaça de tirar os postos de trabalho aos membros da Liga ou de qualquer comunista (tal o medo de perder os sinecurismos ou prebendas adquiridas no seu triunfo na Revolução Francesa), bem como podiam ser mortos ou encarcerados. Foi a etapa mais dura para os socialistas durante a sua história. A burguesia tinha criado, organizado e investido nas indústrias , era proprietária de meios de produção que rendiam alto lucro. Controlava a circulação e a cunhagem da moeda, emprestava dinheiro com juros muito altos à aristocracia empobrecida, e apropriava-se dos bens dessa classe que ia definhando, até os títulos nobiliários para saldar contas foram comprados/adquiridos. Se a burguesia era revolucionária, fica em mim uma grande dúvida e aparece na minha cabeça a já citada frase do Príncipe Tomasi di Lampedusa: Para nos salvar, é preciso apoiar-nos entrelaçando mãos e interesses, ou eles nos submeterão à República. Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.

A luta de Marx contra a burguesia e a sua apropriação da mais-valia dos trabalhadores o fez confrontar um cientista que ele admirava e de quem tinha aprendido muito de teoria económica: o seu mestre por meio dos livros, François Quesnay, que defendia a burguesia de modo implacável. No seu livro de 1758 – há um engano na Wikipédia, diz que o texto foi publicado em 1778, quatro anos após a sua morte – livro que divide as actividades da forma que sintetizo em nota de rodapé .

Será preciso grande perspicácia para compreender que as ideias, as noções e as concepções, numa palavra, que a consciência do homem se modifica com toda mudança sobrevinda em suas condições de vida, em suas relações sociais, em sua existência social? Esta frase dos ideólogos do Manifesto é praticamente uma análise – de psicologia e de psicanálise. Marx sabia e entendia como está demonstrado em outros textos dele, especialmente em A Crítica a Filosofia do Direito de Hegel de 1843 e em A Ideologia Alemã de 1846, ao falar de alienação de bens retirados ao produtor e pagos pelo mais baixo valor que rende a sua produção, facto que transtorna as relações sociais, como é comentado no começo do Manifesto – é uma ironia para a burguesia não revolucionaria reparar que deve mudar porque o mundo não fica sempre igual. Existe a cronologia histórica, as invenções, as novas formas de pensar que, na época de Marx iam mudando com tanta rapidez, que estes intelectuais nascem e morrem na época das revoluções. Eles próprios, pessoas revoltadas contra o comportamento da forma de extrair mais-valia dos trabalhadores, com o modo de produção capitalista, definem essa História e a sua cronologia, da maneira seguinte: As relações de produção determinam todas as outras relações que existem entre os homens na sua vida social. As relações de produção são determinadas, elas próprias, pelo estado das forças produtivas... Esta parte do texto, a mim, o escritor, faz-me perguntar: o quê é forças produtivas? A resposta é dada por eles próprios, dentro do Manifesto:
Como todos os animais, o homem é obrigado a lutar pela sua existência. Toda luta supõe um certo desgaste de forças. O estado das forças determina o resultado da luta. Entre os animais, estas forças dependem da própria estrutura do organismo: as forças de um cavalo selvagem são bem diferentes das de um leão, e a razão desta diferença reside na diversidade da organização. A organização física do homem tem naturalmente influência decisiva sobre sua maneira de lutar pela existência e sobre os resultados desta luta. Assim como, por exemplo, o homem é provido de mãos. Certo é que seus vizinhos, os quadrúmanos (os macacos) também têm mãos; mas as mãos dos quadrúmanos são menos perfeitamente adaptadas a diversos trabalhos. A mão é o primeiro instrumento de que se vale o homem na luta pela sua existência, como ensinou Darwin.
É uma frase crítica para os que já todos tinham e queriam passar a ser parte do estabelecimento, e governar os seus países conforme a sua conveniência: Quando o mundo antigo declinava, as velhas religiões foram vencidas pela religião cristã; quando, no século XVIII, as ideias cristãs cederam lugar às ideias racionalistas, a sociedade feudal travava sua batalha decisiva contra a burguesia então revolucionária. As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento. Ideias do saber histórico e antropológico de Marx, aprendidas no Ginásio e na Universidade, especialmente enquanto era aderente as ideiam do religioso Hegel. Este parágrafo merece dois comentários. Um, sobre o que aprendeu de Quesnay. Outro, sobre a sua ideia de religião. Ele vivia na Prússia, onde o luteranismo era parte da política do Governo: endémico e centralizador. Foi ai onde começou o problema com as pessoas da confissão hebreia ou A Questão Judaica , pela que Marx se interessara e escrevera um artículo no seu jornal Deutsch-Französische Jahrbücher. O texto era um comentário a dois ensaios que Bruno Bauer tinha escrito sobre as más formas em que eram tratados os judeus na Prússia e nos Estados Alemães. Reclamava que para viver em paz judeus e cristãos, uma questão devia ser suprimida: a religião. No seu tom irónico, Marx responde que num Estado absolutista e confessional como era a Prússia, essa emancipação era impossível e que o que devia ser feito era emancipar os Estados Alemães do centralismo absolutista que imperava. Era impossível separar as religiões, especialmente as mais antigas, como a judaica, que tinha sido absorvida pelos cristãos. “A forma mais rígida de oposição entre o Judeu e o Cristão, é a contradição religiosa. Como se cria essa oposição à religião? Fazendo-a impossível. Como se faz impossível uma contradição religiosa? Neutralizando-a. Mal reconheçam Judeus e Cristãos que as suas respectivas religiões são apenas diferentes estágios da evolução da mente humana, diferentes viscosidades de serpente organizadas pela história, e que o homem é a serpente que as criou. As relações entre Judeus e Cristãos já não são mais uma questão religiosa, são apenas uma etapa crítica da história, da ciência e das relações humanas.


Porém, a ciência sabe organizar a sua unidade ”. Note-se como o autor não fala contra a religião.

Faz, isso sim, uma análise sócio -histórica da utilidade das ideias religiosas, que com o tempo, as circunstâncias, a ambição, mudam. O autor não critica a mudança, faz um comentário da sua utilidade para determinados seres humanos que lucram com o trabalho de outros que recebem deles salários pelo trabalho que rende lucro. Era o saber de Marx utilizado no Manifesto ao dizer que as religiões antigas são absorvidas pelas novas. Sabido é e provado está, que a hebraica começara a existir milhares de anos antes de, parte dela, passar a ser cristianismo, estrutura organizada faz apenas dois mil anos de atribulada existência, que Marx não menciona. O autor é historiador social e não teólogo. Sabia de teologia, mas encontrou uma teoria melhor, a do materialismo histórico. No entanto, foi a atribulada confissão que aplicara para a sua análise da vida social.....

terça-feira, 11 de maio de 2010

Genealogia de Karl Marx e a sua disciplina de vida.

Raúl Iturra
Marx Levi foi rabino de Trier (a mais velha e mais sonolenta das cidades alemãs), tendo casado numa família onde os rabinos se destacavam desde o século XVI. O filho mais velho de Marx Levi sucedeu-o como rabino de Trier, e seu filho mais jovem, Herschel Marx, seguiu carreira de advogado, casando-se também numa família de rabinos, com Henriete Presborck. É desse casamento que nasce, em Trier, na Prússia do Reno, Karl Marx, em 5 de Maio de 1818, segundo filho que sobreviveu de pais burgueses e judeus.


Frequentemente, em reacção contra as humilhações que os judeus tinham de suportar (vindas da burguesia alemã, sobretudo na Prússia), assim como as exclusões injustas de que eram vítimas (as leis prussianas vedavam os não - cristãos o serviço público e as profissões liberais. Não podiam atingir o grau de oficiais no exército, nem ser admitidos na magistratura, nem na carreira diplomática), os israelitas alemães adoptavam as doutrinas socialistas. Herschel Marx considerava-se tanto alemão quanto judeu, e provavelmente muito mais um homem do iluminismo. Era discípulo de Lessing e Kant, e era conhecido por todos o seu saber sobre Voltaire e Rousseau. Para poder exercer a profissão de advogado, tinha que se adequar ao sistema, e para isso, era necessário escolher entre mudar de fé ou de profissão. Não pensou duas vezes: em 1817 adoptou o nome cristão de Heirinch e foi recebido na Igreja Evangélica do Reino da Prússia. A sua mulher, rejeitou o baptismo para si, o clima intelectual do ocidente nada significava para ela, mas não pôde recusá-lo para os seus filhos. Mesmo assim, a conversão recente ao cristianismo não era sempre suficiente para fazer esquecer a origem dos convertidos. Embora fossem vários os problemas, no geral, a família era feliz. Heirinch conseguiu ser socialmente aceite e gozar de um certo sucesso. A mãe era dedicada aos cuidados da casa, ao dos oito filhos, que se davam bem, principalmente Sophie e Karl, os mais velhos e os mais admirados pelos pais.


Quanto mais Karl Marx crescia, mais adquiria o gosto paterno pela literatura e filosofia. Aos doze anos, numa dissertação de exame sobre a escolha de uma profissão, podemos observar uma fagulha, um prenúncio do Marx adulto: “Mas nem sempre podemos seguir a profissão pela qual nos sentimos inclinados. As nossas relações na sociedade já são condicionadas parcialmente antes que possamos determiná-las.” Porém, quem mais o influenciou durante a infância, nem foi o seu pai nem foi a escola, mas sim o seu filósofo e amigo Freiherr Ludwig von Westphalen, cuja casa ficava na mesma rua em que Marx morava. Ludwig von Westphalen era um aristocrata de meia-idade que possuía gostos bem próximos dos de Marx, como o prazer de ler Homero e Shakespeare, ou conversar sobre a literatura de meia dúzia de línguas. Foi de Westphalen que Marx ouviu falar de Saint-Simon.


Aos dezassete anos, Marx sai do Ginásio de Trier para a Universidade de Bona, onde estudou oficialmente direito, mas dava preferência às aulas de Schelegel sobre Homero. As suas leituras eram constituídas principalmente por mitologia e poesia. Pouco trabalhou, gastou muito dinheiro, foi preso por distúrbios nocturnos e, para completar o seu comportamento burguês, travou um duelo onde foi ferido acima do olho. Aproveitou ao máximo e em quase todos os sentidos, o seu primeiro ano na universidade.


No verão, ao voltar para casa, surpreende quer a sua família, quer o seu amigo e quase pai, Freiherr Von Westphalen, sem saberem o que pensar, quando pede consentimento para casar-se com Jenny von Westphalen, filha de Freiherr (para Marx, ela era a moça mais bonita da cidade!). No entanto, enquanto Karl não tivesse concluído seu curso e iniciado a vida profissional numa carreira lucrativa, o casamento, pelo menos para Heinrich, era praticamente impossível. Mesmo com as dificuldades aparentes, Freiherr não hesitou muito em dar o consentimento. Heinrich Marx foi quem mais se preocupou: sabia que uma paixão de mais ou menos um ano não era bastante para preencher um casamento entre um rapaz com dezoito anos de idade, pertencente à classe média e neto de rabinos, e uma aristocrata de vinte e dois anos de idade, neta do conselheiro do Duque de Brunswick e filha de uma Wishart. O pai optou por mandá-lo para a Universidade de Berlim, longe de Trier. Cidade em que acabou por descobrir um mundo completamente novo: uma metrópole com 320.000 habitantes, cheia de luz e de vida. Marx alugou um quarto na Leipzig – strasse.


Só e impossibilitado de trabalhar o estudo de direito, começou a aborrecê-lo. Não é, pois, de estranhar, que o primeiro ano em Berlim decorresse entre leituras variadas incompletas, enquanto aos estudos dedicava tempos mínimos e obrigatórios.


A ausência de Jenny era superada por meio dos horríveis poemas que lhe escrevia. Denotava-se, que diariamente, a sua organização da habitação e da sua higiene pessoal, atingia o máximo caos. Esse era Karl Heinrich, jovem, sem mulher, sem família e numa cidade estrangeira: um ser humano.


O texto, da autoria de Francisco Alvares Filho de Deus, estudante de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e Padre, é resultado de uma pesquisa sobre Karl Marx, realizada em Dezembro de 2000, e pode ser lido, com mais história, em: http://www.aversaoaoestado.hpg.com.br/destrocus/marx.htm
O texto, escrito em luso-brasileiro, foi transferido por mim para luso português.