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domingo, 31 de outubro de 2010

Ainda Mahler

Augusta Clara de Matos

Mahler sempre me levou e leva pelos ares. Não há outra música com que eu acompanhe a escrita, de forma rápida e escorreita, como com a de Mahler. Com que a minha sensibilidade se sinta confortada.

Mal soam os metais e os violinos, com o toque de fundo de um dedilhar de harpa, qualquer coisa me eleva e arrasta, a tal asa metálica que eu reconheço na sua música, evocando os mitos germânicos de “O Anel” de Wagner com o qual, provavelmente não terá nada a ver.

Sei lá se isto é verdade. Que mo digam os músicos. Acho que não passa de divagações de quem não percebe nada de técnica dos sons. Mas é o que eu sinto. Apenas posso perceber que a sua vida atormentada o tenha feito criar esta agreste e arrebatadora beleza.

Há força, há violência, mas é uma potência de vida inultrapassável. Uma verdade que não é permitido a ninguém questionar. É livre e selvagem como a vida quando é genuinamente vivida.

Mahler é como as ondas do oceano, como as asas de uma águia, como a erupção dos vulcões, como a paixão que nos explode no peito. Não é possível fruir esta música sem paixão, ou é melhor não a ouvir.

Quando oiço Mahler, alguém me sussura ao ouvido palavras de amor, de terna e forte sensualidade que chegam não se sabe donde nem onde regressam. Independentes de mim, vão pelos ares, montadas nessa asa, retornam à origem com o acrescento que a música de Mahler em mim lhes deu.

Feliz de quem as receba porque levam o meu coração por inteiro.
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Ouçamos o 3º andamento da Sinfonia No. 1 "Titan" de Mahler. Claudio Abbado, o grande maestro milanês, dirige a Filarmónica de Berlim num concerto realizado em Dezembro de 1989.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

África versus Mahler

Augusta Clara de Matos

Tinha pensado escrever sobre África mas, vergonhosamente tarde, descobri Mahler. E a minha felicidade disparou.

Quem opta pela dor perante o prazer?

Fui arrastada, arrasada, por esse fragor e fiquei à deriva. Uma ampla asa metálica levou-me pelos espaços e esqueci-me do discurso que tinha engendrado sobre aquela penosa realidade.

Não se pode ser feliz ao mesmo tempo que se constata a dor dos outros. É da natureza humana.


O que Ki-Zerbo defendia, também, era a felicidade para África. Não sabia era para quando.

Joseph Ki-Zerbo desmistificou a África exótica, dos cheiros e das cores, cujo rasto apenas encontrou na História da Europa, a propósito do comércio de escravos, quando estudava na Sorbonne.

O que ele queria para essa parte do mundo, onde a Humanidade se descobriu a si própria, à sua fala, à sua escrita, à sua música, era o reconhecimento duma genuinidade, ao contrário da vil classificação de Pré-História para todo o seu percurso vivencial. Pré-História da História Europeia, claro está, à qual não deixaria mais de estar ligada, mas apenas como um apêndice.