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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)

Carta a Alexandre Herzen*

Tenho a intenção de enviar a você, em breve, um jornal detalhado de meus factos e gestos, desde nosso último adeus da Avenida Marigny, mas hoje eu direi algumas palavras da minha presente situação. Preso um ano em Saxe, inicialmente em Dresde, depois em Königstein aproximadamente um ano em Praga, cinco anos em Olmutz, completamente acorrentado e, em Olmutz, até mesmo acorrentado ao muro, fui em seguida transportado para a Rússia. Na Alemanha e na Áustria minhas respostas às questões foram muito curtas: “Vocês conhecem meus princípios, eu os publiquei e fi-los conhecer em alta e inteligível voz; eu quis a unidade de uma Alemanha democrática, a libertação dos eslavos, a destruição de todos os reinos cimentados pela violência, antes de tudo, a destruição do império austríaco; apanhado de armas na mão, vocês têm muitos elementos para me julgar. Eu não responderei mais a nenhuma de suas questões”. Em Maio de 1851 fui transferido para a Rússia, directamente para a fortaleza Pedro e Paulo, na fortificação Aleksei, onde permaneci encarcerado por três anos. Dois meses após a minha chegada, o conde Orlov veio ver-me em nome do monarca. “O soberano me enviou a você e me ordenou dizer-lhe: “Diga-lhe que me escreva, como um filho espiritual escreve a um pai espiritual”; você quer escrever?” . O Czar Imperados era Nicolau I Romanov, que faleceu com Bakuninee em perseguição e foi sucedido pelos seu filho Alexandre II, que sentia estimação por este nobre tão perseguido e atrevido. Foi este o Imperador quem solicitara as suas Confissões. É conhecido por suas reformas liberais e modernizantes, através das quais procurou renovar a cristalizada sociedade russa.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Bakunine por Bakunine (Raúl Iturra)




Fragmento da confissão – carta ao czar Nicolau I



Não digo que eu fosse desprovido de amor-próprio, mas jamais este sentimento me dominou; ao contrário, fui obrigado a lutar contra mim mesmo e contra minha natureza toda vez que me preparava para falar publicamente ou mesmo para escrever para o público. Eu não tinha também esses vícios enormes, ao modo Danton ou Mirabeau, eu não conhecia essa depravação ilimitada e insaciável que, para se satisfazer, está pronta a chocar o mundo inteiro.

Se eu sofresse de egoísmo, este egoísmo seria unicamente necessidade de movimento, necessidade de acção. Sempre houve em minha natureza um defeito capital: o amor pelo fantástico, pelas aventuras extraordinárias e inauditas, acções abrindo à visão de horizontes ilimitados e das quais ninguém pode prever onde vai desembocar. Numa existência ordinária e calma eu sufocava, sentia-me mal em minha pele. Os homens procuram ordinariamente a tranquilidade e a consideram como o bem supremo; no que me concerne, ela me mergulhava no desespero; minha alma se encontrava em perpétua agitação, exigindo acção, movimento e vida.

Eu deveria ter no nascido em algum lugar nas florestas americanas, entre os colonos do Far West, lá onde a civilização está ainda em seu início e onde toda existência nada mais é do que uma luta incessante contra homens selvagens e contra a natureza virgem, e não numa sociedade burguesa organizada. Também, se desde minha juventude o destino tivesse querido fazer de mim um marinheiro, eu seria ainda hoje, provavelmente, um bom homem, eu não teria pensado na política e não teria procurado outras aventuras e tempestades a não ser as do mar. Mas o destino decidiu de outra forma e minha necessidade de movimento e de acção permaneceu insatisfeita. Esta necessidade, junta, em seguida, à exaltação democrática, foi, por assim dizer, minha única motivação. No que concerne a esta exaltação, ela pode ser definida em poucas palavras: o amor pela liberdade e um ódio invencível por toda opressão, ódio ainda mais intenso quando esta opressão dizia respeito a outra pessoa, e não a mim mesmo. Procurar minha felicidade na felicidade do outro, minha dignidade pessoal na dignidade de todos aqueles que me cercavam, ser livre na liberdade dos outros, eis todo meu credo, a aspiração de toda minha vida. Eu considerava como o mais sagrado dos deveres o de me revoltar contra toda opressão, fosse o autor ou a vítima. Sempre houve em mim muito de Dom Quixote, não somente na política, mas também em minha vida privada; eu não podia ver, com olhar indiferente, a mínima injustiça, e, por uma razão ainda mais forte, uma gritante opressão; algumas vezes, sem ter a competência nem o direito, eu me intrometi, de modo irreflectido, nos problemas dos outros e cometi, também, durante uma existência agitada, mas vazia e inútil, muitas bestialidades, incorri em muitas contrariedades e fiz inúmeros inimigos, sem odiar, por assim dizer, ninguém. Eis, Sire, a verdadeira chave de todos meus actos insensatos, de meus pecados e de meus crimes. Se falo disso com esta segurança e com esta clareza, é que eu tive durante estes dois últimos anos, bastante tempo para estudar a mim mesmo e para reflectir sobre meu passado; agora me vejo com indiferença, como se pode ver um moribundo ou um morto.



Petersburgo, Fortaleza Pedro e Paulo. 1851.