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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sobre a blague de a língua portuguesa ser “muito traiçoeira”


Manuel Simões

Não sei se foi o apresentador/humorista Herman José quem inventou esta expressão mas é ele quem a tem difundido com a intenção de pôr em evidência segundos sentidos de palavras cujo significado primeiro não tem referências de carácter obsceno ou licencioso. Mas a ele interessa-lhe vincar precisamente este aspecto e, não fosse o público não perceber, eis que recorre ao que já se tornou um lugar-comum que se ouve com muita frequência: “a língua portuguesa é muito traiçoeira”.



A convicção posta na utilização assídua e apodíctica deste lugar-comum parece querer conceder à língua portuguesa o exclusivo da ambiguidade e da polissemia de um grande número de palavras, o que é um tremendo disparate, antes de mais porque esta é uma característica essencial da linguagem, mais acentuada porventura na sua realização popular. E não é uma concessão dos deuses à língua portuguesa pela simples razão que é um aspecto distintivo de todas as línguas, não sendo de estranhar que se desenvolva mais acentuadamente em campos semânticos onde se pretende introduzir a “transgressão”. Isto quer dizer que, na sua realização concreta, ao referir-se a termos apercebidos com algum pudor, a língua utiliza eufemismos aparentemente inócuos, cuja função é a de atenuar a crueza da expressão ou a de provocar efeitos irónicos, desencadeando o riso ou enriquecendo a expressão literária que vive, como se sabe, de imagens e de metáforas. Como escreveu Eça de Queiroz de forma bem expressiva: “sobre a nudez crua da verdade o manto diáfano da fantasia”.