Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queiroz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eça de Queiroz. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O capital e a capital

Carlos Loures

Nesta semana da Economia, não queria deixar de abordar um tema afim. Escolhi falar sobre capital. Acontece que Capital é palavra com muitos significados. Das mais importantes acepções destaco duas, dois substantivos com géneros diferentes – o capital, acepção do foro da Economia; a capital, na área da geopolítica. Dois famosos livros, entre muitos outros, celebram cada uma das acepções - «O Capital», de Karl Marx, e «A Capital», do nosso Eça. Como adjectivo tem também a sua importância – pena capital, por exemplo, para quem a ela tiver sido condenado, assume uma dimensão transcendente. Muito mais dramático do que não ter capital ou ainda pior do que viver nos subúrbios da capital.

“A Capital”, de Eça de Queirós, foi um romance que viria, depois, a dar lugar à sua obra-prima «Os Maias». Refere-se à capital de Portugal – Lisboa. No seu livro, Eça relata as vicissitudes de um provinciano numa capital, também ela provinciana. Porque naquela época final do século XIX, tal como agora, a capital era um espelho do País. Como se cada país tivesse a capital que merece.
Terá sido a necessidade de centralizar, de criar estruturas como, por exemplo, a Casa da Mina e da Índias que levou à criação de uma capital .. Creio que não se utilizava ainda, no século XV, o termo «capital», mas Lisboa começou nessa altura, como maior cidade do País, a concentrar as funções de «cabeça do Império», pois ali se acumulavam todos os órgãos gestionários quer das frotas que demandavam os mares, execução de mapas (o termo «cartografia» só apareceu no século XIX), armazenamento das mercadorias que saíam e entravam, e toda essa complicada operação de logística que implicava infra-estruturas fixas.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (35)

Polémicas de Eça de Queiroz


(5 Volumes)

Organização de João C. Reis

Europress, 1985/1988

Por demasiado tempo as polémicas de Eça de Queiroz repousaram nos arquivos do silêncio. Todavia, nelas se depositava matéria fundamental para a compreensão da história da nossa cultura. O trabalho a que, em boa hora, João C. Reis deitou mãos, veio permitir um melhor conhecimento de um extraordinário período da construção da modernidade portuguesa. Páginas que se lêem e relêem com prazer, que se revivem, projectando-se por vezes para o nosso quotidiano. Por isso se diz que estas polémicas, estas páginas de polémica, são fundamentais e... ainda actuais.

O realismo e as ideias novas que, como dizia Eça, nos chegaram no comboio de Paris, abriram entre nós caminho com polémicas contra o romantismo dominante e feito reaccionário.
_______________

Portugal de Relance


Maria Rattazzi


Antígona, 2004

A PRINCESA RATTAZZI (1813-1883), como era designada, foi publicista, romancista, poetisa, autora também de textos dramáticos e tradutora, mas não entrou certamente para a galeria dos autores literários de grande, médio ou pequeno relevo. Todavia, em 1879 escreveu este livro, que desencadeou uma verdadeira tempestade em Portugal, na qual intervieram, entre muitos outros, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental e Ramalho Ortigão. Espelho da sociedade portuguesa do século XIX, nele ainda hoje se reflecte arrebatadamente o país.
“As páginas que vão ler-se são simples apontamentos de viagem. Disse o que vi; e o que vi, descrevi-o ou contei sem me prender com as pessoas, nem com o que elas pudessem pensar. Só por este modo se faz trabalho sério; e não recuando nunca ante a expressão da verdade, quis sempre ser útil, mesmo àqueles que não receei julgar com uma certa liberdade.”
_________________

Portugal e a Comuna de Paris


Ana Maria Alves


Editorial Estampa, 1971

Enquanto em Paris o proletariado revolucionário proclamava o primeiro governo socialista, a burguesia portuguesa que frequentava o Passeio Público e o Circo Price indignava-se e alarmava-se sobre o seu futuro e o da Europa. Mas o país não tinha apenas monárquicos; os republicanos e os socialistas apoiam de longe a grande revolução precursora.
Este livro é uma sondagem pela imprensa da época, narrando-nos a forma como a população portuguesa viveu a Comuna e como a interpretou. Conta-nos também como se forja uma campanha anti-socialista como se cria um espírito de «salvação pública»; como se fez em Portugal uma das primeiras «cruzadas» contra o comunismo, em moldes iguais aos que depois tantas vezes foram utilizados.

_________________

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (23), por José Brandão

Imagens do Portugal Queirosiano



Campos Matos

Terra Livre, 1976

Seja como for, mesmo que estas ruas e estas paisagens rurais sejam menos verídicas do que o real imaginário de Eça, a verdade é que o autor do Portugal Queirosiano ajuda-nos, por um lado, a rever sítios e atmosferas que o olhar de Eça visitou e fixou na tela absoluta do seu verbo, e, pelo outro, a passar em revista algumas das mais betas paisagem portuguesas. Neste sentido, o presente trabalho tem um valor intrínseco que subsistiria mesmo que não fosse mediado pelo talento de Eça: permite-nos descobrir um Portugal familiar e recôndito que a obra queirosiana transvazara para o seu mundo próprio e singular. É Portugal que aqui desfila, em dois planos: no do verbo criador de almas que foi Eça, na objectiva remadora que agora, seguindo-lhe as pistas óbvias e menos óbvias, desfila para nosso deleite e encanto.
_________________

A Indústria Portuguesa


Subsídios para a sua História

Esteves Pereira

Guimarães Editores, 1979

A presente edição compõe-se de três ensaios publicados na revista O Ocidente.

Uma brochura de 1900 retomava os Progressos da Indústria e Sobre as Corporações com a redacção ligeiramente modificada. O estudo sobre o movimento corporativo antecedia agora o ensaio dedicado aos progressos. A paginação obedecia a um critério metodológico, como facilmente se depreende. Acompanhavam ainda a reedição onze páginas inéditas, discorrendo sobre a logografia industrial, reprodução escrita do progresso das indústrias, formando um conjunto de conhecimentos relativos ao desenvolvimento material da civilização», segundo a definição adoptada pelo autor. Decidimo-nos pela sua supressão, retomando a redacção de O Ocidente, não deixando porém de assinalar que, se a logografía está hoje ultrapassada, a preocupação de racionalizar o estudo da actividade industrial…

______________________


Instauração do Liberalismo em Portugal

Victor de Sá

Livros Horizonte, 1987

Visão global desse período conturbado que foi no século passado a transformação da sociedade senhorial para a sociedade burguesa e capitalista, instaurada pela Revolução Liberal, neste volume interferem também os factores da descolonização americana (independência do Brasil), das interferências estrangeiras e das movimentações populares. Estas são imprescindíveis à compreensão do Portugal contemporâneo que hoje nos envolve a todos.

Considerando que a história é geralmente escrita pelos vencedores, procura-se aqui ultrapassar as limitações ditadas pelas versões de cronistas oficiais ou oficiosos. O que era a “liberdade” que eles cantavam? Quem era o “povo” que glorificavam?

Neste volume procura-se obter uma visão mais ampla dos acontecimentos relatados e explicações racionalmente mais aceitáveis.

______________________

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (18), por José Brandão

As Farpas


Eça de Queiroz
Ramalho Ortigão

Principia, 2004


A presente edição dos textos que, sob o título As Farpas, foram publicados em 1871-1872 visa um duplo propósito: por um lado, proporcionar a quantos se interessam pelos estudos queirosianos a oportunidade, até hoje inexistente, de poderem dispor da sua edição original; por outro lado, dar a conhecer ao grande público, na sua pureza, uma obra que, na versão conhecida sob o título de Uma Campanha Alegre, se apresenta diferente e editada de forma descuidada.
Diz Maria Filomena Mónica que As Farpas marcaram uma época, o que não nos deve surpreender dada a sua originalidade, fruto da “raiva sentida por uma nova geração diante da burguesia que se instalara no poder após a Regeneração de 1851”.

__________________

Fialho D’Almeida
Um Decadente em Revolta

Lucília Verdelho da Costa


Frenesi, 2004



É SEMPRE DIFÍCIL EXPLICAR por que razão nos interessamos por um autor, e não por outro. Fialho de Almeida é, sem dúvida, um dos intelectuais mais notáveis de finais do século XIX mas também, e injustamente, um dos mais esquecidos. Fialho foi um dos primeiros a contribuir para tal fenómeno: é que ele foi, quis ser, um escritor marginal. Este desiderato não obstou a que, do ponto de vista literário, a sua obra não se tivesse já prestado a bastantes ensaios. No entanto, é sempre o contista que tem merecido a atenção dos estudiosos. As suas crónicas não mereceram ainda a atenção devida, tanto pelo seu estilo como pelo seu conteúdo.
O nosso propósito é o de evidenciar como, através delas, e também dos seus contos, se afirma o pensamento de Fialho sobre a sociedade em que viveu e o seu grito de revolta com o qual construiu o mito do génio incompreendido, à margem do mundo das letras, que foi o primeiro a forjar.
______________________


Figuras Gradas de A Voz do Operário

Raul Esteves dos Santos


Lisboa, 1936

Entre os factos que um maior significado imprimem à comemoração do 58.° aniversário do nosso jornal e ao 53.° da fundação desta Sociedade, destacam-se, pelo invulgar brilho que lhe empresta, a inauguração solene de duas lápidas em que se esculpiram o nome de algumas das personalidades, que mais relevantes serviços prestaram em vida a esta «Grande Catedral do Bem».

A inauguração de duas lápidas corresponde a uma sentida homenagem de saudade e um preito de justiça, promovida por uma Instituição que um grupo de honrados cabouqueiros há mais de meio século idealizou o, com as bagas do seu amargurado suor, ergueu tão alta e tão forte que aqueles que a contemplam são forçados a olhá-la com a mais respeitosa das admirações.
Não será demais afirmar que só o povo humilde e sofredor cultiva em alto grau o espírito de justiça. Só ele possui a admirável intuição que lhe faz adivinhar o segredo das almas.
_____________________

sábado, 23 de outubro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (15), por José Brandão

Eça de Queirós Jornalista


Elza Mine

Livros Horizonte, 1986




UMA EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA


Este texto, como muitos, tem uma longa história. Resultado de uma pesquisa que iniciei na Inglaterra em 1965/1966, apresentei-o inicialmente em Março de 1970 como tese de Doutoramento na Universidade de São Paulo.

Além de escritor de ficção, Eça de Queirós foi também um grande jornalista, tendo desenvolvido esta actividade em dois campos distintos: os folhetins que escreveu para os jornais, muitos dos quais foram depois transformados em livros de ficção, e os artigos jornalísticos propriamente ditos, que vão da análise de costumes a colunas de opinião, da reportagem de guerra a escritos satíricos, de recensões críticas de livros a obituários de estadistas.
___________________


Elementos de História Económica Portuguesa


Carlos Alberto S. Nogueira

Amadora, 1994

A escassez de textos básicos levou-nos à elaboração deste trabalho, fruto da reflexão levada a cabo ao longo de 1992, em que procuramos fornecer aos estudantes das cadeiras – que, aliás, no-lo solicitaram com insistência – de História Económica Portuguesa e/ou História Económica e Social, um auxiliar de estudo que, de algum modo, complete o registo oral do processo ensino-aprendizagem.

As “leituras” que englobamos visam facultar – nomeadamente aos estudantes-trabalhadores – o acesso, nem sempre fácil, a determinadas obras.

Há temas cujo estudo ainda está por aprofundar, como sejam: alimentação, ciência e evolução tecnológica, comércio retalhista, história das empresas. Industrialização, salários, transportes, trabalho, etc., os quais poderão e deverão ser investigados embora sejam de conhecimento geral a falta de condições de trabalho e de estruturas adequadas.

O Autor
_________________________


Elementos Para História Movimento Operário em Portugal

1º Volume 1820-1929

Ramiro da Costa


Assírio & Alvim, 1979


Fazer a história do movimento operário em Portugal não é uma tarefa fácil. E sobretudo depois de 48 anos de fascismo, que com uma meticulosa acção o procurou apagar da face da história portuguesa. Sem o conseguir. Mas destruindo documentos, informações, impedindo os estudos. Remetendo-o à clandestinidade, como forma de garantir a acumulação da burguesia.

Mas não foi apenas o fascismo que objectivamente procurou impedir o conhecimento da história do movimento operário. Também os historiadores da burguesia liberal, apesar da sua oposição ao fascismo, escamoteiam cuidadosamente a existência do movimento operário. Ou reduzindo-o à acção de intelectuais, que mais ou menos a ele estiveram ligados, ou apagando-o mesmo das suas histórias e estudos.
____________________

Elementos Para História Movimento Operário em Portugal

2º Volume 1930-1975

Ramiro da Costa

Assírio & Alvim, 1979

Classe operária que não surgiu à luz do dia em 25 de Abril de 1974. Cuja actividade não se resume é República. Mas que tem atrás de si toda uma história e tem por si o futuro.

Se quiséssemos resumir essa história, podíamos dizer que ela é a história da luta da classe operária por uma direcção própria e independente, que corresponda aos seus próprios objectivos. Ou, de outro modo, de como direcções que correspondiam aos interesses de outras classes, foram sendo sucessivamente rejeitadas, no processo clarificador da luta de classes.

De 1820 a 1871, o movimento operário português que surge à luz do dia, está submetido à influência das ideologias utópicas da burguesia e pequena burguesia. Extremamente reduzido, o operariado português é uma pequena mancha no conjunto das classes da sociedade portuguesa.

___________________

sábado, 16 de outubro de 2010

Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (8), por José Brandão

Cartas Inéditas de Eça de Queiroz


Beatriz Berrini

O Jornal, 1987

O presente volume inclui, em Apêndice, cartas de outros missivistas e, num caso, carta não dirigida a Batalha Reis, porém a Antero de Quental. No Espólio estão muitas outras cartas de Antero, de Emília de Castro Eça de Queiroz, de Ramalho Ortigão, Eduardo Prado, Domício da Gama etc., além, é claro, dos rascunhos do próprio Batalha Reis. Isto quer dizer que somente seleccionamos para esta publicação algumas cartas não da autoria de Eça, mas que, uma forma ou de outra, pareceram-nos trazer algum contributo para elucidação de incidentes relatados ou simplesmente mencionados na correspondência de Eça para Batalha Reis. O objectivo que se teve divulgando tais cartas, portanto, foi o de torná-las mais compreensíveis e o de permitir que fossem apreciadas de outro ângulo de visão. Atingem, tais missivas, um total de dez (Apêndice), mais os fragmentos de outras incluídos nas notas que acompanham esta edição.

__________________
 
Causas da Decadência
dos Povos Peninsulares
nos Últimos Três Séculos

Antero de Quental

Editorial Nova Ática, 2005


Meus Senhores:

A decadência dos povos da Península nos três últimos séculos é um dos factos mais incontestáveis, mais evidentes da nossa história: pode até dizer-se que essa decadência, seguindo-se quase sem transição a um período de força gloriosa e de rica originalidade, é o único grande facto evidente e incontestável que nessa história aparece aos olhos do historiador filósofo. Como peninsular, sinto profundamente ter de afirmar, numa assembleia de peninsulares, esta desalentadora evidência. Mas, se não reconhecermos e confessarmos francamente os nossos erros passados, como poderemos aspirar a uma emenda sincera e definitiva? O pecador humilha-se diante do seu Deus, num sentido acto de contrição, e só assim é perdoado. Façamos nós também, diante do espírito de verdade, o acto de contrição pelos nossos pecados históricos, porque só assim nos poderemos emendar e regenerar.

__________________
 
Cem Anos de Esperança


Isabel Soares (coordenação)

Lisboa, 1979

Desde há mais de cem anos uma esperança abala a terra: o socialismo democrático. Tão velho como a revolta contra a opressão e a desigualdade – como lembrou Antero – o socialismo desenvolveu-se, como teoria, ao longo do século XIX e ganhou uma dimensão universal e de múltiplas facetas durante o nosso século. Nascido das próprias contradições do capitalismo – incapaz, como este se tem revelado, mesmo nas sociedades industriais avançadas, de resolver os problemas sociais fundamentais do homem – o socialismo corresponde hoje às aspirações de muitos milhões de seres humanos, a uma maior justiça social e igualdade e ao incontido desejo de construir uma sociedade livre, de progresso e, sobretudo, fraterna.

_________________________

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal (José Brandão)

-


Camilo Castelo Branco nasceu em Lisboa, a 16 de Março de 1825, na Rua da Rosa, filho ilegítimo de Manuel Joaquim Botelho e de Jacinta Rosa do Espírito Santo, uma sua criada. Antes de Camilo, tinha já nascido uma outra filha do casal, Carolina. No ano seguinte, a família mudou-se para a Rua da Oliveira.

A sua vida foi atribulada: ficou órfão bastante cedo, tendo passado a viver, primeiro com uma tia, em Vila Real, depois com uma irmã, período de que data a sua aprendizagem literária.

A mãe morreu em 1827 e o pai perfilha Camilo e a irmã dois anos depois, em 1829. Camilo iniciou os estudos primários em Lisboa (1830), na escola de mestre Inácio Minas, situada na Rua dos Calafates, e depois na escola de Satírio Salazar, na Calçada do Duque.

Os parentes decidem confiar a educação dos dois órfãos a uma tia paterna, Rita Emília — uma das personagens de Amor de Perdição —, e os dois regressam, por isso, a Vila Real (1836). Quando a irmã se casa (1839), instala-se com o marido em casa de um cunhado, o P. António de Azevedo, em Vilarinho de Samardã, nas proximidades de Vila Real. Camilo acompanha-a e recebe do P. António uma educação literária e religiosa tendente ao estado clerical; terá então sido iniciado nos clássicos portugueses e adquiriu os conhecimentos básicos de latim e francês. Simultaneamente contactou de perto com a vida rural, que depois iria descrever em algumas das suas novelas.

Com apenas dezasseis anos (1841), Camilo casa com Joaquina Pereira de França e instala-se em Friúme (Ribeira de Pena). O casamento precoce parece ter sido resultado de uma mera paixão juvenil, não tendo resistido muito tempo. No ano seguinte prepara-se para ingressar na Universidade, indo estudar com o Padre Manuel da Lixa, em Granja Velha.

Em 1843 nasce a sua filha Rosa e decide inscrever-se na Escola Médica do Porto. Nos anos seguintes frequenta irregularmente as aulas e chega mesmo a perder o ano por faltas, em 1845. Pensou ainda em matricular-se no curso de Direito, em Coimbra, mas o projecto não teve continuidade. Nesse mesmo ano faz a sua estreia literária com o poema herói-cómico Pundonores Desagravados

Em 1846 encontra em Vila Real a jovem Patrícia Emília de Barros — sua prima — e foge com ela para o Porto, sendo perseguido pela justiça, em resultado da queixa dos parentes da moça. Passa a colaborar nos jornais O Nacional e o Periódico dos Pobres. Escreve a peça Agostinho de Ceuta, que é representada pela primeira vez num teatro de Vila Real.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sobre a blague de a língua portuguesa ser “muito traiçoeira”


Manuel Simões

Não sei se foi o apresentador/humorista Herman José quem inventou esta expressão mas é ele quem a tem difundido com a intenção de pôr em evidência segundos sentidos de palavras cujo significado primeiro não tem referências de carácter obsceno ou licencioso. Mas a ele interessa-lhe vincar precisamente este aspecto e, não fosse o público não perceber, eis que recorre ao que já se tornou um lugar-comum que se ouve com muita frequência: “a língua portuguesa é muito traiçoeira”.



A convicção posta na utilização assídua e apodíctica deste lugar-comum parece querer conceder à língua portuguesa o exclusivo da ambiguidade e da polissemia de um grande número de palavras, o que é um tremendo disparate, antes de mais porque esta é uma característica essencial da linguagem, mais acentuada porventura na sua realização popular. E não é uma concessão dos deuses à língua portuguesa pela simples razão que é um aspecto distintivo de todas as línguas, não sendo de estranhar que se desenvolva mais acentuadamente em campos semânticos onde se pretende introduzir a “transgressão”. Isto quer dizer que, na sua realização concreta, ao referir-se a termos apercebidos com algum pudor, a língua utiliza eufemismos aparentemente inócuos, cuja função é a de atenuar a crueza da expressão ou a de provocar efeitos irónicos, desencadeando o riso ou enriquecendo a expressão literária que vive, como se sabe, de imagens e de metáforas. Como escreveu Eça de Queiroz de forma bem expressiva: “sobre a nudez crua da verdade o manto diáfano da fantasia”.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Eça de Queiroz - Era mesmo bruxo!



Eça de Queirós, em 1872, escreveu nas Farpas:



"Nós estamos num estado comparável sómente à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesma trapalhada económica, mesmo abaixamento de caracteres, mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá ...vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se a par , a Grécia e Portugal".


Parece que era bruxo!