quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Arte poética: António Salvado,Domingos da Mota e Joan Vinyoli



António Salvado
(Castelo Branco, 1936)

A POESIA


Difícil, estreita passagem,
força quente perscrutada,
corpo de névoa, de imagem,
com sulcos de tatuagem,
voz absoluta escutada...

Destino de aranha, tece
com fios vários da vida
alegria se amanhece
ou chora se a luz fenece
pela noite perseguida.

Intimidade exterior,
pureza de impuras formas,
conhecimento e amor,
água límpida, estertor,
sem regras feita de normas.

(Difícil Passagem)

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Domingos da Mota
(Cedrim, Vale do Vouga, 1946)
ARTE POÉTICA

Um poema tomara: e que fosse
à raiz das raízes ou mais alto,
temporão ou serôdio: e se precoce
que andasse por aí em sobressalto

a abalar, a criar desassossego,
mesmo à beira da fonte d'água pura,
desvelasse o mais íntimo do ego
e mostrasse o porquê da abrasadura

que ferra este pobre zé-ninguém,
pois em busca de rumo perde o passo
(com a perna mais curta vai além

do que pode o seu pé e o seu braço):
um poema tomara eu fazer
que fosse ao coração do próprio ser.


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Às 22:00, chegam três poemas

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Às dez esperamos por Luís Filipe Castro Mendes, Raúl Iturra e Octavio Paz. Vão chegar às 22:00 em ponto.
Joan Vinyoli
(Barcelona, 1914—1984)

NO RES, UN FUM


La poesia allunya de les aparences
i fa propera la realitat.
Memòria: perdre’s com un dellà
que és sols l’aquí, darrera
cortines transparents.
I què veus?
No res, un fum.
En veritat us dic
que no es fa res en veritat sinó
per la paraula creadora de silenci.

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