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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010





Os poetas. ladrões de fogo ou artífices do verbo?

Carlos Loures

Definir a natureza da arte poética, é, como poderemos ver no apreciável painel que vamos expor na nossa “maratona poética”, uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, Horácio, Boileau, milhares de filósofos e de poetas discorreram sabiamente sobre este tema. Teremos oportunidade de, nas 24 horas do dia 8 de Setembro, ler 72 textos – poemas, textos poéticos, citações… Uma ampla panorâmica sobre esse tema tão discutido ao longo dos séculos.

“Ladrões de fogo” foi uma designação que usei num texto que publiquei na revista “Pirâmide” , da qual já aqui tenho falado. Nesse texto comparo os poetas a Prometeu. O poeta é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra cria a beleza para a ofertar aos homens. A comparação faz sentido, é sugestiva, mas talvez haja outra, menos bela, mas não menos verdadeira. Vejamos.

O poeta produz esta magia usando palavras comuns e não palavras mágicas. Esta capacidade de, com palavras usadas no dia a dia, construir um poema, pode conduzir-nos à tal conclusão, complementar da primeira – além de mago, o poeta é um artífice.

A comparação com Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou, como também já li algures, com Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso, é muito bonita. Mas equipará-lo a um trabalhador leva-nos a uma imagem , menos “poética” no sentido convencional, mas mais integradora da arte poética no quotidiano.: -o poeta é um artífice. A expressão «artes e ofícios» tem aqui pleno cabimento - o poeta é, portanto, um homem comum, um artista como um sapateiro ou um alfaiate o são. Em vez de cabedal ou de tecido, usa palavras, sentimentos e conceitos como matéria prima. Ofício: poeta. Daria lugar a conversas como esta: - "Ah, sim o Jorge. Olha, foi colocado como poeta na Covilhã".

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010






Mais um pensamento que outra coisa




Adão Cruz

De vez em quando dou comigo a pensar, o que não é mau. Às vezes chateia, porque o pensamento é teimoso. Não desanda de maneira nenhuma da cabeça para fora, e a gente tem outras coisa em que…pensar. Volto novamente à poesia, não para entrar em polémica com o meu querido amigo Carlos Loures, mas porque é um bichinho que me morde constantemente, sobretudo porque não deixamos de a provocar. Estamos sempre a espicaçá-la.

Eu sei que gosto muito de poesia, gosto de tentar fazer poesia, mas não sou um letrado em poesia. Aquilo que digo é fruto do que sinto e não propriamente do que sei, que é muito pouco. Muitas vezes digo para comigo, mas que chachada esta, que valor tem eu estar aqui a perder tempo com este jogo de palavras, quando há tantas coisas úteis para fazer! Sinto que é a altura de beber um copo de bom tinto. A minha droga sublime.


Na realidade, o que eu sinto é que é muito difícil alguém saber o que é a poesia, desde a antiguidade aos tempos de hoje, embora toda a gente tenha o direito de emitir a sua opinião. Até hoje, nenhuma explicação, das que tenho lido, me deixou satisfeito. E já agora, gostaria de dizer que sendo eu materialista, em todo o sentido científico e filosófico do termo, não admitindo qualquer dualidade corpo-espírito, penso que a única explicação do que é a poesia poderá vir a ser dada quando a neurobiologia do espírito for elevada a ciência incontestável, como espero. A partir do substracto fisiológico e neuronal, poderá perceber-se, creio, de onde emerge o seu valor e significado estético e sentimental.


Por outro lado penso que beleza e poesia são duas irmãs gémeas. Creio que esta identidade gemelar entre beleza e poesia é uma realidade, ainda que a beleza e a poesia às vezes joguem às escondidas. Se estamos frente a uma realidade concreta, e nos identificamos com ela como objecto da realidade quotidiana, então “convivemos” com ela, dentro dos horizontes sempre limitados de uma realidade, sem preocupações de dimensão universal. Nestas circunstâncias, muito facilmente se pode passar ao lado da beleza, ainda que ela lá esteja, e muito mais ao lado da poesia, se não formos capazes de sentir o seu perfume.

Se a obra que temos na frente, ainda que representativa de uma natureza real, passa além da realidade concreta, levada pela mão da poesia, isto é, ultrapassa a fronteira para além da qual o homem se atreve a pôr o pé na sua dimensão universal, então não convivemos com ela, mas “contemplámo-la” como arte, e, logicamente, como manifestação de beleza. Porque a beleza e a poesia, quer queiramos quer não, residem na maior ou menor capacidade que o homem tem de se projectar para fora dos horizontes da sua natural tendência antropocêntrica.



(Ilust.Adão Cruz)


quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Arte poética: Luis Filipe Castro Mendes,Raúl Iturra,Octavio Paz

Luis Filipe Castro Mendes
(Idanha-a-Nova, 1950)


CRÍTICA DE POESIA

Que a frenética poesia me perdoe
se a um baço rumor levanto o laço,
pois que verso não há onde não soe
a música discreta doutro espaço.

Horizonte do verso é a dureza:
já mansidão não cabe neste olhar
que se pousa na faca sobre a mesa
e aprende nela o fio do seu cantar.

Mas se olhar nela pousa, como corta?
E se as palavras sabemos retomar,
quem nos devolve a chave dessa porta
onde a herança está por encerrar?

Tão longe está de nós a poesia
como nuvem nos rouba a luz do dia.

 (Viagem de Inverno)

____________________



Raúl Iturra
(Chile, 1942)



A POESIA



Conheci-a um dia, nada pedi, mas foi-me dado tudo

Em troca de emotividade, paixão e amor

Os sentimentos são apenas passíveis de exprimir

Através da arte poética, que nos comove

Faz-nos felizes, com ou sem razão.

A arte poética não pensa, faz pensar

A arte poética não beija, faz beijar

A arte poética é o prelúdio de canções sem palavras

Arte que sem palavras, apenas música,

Não permitia a paixão que nos devora

Devora-nos ao longo da vida, dá felicidade e alegria

Vivemos graças à arte poética

__________________________







Octavio Paz

(Cidade do México, 1914-1998)


DESTINO DEL POETA


¿Palabras? Sí, de aire,
y en el aire perdidas.


Déjame que me pierda entre palabras,
déjame ser el aire en unos labios,
un soplo vagabundo sin contornos
que el aire desvanece.

También la luz en sí misma se pierde.


DESTINO DE POETA



Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.

Também a luz em si mesma se perde.

 (Liberdade sob Palavra)

Tradução de Luis Pignatelli

_______________________

"La Poesía" é uma obra emblemática do grande poeta mexicano Octavio Paz. Apresentamos uma gravação desse famoso poema.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Arte poética: António Salvado,Domingos da Mota e Joan Vinyoli



António Salvado
(Castelo Branco, 1936)

A POESIA


Difícil, estreita passagem,
força quente perscrutada,
corpo de névoa, de imagem,
com sulcos de tatuagem,
voz absoluta escutada...

Destino de aranha, tece
com fios vários da vida
alegria se amanhece
ou chora se a luz fenece
pela noite perseguida.

Intimidade exterior,
pureza de impuras formas,
conhecimento e amor,
água límpida, estertor,
sem regras feita de normas.

(Difícil Passagem)

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Domingos da Mota
(Cedrim, Vale do Vouga, 1946)
ARTE POÉTICA

Um poema tomara: e que fosse
à raiz das raízes ou mais alto,
temporão ou serôdio: e se precoce
que andasse por aí em sobressalto

a abalar, a criar desassossego,
mesmo à beira da fonte d'água pura,
desvelasse o mais íntimo do ego
e mostrasse o porquê da abrasadura

que ferra este pobre zé-ninguém,
pois em busca de rumo perde o passo
(com a perna mais curta vai além

do que pode o seu pé e o seu braço):
um poema tomara eu fazer
que fosse ao coração do próprio ser.


________________________________________




________________________________


Às 22:00, chegam três poemas

_______________


Às dez esperamos por Luís Filipe Castro Mendes, Raúl Iturra e Octavio Paz. Vão chegar às 22:00 em ponto.
Joan Vinyoli
(Barcelona, 1914—1984)

NO RES, UN FUM


La poesia allunya de les aparences
i fa propera la realitat.
Memòria: perdre’s com un dellà
que és sols l’aquí, darrera
cortines transparents.
I què veus?
No res, un fum.
En veritat us dic
que no es fa res en veritat sinó
per la paraula creadora de silenci.

domingo, 7 de novembro de 2010

Arte poética - Machado de Assis, Miquel Martia i Pol, Vicente Ruidobro


Machado de Assis
(Rio de Janeiro, 1839-1908)
ÚLTIMA FOLHA

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios

O sol resplandecente.
Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;

Espera-te o silêncio da planície,

Como um frio sudário.

Desce. Virá um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingênua fronte
Das flores da manhã, — e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!

Então, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;

Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;

E o rio, a árvore e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;

Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza,
A ventura, o amor e a paz!

Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,

E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia!

(in 'Crisálidas')

____________________________






Miquel Martí i Pol

(Roda de Ter, 1929 - Barcelona,2003).


GOIG DE LA PARAULA

Em crides sempre a més combat,
pensament viu, paraula viva,
enllà i endins de mi mateix.
No em dol, però; què fóra sense tu?
Tot es resol en el teu foc
que crema sense consumir
i en la pedra que dreces davant meu.
En tu i amb tu restitueixo
la densitat de cada cosa dita,
la densitat i més i tot, la vida.
___________________


Vicente Huidobro
(Santiago do Chile, 1893 -Cartagena, Chile, 1948)


ARTE POÉTICA


Que el verso sea como una llave
Que abra mil puertas.
Una hoja cae; algo pasa volando;
Cuanto miren los ojos creado sea
Y el alma del oyente quede temblando.

Inventa mundos nuevos y cuida tu palabra;
El adjetivo, cuando no da vida, mata.

Estamos en el ciclo de los nervios.
El músculo cuelga,
Como recuerdo, en los museos;
Más no por eso tenemos fuerza;
El vigor verdadero
Reside en la cabeza.

¡Por qué cantais la rosa, oh Poetas!
Hacedla florecer en el poema;
Sólo para nosotros
Viven todas las cosas bajo el Sol.

El poeta es un pequeño Dios.

______________________________________


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Arte poética: Rafael Alberti, Ricardo Palma, Mia Couto

Rafael Alberti
(Cádis, 1902-1999)





RETORNO DA POESIA invariável


Oh, bela poesia, forte e doce
meu mar um até o fim, você sempre volta!
Como você pode me deixar, como um dia
pode, cego, pense em sua negligência?

Você é o que eu tenho, o que eu tinha,
desde que abriu para a luz, sem entender.
Fiel a este, e fiéis em desgraça,
sua mão em paz,
eo triste som
do sangue e da guerra, em sua mão.

Eu dormi nos lençóis, eu joguei
por las arenas verdes de los ríos
subiendo a las veletas de las torres
y a la nevada luna mis trineos.
Y eran tus alas invisibles, era
su soplo grácil quien me conducía.

¿Quién tocó con sus ojos los colores,
quién a las líneas contagió su aire,
y quién, cuando el amor, puso en su flecha
un murmullo de fuentes y palomas?
Luego, el horror, la vida en el espanto,
la juventud ardiendo en sacrificio.
¿Qué sin ti el héroe, qué su pobre muerte
sin el súbito halo de relámpagos
con que tú lo coronas e iluminas?

¡Oh, hermana de verdad, oh compañera,
conmigo, desterrada,
conmigo, golpeado y alabado,
conmigo, perseguido;
en la vacilación, firme, segura,
en la firmeza, animadora, alegre,
buena en el oído necesario, buena
y hasta feliz en la melancolía!
¿Qué no voy a esperar de ti en lo que me falte
de júbilo o tormento? ¿Qué no voy
a recibir de ti, di, que no sea
sino para salvarme, alzarme, conferirme?
Me matarán quizás y tú serás mi vida,
viviré más que nunca y no serás mi muerte.
Porque por ti yo he sido, yo soy música,
de los juncos, vocablo de la mar, estribillo
de las más simples cigarras populares.
Porque por ti soy tú y seré por ti sólo
lo que fuiste y serás para siempre en el tiempo.

(Retornos de lo vivo lejano, 1952)

E agora um poema de Rafael Alberti. recitado pelo autor;  em fundo, canta Jarcha.













________________

Ricardo Palma

(Peru 1833-1919)


LA POESÍA


¿Es arte del demonio o brujería
esto de escribir versos? -le decía,
no sé si a Calderón o a Garcilazo
un mozo más sin jugo que el bagazo.

Enséñame, maestro, a hacer siquiera
una oda chapucera.
-Es preciso no estar en sus cabales
para que un hombre aspire a ser poeta,

pero, en fin, es sencilla la receta.
Forme usted líneas de medidas iguales,
y luego coloca juntas
poniendo consonantes en la punta.

-¿Y en el medio? -¿En el medio? ¡Ese es el cuento!
Hay que poner talento.
____________________


Mia Couto (Beira, Moçambique, 1955)

PRIMEIRA PALAVRA





































Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que eu prove da tua água
e repouse na tua fronte

Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios umedeça a primeira palavra do teu corpo.


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Arte poética: Saúl Dias, Ethel Feldman, Vinicius de Moraes.


Saúl Dias

(Vila do Conde, 1902-1983)


SANGUE




Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.

O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Arte poética: juan luis panero,boris vian, manuel curros enríquez, antónio aleixo.



Juan Luis Panero
(Madrid,1942)

ARTE POÉTICA


A comprida, vagarosa língua da morte
lambeu a mão daquele que escreve,
lucidez ou loucura, ninguém sabe;
só restam palavras, palavras roídas

(Antes que chegue a noite, 2000)
_______________


Boris Vian
(Ville-d'Avray, 1920 — Paris, 1959)

SE OS POETAS FOSSEM MENOS PATETAS

Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda a gente feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves
De mirliflautas e lizores
De melfiarufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramussão
Da libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão
Havia um ar novo
Perfumado do odor das folhas
Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas antes nunca vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisas como ela sob os dedos

Mas os poetas são uns patetas
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar
E isso traz-lhes um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois

(Não Queria Patear )

Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martins

__________________



Manuel Curros Enríquez

(Celanova, Galiza,  1851, Havana, 1908)


INTRODUCION



Escribir nada máis pr' onha provincia

Ou, com' os povos árcades fixeron,

Escribir sobr' a casca d'os curtizos,

Cáxeque todo vén á ser o mesmo.



A nosa vos, n'a soledá perdida,

Morrerá sin deixar xiquera ise éco

Qu' a brisa malencónica d' outono

Deixa n'a copa azul d'os ameneiros.



Non pode ser tampouco d' outra sorte:

Pasaron xa, pra non volver, os tempos

En qu' o lenguaxe era unha cifra máxica

Fácele sólo ó sacerdote hebreo.



As xentes tristes que n'o verbo humano

Percuran os ideales q' entreveron
_________________

António Aleixo

(Vila Real de Santo António, 1899-1949)


Poeta, não, camarada,
Eu também sou cauteleiro;
Ser poeta não dá nada,
Vender jogo dá dinheiro.

Não é só na grande terra
Que os poetas cantam bem:
Os rouxinóis são da serra
E cantam como ninguém.

Tu já viste a «poesia»
Que há numa casa sem ceia,
Nem azeite na candeia,
Nem luz, se morre a do dia
________________



Para a madrugada

01 h - arte poética


02 h - O Mar


03 - Noctívagos, insones & afins

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Arte poética: Walt Whitman, Joan Brossa, Carlos Loures e Gastão Cruz


Walt Whitman
(Huntington, 1819 – Camden, 1892)

Ouçamos a leitura de um excerto de "Leaves of Grass", obra capital de Whitman, do qual extraímos o poema que seleccionámos para esta maratona.


MÁQUINA ALGUMA DE POUPAR TRABALHO

eu nada fiz, nada inventei,
nem sou capaz de deixar para trás
nenhum rico donativo
para fundar um hospital ou uma biblioteca,
reminiscência alguma
de um acto de bravura pela América,
nenhum sucesso literário ou intelectual,
nem mesmo um livro bom para as estantes
— apenas uns poucos cantos
vibrando no ar eu deixo
aos camaradas e amantes.

(Leaves of Grass)

 ____________________



Joan Brossa
(Barcelona, 1919-1998)

A LA POESIA


Oh Poesia, emmotlla en els avenços
l’orgull de poder dir company o pàtria;
els rics detalls han envelat les fustes
dels brots del cant.

Cada hora modifica’t, Poesia;
fes campejar severa fantasia
amb l’escalfor de l’esperit del poble
del meu país.

L’art del carrer on has estat bastida,
l’escultura del ferro que afaiçones,
no els vols un quadre mort. De vida intensa
forja el record.

Esmena’t de l’afany dels qui et fan fosca,
poetes de la mel i la melassa,
capells de copa groga i cementiris,
productes bords.

Treu-te la cucurulla dels diumenges,
posa’t a lloc i reparteix els gustos
per al coronament d’un goig estètic
amb vida al fons.

Sigues mestressa amb seny en la manera
de referir-te als homes i a les coses;
constant corrent de brisa, ret justícia
a pobres flors.

Torna, amor meu, integra’t a les vides,
uneix les fletxes a la senzillesa;
deixa de banda els fòssils de les bèsties
fets de més tro.

Enrotlla’t al meu cos. Però il•lumina,
com el feix lluminós d’una lent clara,
la molta empenta d’aquest sol concepte:
la Llibertat.
__________________________



Carlos Loures

(Lisboa, 1937)


NÓS POETAS


Dizemos Povo cantamos Povo
sem que as nossas vozes edifiquem
por vezes as traves da palavra
as sibilinas trevas do seu som.

A que pedra arrancámos a sua abóbada
de mãos erguidas e crispados gritos?
Em que mesa compartilhámos a sua fome
em que dorso sofremos o seu cansaço
e em que lenço enxugámos o seu suor?
Em que rosto chorámos as suas lágrimas
em que peito acolhemos a sua dor?

Ah companheiros de ofício nem sempre
ou quase nunca o Povo dos poemas
é aquele que transcorre pelas paisagens
em que habita o desespero e espera a morte.

Bandeira será florindo o nosso verso
mas Povo no poema é coisa rara
que em rosa não cabe a sua sorte

(A Poesia deve ser feita por todos, 1970)

_______________________________

Gastão Cruz
(Faro, 1941)

A VIDA DA POESIA


Hoje sei como se exprime a vida da poesia
com a sinceridade das emoções linguísticas
com que o mundo devasta e enche as nossas vidas

Aprendi a clareza das imagens fictícias
recolhidas na luz do corpo nu e vivo
entre os golpes orais errante desferidos

(Campânula)
_________________________________

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Arte poética; António Osório, João Machado, Vasco Graça Moura.


António Osório
(Setúbal, 1933)

PESO DO MUNDO


A poesia não é, nunca foi
uma enumeração ou composto
de exuberância, bondade,
altitude, nem arado
ou dádiva sobre chão
prenhe de mortos.

Nem o arrependimento
de Deus por ter criado o homem
com o rosto da sua memória,
ao lado dos seus vermes.

Tão-pouco fôlego dos que amam
abrindo a porta límpida
do corpo e chovendo sobre a terra,
ou carregam como tartarugas
o peso do mundo.

Nem reverência por um tigre,
pela leveza maligna de todas as patas,
pela sonolência junto à estirpe
aprisionada também
na dureza de ser tigre.

É o milagre de uma arma
total, de uma só palavra
reduzindo o átomo à completa inocência.

(A Ignorância da Morte)






João Machado
(Lisboa, 1943)

SOBRE UM MAU POETA

Vou contar-vos uma tragédia
De um senhor que queria ser poeta
Fazer lindos versos tinha por meta
Resultava sempre uma fraca comédia

Rimas pobres era uma praga
Pontapés na gramática em cada linha
Pois a falta de talento esmaga
Quem tem pouco juízo na pinha

A poesia é a arte de comunicar
De quem tem o sentimento, a excepção
Com quem vive o dia banal, o vulgar

Transmitir o fogo, a modulação
De querer, sofrer, lutar, amar
Sem dos medíocres vir atrapalhação

___________________________





Vasco Graça Moura
(Porto, 1942)

As palavras estão presas ao real. Não há praticamente nenhuma poesia, nenhuma literatura, que sobreviva se não houver uma especial coerência entre elas e a realidade. Talvez o mesmo se possa dizer em relação a todas as outras artes, sendo certo que, na música, estas coisas se põem em termos qualitativamente diferentes (provavelmente na música, e no Ocidente, o sistema tonal tende a exercer a mesma força de atracção que o real). Estas coisas para mim põem-se em termos de uma extrema simplicidade, sem altos voos filosóficos, num plano prático e corrente dos significados. É claro que a espessura do real é múltipla: tanto inclui o onírico como o pensamento abstracto. Eppure... é sempre o real. Hoje, assim como nas artes o fim do século XX parece ter ficado assinalado por um "neo-figurativismo" (outra vez o real...), também na poesia se regressa ao real (subjectivo e objectivo) em muitas modalidades. O escritor é um ser humano que utiliza as palavras com um certo nível de exigência qualitativa. Capturar o real, mesmo que seja para fazê-lo "inflectir", é um dos seus objectivos. É provável que o cinema e a fotografia tenham contribuído para acentuar essa necessidade. Não penso que se trate de um vício, mas de uma condição inelutável. A literatura é uma forma de criação artística pela palavra, mesmo quando tenta convocar outras áreas (veja-se, por exemplo, a ekphrasis). A sua relação com o real decorre naturalmente desta condição verbal.

(em entrevista a João Luís Barreto Guimarães)

E já agora, um poema de Vasco da Graça Moura sobre os "Poetas de Lisboa", letra de um fado cantado por Carlos do Carmo:

domingo, 31 de outubro de 2010

Mais um pensamento que outra coisa

 Adão Cruz

De vez em quando dou comigo a pensar, o que não é mau. Às vezes chateia, porque o pensamento é teimoso. Não desanda de maneira nenhuma da cabeça para fora, e a gente tem outras coisa em que…pensar. Volto novamente à poesia, não para entrar em polémica com o meu querido amigo Carlos Loures, mas porque é um bichinho que me morde constantemente, sobretudo porque não deixamos de a provocar. Estamos sempre a espicaçá-la.

Eu sei que gosto muito de poesia, gosto de tentar fazer poesia, mas não sou um letrado em poesia. Aquilo que digo é fruto do que sinto e não propriamente do que sei, que é muito pouco. Muitas vezes digo para comigo, mas que chachada esta, que valor tem eu estar aqui a perder tempo com este jogo de palavras, quando há tantas coisas úteis para fazer! Sinto que é a altura de beber um copo de bom tinto. A minha droga sublime.

Na realidade, o que eu sinto é que é muito difícil alguém saber o que é a poesia, desde a antiguidade aos tempos de hoje, embora toda a gente tenha o direito de emitir a sua opinião. Até hoje, nenhuma explicação, das que tenho lido, me deixou satisfeito. E já agora, gostaria de dizer que sendo eu materialista, em todo o sentido científico e filosófico do termo, não admitindo qualquer dualidade corpo-espírito, penso que a única explicação do que é a poesia poderá vir a ser dada quando a neurobiologia do espírito for elevada a ciência incontestável, como espero. A partir do substracto fisiológico e neuronal, poderá perceber-se, creio, de onde emerge o seu valor e significado estético e sentimental.

Por outro lado penso que beleza e poesia são duas irmãs gémeas. Creio que esta identidade gemelar entre beleza e poesia é uma realidade, ainda que a beleza e a poesia às vezes joguem às escondidas. Se estamos frente a uma realidade concreta, e nos identificamos com ela como objecto da realidade quotidiana, então “convivemos” com ela, dentro dos horizontes sempre limitados de uma realidade, sem preocupações de dimensão universal. Nestas circunstâncias, muito facilmente se pode passar ao lado da beleza, ainda que ela lá esteja, e muito mais ao lado da poesia, se não formos capazes de sentir o seu perfume.

Se a obra que temos na frente, ainda que representativa de uma natureza real, passa além da realidade concreta, levada pela mão da poesia, isto é, ultrapassa a fronteira para além da qual o homem se atreve a pôr o pé na sua dimensão universal, então não convivemos com ela, mas “contemplámo-la” como arte, e, logicamente, como manifestação de beleza. Porque a beleza e a poesia, quer queiramos quer não, residem na maior ou menor capacidade que o homem tem de se projectar para fora dos horizontes da sua natural tendência antropocêntrica.

(Ilust.Adão Cruz)













sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Arte poética: Fernando Correia da Silva, Carlos Pena Filho e José Luís Peixoto

Adicionar legenda

Fernando Correia da Silva
(Lisboa, 1931)
ADUNAR


Adunar na vertical é transformar o instinto em razão e esta naquele.
É conseguirmos ver o Invisível.
É usarmos de infravermelhos para localizar o Monstro agora diluído em estruturas canibais, omnipotência, omnipresença.
É sabermos detectar a tempo as suas teias e evitar nelas pousar.
É rasgarmos as suas máscaras, sejam elas lotes de acções ou abertura de caça ao preto e ao cigano.
É darmos valor à vida humana, em vez do preço que ele pretende atribuir-lhe.
É sermos indiferentes à diferença entre irmãos, homens que todos somos.
É não deixarmos que ele converta as nossas vidas num andar solitário por entre a gente.
É não deixarmos que ele transforme os homens em colónias de formigas.
É conseguirmos pôr no Soweto um pianista japonês a emocionar a assistência com um nocturno de Chopin.
É não deixarmos que tantos morram à fome enquanto permanecem terras férteis em pousio e há trigo acumulado nos celeiros.
É não consentirmos que as máquinas tomadas pelo Monstro nos deixem com a alma em desarrimo.
É não deixarmos que ele transforme o planeta em esgoto a céu aberto.
É não aceitarmos as gorjetas que ele oferece para olharmos para o outro lado.
É não deixarmos que nos atire para a lixeira.
É não consentirmos que o Direito Comercial lace, aperte, esmague e devore os Direitos do Homem.
É arrimar-nos a um tronco largo quando a jibóia ataca, comprimento ela não tem para laçar-nos juntamente com a árvore.
É puxarmos da catana e retalhá-la se ela insistir no ataque.
É dinamitarmos a digestão antropofágica do Labirinto.
É espantarmos os disciplinados cumpridores de ordens, os bandos de corvos sempre à espera da sua quota-parte de carniça.
É ensinarmos as gaivotas a cagar na cabeça de arrogantes e presunçosos.
É darmos um banho de lixívia aos engravatados distribuidores de paninhos e água quente.
É cravarmos malaguetas no umbigo do Dr. Prepotência, e outras, como flechas, no cu que o Dr. Banqueiro tem como cofre.
É nunca ficarmos de costas para os traidores que há na vida.
É estarmos sempre atentos às manobras do Piloto que elegemos.
É sabermos transformar as espadas em arados e as metralhadoras em berbequins.
É levarmos os mansos a possuir a terra.
É consolarmos os que choram.
É saciarmos os que têm fome e sede de justiça.
É acreditarmos que, embora Invisível, será ainda possível empurrar o génio do Santo Lucro para dentro da garrafa, como outrora acreditámos que era possível vencer o Hitler, mesmo quando todos, até os nossos filhos, garantiam que ele já era o rei do mundo.
_______________________

Carlos Pena Filho


(Recife, 1929 – 1960)


PARA FAZER UM SONETO



Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo, Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse;
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

(O tempo da busca, 1952)


________________
 
José Luís Peixoto
(Galveias,  Ponte de Sôr, 1974)
 
ARTE POÉTICA




O poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

(A Criança em Ruínas)


Às onze chegam  o Casimiro de Brito, a Augusta Clara de Matos e o Celso Emilio Ferreiro

domingo, 24 de outubro de 2010

Arte poética: Archibald Mac Leish, Adão Cruz, Manuel Alegre


Archibald MacLeish
( Glencoe, Illinois, 1892 -1972)


ARS POETICA


A poem should be palpable and mute
As a globed fruit

Dumb
As old medallions to the thumb

Silent as the sleeve-worn stone
Of casement ledges where the moss has grown -

A poem should be wordless
As the flight of birds

A poem should be motionless in time
As the moon climbs

Leaving, as the moon releases
Twig by twig the night-entangled trees,

Leaving, as the moon behind the winter leaves,
Memory by memory the mind -

A poem should be motionless in time
As the moon climbs

A poem should be equal to:
Not true

For all the history of grief
An empty doorway and a maple leaf

For love
The leaning grasses and two lights above the sea -

A poem should not mean
But be
__________________


Adão Cruz
(Castelões, Vale de Cambra, 1937)

O MEU POEMA AZUL


Não sei fazer uma rosa nem me interessa
não sei descer à cidade cantando
nem é grande a pena minha.
Não sei comer do prato dos outros nem quero
não sei parar o fluir dos dias e das noites
nem isso me apoquenta
não sei recriar o brilho do poema azul...
...e isso dá-me vontade de morrer.
Procuro para além das sílabas e dos versos
a voz poderosa mais vizinha do silêncio
o meu poema azul…
o suspiro de Outono onde a brisa se aninha
no breve silêncio do perfume do alecrim.
Lugar das palavras e dos versos
no caminho do teu rosto junto ao rio dos teus olhos
onde a vida se faz poema
e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia.
Procuro para lá das sílabas e dos versos
encontrar meu barco à entrada do mar
onde repousa teu corpo entre algas e maresia
meu amor perdido num campo de violetas.
O meu poema é tudo isto
que me vive que me ilude que me prende
ao lugar azul que procuro dia e noite
por entre os versos do meu ser.
Mas o poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu
não tem asas nem olhos nem sentimento
que o traga um dia o vento se vento houver.
Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera
mas tão alto não chego.
Mais à mão
molho a minha camisa primaveril
no regato cristalino
que vai correndo por entre os dedos
num solo de violino.
Porém
vestido de tempo sem espaço e de espaço sem tempo
tento fundir a neve com o calor da nudez
em versos que tecem mais tarde ou mais cedo
o mundo das sombras.
Não sei colher uma rosa
nem sei descer à cidade cantando
sou apenas aquele que ontem dormiu
sobre um poema azul
e das asas da ilusão se desprendeu.
Sou aquele que ontem se despia
nos braços do poema que vivia.
Sou aquele que ontem habitava em silêncio
o poema que acontecia.
Sou aquele que ontem sonhou… em vão…
com o poema azul de mais um dia.

_________________________

Manuel Alegre
(Águeda, 1936)


AS PALAVRAS


Palavras tantas vezes perseguidas
palavras tantas vezes violadas
que não sabem cantar ajoelhadas
que não se rendem mesmo se feridas.

Palavras tantas vezes proibidas
e no entanto as únicas espadas
que ferem sempre mesmo se quebradas
vencedoras ainda que vencidas.

Palavras por quem eu já fui cativo
na língua de Camões vos querem escravas
palavras com que canto e onde estou vivo.

Mas se tudo nos levam isto nos resta:
estamos de pé dentro de vós palavras.
Nem outra glória há maior do que esta.

(De “O Canto e as Armas”).

Mário Viegas e a sua excelente tcnica de declamação neste poema de Manuel Alegre:

sábado, 23 de outubro de 2010

Arte poética: Rosa Alice Branco, Carlos de Oliveira e Paul Verlaine



Rosa Alice Branco

(Aveiro, 1950)

ARTE POÉTICA


Gostaria de começar com uma pergunta
ou então com o simples facto
das rosas que daqui se vêem
entrarem no poema.
O que é então o poema?
um tecido de orifícios por onde entra o corpo
sentado à mesa e o modo
como as rosas me espreitam da janela?
Lá fora um jardineiro trabalha,
uma criança corre, uma gota de orvalho
acaba de evaporar-se e a humidade do ar
não entra no poema.
Amanhã estará murcha aquela rosa:
poderá escolher o epitáfio, a mão que a sepulte
e depois entrar num canteiro do poema,
enquanto um botão abre em verso livre
lá fora onde pulsa o rumor do dia.
O que são as rosas dentro e fora
do poema? Onde estou eu no verso em que
a criança se atirou ao chão cansada de correr?
E são horas do almoço do jardineiro!
Como se fosse indiferente a gota de orvalho
ter ou não entrado no poema!

(Soletrar o Dia. Obra Poética, 2002)



Carlos de Oliveira
(Belém do Pará, 1921 — Lisboa, 1981)
MICROPAISAGEM

(…)

5) O trabalho oficinal é o fulcro sobre que tudo gira. Mesa, papel, caneta, luz eléctrica. E horas sobre horas de paciência, consciência profissional. Para mim esse trabalho consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que me obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento e destino. É o caso da “Micropaisagem”. Um texto diante do espelho: vendo-se, pensando-se.

6) Escrevo com frequência interpretações doutros poetas. Perguntam-me porquê. Respondo precisamente citando um poeta: “J’imite. Tout le monde imite, tout le monde ne le dit pas” (Aragon). Porém os poetas nestas coisas não devem ser tomados muito à letra. Quem não sabe ainda que o poeta é um fingidor?

(“O Aprendiz de Feiticeiro”)




Paul Verlaine
(Metz,1844 - Paris, 1896)

ART POÉTIQUE

De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l'Impair
Plus vague et plus soluble dans l'air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.

Il faut aussi que tu n'ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise:
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l'Indécis au Précis se joint.

C'est des beaux yeux derrière des voiles,
C'est le grand jour tremblant de midi,
C'est, par un ciel d'automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles!

Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la nuance!
Oh! la nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor!

Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L'Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l'Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine!

Prends l'éloquence et tords-lui son cou!
Tu feras bien, en train d'énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l'on n'y veille, elle ira jusqu'où?

O qui dira les torts de la Rime?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d'un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime?

De la musique encore et toujours!
Que ton vers soit la chose envolée
Qu'on sent qui fuit d'une âme en allée
Vers d'autres cieux à d'autres amours.

Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym...
Et tout le reste est littérature.

Para ver e ouvir «Art poétique» de Paul Verlaine e Léo Ferré, cantado por Léo Ferré: