quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Noctívagos, insones & afins - A respeito de Factores de Risco (conclusão)

Adão Cruz


Mas voltemos aos factores de risco, na minha opinião, os mais importantes, aqueles que mais poder destrutivo e degenerativo têm na nossa sociedade, e dos quais decorrem, em princípio, todos os outros. Aqueles cujo diagnóstico, conhecimento e desenvolvimento científico e social não interessam ao comércio das doenças, aqueles que não convém que sejam denunciados e divulgados, aqueles que não são referidos nas imponentes naves dos congressos. Na realidade, existe actualmente alguma investigação em matéria de outros factores de risco que não os da moda. Mas a ciência médica não está para aí virada, pouco lhe importando as causas. Está muito mais interessada na incomensurável panóplia dos sintomas, geradores de um desenfreado consumo de psicofármacos. São os factores de risco psicossociais, que tal como os primeiros, mas talvez com muito maior intensidade, promovem fortemente o desenvolvimento de doenças degenerativas a todos os níveis, arterioscleróticas e outras, eventos vasculares adversos, cardíacos e cerebrais, doenças oncológicas e graves perturbações psicossomáticas e sociais.
Estes factores de risco psicossociais são, fundamentalmente, factores de natureza emocional e factores de stress crónico, embora nós saibamos que todos eles, orgânicos ou não, se encontram de tal modo intrincados que é muito difícil analisá-los separadamente. Os factores emocionais abrangem essencialmente as perturbações afectivas, criando sentimentos destrutivos e corrosivos como a depressão e as perturbações ansiosas. Os factores de stress crónico constituem um grande leque, incluindo o desrespeito do Estado pelo cidadão, o baixo apoio social, a insegurança na doença, o baixo estatuto sócio-económico, o endividamento e a crua insensibilidade da especulação bancária, a progressiva angústia da vida cada vez mais difícil numa sociedade dita de progresso e desenvolvimento, os conflitos de trabalho, os desencontros conjugais e familiares, sempre crescentes numa sociedade injusta e pouco solidária como a nossa. As perturbações depressivas variam, como sabemos, desde os sintomas ligeiros até à depressão grave, caracterizada por um humor fortemente abalado e por frequente anedonia, ou seja uma grande rigidez afectiva e incapacidade de sentir prazer com a vida, aversão ao trabalho, propensão para a violência, um estado que se acompanha de incapacidade funcional significativa e de queixas somáticas que se arrastam pela vida fora. O baixo grau de apoio social atrás referido, em termos de cidadania, nos aspectos económico, informativo, emocional, cria a sensação de não se ser amado, a amargura do viver só, o isolamento social, a falta de confidentes, as dificuldades financeiras, as más condições de trabalho, a falta de paz no emprego, as tarefas fisicamente repetitivas, a rotina excessiva sem escapes criativos, a sensação de confinamento rígido, o desequilíbrio entre esforço e compensações, as más condições habitacionais, a instabilidade conjugal, os maus-tratos infantis, as más experiências. Existe uma importante relação entre o grau destes sintomas depressivos e a ocorrência de eventos cardiovasculares adversos. Estudos epidemiológicos mostraram também a relação destes eventos com factores emocionais como a ansiedade, a hostilidade e a raiva. Alguns estudos recentes demonstraram que existe uma relação entre estas, a arteriosclerose sub-clínica e a progressão da arteriosclerose coronária. Tudo isto leva a que sejam evocadas respostas emocionais fortemente negativas, com enorme poder de somatização, capazes de favorecerem o aparecimento e desenvolvimento de doenças cardiovasculares e outras, de uma forma bem mais poderosa do que aquela com que actuam outros factores de risco amplamente divulgados nas campanhas de sensibilização, até porque são aqueles a raiz de grande parte destes últimos, bem mais palpáveis, como a hipertensão, o tabagismo e a obesidade.
A constante e perseverante denúncia de tudo isto, constituiriam, isso sim, autênticas e verdadeiras campanhas de sensibilização da sociedade.
Apetece dizer, por um lado, que, se as grandes indústrias farmacêuticas tivessem um pouco mais de respeito pela humanidade e deixassem de ter como objectivo prioritário encharcar o planeta de pastilhas, e por outro lado, se os bancos e os grandes potentados económicos diminuíssem numa pequena percentagem os seus fabulosos lucros, e com essa percentagem criassem processos de abertura de novos caminhos para melhores condições de vida da humanidade, eliminariam, pela certa, uma boa parte dos factores de risco, muito mais prejudiciais do que o colesterol, essa mina de ouro, esse estratégico monstro aterrador a que um jornal diário se referia, despudoradamente, em publicidade paga, como bomba-relógio! Assim como eliminariam, pela certa, uma boa parte das doenças, nomeadamente das doenças cardiovasculares, e uma boa parte das preocupações.

1 comentário:

  1. É bem verdade, meu caro Adão. Numa faze da minha vida profissional tomava dez comprimidos diários e, mesmo assim, tinha ataques de pânico. Mas aprendi depressa, passei a ganhar metade e a ter tempo para a família e para a vida.

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