quarta-feira, 15 de dezembro de 2010






Mais um pensamento que outra coisa




Adão Cruz

De vez em quando dou comigo a pensar, o que não é mau. Às vezes chateia, porque o pensamento é teimoso. Não desanda de maneira nenhuma da cabeça para fora, e a gente tem outras coisa em que…pensar. Volto novamente à poesia, não para entrar em polémica com o meu querido amigo Carlos Loures, mas porque é um bichinho que me morde constantemente, sobretudo porque não deixamos de a provocar. Estamos sempre a espicaçá-la.

Eu sei que gosto muito de poesia, gosto de tentar fazer poesia, mas não sou um letrado em poesia. Aquilo que digo é fruto do que sinto e não propriamente do que sei, que é muito pouco. Muitas vezes digo para comigo, mas que chachada esta, que valor tem eu estar aqui a perder tempo com este jogo de palavras, quando há tantas coisas úteis para fazer! Sinto que é a altura de beber um copo de bom tinto. A minha droga sublime.


Na realidade, o que eu sinto é que é muito difícil alguém saber o que é a poesia, desde a antiguidade aos tempos de hoje, embora toda a gente tenha o direito de emitir a sua opinião. Até hoje, nenhuma explicação, das que tenho lido, me deixou satisfeito. E já agora, gostaria de dizer que sendo eu materialista, em todo o sentido científico e filosófico do termo, não admitindo qualquer dualidade corpo-espírito, penso que a única explicação do que é a poesia poderá vir a ser dada quando a neurobiologia do espírito for elevada a ciência incontestável, como espero. A partir do substracto fisiológico e neuronal, poderá perceber-se, creio, de onde emerge o seu valor e significado estético e sentimental.


Por outro lado penso que beleza e poesia são duas irmãs gémeas. Creio que esta identidade gemelar entre beleza e poesia é uma realidade, ainda que a beleza e a poesia às vezes joguem às escondidas. Se estamos frente a uma realidade concreta, e nos identificamos com ela como objecto da realidade quotidiana, então “convivemos” com ela, dentro dos horizontes sempre limitados de uma realidade, sem preocupações de dimensão universal. Nestas circunstâncias, muito facilmente se pode passar ao lado da beleza, ainda que ela lá esteja, e muito mais ao lado da poesia, se não formos capazes de sentir o seu perfume.

Se a obra que temos na frente, ainda que representativa de uma natureza real, passa além da realidade concreta, levada pela mão da poesia, isto é, ultrapassa a fronteira para além da qual o homem se atreve a pôr o pé na sua dimensão universal, então não convivemos com ela, mas “contemplámo-la” como arte, e, logicamente, como manifestação de beleza. Porque a beleza e a poesia, quer queiramos quer não, residem na maior ou menor capacidade que o homem tem de se projectar para fora dos horizontes da sua natural tendência antropocêntrica.



(Ilust.Adão Cruz)


Sem comentários:

Enviar um comentário