terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Noctívagos, insones & afoins - A televisão é para estúpidos?

Carlos Loures


A frase que dá o título a esta série de crónicas que hoje inicio, foi dita pelo escritor e editor Luiz Pacheco (1925-2008) , que aqui à direita nos pisca o olho tornando-nos cúmplices das suas digressões pelo seu pequeno inferno pessoal. No decurso de uma entrevista conduzida por João Paulo Cotrim: quando este lhe perguntou se a televisão estava a matar a literatura, Pacheco respondeu desabridamente – «A televisão não mata nada! A televisão é para estúpidos!»


Não sei se Cotrim, com a sua pergunta, não estaria a aludir à clássica passagem do romance Nôtre-Dame de Paris, de Victor Hugo, quando o arcediago abre a janela da sua cela, contempla por algum tempo a Nôtre-Dame, estende a mão para o livro impresso aberto na sua mesa e, lançando um olhar triste para a igreja, profere a conhecida frase: ceci tuera cela.», isto matará aquilo.

Groucho Marx (1890-1977), o genial actor norte-americano, costumava dizer a frase que a par com a de Pacheco, inspiraram este trabalho - «Acho a televisão muito educativa – logo que alguém a liga vou para outra sala ler um livro».

No fundo, as duas frases dizem a mesma coisa, por palavras e com intensidades diferentes. Em ambas está presente o pressuposto da prevalência do livro como instrumento e como veículo de cultura. No título desta série de crónicas, substituí o pachequiano ponto de exclamação por um ponto de interrogação.


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Porque não me parece que, de modo algum, a televisão seja para estúpidos.

O próprio Pacheco, na mesma entrevista, emendava a mão, a frase saída num impulso, confessando depois que, tendo recusado ter televisor até pouco tempo antes, fora recentemente «apanhado pelo fascínio do pequeno ecrã», vendo tudo (e de tudo dizendo mal) – telenovelas, séries, concursos…

Ray Bradbury (1920), numa entrevista dada há meses a um jornal, coloca esta questão a que aludi, a da sobrevivência do livro face à concorrência da televisão e, sobretudo, desde há uma década, da Internet e das novas tecnologias da informação em geral, de uma maneira muita clara. Adiante referir-me-ei mais pormenorizadamente a essa entrevista do autor de Fahrenheit 451.

Este trabalho irá sendo publicado em pequenos textos, como este, que sairão com intervalos razoáveis entre cada crónica. O seu objectivo central é indagar até que ponto a impulsiva afirmação de Pacheco, segundo a qual «a televisão é para estúpidos», constitui um pressuposto válido. É óbvio que Luiz Pacheco se referia à dependência da televisão que afecta muitas pessoas e não ao meio televisivo em si. Dependência que, nos fins do século XIX e início do XX, incidiu sobre os romances em fascículos, como “A Toutinegra do Moinho”, de Émile Richebourg, vendido em fascículos semanais distribuídos ao domicílio; depois, em meados do século XX nas rádio novelas, do género da “Força do Destino” ou no “Simplesmente Maria”, muitas vezes seguidas também em fotonovelas, proliferando as revistas especializadas. Finalmente chegaram as telenovelas, primeiro as brasileiras, depois as portuguesas, as mexicanas, as venezuelanas…

Digamos que as pessoas têm necessidade de compensar as suas vidas descoloridas e monótonas com doses de sonho e de insólito, venha esse complemento de romances, de rádio novelas, telenovelas ou reality shows.

A televisão é para estúpidos? Não.

É dirigida por estúpidos? Também não.

A televisão é um invento notável que, bem utilizado, poderia, sem deixar de divertir, ser um poderoso meio informativo e um instrumento de difusão cultural.


Poderia.










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