domingo, 19 de dezembro de 2010

O nosso berço é o mar

Adão Cruz




Segundo Richard Dawkins, se recuarmos bastante no tempo, encontramos toda a vida no mar. Em vários pontos da história evolutiva os animais mudaram-se para terra, atingindo por vezes os desertos mais áridos e levando no sangue a água do mar.
Os estágios de transição do êxodo destes nossos pais, isto é, os nossos antepassados peixes, estão amplamente documentados nos registos fósseis. Toda a evolução inicial dos vertebrados decorreu na água, pelo que a maioria dos ramos sobreviventes dos vertebrados continua no mar.

Compreendo agora porque gostamos tanto do mar. Não deve ser fácil encontrar alguém que não goste do mar. Fazer poemas sobre a terra, à beira-mar, ou fazer poemas na terra, sobre o mar, é quase inevitável em qualquer poeta. Não há poeta que não fale em algas e areia, em ondas e maresia.


(Nas curvas do vento me enlaço no segredo das ondas me entrelaço na tormentosa esperança de ouvir o silêncio das algas e o mistério da falésia.
Todos os dias me abraço à loucura deste sonho e deste laço que me aperta o coração na luz macia de Setembro).


Os peixes pulmonados e os celacantos são os parentes marítimos mais próximos dos humanos. Engraçado, no entanto, é que, por exemplo, a truta e o atum são parentes mais próximos dos humanos do que dos tubarões, e os peixes pulmonados e os celacantos são parentes mais próximos dos humanos do que a truta e o atum. É dos peixes de barbatanas lobadas que provimos.
Os peixes de barbatanas lobadas reduziram-se aos peixes pulmonados e celacantos e proliferaram em terra. Os vertebrados terrestres são peixes pulmonados aberrantes. As suas barbatanas lobadas parecem-se mais com membros do que com barbatanas. J.B. Smith, foi o biólogo responsável por dar a conhecer ao mundo o primeiro celacanto vivo, o nosso pai, capturado em 1938, por uma traineira sul-africana. Diz este grande cientista que a sua surpresa não teria sido maior se tivesse visto um dinossauro a caminhar na rua. Os celacantos eram conhecidos como fósseis, mas pensava-se que estivessem extintos desde o tempo dos dinossauros.
O mar é o nosso berço. Pelo menos a nossa incubadora, chamemos-lhe assim, porque o útero que nos gerou, a nós humanos, está milhões de anos mais distante.


(Atravessei o deserto infinito aqui e ali um oásis repousante.
Por cada terra que passei a ambivalência cresceu.
Virgem ou não deus ou demónio a tudo o corpo cedeu idêntico a si mesmo na espiral concêntrica do desejo.
Ao cimo de todas as escadas nada vi e para descer dentro de mim tive de pendurar meus passos nas descarnadas sílabas do silêncio da madrugada.
Fechei as feridas do mundo em versos secretos e fechados e rasguei-os mais tarde na feira perante o riso dos pobres.
No silêncio dos ruídos e das ruínas me escondi de metáforas democráticas me discursei.
Um dia cheguei ao rio que vai dar ao mar…ainda me encontro a caminho do mar
onde espero sentar-me na rocha húmida e fria vestida de algas e maresia olhar bem longe…e começar alguma vida nesse dia.


(Ilustração de Adão Cruz)

3 comentários:

  1. Que maravilha, Adão. Falas de ciência com a poesia a jorrar...

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  2. E na vida uterina reproduzimos essa casa longínqua, passamos nove meses a nadar como peixes, como se fosse uma forma de evocar as origens da espécie. Bem bonito, este casamento da ciência e da poesia.

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