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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Terreiro da Lusofonia: hoje é a vez de Bonga

A alegria chega-nos hoje pela voz de Bonga.



Bonga (José Adelino Barceló de Carvalho) nasceu em 1942 em Kipiri, província do Bengo, a norte de Luanda. Desde muito jovem se sentiu atraído pela magia da música. Os sons dos musseques estiveram na génese das suas primeiras composições. Criou um grupo, o Kissueia, e com ele deu continuidade à sua música, criada a partir da exploração das linhas melódicas da tradição angolana, reagindo contra a aculturação que naquela época, em que a Guerra Colonial começava, a autoridade colonial procurava levar a cabo, tentando impor a música portuguesa e subalternizar a angolana.

Bonga, sempre fiel às suas raízes, é o cantor angolano mais divulgado internacionalmente.

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Às 3 horas - Casa Pia

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - A transição em Angola


Dezasseis anos depois do último acto eleitoral, realizam-se no próximo dia 5 de Setembro eleições legislativas em Angola. Tudo leva a crer que serão eleições livres e que se, no pior dos casos, houver fraude eleitoral, ela não será significativa. É um acontecimento importante para Angola, para África, e para todos os democratas do mundo. Depois dos recentes e trágicos acontecimentos no Zimbabué e no Quénia (durante alguns anos considerado um país de exemplar transição democrática), a África precisa de experiências democráticas bem sucedidas. A importância especial de Angola neste contexto decorre do factor petróleo. Como demonstram os casos acima mencionados, o petróleo não é o único factor de instabilidade política mas é um facto que historicamente a relação entre petróleo e democracia tem sido de antagonismo. É assim no Médio Oriente e foi assim na América Latina até à última década. Em África, um simples relance pelos maiores produtores de petróleo é revelador a este respeito. São eles, em função das reservas comprovadas de petróleo (medidas em mil milhões de barris): Líbia (41,5), Nigéria (36,2), Argélia (12,3), Angola (9), Sudão (6,4).

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Histórias de suicidios famosos em Portugal (José Brandão)


António Francisco da Silva Porto (1817-1890) -V

José Brandão

Historiador, explorador e africanista português, nasceu a 24 de Agosto de 1817, cidade do Porto.
Morreu a 3 de Abril de 1890, em Bié, Angola. Filho de pais humildes, na infância, ao se alfabetizar, a família toda embarcou no Rio Ave e foi para o Brasil em1829. No Rio de Janeiro empregou-se como caixeiro e, percebendo que seu futuro ali seria restrito, em 1835, embarcou para a Bahia e logo ao chegar, anunciou no jornal Correio Mercantil que mudara de nome: doravante se assinaria António Ferreira da Silva Porto.

Dois anos depois, partiu para a Africa, desembarcando em Angola, onde permaneceu por pouco tempo, indo depois para Cabo Verde, onde ficaria ainda menos tempo.
De regresso à Bahia, encontrou-a num período de revoltas políticas e estagnação comercial. Assim, partiu outra vez para a África, desta vez, com destino a Luanda, onde iria se iniciar na vida de explorador e sertanejo.

Nesta colónia portuguesa, por várias vezes embrenhou-se na selva, comerciando e travando relações com novas tribos, actividades sempre anotadas em seus diários que se tornariam famosos. Nestas anotações — que dedicou aos portugueses — conta em detalhes as sucessivas viagens que realizava: em 1839 penetrou as planícies internas de Luanda; em 1841, desceu por Benguela, explorando as selvagens regiões de Lui pelo rio Lutembo e o Zambeze superior, pelo Riambeje. Em 1845, fixou-se no Bié, de onde iniciou sua frequente e sucessiva jornada ao Barotze, que abriu ao comércio com Benguela e implantou o que acreditava ser uma digna civilização (1845 a 1852).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Manuel Rui Monteiro vem até ao Terreiro da Lusofonia


Manuel Rui Monteiro nasceu na cidade de Huambo (antiga Nova Lisboa) em 1941. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Foi colaborador da revista “Vértice”. Em Angola, onde regressou depois do 25 de Abril de 1974,
ocupou diversos cargos políticos para além de ter sido professor universitário e Reitor da Universidade de Huambo. Poeta, contista, ensaísta, crítico, professor de Literatura, foi galardoado com o Prémio Nacional Agostinho Neto, atribuído à novela Quem me dera ser Onda (1982). É autor da letra do Hino Nacional de Angola.

Da sua obra, destacamos: Cinco Vezes Onze Poemas em Novembro (1985); O Regresso Adiado (1977) Memória de Mar (1980); Crónica de um Mujimbo (1989); 1 Morto & Os Vivos (1993); Rio Seco (1997); Um anel na areia: história de amor (2002); Universo transverso: Conchas e Búzios (2003); A Casa do Rio (2007). Ombela, poesia (2007).

 
Um cantor brasileiro, Martinho da Vila, canta um poeta angolano. Ora ouçam:



Os meninos do Huambo

Com fios feitos de lágrimas passadas
Os meninos do Huambo fazem alegria
Constroem sonhos com os mais velhos de mãos dadas
E no céu descobrem estrelas de magia


Com os lábios de dizer nova poesia
Soletram as estrelas como letras
E vão juntando no céu como pedrinhas
Estrelas letras para fazer novas palavras


Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade


Com os sorrisos mais lindos do planalto
Fazem continhas engraçadas de somar
Somam beijos com flores e com suor
E subtraem manhã cedo por luar


Dividem a chuva miudinha pelo milho
Multiplicam o vento pelo mar
Soltam ao céu as estrelas já escritas
Constelações que brilham sempre sem parar


Os meninos à volta da fogueira
Vão aprender coisas de sonho e de verdade
Vão aprender como se ganha uma bandeira
Vão saber o que custou a liberdade


Palavras sempre novas, sempre novas
Palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo


Assim contentes à voltinha da fogueira
Juntam palavras deste tempo sempre novo
Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo

domingo, 9 de maio de 2010

Da Guerra Colonial

José Brandão








Importa falar de um dos períodos mais inquietantes da vida dos portugueses. São os anos entre 1961 e 1974 nos quais Portugal mergulhou numa guerra para alguns do Ultramar para outros Colonial.
São treze anos de ansiedade, sofrimento e morte que atingiram praticamente todas as famílias portuguesas com consequências que ainda hoje perduram.

Guerra que mobilizou mais de 800 mil combatentes da chamada Metrópole enviados para as distantes e desconhecidas matas de África onde alastrava a revolta apoiada por alguns países próximos.

Em Angola, a partir de 4 de Fevereiro de 1961, na Guiné, a partir de 23 de Janeiro de 1963, em Moçambique, a partir de 25 de Setembro de 1964, a guerra é declarada pelos movimentos de libertação nacional que teimam em levar por diante o seu propósito de total independência do domínio colonial europeu.

Pela parte portuguesa, a guerra era sustentada pelo princípio político de defesa daquilo que era considerado território nacional, baseado no conceito de nação pluricontinental e multirracial. Pela parte dos movimentos de libertação, a guerra justificava-se pelo inalienável princípio da autodeterminação e independência, num quadro internacional de apoio e incentivo à sua luta.

Guerrilheiros, ou terroristas – conforme a atitude política – resistem num terreno que lhes é familiar causando baixas nas Forças Armadas portuguesas como nunca se vira antes.

Segundo o Estado-Maior General das Forças Armadas, morreram na Guerra de África 8.831 militares portugueses. Destas quase nove mil baixas, 3.455 aconteceram em Angola, 2.240 na Guiné e 3.136 em Moçambique.

O Exército, ramo militar sobre o qual recaiu a maior parte do trabalho bélico, teve à sua conta a quase totalidade dos mortos – 8.290 homens. A Força Aérea, por seu turno, contou em 346 as suas perdas e a Marinha de Guerra enterrou 195 dos seus elementos.

De acordo com a mesma fonte, 4.280 militares (48,5 por cento) morreram em resultado directo de acções de combate e 4.551 (51,5 por cento) em acidentes e doenças. Estas duas últimas causas de morte devem ser encaradas com reservas, já que havia na época a intenção clara de diminuir o número de baixas em combate tornado público.

Com cerca de 9.000 mortos, cerca de 30.000 feridos evacuados, em mais de 100.000 doentes e feridos, dos quais resultaram perto de 14.000 deficientes físicos, (5.120 com grau de deficiência superior a 60 por cento) e ainda, possivelmente, 140.000 neuróticos de guerra, rara é a família portuguesa que não foi ferida pela Guerra de África. Os telegramas do Ministro do Exército a apresentar «mais sentidas condolências» pela morte «por motivo combate defesa da Pátria» de «seu filho soldado fulano tal», chegavam aos lares dos portugueses semeando a dor da perda de um filho, marido, pai, irmão ou outro grau de familiaridade existente.

Sucediam-se os comunicados militares que diariamente o Ministério da Guerra mandava publicar nos jornais. "O Serviço de Informações Públicas das Forças Armadas comunica que morreram em combate, na Província de Angola, os seguintes militares:" e seguiam-se os nomes de mais uns tantos que, naquele ano, entre a noite de Natal e a de fim de ano, não iriam aparecer na TV, a desejar festas felizes.
Moçambique foi o teatro de operações onde morreram mais militares em combate (1.569 em 10 anos de guerra), seguindo-se Angola (1.360 em 13 anos) e a Guiné (1.342 em 11 anos). Tendo em conta a duração da guerra em cada um dos teatros de operações, as tropas portuguesas sofreram por ano 157 mortos em combate em Moçambique, 122 na Guiné e 105 em Angola.

Quanto ao número total de mortos, independentemente das causas oficiais da morte, as Forças Armadas portuguesas sofreram por ano 285 baixas mortais em Moçambique, 246 em Angola e 186 na Guiné.
Do total de mortos nas três guerras, cerca de 70 por cento eram expedicionários recrutados na chamada Metrópole. No conjunto das três frentes de guerra, entre 1961 e 1974, morreram em média 630 militares portugueses por ano.

Em números redondos, morreram nas três guerras de África: 1 general, 2 brigadeiros, 3 coronéis, 15 tenentes-coronéis, 22 majores, 100 capitães, 40 tenentes, 300 alferes, 900 sargentos e furriéis, 1.600 cabos e 5.500 soldados e marinheiros.

E se os custos humanos foram de grandes dimensões para um pequeno velho país de menos de 10 milhões de habitantes, as perdas materiais atingiram um nível muito próximo do colapso económico. O esvaziamento dos recursos financeiros para a sustentação da guerra foi equivalente, ao longo dos treze anos de conflito armado, a uma média de trinta e três por cento do Orçamento do Estado, tendo-se ultrapassado, em toda a segunda metade da década de 60, os quarenta por cento.

Com a Revolução do 25 de Abril de 1974 estavam criadas condições para terminarem as guerras que Portugal mantinha desde 1961.
Contudo, já depois do 25 de Abril ainda morreram nos três teatros de guerra 530 militares portugueses, 159 dos quais em resultado directo de acções de combate.
Embora, na metrópole, a intervenção popular tivesse assegurado profundas e imediatas repercussões para o 25 de Abril, as transformações ocorridas em Lisboa não provocaram alterações súbitas na maior parte do disperso Império Português.
Portugal foi o último país europeu a conservar um autêntico império colonial.
Em 1951 transformara as colónias em territórios ultramarinos e, em 1956. intitulou-as províncias, mas sem mudar praticamente a estrutura anterior. O Ministério das Colónias passou a chamar-se do Ultramar e em dezenas de organismos oficiais e empresas particulares o vocábulo colonial foi substituído por outro um pouco mais longo: ultramarino.

O governo português, ao considerar os territórios africanos como parte integrante da nação, negava que eles pudessem ter direito à autodeterminação ou que existisse uma nacionalidade angolana, guineense ou moçambicana.

Porém, em 1961, a revolta em Angola assinalou o começo da guerra de guerrilhas que se estenderia à Guiné e a Moçambique. Esta guerra, onde o exército português se consumia ano após ano, foi uma das causas determinantes da Revolução Portuguesa de 25 de Abril de 1974 que derrubou o regime corporativo do Estado Novo.

Apesar de raramente registarem vitórias decisivas, a guerra das forças de guerrilha conseguiu criar a confusão suficiente para exigir de Portugal o envio de milhares de soldados para África e o dispêndio de algo como metade do orçamento estatal nessa colossal presença militar.

Portugal manteve entre 1961 e 1973 uma média anual de 105 mil homens envolvidos nas três guerras coloniais: aproximadamente, 54 mil em Angola, 20 mil na Guiné e 31 mil em Moçambique. Os efectivos no conjunto dos três teatros de guerra foram sempre crescendo de 1961 a 69, baixaram ligeiramente em 70, aumentando de novo para chegar aos valores mais elevados em 1973, quando atingiram o total de 148.090 homens.
Quando chega o 25 de Abril de 1974 Portugal é um país cansado de tanto caminhar para terras distantes e por lá morrer.

Regressada a liberdade, Portugal não podia negar essa mesma liberdade aos povos que a reclamavam de armas na mão. Em consequência das alterações ocorridas em Portugal, as colónias africanas portuguesas acederam à independência entre o termo de 1974 e finais de 1975.

Ficava para a História mais uma página da presença de Portugal no Mundo.



Extraído do livro Cronologia da Guerra Colonial, José Brandão, 2008