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segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Os prisioneiros (Mais um conto, verdadeiro, da Guiné).

Adão Cruz


No tempo de sem janelas e sem vistas para o mar, eu dormia a madrugada dessa noite igual a tantas outras. Igual…não seria. Dois gritos lancinantes atravessaram a noite degolando o silêncio. Como ecos do inferno. Os ataques não explodem assim! Nenhum homem grita do fundo do tempo! Nenhum animal selvagem ruge tão perto!

Virei-me para dentro do medo e verguei-o à razão. A razão das sobras do medo.

Passos na picada. Voz de sentinela apunhalando o escuro.

- Sr. doutor, sr. doutor.

Dei um salto da cama levando de rosto a rede mosquiteira. Não dei com a luz, mas o raiar da madrugada permitiu que eu visse a silhueta do soldado.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O parto (Mais um conto, interessante e verdadeiro, da Guiné).

Adão Cruz

Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupações que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes. Para além de ser uma tarefa aliciante, era a melhor forma de me libertar do medo da guerra e da perspectiva pouco animadora de um regresso encaixotado.


Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos diferentes, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques, por imposição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil, e a desvirtuação constituía um perigo possível. Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava. Com o tempo as janelas foram-se abrindo, e hoje revejo com alguma saudade o imenso painel de mil cores, esse mar de sensações e vivências que nenhuma memória pode esquecer.

sábado, 28 de agosto de 2010

Narf e Manecas no Terreiro da Lusofonia - "Alô, irmão!"

Temos um grande prazer em trazer aqui ao nosso Terreiro Narf e Manecas Costa, artistas unidos pelo idioma comum - Narf é um cotado cantor galego. Manecas Costa é um dos artistas mais conhecidos da Guiné-Bissau, um exímio cantor e executante na guitarra, um grande, grande artista. Um galego e um guineense cantando... em Moçambique, no Teatro Avenida do Maputo.Um quadro lusófono perfeito. Vamos ouvir com atenção - "Alô, irmão!":

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Conclusão diagnóstica

Adão Cruz


(Um conto da Guiné. Espero que saboreiem como eu saboreei)

O sol baixava a sua fogueira comendo a sombra à medida que a luz crescia. Como sempre, meti o corpo dentro de uma velha bata branca e dirigi-me ao posto de socorros, onde me aguardavam soldados e nativos para a consulta matinal. Hora respeitada. Ritual.

Logo que cheguei, os olhos caíram-me na figura de uma velha cuja idade mirrara na secura das carnes. A pele parecia colada aos ossos e a silhueta nem sombra dava. Os sorrisos esqueceram-se para lá da boca, e dois ninhos de rugas guardavam os olhitos faiscantes.

O “Manjaco”, nome da etnia de que era originário, um dos meus ajudantes nestas tarefas clínicas, alto e desengonçado, sempre feliz e afável, surgia acima de todas as cabeças.

- Manjaco, vamos ao trabalho.

-Dotô, manga pessoal, manga chatice!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Cadi

Adão Cruz


(Desenho de Manel Cruz)

Cadi era uma mulher esbelta. Uma verdadeira Balanta-Bravo. Não tão bonitas como as Futa-Fulas, as balantas tinham um corpo de fazer inveja a quaisquer outras. A Cadi era o ver-dos-olhos de soldados, sargentos e oficiais. Mas apenas o ver-dos-olhos. Mais do que isso Cadi não permitia.

Nós vivíamos dentro de uma cerca de arame farpado, de onde só se podia sair, praticamente, de avioneta. Uma companhia militar e uma população rondando os mil e oitocentos negros. Não é de admirar que qualquer mulher pusesse “os olhos em bico” aos militares. Cadi sabia-o muito bem, e, com uma postura digna e distanciada, contrabalançava a sua condição de negra. Cadi sabia que todos gostariam de “fazer conversa gira” com ela (fazer amor), mas tinha grande orgulho em não deixar que lhe tocassem.

Eu admirava muito a maneira de ser da Cadi, que assim se valia do que a natureza lhe dera para impor a sua dignidade de mulher, ainda que negra, faminta, e rudemente colonizada pela “supremacia” branca.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dulce Neves traz a Guiné-Bissau até ao Terreiro da Lusofonia

Dulce Neves artista guineense sobre a qual não obtivemos dados biográficos, traz-nos um som da Guiné-Bissau -  Dulce Neves - "Nha Esperança":

domingo, 9 de maio de 2010

Da Guerra Colonial

José Brandão








Importa falar de um dos períodos mais inquietantes da vida dos portugueses. São os anos entre 1961 e 1974 nos quais Portugal mergulhou numa guerra para alguns do Ultramar para outros Colonial.
São treze anos de ansiedade, sofrimento e morte que atingiram praticamente todas as famílias portuguesas com consequências que ainda hoje perduram.

Guerra que mobilizou mais de 800 mil combatentes da chamada Metrópole enviados para as distantes e desconhecidas matas de África onde alastrava a revolta apoiada por alguns países próximos.

Em Angola, a partir de 4 de Fevereiro de 1961, na Guiné, a partir de 23 de Janeiro de 1963, em Moçambique, a partir de 25 de Setembro de 1964, a guerra é declarada pelos movimentos de libertação nacional que teimam em levar por diante o seu propósito de total independência do domínio colonial europeu.

Pela parte portuguesa, a guerra era sustentada pelo princípio político de defesa daquilo que era considerado território nacional, baseado no conceito de nação pluricontinental e multirracial. Pela parte dos movimentos de libertação, a guerra justificava-se pelo inalienável princípio da autodeterminação e independência, num quadro internacional de apoio e incentivo à sua luta.

Guerrilheiros, ou terroristas – conforme a atitude política – resistem num terreno que lhes é familiar causando baixas nas Forças Armadas portuguesas como nunca se vira antes.

Segundo o Estado-Maior General das Forças Armadas, morreram na Guerra de África 8.831 militares portugueses. Destas quase nove mil baixas, 3.455 aconteceram em Angola, 2.240 na Guiné e 3.136 em Moçambique.

O Exército, ramo militar sobre o qual recaiu a maior parte do trabalho bélico, teve à sua conta a quase totalidade dos mortos – 8.290 homens. A Força Aérea, por seu turno, contou em 346 as suas perdas e a Marinha de Guerra enterrou 195 dos seus elementos.

De acordo com a mesma fonte, 4.280 militares (48,5 por cento) morreram em resultado directo de acções de combate e 4.551 (51,5 por cento) em acidentes e doenças. Estas duas últimas causas de morte devem ser encaradas com reservas, já que havia na época a intenção clara de diminuir o número de baixas em combate tornado público.

Com cerca de 9.000 mortos, cerca de 30.000 feridos evacuados, em mais de 100.000 doentes e feridos, dos quais resultaram perto de 14.000 deficientes físicos, (5.120 com grau de deficiência superior a 60 por cento) e ainda, possivelmente, 140.000 neuróticos de guerra, rara é a família portuguesa que não foi ferida pela Guerra de África. Os telegramas do Ministro do Exército a apresentar «mais sentidas condolências» pela morte «por motivo combate defesa da Pátria» de «seu filho soldado fulano tal», chegavam aos lares dos portugueses semeando a dor da perda de um filho, marido, pai, irmão ou outro grau de familiaridade existente.

Sucediam-se os comunicados militares que diariamente o Ministério da Guerra mandava publicar nos jornais. "O Serviço de Informações Públicas das Forças Armadas comunica que morreram em combate, na Província de Angola, os seguintes militares:" e seguiam-se os nomes de mais uns tantos que, naquele ano, entre a noite de Natal e a de fim de ano, não iriam aparecer na TV, a desejar festas felizes.
Moçambique foi o teatro de operações onde morreram mais militares em combate (1.569 em 10 anos de guerra), seguindo-se Angola (1.360 em 13 anos) e a Guiné (1.342 em 11 anos). Tendo em conta a duração da guerra em cada um dos teatros de operações, as tropas portuguesas sofreram por ano 157 mortos em combate em Moçambique, 122 na Guiné e 105 em Angola.

Quanto ao número total de mortos, independentemente das causas oficiais da morte, as Forças Armadas portuguesas sofreram por ano 285 baixas mortais em Moçambique, 246 em Angola e 186 na Guiné.
Do total de mortos nas três guerras, cerca de 70 por cento eram expedicionários recrutados na chamada Metrópole. No conjunto das três frentes de guerra, entre 1961 e 1974, morreram em média 630 militares portugueses por ano.

Em números redondos, morreram nas três guerras de África: 1 general, 2 brigadeiros, 3 coronéis, 15 tenentes-coronéis, 22 majores, 100 capitães, 40 tenentes, 300 alferes, 900 sargentos e furriéis, 1.600 cabos e 5.500 soldados e marinheiros.

E se os custos humanos foram de grandes dimensões para um pequeno velho país de menos de 10 milhões de habitantes, as perdas materiais atingiram um nível muito próximo do colapso económico. O esvaziamento dos recursos financeiros para a sustentação da guerra foi equivalente, ao longo dos treze anos de conflito armado, a uma média de trinta e três por cento do Orçamento do Estado, tendo-se ultrapassado, em toda a segunda metade da década de 60, os quarenta por cento.

Com a Revolução do 25 de Abril de 1974 estavam criadas condições para terminarem as guerras que Portugal mantinha desde 1961.
Contudo, já depois do 25 de Abril ainda morreram nos três teatros de guerra 530 militares portugueses, 159 dos quais em resultado directo de acções de combate.
Embora, na metrópole, a intervenção popular tivesse assegurado profundas e imediatas repercussões para o 25 de Abril, as transformações ocorridas em Lisboa não provocaram alterações súbitas na maior parte do disperso Império Português.
Portugal foi o último país europeu a conservar um autêntico império colonial.
Em 1951 transformara as colónias em territórios ultramarinos e, em 1956. intitulou-as províncias, mas sem mudar praticamente a estrutura anterior. O Ministério das Colónias passou a chamar-se do Ultramar e em dezenas de organismos oficiais e empresas particulares o vocábulo colonial foi substituído por outro um pouco mais longo: ultramarino.

O governo português, ao considerar os territórios africanos como parte integrante da nação, negava que eles pudessem ter direito à autodeterminação ou que existisse uma nacionalidade angolana, guineense ou moçambicana.

Porém, em 1961, a revolta em Angola assinalou o começo da guerra de guerrilhas que se estenderia à Guiné e a Moçambique. Esta guerra, onde o exército português se consumia ano após ano, foi uma das causas determinantes da Revolução Portuguesa de 25 de Abril de 1974 que derrubou o regime corporativo do Estado Novo.

Apesar de raramente registarem vitórias decisivas, a guerra das forças de guerrilha conseguiu criar a confusão suficiente para exigir de Portugal o envio de milhares de soldados para África e o dispêndio de algo como metade do orçamento estatal nessa colossal presença militar.

Portugal manteve entre 1961 e 1973 uma média anual de 105 mil homens envolvidos nas três guerras coloniais: aproximadamente, 54 mil em Angola, 20 mil na Guiné e 31 mil em Moçambique. Os efectivos no conjunto dos três teatros de guerra foram sempre crescendo de 1961 a 69, baixaram ligeiramente em 70, aumentando de novo para chegar aos valores mais elevados em 1973, quando atingiram o total de 148.090 homens.
Quando chega o 25 de Abril de 1974 Portugal é um país cansado de tanto caminhar para terras distantes e por lá morrer.

Regressada a liberdade, Portugal não podia negar essa mesma liberdade aos povos que a reclamavam de armas na mão. Em consequência das alterações ocorridas em Portugal, as colónias africanas portuguesas acederam à independência entre o termo de 1974 e finais de 1975.

Ficava para a História mais uma página da presença de Portugal no Mundo.



Extraído do livro Cronologia da Guerra Colonial, José Brandão, 2008