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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Para que serve a Arte - uma visão pessoal

Adão Cruz

Para quem cria, a obra é um processo de aprendizagem permanente. A criação espevita a nossa reflexão, desenvolve todo o processo de humanização, cria uma singular afinidade com a consciência, aproxima-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, afina as emoções e os sentimentos, apura o sentido da beleza, da ética, da estética e até da justiça, dado que esta se pode considerar fruto da harmonia e do equilíbrio, as grandes traves da Arte e da verdadeira vida.
A Arte é uma relação de vida. A montante e a jusante da Arte existem as emoções e os sentimentos. A montante prevalecem as emoções e os sentimentos do autor da obra, a jusante predominam as emoções e os sentimentos daqueles que contemplam a obra criada. Pode dizer-se que a Arte é uma espécie de degrau entre este desnível do mundo interior e do mundo exterior, uma espécie de portal entre duas dimensões, o principal factor na equação que um dia poderá resolver o problema da paz individual e colectiva.
Quando alguém produz uma chamada obra de Arte, neste caso uma pintura, introduz na tela toda a sua vida, ainda que inconscientemente, todas as suas vivências, todas as suas memorizações, todas as suas aprendizagens, todas as suas emoções, todos os seus sentimentos, paixões e devaneios, todas as suas frustrações, todas as suas potencialidades reflexivas, toda a sua cultura, toda a sua visão do mundo e das coisas. Quem contempla essa obra não vai ver a obra do autor mas a sua própria obra, a obra de quem a vê, dado que vai contemplá-la através das suas próprias vivências, através da sua cultura, das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua visão do mundo e das coisas, que podem não ter nada a ver com os elementos da estrutura mental do criador da obra. A contemplação de um quadro não exige forçosamente uma análise intelectiva. É muito mais importante o impacto que a obra produz no espectador. Ela actua sobre o seu sentir e não só sobre a sua inteligência. Claro que um espectador pouco inteligente, sem imaginação, sem sentimento artístico, vazio de ideias e de ideais, não verá nada.

A obra funciona de estímulo, mais ou menos poderoso e profundo, capaz de desencadear toda uma cascata de sentimentos no observador, por vezes muito mais intensos do que os do criador, podendo ter a força requerida para desnudar o seu íntimo e arrancar-lhe emoções muitas vezes desconhecidas, apagadas ou esquecidas no mais recôndito dos seus arquivos mentais. Perante uma obra de Arte, suporte de meditação, meio de fixação da atenção e de excitação mental, o espectador sente-se obrigado a um exame de consciência e a uma necessidade de rotura com os seus velhos conceitos. A Arte é uma fonte de conhecimento e é tanto mais nova quanto mais novas forem as ideias que usa na concepção da realidade, quanto maior for o abalo que produz nas formas caducas de ver o mundo e a realidade. Como já se disse atrás, a Arte é impacto, desconcerto de espírito e agente de mudança das formas de pensar. Quando o público se identifica serenamente com a obra e mostra coerência com determinadas formas artísticas, é de temer que essas formas já tenham perdido a sua capacidade revolutiva. Assim se entende que não é a Arte que deve descer à compreensão do povo, mas é o povo que tem de ascender aos patamares da natureza revolucionária da Arte. Uma política cultural, isto é, o ensino de uma autêntica cultura formativa e digna, está longe da estafada ideia de que convém dar ao povo o que o povo pede. É escandaloso ouvir dizer que se deve servir o povo com coisas que lhe dêem prazer e não com intelectualices! Esta luta é uma luta de todos, um verdadeiro e poderoso sentir da necessidade desta ascensão como uma das prioridades da estruturação humana. Uma luta travada pelo saber de todos os tempos, uma luta perpétua contra a ignorância dos que não sabem, dos que julgam que sabem tudo e dos que não sabem aquilo que não sabem.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010



Para que serve a Arte (2) (Uma visão pessoal)

Adão Cruz

O conteúdo de uma obra é uma nova visão da realidade, às vezes um conflito, uma ponte ou uma travessia difícil entre a ideia e o Homem. Uma travessia sem demonstrações de verdade nem garantias de segurança. A única garantia é que algo muda dentro de nós e do mundo, por via da total liberdade do artista. A Arte é uma das formas mais livres de investigação e expressão de ideias e uma das maiores fontes de enriquecimento da nossa espontaneidade.

O artista é um ser vivo em mutação constante, com profunda experiência da vida, da alegria e do sofrimento do viver. O artista, ainda que nem sempre culto no sentido global do termo, está mais ou menos profundamente inserido no mistério da Natureza e das relações humanas, tal como o cientista e o filósofo, investigando, descobrindo e propagando ideias. Ele é dotado da energia, da acção, da sensibilidade, da curiosidade, da rebeldia e da capacidade de sofrimento necessárias à ânsia de conhecimentos novos, sem a qual não é possível uma personalidade artística profunda. Uma personalidade capaz de dirigir o olhar para outros mundos, outras formas de ser e de estar, outras maneiras não doutrinadas de olhar a existência.

A vivência da Arte é absolutamente singular e não tem paralelo com outro tipo de vivência. Há quem diga que aquele que não vive a Arte não vive a vida. Não querendo ser tão radical, prefiro dizer que quem não vive a Arte não sabe o que perde. Quem vive uma obra de Arte, poderosa expressão da essência humana, está constantemente a aprender uma experiência vivencial que não faz parte dos nossos padrões habituais de reflexão. E pode, se o estímulo, a sensibilidade e o sentido artístico tiverem a força necessária, alcandorar-se a instâncias onde reside uma fruição única do prazer estético.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010



Para que serve a Arte? (1) (Uma visão pessoal)

Adão Cruz


Para quem cria, a obra é um processo de aprendizagem permanente. A criação espevita a nossa reflexão, desenvolve todo o processo de humanização, cria uma singular afinidade com a consciência, aproxima-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, afina as emoções e os sentimentos, apura o sentido da beleza, da ética, da estética e até da justiça, dado que esta se pode considerar fruto da harmonia e do equilíbrio, as grandes traves da Arte e da verdadeira vida.

A Arte é uma relação de vida. A montante e a jusante da Arte existem as emoções e os sentimentos. A montante prevalecem as emoções e os sentimentos do autor da obra, a jusante predominam as emoções e os sentimentos daqueles que contemplam a obra criada. Pode dizer-se que a Arte é uma espécie de degrau entre este desnível do mundo interior e do mundo exterior, uma espécie de portal entre duas dimensões, o principal factor na equação que um dia poderá resolver o problema da paz individual e colectiva.

Quando alguém produz uma chamada obra de Arte, neste caso uma pintura, introduz na tela toda a sua vida, ainda que inconscientemente, todas as suas vivências, todas as suas memorizações, todas as suas aprendizagens, todas as suas emoções, todos os seus sentimentos, paixões e devaneios, todas as suas frustrações, todas as suas potencialidades reflexivas, toda a sua cultura, toda a sua visão do mundo e das coisas. Quem contempla essa obra não vai ver a obra do autor mas a sua própria obra, a obra de quem a vê, dado que vai contemplá-la através das suas próprias vivências, através da sua cultura, das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua visão do mundo e das coisas, que podem não ter nada a ver com os elementos da estrutura mental do criador da obra. A contemplação de um quadro não exige forçosamente uma análise intelectiva. É muito mais importante o impacto que a obra produz no espectador. Ela actua sobre o seu sentir e não só sobre a sua inteligência. Claro que um espectador pouco inteligente, sem imaginação, sem sentimento artístico, vazio de ideias e de ideais, não verá nada.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Arte (5) - uma visão pessoal


Adão Cruz

Socializando um pouco o nosso pensamento, podemos dizer que existe um divórcio cada vez maior entre a vida da sociedade e a vida da Arte. Não há uma formação humanista autêntica da sociedade. A ausência de tempo e espaço para a cultura, a falta de sensibilidade poética, a falta de vivência da verdadeira liberdade, a escravidão dos horários de trabalho, as dificuldades e incompreensões da vida levam a esquecer que a sensibilidade de um povo é a sua força e um perigo para os poderosos. O público menos culto e menos tocado pelos conceitos da estética moderna e contemporânea procura num quadro uma imagem da realidade e vai julgá-lo tanto mais hábil e perfeito quanto mais ele se aproximar do modelo.

O que representa este quadro? O que quer isto dizer? Considera assim a obra tanto mais imperfeita quanto mais se afasta do real, suspeitando sempre que esse afastamento resulta de uma incapacidade do autor para o atingir. Mas por outro lado tem a noção de que há algo que lhe escapa, algo que não percebe e o faz confessar sistematicamente não ser entendido no assunto. Apesar de já na Arte antiga haver um esforço para superar o real e edificar, para além da aparência, leis que residissem mais no pensamento do que nas coisas, e apesar do grande salto da Arte Moderna e da Arte Contemporânea, o conceito de imitação ainda permanece nas camadas menos esclarecidas e menos habituadas à expressão artística. Todavia, sem nos precipitarmos no sectarismo de que a representação do real é incompatível com a Arte, vamos tentar entender que a Arte se situa numa região que não é possível confundir com a realidade aparente.

Os materiais em si são inertes. Mas ganham vida ao mais pequeno movimento. A cor, a textura, as formas mais simples, os sinais, podem adquirir, ao mais pequeno domínio, uma expressividade independente. Toda a gente sabe que a criação não depende só dos materiais mas da forma como se usam, a qual decorre das capacidades artísticas do autor e da sua cultura e sensibilidade, bem como das circunstâncias e do estado psicológico da sociedade em que se insere.

A realidade exerce o seu fascínio e é, como vimos atrás, uma pedra fundamental na criação da obra de Arte.
Presunçoso seria lançar sobre ela um anátema. Não se deve procurar exclui-la mas mantê-la dentro das suas proporções e do seu papel. Até porque a realidade nunca está na pintura, ela encontra-se sempre na mente do observador. Se fosse possível isolar numa obra de Arte apenas a realidade que os olhos mostram, ela seria muito pobre. A par da realidade, a pintura existe com as suas leis próprias. Uma superfície sobre a qual está disposta a matéria pictórica, composta de linhas e cores reunidas de determinada forma dentro de uma consistência visível, mas para além da qual há todo um mundo psicológico, todo um universo de emoções, sentimentos e harmonias, dos quais essas linhas e cores são o sinal perceptível. Mesmo nas expressões mais figurativas, o nosso pensamento deve ser capaz de transpor a vidraça do realismo que cobre o quadro, a fim de não nos impedir de penetrar na sua essência, se existir, claro! Não sou ingénuo ao ponto de considerar que tudo é Arte, como dizem alguns. Por estas e outras razões, considero salutar que, sempre que possível, a obra de Arte não tenha título. A descodificação de uma obra de Arte, ainda que parcial, pode ser um fenómeno redutor que empobrece a obra. Pode mesmo anular a sua própria hermenêutica, isto é, a força indutora das capacidades interpretativas. Qualquer explicação verbal terá de ser extremamente cautelosa pois pode substituir-se à obra, paralisar a sua essência ou cegar o espectador. Este deve enriquecer e iluminar a sua vida através do saber ver, do saber ouvir e sentir, e não se limitar à análise dos processos formais, simples elementos da construção desse mesmo sentir. O espectador deve deixar-se levar pelo que ecoa dentro dele, sem pretender colar-se ao que deve ser, ou àquilo que nos disseram que é ou que lá existe. A obra pode ser o que somos e muito pouco do que lá está. É por isso que não aceito de bom grado que se disseque uma obra de Arte em termos interpretativos, por vezes vincadamente objectivos, como fazem alguns críticos, historiadores e cicerones de museu. Que o façam em termos técnicos, históricos, museológicos vá que não vá, mas em termos sentimentais, em termos interpretativos, tantas vezes sob a forma de gastos e banais artificialismos de catálogo, massificando as formas de ver e de interpretar, em vez de tentarem estimular a individualização das formas de sentir, custa-me a aceitar. Ninguém vê com os nossos olhos, ninguém sente com o nosso íntimo, ninguém pensa com o nosso pensamento.

UMA EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA MUITO ESPECIAL EM VENEZA

Sílvio Castro




O sempre muito movimentado ambiente de exposições artísticas de Veneza, passada a Bienal de Arquitetura de 2010 que alcançou grande sucesso de público e de crítica (cf. nosssos dois comentários sobre as participações de Portugal e do Brasil na dita Bienal, publicados nas páginas deste mesmo blog), este mesmo ambiente assistiu em dezembro a uma retrospectiva muito especial pela personalidade e história do autor exposto, bem como pelo significado de sua obra, quase absolutamente desconhecida do grande público. Trata-se da exposição retrospectiva de Roberto Fiorentini, “Storie del segno”, que teve lugar de 3 ao 14 de dezembro de 2010, no “Centro Culturale – Renato Nardi”, com a curadoria de Toni Toniato, crítico veneziano de grandes méritos. O Centro Cultural Renato Nardi, localizado na ilha da Giudecca, sede da restrospectiva, é uma histórica entidade de encontros dos socialistas de Veneza. Roberto Fiorentini era um dos seus constantes frequentadores.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010









A Arte (4)  (Uma visão pessoal)




Adão Cruz


Aqui chegados, embora por caminhos muito simplistas, não é difícil compreender que esta criação mental gerada a partir das coisas e da Natureza, transformadas pelo mundo interior do artista e plasticamente traduzidas em beleza por mãos ensinadas quer geneticamente quer de forma adquirida, só ganha vida se correr pelas suas veias o sangue da poesia. Por isso eu digo que a poesia é a alma de qualquer obra de Arte. A poesia percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, e seja qual for essa forma, plástica, literária ou musical, só é expressão artística se contiver dentro de si a essência poética, essa mágica, nobre e sublime forma de expressão da vida. Arte e beleza são uma espécie de irmãs gémeas.

A beleza pode considerar-se a corporização da Arte. A beleza reflectida à nossa volta não é mais do que a imagem do espelho que reflecte a Arte contida dentro de nós mesmos, como organização estética do nosso interior e da nossa vida. É ela que nos faz imaginar, pensar, sonhar e criar. A falta da apreensão da beleza e a ausência da reacção emotiva da sua percepção leva a que tudo à nossa volta seja inestético, desadequado e agressivo, daí decorrendo uma construção negativa do nosso mundo interior. A falta de apreensão ou a degradação do conceito de beleza implica uma igual degradação da forma de sentir e de existir, por perda do nosso interesse estético sobre o mundo e as coisas, e do mundo e das coisas sobre nós próprios. Sem este impacto estético não há forma simples e positiva de ver a vida e entender a Arte.

A obra de Arte, neste caso a pintura, assenta em três pilares fundamentais: a Natureza ou a sua imitação, o material da construção plástica e a expressão própria do autor, ou seja, a realidade, a beleza e a poesia. Conforme as aspirações de cada época, de cada grupo, ou de cada indivíduo, de acordo com a sua própria natureza, os seus propósitos, as suas tendências ou a sua inspiração, qualquer destes elementos pode ser preferido e elevado aos primeiros planos da realização, ou relegado para planos de menor ou ínfimo destaque. Apesar de haver, desde há muitos anos, uma tendência a menosprezar o Realismo e o Naturalismo, e a considerá-los não-Arte ou Arte menor, não parece possível, dentro da nossa realidade humana, e dentro da mínima exigência pictórica, prescindir de qualquer um destes pilares, por mais naturalista, abstracta ou conceptual que seja a obra. Cézanne dizia que na pintura existem duas coisas, olhos e cérebro. Entendia ele que uma inteligência artística que não seja acompanhada pelo estudo da Natureza é uma mera abstracção desprovida de valor, e dizia ainda que o conhecimento da realidade não é contemplativo mas nasce da vontade de apropriação. Vendo bem, não há um verdadeiro realista, a não ser que não conseguisse, minimamente, manifestar a sua própria existência, assim como não há um verdadeiro abstraccionista, capaz de unir o absurdo ao absoluto.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

VerbArte - A Arte (2) (Uma visão pessoal)









Adão Cruz

Desde as expressões artísticas anteriores ao século XX, passando por todas as correntes artísticas do século XX anteriores à Segunda Guerra Mundial, até aos movimentos artísticos contemporâneos, todas as intervenções procuram apoderar-se e assenhorear-se da Arte como sua definitiva herança ou conquista final. Dentro da Arte moderna, quer tenha sido no Realismo, no Impressionismo, no Simbolismo, no Expressionismo, no Abstraccionismo, no Surrealismo e outras, qualquer artista, abraçando uma qualquer destas formas de expressão, ter-se-á sentido, porventura, na recta final do caminho da arte.

O mesmo se dá na Arte Contemporânea, em qualquer dos seus ramos, Pop Art, Minimalismo, Arte conceptual, Performances, Instalações e outras. Muito pequeno sentimento artístico revela quem assim pensa ou quem assim se comporta, desconhecendo que a Arte, como sentimento, é universal, intemporal e transversal ao longo dos séculos. É o mesmo que pensar que a ciência, a despeito da actual magnitude da ciência da evidência, não foi sempre ciência e sempre mãe do conhecimento e do desenvolvimento.

Arte Conceptual, por exemplo, pode usar meios e materiais não directamente relacionados com as artes plásticas, como o vídeo, projectores de slides, fotografia, mas não pode pôr em causa o conceito de Arte, insistindo que é na imaginação, no idealismo, na ideia geradora, no conceito, que a Arte prevalece, de forma exclusiva, sendo a execução apenas um fenómeno dela decorrente. Apesar de eu considerar, como veremos adiante, que a morada da Arte está na ideia e na mente, chegar ao exagero de aceitar a obra como um sub-produto acidental do salto imaginário, é uma forma redutora. Muito provavelmente continuará sempre a haver em qualquer ideia e em qualquer expressão concreta um elemento surpresa, uma originalidade ou um golpe de génio que revolva outras ideias e outros pensamentos. Uma simples mudança de cor ou de forma pode exprimir imediatamente estados emocionais completamente diferentes.

A Arte é muito pouco analítica e programável. Por outro lado, dentro da Arte Conceptual e em nome da independência do artista e da sobrevalorização da exclusividade da ideia, proliferam excessos e banalidades, por vezes premiados e aplaudidos como processos de rebeldia e que não passam de frivolidades ao sabor da ordem estabelecida, levando à confusão entre a verdadeira criação e aquilo que se diz novo. Com a agravante de o artista, muitas vezes senhor de mentalidade banal, hiperbolizar a obra com conceitos e considerações de filosofia barata e legendas ridículas, pretensiosamente sábias.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

VerbArte - A Arte (1) - (Uma visão pessoal)





Adão Cruz

Ars, em latim, significa técnica ou habilidade, e seria o processo através do qual o conhecimento é usado para realizar determinadas habilidades. Mas esta definição, apesar de pretender ser abrangente, não satisfaz. Aliás, a Arte não tem definição que nos satisfaça. Por outro lado, tenho muito receio de que as definições nos imobilizem. Todos os que tentaram definir a Arte, através dos séculos, de forma mais superficial ou mais profunda, deixaram sempre, felizmente ou infelizmente, uma falha sináptica no padrão neural da nossa compreensão. O puzzle poderia ser aparentemente perfeito mas havia sempre umas peças estranhas que não encaixavam. Penso que nunca se saberá verdadeiramente o que é a Arte. Talvez a neurobiologia nos dê, mais tarde ou mais cedo, quando a biologia do espírito for uma ciência incontestada, uma aceitável definição, pelo menos de carácter neurofisiológico. Mas tudo isto não deve impedir-nos de pensar e de transmitir a nossa opinião sobre a natureza da Arte. Faço aqui um parêntesis para dizer que gostaria de usar em vez da palavra Arte, a designação de sentimento artístico. A palavra Arte é capaz de remeter para um certo elitismo, criando a ideia de que ela é propriedade do artista e de mais ninguém, enquanto a designação de sentimento artístico permite considerar que este mesmo sentimento existe no observador, e pode ser mais forte e profundo naquele que contempla do que naquele que produz. O sentimento artístico tem uma certa parecença com o místico. É um sentimento quase indefinível, é um estado de hipersensibilidade, um desejo de experimentar ser-se de outra maneira, uma necessidade de sair do não autêntico, um quase sentir a verdade total e o amor universal.

domingo, 21 de novembro de 2010

O Filme - cópia certificada



Luis Moreira

Os nossos "beligerantes" Adão e Carlos têm que ver este fime, tão simples, tão belo, com meia dúzia de personagens e um diálogo tão rico e imagens tão belas.

Vês este quadro, até há 50 anos atrás milhares de pessoas vieram vê-lo, uma obra prima que arrancava emoções profundas nos visitantes do museu. Agora descobriu-se que é uma cópia, ou melhor, descobriu-se o original,será que a cópia deixou de arrancar emoções aos visitantes? Qual é a obra de arte? É o que está ali no quadro ou o que cada um de nós vê nela?