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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Coisas breves. Cavaco recebe partidos

Carlos Mesquita

Cavaco Silva reuniu hoje com partidos de esquerda. Recebeu-os na sala trapezoidal de S. Bento, onde para além dos assentos há uma mesa redonda com apenas quatros pernas, em cima um candeeiro de lâmpadas anti-melgas. Ao fundo uma pantera de louça e um cavalete de pintura com um quadro de tela branca roto desde o centro esquerdo ao centro direito.

Aníbal (é o nome próprio com que se levanta) acordou depois de uma noite mal dormida de preocupações.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Boaventura de Sousa Santos - Um Cidadão Comum de Esquerda


A minha coluna, intitulada “A Esquerda é Burra?”, suscitou polémica entre alguns sectores de esquerda. Fui acusado de apelar ao voto útil no PS e, mesmo, de incoerência, dadas as minhas conhecidas simpatias pelo BE. Uma acusação injusta. Fiz um tal apelo apenas no caso das eleições para a CM de Lisboa, mas nunca em geral e explico porquê. Como referi, sócio-eleitoralmente, os portugueses têm sido maioritariamente de esquerda e, em sua esmagadora maioria, não são filiados em nenhum partido, sendo uns mais fieis às suas preferências partidárias que outros. Penso ser uma responsabilidade dos políticos de esquerda tentarem meter-se na cabeça de tais eleitores e sobretudo na dos que têm fracas lealdades partidárias. É o que eu tento fazer, assumindo, com risco, que tal maioria sociológica de esquerda se vai manter.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Opinião. Galp Base combustível mais barato.

Carlos Mesquita


Portugal é o segundo país da União Europeia com os combustíveis mais caros antes de impostos. A política de preços da Galp tem sido de desrespeito absoluto pelos consumidores. A liberalização do mercado de combustíveis não trouxe a anunciada baixa de preços, antes a cartelização das principais marcas, o que só a Autoridade da Concorrência não consegue ver.

Em 2008 tivemos a visita de um comissário europeu que dizia “haver necessidade de melhor regulação em Portugal”. O Bloco de Esquerda aproveitou para pedir uma nova audição parlamentar da Autoridade da Concorrência; deu em nada.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Sondagem: alegres e nobres para Cavaco




Luís Moreira


A sondagem do CM dá 54% para Cavaco, 28% para Alegre e um resultado residual para Nobre. Cavaco ganharia à primeira volta, ele que há quatro anos ganhou com 51%. Os 28% de Alegre são o que vale hoje o PS, embora não se confundam pois andarão por aqui os 8% do BE.

A direita agita-se por causa do casamento gay, procura, ou faz que procura, alguem que possa pressionar Cavaco, desde logo a Igreja pela voz do Cardeal de Lisboa e do CDS lançando para a mesa o nome de Bagão Félix.É fogo fátuo, a direita não vai correr o risco de dar a vitória a Alegre como, ao contrário, a esquerda deu a vitória a Cavaco com as suas divisões entre Alegre e Soares.

Quem está Presidente tem grandes vantagens, como mostra o facto de terem sido sempre reeleitos, e numa situação miserável como a que temos pela frente, com um governo descredibilizado e forçado a tomar medidas impopulares, ninguem se atreve a abrir um "melão" novo na Presidência da Republica.Vamos pois ter Cavaco.

Mas Cavaco bem pode começar, como já começou, a usar expressões mais duras como "situação insustentável" que é raríssima no seu discurso, mas que se viu obrigado a usar, num cada vez maior distanciamento do governo e de Sócrates, não vá apanhar com a "peçonha" que de um momento para o outro assaltou o governo.

Se Alegre fizesse o pleno da Esquerda, talvez o máximo que conseguisse fosse obrigar Cavaco a uma segunda volta vexatória, mas nem isso vai conseguir, há muito PS que não lhe perdoa e o PCP vai, como sempre faz, tocar a reunir à volta de um candidato que só serve para isso, para tocar a reunir.

O que esta mais que provável vitória de Cavaco possa meses depois influir nas eleições legislativas é coisa que não se adivinha, mas a direita está próxima de conseguir o velho sonho de Sá Carneiro: um Presidente, uma maioria, um governo!

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Apresentando João Machado

João Machado nasceu em Lisboa, em 1943. É licenciado pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (actual ISCSP). Católico na adolescência, pertenceu à Juventude Universitária Católica (JUC), afastou-se depois da religião. Com 21 anos colaborou num estudo orientado pela Professora Palmira Duarte, “ A Imagem da Mulher em Portugal”, estudo baseado em inquéritos à população. O trabalho de campo para realização desses inquéritos, levou-o a percorrer a Grande Lisboa, nomeadamente a chamada «cintura industrial» e a contactar uma realidade social que desconhecia.

Uma doença grave manteve-o internado num sanatório durante muito tempo. Iniciou a sua vida profissional dando aulas de Geografia, foi admitido no Ministério da Obras Públicas e, em 1970, começando a trabalhar no Serviço de Promoção Social do Ministério da Saúde e Assistência Social da altura.. Em 1972 esteve quatro meses num estágio profissional nos Estados Unidos, principalmente no Estado do Minnesota.

Em 1975, foi colocado, a seu pedido, no serviço de Acção Directa da Amadora, levando-o, a contactar a dramática realidade dos bairros degradados. Nos últimos anos de actividade, exerceu funções de inspecção. Toda a sua carreira profissional decorreu, até à aposentação em 2008, na Função Pública.

Para além da sua actividade profissional como sociólogo, manteve alguma actividade literária colaborando em enciclopédias, escrevendo verbetes ou traduzindo-os Desenvolveu também vários trabalhos para o então chamado Centro de Reflexão Cristã, sob a orientação da Professora Manuela Silva. Leitor compulsivo, desde jovem que deseja dedicar-se à literatura, desiderato que tenciona concretizar em breve, apresentando o seu primeiro romance. Militante do Bloco de Esquerda, integra a Assembleia Municipal da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A síndrome de Estocolmo



Carlos Loures

Todos já ouviram falar desta patologia que, basicamente, consiste na disfunção psicológica que leva um sequestrado a identificar-se com o sequestrador. A designação deriva de um facto ocorrido em Estocolmo no ano de 1973 – durante um assalto a um banco, os reféns, sequestrados durante seis dias, mostraram-se, depois de libertos, solidários com os assaltantes mesmo durante o processo judicial. A solidariedade da vítima para com o seu captor nasce com pequenos gestos de urbanidade do sequestrador para com o sequestrado e cimenta-se durante o processo de libertação por parte das autoridades policiais, em que o sequestrado se identifica com o assaltante no receio de ser vitimado durante a luta.

Uma visão lúcida da realidade é difícil e as pequenas atenções dos bandidos transformam-se, na memória da vítima, em rasgos de bondade. Por outro lado, os sequestrados têm tendência em ser dóceis com os captores, procurando uma fuga a represálias. Uma estratégia de sobrevivência, digamos que dá lugar a uma bela amizade.

A evolução da síndrome é subconsciente, a vítima não tem consciência da progressão do trauma. Por outro lado, esta não afecta todas as vítimas em cativeiro, alguns defendem-se desenvolvendo um ódio, porventura exagerado (mas saudável), aos captores. A síndrome, de espectro abrangente, tipifica também o afecto que muitas mulheres vítimas de violência nutrem pelos maridos agressores.


Em grupos alargados, lugares e transportes públicos, ouve-se, desde que os governos são eleitos democraticamente em Portugal, protestos contra a forma como somos governados. Ninguém parece apoiar o partido que está no poder – fervem as anedotas, os boatos, as acusações… Foi sempre para mim um mistério como é que situações de descontentamento generalizado dão lugar a vitórias, por vezes rotundas, dos partidos que estão por detrás dos governos tão duramente criticados. Outro aspecto interessante da chamada psicologia de massas é, pessoas que votam em partidos de direita e que às vezes até se mostram saudosas da ditadura, quando os seus interesses pessoais são de alguma maneira afectados, invocarem «as conquistas de Abril».

Mas esta é uma questão anedótica e marginal. O mistério que gostava de ver esclarecido é como é que partidos que já se viu como governam continuarem a ter a maioria dos votos dos eleitores. Então surge uma explicação – a síndrome de Estocolmo – reféns do neo-liberalismo, nós os eleitores, cativos do círculo vicioso, ciclo e circo fantasioso, que faz alternar um dos dois partidos no poder – ganhámos afecto aos captores, somos seduzidos pelos pequenos gestos amáveis que travestem a violência de impostos e de medidas lesivas do nosso bem-estar.

Quando faço a pergunta directamente a votantes no PS ou no PSD, as pessoas encolhem os ombros e respondem - «é que os outros não dão garantias de poder governar». Talvez seja verdade. PCP e Bloco de Esquerda talvez até nem fossem capazes de governar e permanecer fiéis aos seus princípios. Talvez se «pragmatizassem». Porém, os dois compadres do bloco central deram já amplas garantias de não conseguirem governar na acepção nobre do termo. Porque «governar-se», perdoe-se-me o chulismo, eles conseguem sempre.

Sofremos colectivamente da síndrome de Estocolmo.

Só essa explicação pode justificar que continuemos a eleger e a confiar em quem faz de nós e dos nossos votos passadeira para satisfazer ambições pessoais, enriquecer o currículo e beneficiar interesses dos grandes empresários, ponte para negociatas obscuras…

Não, não somos nem masoquistas nem tão estúpidos como parecemos; estamos é afectados pela síndrome de Estocolmo.

Isto explica tudo, não acham?.