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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um país onde a tragédia é não haver tragédias

Carlos Loures

Não há quem não elogie a Suíça – a limpeza das cidades e aldeias, a pontualidade com que comboios cumprem horários – podemos acertar os relógios pelas partidas e chegadas – a urbanidade dos suíços, o nível de vida dos suíços, os relógios suíços, o chocolate, os canivetes, os bancos…

A Suíça é, na realidade, um país bonito. Visitei-o há uns anos na Primavera, por altura da Páscoa. Apanhei alguns daqueles fortes nevões sem os quais a Suíça tem tanta graça como o Algarve sem sol ou a Alemanha sem cerveja. Com a minha mulher e outro casal amigo e o seu filho (o Gomes Marques, a Célia e o António Pedro), percorremos o país que, como sabemos é pequeno - uma área ligeiramente superior à soma do Alentejo com o Algarve - ao longo de um pouco mais de uma semana. Chegados de avião a Zurique, visitámos depois as demais cidades – Genebra, Lausana, Basileia, Montreux, Lucerna, Zermatt, os Alpes… (estive a ver as fotografias, mas não me lembro se o itinerário seguiu esta ordem). Comprovámos tudo o que se diz – a beleza, a limpeza, a organização… Porém, quando atravessámos a fronteira e chegámos a França, após uma maravilhosa viagem sem incidentes, sentimos uma certa sensação de alívio. Por que terá sido?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Gira, gira – o incontornável fatalismo do tango

Carlos Loures

Aqui há tempos,  contei como, ao traduzir um livro do grande escritor argentino Ernesto Sábato, («Heróis e Túmulos») me vi em palpos de aranha. Estudara língua e literatura castelhana, mas a cada passo surgiam vocábulos que desconhecia e que os dicionários, incluindo o da Real Academia, não registavam. Escrevi então ao Sábato dando-lhe conta da minha dificuldade e ele, muito amavelmente, enviou-me um extenso glossário com termos argentinos e, inclusivamente com modismos «porteños», ou seja, bueno-airenses.

Nesta série de textos que tenho vindo a dedicar ao fado e ao tango – na demanda de paralelismos entre estes dois géneros de canção urbana – vou hoje abrir um parêntesis para vos falar de uma composição de Carlos Gardel em que, para além do fatalismo que irmana o tango com o fado – surge um desses particularismos do castelhano que se fala na Argentina - a começar pelo título, Yira, Yira (pronunciado de forma semelhante á do português) – em castelhano dir-se-ia «Gira, gira», pronunciando-se como fonema fricativo velar surdo – velar, por ser articulado junto do véu palatino (os portugueses quando querem falar portunhol, resolvem o problema, transformando o «g» ou o «j» em «r» – exemplo – rúlio iglésias).

sábado, 26 de junho de 2010

Cultura, democracia e futebol

Carlos Loures

Estas três palavras andam por vezes tão separadas que mais parecem pertencer a três diferentes idiomas. Quando ouvimos as claques insultar os adversários em linguagem rasteira ou quando tomamos conhecimento de actos de corrupção ou de deturpação da verdade desportiva, é difícil associar ao futebol os conceitos de cultura e de democracia. No entanto, ao longo da minha vida profissional, grande parte dela passada no mundo da edição, por diversas vezes me cruzei com o futebol. Vou referir dois desses fortuitos encontros.


Anos atrás, traduzi um livro de Ernesto Sábato, o grande escritor argentino, um dos indigitados crónicos para o Prémio Nobel da Literatura. Foi o romance «Sobre héroes y tumbas» que na edição portuguesa, com o acordo do autor, ficou «Heróis e Túmulos». Não foi trabalho fácil, pois tendo estudado o castelhano europeu, deparei com um texto cheio de argot porteño que só vim a decifrar com a ajuda de Sábato. - tendo-lhe confiado os problemas, mandou-me um glossário com termos que os dicionários de que dispunha  não registavam.

Contudo, o que me surpreendeu num intelectual de tamanha dimensão foi o rigor com que as suas personagens discorriam sobre futebol, descrevendo jogadas de confrontos históricos entre o Boca e o River Plate, evocando grandes jogadores... Vim depois a saber que Sábato, hoje quase centenário, pois nasceu em Junho de 1911, é um fervoroso adepto do Boca Juniors, o clube do mítico Diego Maradona. Hei-de voltar a falar de Ernesto Sábato e oxalá que seja a propósito da atribuição do Nobel – poucos escritores houve e há que tanto justifiquem esse galardão.