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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Noctívagos, insones & afins - As ruínas circulares

Jorge Luis Borges

And if left off dreaming about you…

Trough the Looking-Glass, VI


Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumir-se na lama sagrada, mas daí a poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que a sua pátria era uma dessas infinitas aldeias que ficam rio acima, no flanco violento da montanha, onde a língua zenda não está contaminada do grego e onde é rara a lepra. O que é certo e seguro é que o homem pardo beijou a lama, subiu a margem sem afastar (provavelmente sem sentir) as sanguessugas que lhe dilaceravam as carnes e arrastou-se enjoado e sangrando, até ao recinto circular dominado por um tigre ou um cavalo de pedra, que teve outrora a cor do fogo e agora a da cinza. Essa arena é um templo que os antigos incêndios devoraram, que a floresta pantanosa profanou e cujo deus não recebe as honras dos homens. O forasteiro deitou-se sob o pedestal. Só o despertou o sol alto. Verificou sem assombro que as feridas haviam cicatrizado; fechou os olhos pálidos e adormeceu, não por fraqueza da carne mas por decisão da vontade. Sabia que esse templo era o lugar referido para o seu invencível desígnio; sabia que as árvores incessantes não tinham conseguido estrangular, a jusante, as ruínas de outro templo propício, também de deuses incendiados e mortos; sabia que a sua obrigação imediata era o sono. Por volta da meia-noite acordou-o o grito inconsolável de um pássaro. Marcas de pés descalços, uns figos e um cântaro avisaram-no de que os homens da região lhe tinham espiado com respeito o sono e solicitavam o seu amparo ou temiam a sua magia. Sentiu o frio do medo e procurou na muralha delapidada um nicho sepulcral e tapou-se com folhas desconhecidas.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Temos novidades para esta noite,

como por exemplo uma canção romântica cantada por Enrico Caruso - Cuore'ngrato (Catari). Caruso chega à uma hora em ponto; às duas temos um texto sobre dois grandes dramaturgos Karl Valentin e Ionesco; finalmente, às três, um belo conto de Jorge Luis Borges. Lá fora pode chover e trovejar - no Estrolabio há belcanto, teatro e grande literatura.

E humor - Jô Soares entrevista um político gago

sábado, 31 de julho de 2010

Poema a quatro mãos



Ethel Feldman e Luis Moreira

Eu só dei o mote que são os três primeiros versos, a Ethel, pegou numa coisinha muito simples e desenvolveu, dando sentido a uma ideia que sempre andou a dançar no meu espírito.Por isso, são três partes da Ethel e uma parte minha.



"Como posso esquecer-te
se tentando esquecer-me
me lembro de ti."

danço sem musica
procuro teu passo
na pausa me encontro
enquanto te perco

Como posso esquecer--te
se demoras em mim
quando esqueço que existo

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Duas canções urbanas - o fado e o tango – continuemos a divagar

Carlos Loures

Em Abril de 1982, assisti na Gulbenkian à exibição de «Cinco Tangos», executada pelo grupo de Ballet da Fundação. A música era de Astor Piazzolla, o grande compositor argentino, mago do bandoneón. Mostro aqui , mais abaixo, um vídeo da mesma peça interpretada pela Companhia Nacional de Bailado. Lindíssima a música de Piazzolla e muito boa a interpretação.

Várias vozes se fizeram na altura ouvir, chamando a atenção das afinidades entre o tango e o fado. Entre elas a de Jorge Luis Borges, num texto que não o consegui encontrar, embora saiba que foi publicado num suplemento do DN num domingo de há muitos anos.

Nessa crónica anterior, focava o fenómeno da canção urbana, falando das tais similitudes entre o fado e o tango. Quando recordava o pouco que se sabe sobre as obscuras origens da chamada «canção nacional», sugeri entre as hipóteses que os especialistas têm vindo a explorar, aquela que é a mais comummente aceite – a de que o fado nos chegou nos barcos de torna-viagem que trouxeram de regresso a corte de D. João VI que, durante as invasões francesas, esteve refugiada no Rio de Janeiro, para ali tendo transferido a capital do reino.


terça-feira, 20 de julho de 2010

Duas canções urbanas - o fado e o tango


Nesta bela gravura de Rugendas(1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares. Nesta imagem, vemos escravos dançando o lundum.


Que em dois continentes separados por um oceano, tenham nascido duas canções urbanas com sonoridades idênticas, eivadas de fatalismo, não será estranha coincidência. O fado e o tango surgiram em cidades portuárias, onde se chega e parte – “Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!”, afirma-nos Álvaro de Campos. Jorge Luis Borges, num texto publicado há anos atrás no “Diário de Notícias”, estabelecia curiosos paralelismos entre ambos, dizendo salvo erro que o fado fazia parte da genealogia do tango. Não consegui encontrar esse texto, ao qual, aliás, ainda me voltarei a referir, pois foi de uma importância capital numa outra história.

Quanto às origens do fado, apenas vou lembrar o que se diz. Há a tese mais vulgarizada de que, quando a Corte de D.João VI regressou, trouxe consigo uma dança em voga no Rio de Janeiro a que se chamava «Fado», inspirada no lundum, e que podia ser acompanhada por canto. Na realidade, os primeiros registos escritos sobre o tema começaram a surgir no século XIX, mais na segunda metade. Mas foi uma inovação que depressa se converteu em tradição.