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domingo, 5 de dezembro de 2010

Lodo

Ethel Feldman

Chove no pantanal, 
molha o rio,
abraça o lodo

Joga a noiva
arroz semeado
Povoa a colónia 
enquanto for viva


Chora a viúva atrasada
Diz ao amante, 
amo-te  agora que és pó

Voa a borboleta
Encontra o dia
tempo de estar

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Esperança

Ethel Feldman

natureza apetecida,
doce, molhada
semente somente

natureza reconhecida
no teu corpo presente
suado, molhado
semente somente

entre nós e ela
o oceano índico
o Tejo somente
semente

alonga-se o tempo
na esperança 
de outra esperança
semente

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Existir

Ethel Feldman

Curto é o tempo

que mal me conheço

tão longo é o tempo

que nunca me alcanço

seja o segundo

o tempo deste existir

sábado, 2 de outubro de 2010

Paladar da Loucura

Ethel Feldman


Você pediu que contasse como era antes, como foram nossas brigas. Você disse que me revisse como uma transeunte no passeio e confessasse como eram esses ataques que tenho escondido de todos nossos diálogos.

Uma vez soube de uma mulher que cortou os pulsos, doutra que se encharcou em comprimidos antes do limite da morte, doutra ainda que se debruçou na janela ameaçando a morte.

No apartamento de cima ouço gritos. O porteiro comenta que é um exagero. Ninguém a vê, dela só lhe conhecemos o ruído. Tão altos os gritos que nos obrigam a subir o som da televisão.

São as mulheres histéricas, que num momento de impulso de tanto controle se descontrolam na dor.

Você perguntou o que eu achava dessas mulheres. Sei de quem partiu uma janela, sei doutra que destruiu a casa de banho. Parece – dizem - que são as mulheres do povo, que sem polimento exageram o comportamento.

Soube noutro dia de uma senhora de bem, doída tirou despiu-se na festa. Nua, num choro baixinho, encontrou-se no chão. Os homens - todos eles bem formados - desviaram os olhos.

Me diga uma coisa, você nunca pirou?

Não me peça então que conte como foram as brigas, se chorei, se me enquadrei numa noticia de crime.

Me conte você que fez seu parceiro quando um dia, você minha amiga, perdeu a postura.

Se a laranja for ácida e se a cada gomo as lágrimas te vierem aos olhos, me diga Cleo, se é esse o paladar da loucura.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Febres de São Tomé

Ethel Feldman

1

Veio do mar aquele que um dia roubou um pedaço de mim. Parti sem saber meu destino.

- Dona este é o caminho da Boa Morte.

- E depois, Manuel?

- Dona, depois é o cemitério de São João.

- Me deixe ficar por aqui Manuel, se boa é a morte.

- Dona, o doutor vai saber que malária é essa que lhe morde a alma.

Entre o hospital da cidade de São Tomé e a casa de Daio não sei o que aconteceu. Ouvi o médico cubano segredar que o meu mal só ocupava lugar. Na esquina da dor quase atravessei a morte. Veio do mar quem me roubou existir.

Encarregaram a Daio o meu destino.

Promessa

Ethel Feldman


Eu sei que te prometi ser objectiva, nada de Hello Kit, nem laços dourados. Você exigiu um relato quase científico. Imparcial!

Meu querido amigo, quando acordo não sei se o dia amanheceu ou se a noite ainda se arrasta, por isso dê o desconto que o meu tempo é diferente do seu.

2 poemas

Ethel Feldman







Papou um Anjo
no esgoto
seguiu
como se fosse Nada
Papou um Anjo
Roubou-lhe a Asa
Fez-se Papa
Do esgoto
um só desgosto: NADA

_____________________________________


na borda da ROSA, quase no fim, /
a título póstumo bordaram:
"AQUI, JAZ o vermelho tinto de DOR
O branco perdido de AMOR
A quem souber do paradeiro
daquele que fugiu da COR
Reze pela ALMA do pecador "




Vou pedir ao Senhor José uma tesoura emprestada. Corto a DOR fico com com a COR. Recorto a ALMA - salvo o AMOR. No leitor de CD's coloco um JAZZ.

domingo, 12 de setembro de 2010

Quem dera ser eternamente gueixa

Ethel Feldman





Quem dera ser
eternamente gueixa/beijar teus mamilos doces
passear-me em ti e adivinhar-te húmida
Tua língua no meu corpo
tua pele quase rosa, suada em cada pedaço de mim que espera por ti.
____________________

(Gravura de Eisho Chocosa. Arte erótica japonesa - Arte Shunga)

domingo, 29 de agosto de 2010

Hoje acordei com saudades tuas

Ethel Feldman


Hoje acordei com saudades dos teus bons dias. De manhã, já quase no almoço lembrei-me de como cantas em silêncio. Hoje o dia foi inteiro a lembrar-me de ti. Das vezes que sorriste e me apontaste o céu cheio de príncipes que me defenderiam eternamente do mal. Sorri e repeti que já tinha escolhido o príncipe de todos os príncipes. Eras tu de manhã, à tarde e ao por de sol. De noite, esperava-te com um livro nas mãos, enquanto me deitava na cama. Antes de adormecer lias poemas, e eu pedia-te que me jurasses que ia ser assim para sempre. Tu sorrias sem nunca dizer que sim. Sem lutar, aceitava de bom grado o teu sorriso e tu fazias amor comigo. Não me lembro de outro amor assim. Sei de cor o teu corpo, nele viajei sem cansaço. Sei como ficam teus ombros quando a lua se avizinha. E se o sol teima em ficar, teu peito fica laranja.

Hoje o dia foi todo teu e eu amei-te sem medo.

Feliz por te saber feliz, abraço-te.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

No Espaço VerbArte, hoje a Ethel Feldman pede-nos que inventemos o amanhã

Ethel Feldman

Inventa o amanhã e será sempre dia
Inventa a noite e será sempre agora
Inventa quem és e serás sempre nada
Inventa até não mais inventar
E nada terás inventado

sábado, 21 de agosto de 2010

Exposição no Espaço VerbArte Ethel Feldman e Adão Cruz

O Sentido das Coisas

 
Não sei qual o tamanho
do tempo
nem quanto tempo
levo para entender
o sentido das coisas.
Quando passeio
tudo lembra
o que julguei ter vivido
Lugares que não visitei
parte da memória
desejada
No bosque fui amada
Tão violentamente
entregue ao momento
que me desfiz na paisagem.

Memórias inventadas.
Se a vida me deu
esta estranha forma de agir
é porque nunca
entendi o verdadeiro
sentido das coisas.
Quando a morte me visitar
terei de gritar:
ESTOU AQUI!
Corro o risco dela
se perder de mim
Pode o tempo ser eterno
paciente comigo
a verdade é que me perco
sem nunca entender
Qual o sentido das coisas

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ethel Feldman e Adão Cruz no Espaço VerbArte

Mãos








Essas mãos
que são por ora quatro
tão insanas
se tornam duas
tão doidas
se confundem
numa
tão. .
por dentro de ti
somos nenhum

espera amor
deixa que o sol pouse sem pressa
pelo tempo que prometemos existir
___________________________

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

No Espaço VerbArte continua a exposição Ethel/Adão


Se tivesse três centímetros de cera negra encontraria a forma. Modelaria a existência. De olhos fechados saberia se é amorosa a curva de cada sentir. Bastaria ouvir o pulsar para saber se é branca a cor daquele que respira. Se eu tivesse três centímetros de cera preta eu ouviria o silêncio e saberia a hora de partir.


Parece que a neve se instalou na montanha. Tão longe.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Adão Cruz e Ethel Feldman no Terreiro da Lusofonia (IV)


Eras rosa e eu acreditei em ti

Segui-te cega, sem questionar
que caminho fazias, quando partias
Ah! Quantas vezes partimos
Sem nunca chegar
Eras tão rosa
e eu sempre acreditei em ti
Falavas de um lugar que nunca vi
Contavas histórias perdidas

Tantas vezes tentámos chegar
que nos perdemos em cada partida
Perdi a conta das despedidas
tão tristes éramos como a partida

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Adão Cruz e Ethel Feldman no Terreiro da Lusofonia (III)

sou o beija-flor e o girassol

a formiga e a cigarra
a árvore centenária
sou a casa e a janela
o verde da colina
a árvore quase nua
sou o medo que se espanta
a vontade de crescer
o desejo que tudo ama

Sou o tudo e o nada
O verde, azul e amarelo
Sou a menina gigante
Que mal cabe na tela

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Adão Cruz e Ethel Feldman no Terreiro da Lusofonia (I)


É noite, choram as carpideiras

Os mortos de cada dia
Boa safra que se escapa da vida
Doce é a partida
quando se faz desejada
Partem os homens de Boaventura
Restam as viúvas vestidas de luto
Trago no corpo, teu corpo
Salgado, agora sem vida
Memória de ti nas noites
Sem noite
Memória de ti em cada manhã
Amanhã e depois de amanhã
Mal anoiteça, estarás comigo
Até que eu adormeça



sábado, 31 de julho de 2010

Poema a quatro mãos



Ethel Feldman e Luis Moreira

Eu só dei o mote que são os três primeiros versos, a Ethel, pegou numa coisinha muito simples e desenvolveu, dando sentido a uma ideia que sempre andou a dançar no meu espírito.Por isso, são três partes da Ethel e uma parte minha.



"Como posso esquecer-te
se tentando esquecer-me
me lembro de ti."

danço sem musica
procuro teu passo
na pausa me encontro
enquanto te perco

Como posso esquecer--te
se demoras em mim
quando esqueço que existo

sexta-feira, 30 de julho de 2010

À beira da estrada nascem rosas

Ethel Feldman

À beira da estrada nascem rosas, fora de horas

calam-se os pardais.
Ama a mulher o Deus menino,
como se amasse o esposo.
Fosse o tempo vivido a contento
cantariam os pardais,
amaria a mulher o homem, em devido tempo.
Pede o anjo ajuda ao arcanjo,
que o tempo seja sem tempo.

Nascem rosas sem hora,
cantam os pardais sem parar.
Dia e noite, noite e dia
e o tempo é sempre o mesmo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Para um amigo sonhado,

Ethel Feldman


sonhei contigo sem sonhar
cada pedaço de ti em mim
sonhei contigo por dentro
sem sonhar estive em ti

com as asas que me deste
visitei o universo, em ti
por cada beijo trocado
vivi em ti tudo que perdi

meus lábios passeiam-se felizes por ti
devagar saboreio teu paladar
e somos tantas vezes um no outro
que deixamos de existir

se o desejo é isto
em segredo grito que ardo
por ti

tantas vezes fomos um no outro
abraça-me de novo!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Inventamos a língua

Ethel Feldman


Nossas palavras já não se entendem
quando te digo
Boa Noite
Respondes
Boa Noite
E
Viras o rosto para o lado oposto

ENTÃO
meu corpo cala
perdido
Nossas palavras
doentes
perdem
o rumo


Desnorteados
SONHAMOS
um dialecto
em cada silêncio trocado
um passo
em cada compasso
a cor da despedida
em cada porto visitado

A minha
na tua
a cada jura de Amor