O cenário deste video é Lisboa, mas nem se pode dizer que isso seja despropositado, porque, como os tripeiros sabem, só os lisboetas chamam às tripas "dobrada".
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.
Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.
Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo ...
(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Nesta bela gravura de Rugendas(1802-1858), o pintor alemão que durante três anos viajou pelo Brasil, recolhendo preciosos testemunhos dos costumes populares. Nesta imagem, vemos escravos dançando o lundum.
Que em dois continentes separados por um oceano, tenham nascido duas canções urbanas com sonoridades idênticas, eivadas de fatalismo, não será estranha coincidência. O fado e o tango surgiram em cidades portuárias, onde se chega e parte – “Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!”, afirma-nos Álvaro de Campos. Jorge Luis Borges, num texto publicado há anos atrás no “Diário de Notícias”, estabelecia curiosos paralelismos entre ambos, dizendo salvo erro que o fado fazia parte da genealogia do tango. Não consegui encontrar esse texto, ao qual, aliás, ainda me voltarei a referir, pois foi de uma importância capital numa outra história.
Quanto às origens do fado, apenas vou lembrar o que se diz. Há a tese mais vulgarizada de que, quando a Corte de D.João VI regressou, trouxe consigo uma dança em voga no Rio de Janeiro a que se chamava «Fado», inspirada no lundum, e que podia ser acompanhada por canto. Na realidade, os primeiros registos escritos sobre o tema começaram a surgir no século XIX, mais na segunda metade. Mas foi uma inovação que depressa se converteu em tradição.
Álvaro de Campos
«Nasceu em 15 de Outubro de 1889, em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inactividade.»
Foi assim, com estas breves, simples, mas esclarecedoras palavras, que o criador descreveu a criatura a quem devemos poemas como Tabacaria, que vamos escutar na voz única de João Villaret
Ouvimos, através da dicção perfeita de Paulo Autran, um poema de Álvaro de Campos - "Poema em linha recta". Quem foi Paulo Autran? Um dos maiores actores brasileiros de sempre, pois as suas magníficas interpretações eram sustentadas por uma inteligência elevada e por uma cultura invulgar. Paulo Paquet Autran, nasceu no Rio de Janeiro em 7 de Setembro de 1922 e faleceu em São Paulo a 12 de Outubro de 2007) Teve inesquecíveis interpretações no teatro, no cinema e na televisão. A sua voz trouxe-nos directamente, em linha recta, este clarão da galáxia que se chama Fernando Pessoa.
De Fernando Pessoa não é necessário dizer nada
Vamos então ler o Poema em linha recta. E depois de o lermos, não fazia mal ouvir de novo o Paulo Autran. Lusofonia em estado puro e em movimento.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. ___________________________________
No dia 31 de Maio de 1819, nasceu Walt Whitman, o poeta que cantou a América do Norte com a emoção e o génio lírico com que outro grande poeta, Pablo Neruda, no século seguinte, cantaria a América Latina. E também cantaria Walt Whitman - YO no recuerdo \a qué edad, \ni dónde, \si en el gran Sur mojado \o en la costa \temible, bajo el breve \grito de las gaviotas, \toqué una mano y era \la mano de Walt Whitman:\pisé la tierra \con los pies desnudos, \anduve sobre el pasto, \sobre el firme rocío \de Walt Whitman.
Não vou perder tempo e gastar espaço com pormenores biográficos que podeis encontrar com abundância. Vou ocupar o meu tempo, o vosso tempo, e o espaço do blogue a transcrever os primeiros versos de uma extensa Saudação a Walt Whitman, de Álvaro de Campos, porque um génio merece ser saudado por outro génio:
Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze... Hé-lá-á-á-á-á-á-á! De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro, Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo, Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado, Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt, Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser... Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio, Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te, E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias, Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente. Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste, Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer, Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro, E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas, De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.
No dia 31 de Maio de 1930, nasceu outro norte-americano, felizmente ainda vivo e que completa hoje 80 anos – Clint Eastwood. Actor, realizador, produtor, destacou-se nos western spaghetti, de Sergio Leone e no papel do inspector Harry Callahan, em diversos filmes de uma famosa série de acção. Mas creio que não é pelo que fez nos anos 60 a 80 que merece ser saudado. Muito menos pelas suas posições políticas como membro do partido republicano.
Clint Eastwood, quando começou a ficar velho para os papéis de «macho» e para o tipo de filmes que o tornaram famoso, desenvolveu uma série de insuspeitadas aptidões. Como actor, atenuada a agressividade dos seus papéis de juventude e meia-idade, vieram à superfície recursos histriónicos que pareciam não existir. Como realizador (embora dirigisse filmes desde há duas ou três décadas) passou a abordar temas menos superficiais e menos voltados para os imperativos do mercado: lembremo-nos apenas de A Troca (Changeling), 2008, Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima) 2006, e Menina de Ouro (Million Dollar Baby), 2004.
Mais dois norte-americanos que desmentem a generalização em que caímos quando dizemos que «os americanos são uns estúpidos». Tenho ouvido dizer isto de muitas maneiras. Eu já o disse algumas vezes e pensei-o muitas mais. No entanto, em todos os dias do ano nascem pessoas ímpares nos Estados Unidos e todos os dias se podem comemorar nascimentos de norte-americanos excepcionais.
Moral da história: as generalizações é que são estúpidas.
Adão Cruz
Alexandra Pinheiro
Andreia Dias
António Gomes Marques
António Marques
António Mão de Ferro
António Sales
Augusta Clara de Matos
Carla Romualdo
Carlos Antunes
Carlos Durão
Carlos Godinho
Carlos Leça da Veiga
Carlos Loures
Carlos Luna
Carlos Mesquita
Clara Castilho
Ethel Feldman
Eva Cruz
Fernando Correia da Silva
Fernando Moreira de Sá
Fernando Pereira Marques
Hélder Costa
João Machado
José Brandão
José Magalhães
Josep Anton Vidal
Júlio Marques Mota
Luís Moreira
Luís Rocha
Manuel Simões
Manuela Degerine
Marcos Cruz
Maria Inês Aguiar
Paulo Melo Lopes
Paulo Rato
Pedro Godinho
Raúl Iturra
Rui de Oliveira
Sílvio Castro