No dia anterior, em Petrogrado (Sampetesburgo), numa acção rápida e bem coordenada, grupos armados do CMR (Comité Militar Revolucionário), afecto aos bolcheviques, haviam ocupado as agências telegráficas, coração do sistema de comunicações, e mandado baixar as pontes sobre o Neva, isolando a cidade do resto da Rússia. Por isso, em 25, à hora mencionada, o periclitante Governo Provisório comunicava ter transferido todo o poder para o Soviete de Petrogrado. Este comunicado foi, segundo se sabe, emitido pelo CMR e redigido por Lenine.
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domingo, 7 de novembro de 2010
A Revolução de Outubro
Carlos Loures
Às 10 da manhã de 7 de Novembro de 1917 (25 de Outubro pelo calendário russo) – faz hoje 92 anos – consumava-se a Revolução na Rússia e a esperança no Comunismo acendia-se por todo o mundo. Já tudo foi dito sobre este histórico momento de ruptura social, económica e política que transformaria o mundo das décadas seguintes, pelo que apenas vou recordar alguns dos principais tópicos da Revolução bolchevique.
No dia anterior, em Petrogrado (Sampetesburgo), numa acção rápida e bem coordenada, grupos armados do CMR (Comité Militar Revolucionário), afecto aos bolcheviques, haviam ocupado as agências telegráficas, coração do sistema de comunicações, e mandado baixar as pontes sobre o Neva, isolando a cidade do resto da Rússia. Por isso, em 25, à hora mencionada, o periclitante Governo Provisório comunicava ter transferido todo o poder para o Soviete de Petrogrado. Este comunicado foi, segundo se sabe, emitido pelo CMR e redigido por Lenine.
No dia anterior, em Petrogrado (Sampetesburgo), numa acção rápida e bem coordenada, grupos armados do CMR (Comité Militar Revolucionário), afecto aos bolcheviques, haviam ocupado as agências telegráficas, coração do sistema de comunicações, e mandado baixar as pontes sobre o Neva, isolando a cidade do resto da Rússia. Por isso, em 25, à hora mencionada, o periclitante Governo Provisório comunicava ter transferido todo o poder para o Soviete de Petrogrado. Este comunicado foi, segundo se sabe, emitido pelo CMR e redigido por Lenine.
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quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Centralismo democrático
Carlos Loures
Soviete de Petrogrado em 1917
«Centralismo democrático» é a designação que se dá à forma de direcção e ao modo de organização dos partidos comunistas. As características e os princípios deste sistema de estruturação partidária, são - a elegibilidade de todos os cargos e a possibilidade da sua revogação em qualquer altura; uma severa centralização organizativa; todas as decisões aprovadas pela maioria devem ser acatadas pela minoria; uma forte disciplina implantada a todos os níveis da estrutura; permanente possibilidade de discussão da linha política; o imperativo da crítica e da autocrítica; unidade na acção, não se admitindo a criação de facções, fracções, tendências ou «sensibilidades». É óbvio que qualquer defensor deste tipo de organização que me esteja a ler, logo dirá que esta descrição é sintética, redutora. Será, mas alongar-me mais era correr o risco de não encontrar ninguém com paciência para chegar ao fim da leitura.
Soviete de Petrogrado em 1917
«Centralismo democrático» é a designação que se dá à forma de direcção e ao modo de organização dos partidos comunistas. As características e os princípios deste sistema de estruturação partidária, são - a elegibilidade de todos os cargos e a possibilidade da sua revogação em qualquer altura; uma severa centralização organizativa; todas as decisões aprovadas pela maioria devem ser acatadas pela minoria; uma forte disciplina implantada a todos os níveis da estrutura; permanente possibilidade de discussão da linha política; o imperativo da crítica e da autocrítica; unidade na acção, não se admitindo a criação de facções, fracções, tendências ou «sensibilidades». É óbvio que qualquer defensor deste tipo de organização que me esteja a ler, logo dirá que esta descrição é sintética, redutora. Será, mas alongar-me mais era correr o risco de não encontrar ninguém com paciência para chegar ao fim da leitura.
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010
De cada um, segundo as suas capacidades, a cada um, segundo as suas necessidades!
Carlos Mesquita
Lembro-me de um filme publicitário inglês em que um casal idoso, viajando no seu automóvel, ouve uma canção Punk (em alemão parece-me) e segue o ritmo da música alegremente, abanando o capacete e rindo cúmplices um para o outro; em rodapé passa a legenda, a letra é toda obscenidades. O slogan era qualquer coisa do género, “ não faça figuras tristes, matricule-se na escola de línguas XPTO”. São muitos os exemplos de gafes monumentais do nosso mundo político quando fazem citações para armar em cultos, usando frases de notáveis, a maior parte das vezes fora do contexto, para evidenciar que leram um ou outro teórico, ou simplesmente repetindo expressões que andam por aí, e que nunca usariam se soubessem a sua origem. Recentemente, Aguiar Branco discursando pelo PSD, resolveu transformar a sessão solene das comemorações do 36º aniversário do 25 de Abril, num cómico stand up, citando uma frase de Lenine que podia ter sido escrita por um carteiro dos CTT ou um dirigente de clube de futebol da segunda circular. Satisfeito pelo efeito – gargalhadas da plateia – continuou o número, expelindo uma versão livre de um parecer da revolucionária polaca e fundadora do partido comunista alemão, Rosa Luxemburgo, sobre a liberdade; aqui, ele ou quem lhe escreveu a conversa, teve o cuidado de truncar a frase, pois a expressão completa dita por políticos tão pouco respeitadores da liberdade dos outros, pediria uma barra de sabão azul e branco para lavar a boca. Mas a situação mais bizantina a que assisti ultimamente, foi o novel ideólogo laranja Calvão da Silva, em declarações sobre a proposta de revisão constitucional do PSD, que pretende higienizar a lei fundamental retirando-lhe os marxismos das letras e da pontuação. Disse Calvão da Silva: “É preciso que o Estado seja mais justo e equitativo na distribuição da riqueza, não tratando todos por igual (…) e que se aplique o princípio, a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas possibilidades”. Calvão da Silva, professor universitário e presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD, devia saber que estava a citar Karl Marx, e logo a rematar um paleio argumentativo anti-marxista. E não é um Marx qualquer, uma frase encontrada nos perdidos e achados como a citação de Lenine feita por Aguiar Branco, mas um texto fundamental para os marxistas que é a “Crítica ao programa de Gotha”. Calvão da Silva podia ter recuperado o princípio de distribuição para uma sociedade de transição, mas resolveu defender o critério para uma sociedade socialista, aquele que Marx entendia que na “fase superior do comunismo” a “sociedade poderá inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.”
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Para os nossos liberais um dia os cidadãos são desiguais entre si, para no outro serem iguais e desiguais ao mesmo tempo, tanto defendem os direitos sociais como a sua não universalização, já professam a satisfação das necessidades quando o socialismo sempre admitiu transitoriamente uma distribuição desigual, no fundo denotam uma grande ignorância sobre a base ideológica da sua família e o limite teórico das correntes políticas. Daí a confusão sobre o papel do Estado, do trabalho, dos factores de correcção social, da equidade ou do igualitarismo. Podiam começar por decidir se querem tratar de forma desigual os desiguais.
Eu ando a traduzir o conceito de que o trabalho é para ser feito segundo as capacidades de cada um; vivo num 2º andar sem elevador, já disse à minha mulher: - A próxima bilha de gás acartas tu que não quero que os vizinhos pensem que somos comunistas, ou pior, que lhes passe pela cabeça que somos do PSD.
Lembro-me de um filme publicitário inglês em que um casal idoso, viajando no seu automóvel, ouve uma canção Punk (em alemão parece-me) e segue o ritmo da música alegremente, abanando o capacete e rindo cúmplices um para o outro; em rodapé passa a legenda, a letra é toda obscenidades. O slogan era qualquer coisa do género, “ não faça figuras tristes, matricule-se na escola de línguas XPTO”. São muitos os exemplos de gafes monumentais do nosso mundo político quando fazem citações para armar em cultos, usando frases de notáveis, a maior parte das vezes fora do contexto, para evidenciar que leram um ou outro teórico, ou simplesmente repetindo expressões que andam por aí, e que nunca usariam se soubessem a sua origem. Recentemente, Aguiar Branco discursando pelo PSD, resolveu transformar a sessão solene das comemorações do 36º aniversário do 25 de Abril, num cómico stand up, citando uma frase de Lenine que podia ter sido escrita por um carteiro dos CTT ou um dirigente de clube de futebol da segunda circular. Satisfeito pelo efeito – gargalhadas da plateia – continuou o número, expelindo uma versão livre de um parecer da revolucionária polaca e fundadora do partido comunista alemão, Rosa Luxemburgo, sobre a liberdade; aqui, ele ou quem lhe escreveu a conversa, teve o cuidado de truncar a frase, pois a expressão completa dita por políticos tão pouco respeitadores da liberdade dos outros, pediria uma barra de sabão azul e branco para lavar a boca. Mas a situação mais bizantina a que assisti ultimamente, foi o novel ideólogo laranja Calvão da Silva, em declarações sobre a proposta de revisão constitucional do PSD, que pretende higienizar a lei fundamental retirando-lhe os marxismos das letras e da pontuação. Disse Calvão da Silva: “É preciso que o Estado seja mais justo e equitativo na distribuição da riqueza, não tratando todos por igual (…) e que se aplique o princípio, a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas possibilidades”. Calvão da Silva, professor universitário e presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD, devia saber que estava a citar Karl Marx, e logo a rematar um paleio argumentativo anti-marxista. E não é um Marx qualquer, uma frase encontrada nos perdidos e achados como a citação de Lenine feita por Aguiar Branco, mas um texto fundamental para os marxistas que é a “Crítica ao programa de Gotha”. Calvão da Silva podia ter recuperado o princípio de distribuição para uma sociedade de transição, mas resolveu defender o critério para uma sociedade socialista, aquele que Marx entendia que na “fase superior do comunismo” a “sociedade poderá inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.”
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Para os nossos liberais um dia os cidadãos são desiguais entre si, para no outro serem iguais e desiguais ao mesmo tempo, tanto defendem os direitos sociais como a sua não universalização, já professam a satisfação das necessidades quando o socialismo sempre admitiu transitoriamente uma distribuição desigual, no fundo denotam uma grande ignorância sobre a base ideológica da sua família e o limite teórico das correntes políticas. Daí a confusão sobre o papel do Estado, do trabalho, dos factores de correcção social, da equidade ou do igualitarismo. Podiam começar por decidir se querem tratar de forma desigual os desiguais.
Eu ando a traduzir o conceito de que o trabalho é para ser feito segundo as capacidades de cada um; vivo num 2º andar sem elevador, já disse à minha mulher: - A próxima bilha de gás acartas tu que não quero que os vizinhos pensem que somos comunistas, ou pior, que lhes passe pela cabeça que somos do PSD.
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
Viagem entre o sonho e a realidade
Carlos Loures
O poeta António Gedeão garantiu que «o sonho comanda a vida». Por seu turno, Lenine disse no seu «Que Fazer?»: «Se o homem estivesse completamente privado de sonhar, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar com a sua imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, não se me afigura que motivos o obrigariam a compreender e levar a cabo vastas e penosas empresas no terreno das artes, da ciência e da vida prática» […] «O desacordo entre os sonhos e a realidade não produz qualquer dano, desde que a pessoa que sonha creia seriamente no seu sonho, se fixe atentamente na vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, em geral, trabalhe escrupulosamente na concretização das suas fantasias. Quando existe algum contacto entre os sonhos e a vida, tudo vai bem» No mesmo texto dizia ainda: «Ai desses homens mesquinhos que não sabem sonhar!». Durante a ditadura, sonhávamos com a democracia – alguns limitavam-se a sonhar, outros sonhavam e agiam no sentido de tornar o seu sonho realidade, estabelecendo a tal relação entre a utopia e o mundo real de que fala Lenine. Subitamente, em Abril…
O poeta António Gedeão garantiu que «o sonho comanda a vida». Por seu turno, Lenine disse no seu «Que Fazer?»: «Se o homem estivesse completamente privado de sonhar, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar com a sua imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, não se me afigura que motivos o obrigariam a compreender e levar a cabo vastas e penosas empresas no terreno das artes, da ciência e da vida prática» […] «O desacordo entre os sonhos e a realidade não produz qualquer dano, desde que a pessoa que sonha creia seriamente no seu sonho, se fixe atentamente na vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, em geral, trabalhe escrupulosamente na concretização das suas fantasias. Quando existe algum contacto entre os sonhos e a vida, tudo vai bem» No mesmo texto dizia ainda: «Ai desses homens mesquinhos que não sabem sonhar!». Durante a ditadura, sonhávamos com a democracia – alguns limitavam-se a sonhar, outros sonhavam e agiam no sentido de tornar o seu sonho realidade, estabelecendo a tal relação entre a utopia e o mundo real de que fala Lenine. Subitamente, em Abril…
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Para acabar de vez com a democraticidade, nada melhor do que o "centralismo democrático"
Carlos Loures
«Centralismo democrático» é a designação que se dá à forma de direcção e ao modo de organização dos partidos comunistas. As características e os princípios deste sistema de estruturação partidária, são - a elegibilidade de todos os cargos e a possibilidade da sua revogação em qualquer altura; uma severa centralização organizativa; todas as decisões aprovadas pela maioria devem ser acatadas pela minoria; uma forte disciplina implantada a todos os níveis da estrutura; permanente possibilidade de discussão da linha política; o imperativo da crítica e da autocrítica; unidade na acção, não se admitindo a criação de facções, fracções, tendências ou «sensibilidades».
É óbvio que qualquer defensor deste tipo de organização que me esteja a ler, logo dirá que esta descrição é redutora. Será, mas alongar-me mais era correr o risco de não encontrar ninguém com paciência para chegar ao fim da leitura.
«Centralismo democrático» é a designação que se dá à forma de direcção e ao modo de organização dos partidos comunistas. As características e os princípios deste sistema de estruturação partidária, são - a elegibilidade de todos os cargos e a possibilidade da sua revogação em qualquer altura; uma severa centralização organizativa; todas as decisões aprovadas pela maioria devem ser acatadas pela minoria; uma forte disciplina implantada a todos os níveis da estrutura; permanente possibilidade de discussão da linha política; o imperativo da crítica e da autocrítica; unidade na acção, não se admitindo a criação de facções, fracções, tendências ou «sensibilidades».
É óbvio que qualquer defensor deste tipo de organização que me esteja a ler, logo dirá que esta descrição é redutora. Será, mas alongar-me mais era correr o risco de não encontrar ninguém com paciência para chegar ao fim da leitura.
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terça-feira, 27 de julho de 2010
De cada um, segundo as suas capacidades, a cada um, segundo as suas necessidades!
Carlos Mesquita
Lembro-me de um filme publicitário inglês em que um casal idoso, viajando no seu automóvel, ouve uma canção Punk (em alemão parece-me) e segue o ritmo da música alegremente, abanando o capacete e rindo cúmplices um para o outro; em rodapé passa a legenda, a letra é toda obscenidades. O slogan era qualquer coisa do género, “ não faça figuras tristes, matricule-se na escola de línguas XPTO”. São muitos os exemplos de gafes monumentais do nosso mundo político quando fazem citações para armar em cultos, usando frases de notáveis, a maior parte das vezes fora do contexto, para evidenciar que leram um ou outro teórico, ou simplesmente repetindo expressões que andam por aí, e que nunca usariam se soubessem a sua origem. Recentemente, Aguiar Branco discursando pelo PSD, resolveu transformar a sessão solene das comemorações do 36º aniversário do 25 de Abril, num cómico stand up, citando uma frase de Lenine que podia ter sido escrita por um carteiro dos CTT ou um dirigente de clube de futebol da segunda circular. Satisfeito pelo efeito – gargalhadas da plateia – continuou o número, expelindo uma versão livre de um parecer da revolucionária polaca e fundadora do partido comunista alemão, Rosa Luxemburgo, sobre a liberdade; aqui, ele ou quem lhe escreveu a conversa, teve o cuidado de truncar a frase, pois a expressão completa dita por políticos tão pouco respeitadores da liberdade dos outros, pediria uma barra de sabão azul e branco para lavar a boca. Mas a situação mais bizantina a que assisti ultimamente, foi o novel ideólogo laranja Calvão da Silva, em declarações sobre a proposta de revisão constitucional do PSD, que pretende higienizar a lei fundamental retirando-lhe os marxismos das letras e da pontuação. Disse Calvão da Silva: “É preciso que o Estado seja mais justo e equitativo na distribuição da riqueza, não tratando todos por igual (…) e que se aplique o princípio, a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas possibilidades”. Calvão da Silva, professor universitário e presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD, devia saber que estava a citar Karl Marx, e logo a rematar um paleio argumentativo anti-marxista. E não é um Marx qualquer, uma frase encontrada nos perdidos e achados como a citação de Lenine feita por Aguiar Branco, mas um texto fundamental para os marxistas que é a “Crítica ao programa de Gotha”. Calvão da Silva podia ter recuperado o princípio de distribuição para uma sociedade de transição, mas resolveu defender o critério para uma sociedade socialista, aquele que Marx entendia que na “fase superior do comunismo” a “sociedade poderá inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.”
Lembro-me de um filme publicitário inglês em que um casal idoso, viajando no seu automóvel, ouve uma canção Punk (em alemão parece-me) e segue o ritmo da música alegremente, abanando o capacete e rindo cúmplices um para o outro; em rodapé passa a legenda, a letra é toda obscenidades. O slogan era qualquer coisa do género, “ não faça figuras tristes, matricule-se na escola de línguas XPTO”. São muitos os exemplos de gafes monumentais do nosso mundo político quando fazem citações para armar em cultos, usando frases de notáveis, a maior parte das vezes fora do contexto, para evidenciar que leram um ou outro teórico, ou simplesmente repetindo expressões que andam por aí, e que nunca usariam se soubessem a sua origem. Recentemente, Aguiar Branco discursando pelo PSD, resolveu transformar a sessão solene das comemorações do 36º aniversário do 25 de Abril, num cómico stand up, citando uma frase de Lenine que podia ter sido escrita por um carteiro dos CTT ou um dirigente de clube de futebol da segunda circular. Satisfeito pelo efeito – gargalhadas da plateia – continuou o número, expelindo uma versão livre de um parecer da revolucionária polaca e fundadora do partido comunista alemão, Rosa Luxemburgo, sobre a liberdade; aqui, ele ou quem lhe escreveu a conversa, teve o cuidado de truncar a frase, pois a expressão completa dita por políticos tão pouco respeitadores da liberdade dos outros, pediria uma barra de sabão azul e branco para lavar a boca. Mas a situação mais bizantina a que assisti ultimamente, foi o novel ideólogo laranja Calvão da Silva, em declarações sobre a proposta de revisão constitucional do PSD, que pretende higienizar a lei fundamental retirando-lhe os marxismos das letras e da pontuação. Disse Calvão da Silva: “É preciso que o Estado seja mais justo e equitativo na distribuição da riqueza, não tratando todos por igual (…) e que se aplique o princípio, a cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas possibilidades”. Calvão da Silva, professor universitário e presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD, devia saber que estava a citar Karl Marx, e logo a rematar um paleio argumentativo anti-marxista. E não é um Marx qualquer, uma frase encontrada nos perdidos e achados como a citação de Lenine feita por Aguiar Branco, mas um texto fundamental para os marxistas que é a “Crítica ao programa de Gotha”. Calvão da Silva podia ter recuperado o princípio de distribuição para uma sociedade de transição, mas resolveu defender o critério para uma sociedade socialista, aquele que Marx entendia que na “fase superior do comunismo” a “sociedade poderá inscrever nas suas bandeiras: De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades.”
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