Clara Castilho
“Não se pode escrever com a caneta e com a mão, mas com ideia e com imaginação”
(João dos Santos)
Na Instituição onde trabalho – Casa da Praia – dá-se grande importância às actividades de livre expressão, como forma de fazer emergir os sentires, as experiências, os saberes e as motivações das crianças, ligando-as a outras formas de expressão (desenhada, dramatizada, gravada ou escrita).
Inicialmente reflexo de simples relatos ou descrição elementar de situações, as histórias das crianças vão-se tornando, progressivamente, mais complexas e criativas. Valorizadas através do seu registo, transformando as “histórias” ditas em escritas a criança apercebe-se que aquele registo tem um significado.
A imaginação de histórias pelas crianças surge, assim, de uma forma natural, permitindo a projecção de conflitos, medos e fantasias.
Eis um exemplo:
A. foi um menino que nos chegou com 8 anos. Não conseguia ficar sentado numa cadeira, atirava-se para trás, gritando frases desconexas. Não vou contar toda a sua história. Mas ele, da mãe só se lembrava que tinha ao cabelo amarelo, mas desculpava-a dizendo: “ ela não me abandonou num sítio qualquer, foi à porta do meu avô”. Foi todo um trabalho de “reconstrução” que chegou a bom termo. A. foi capaz de imaginar as seguintes histórias:
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segunda-feira, 1 de novembro de 2010
domingo, 26 de setembro de 2010
Noctívagos, insones & afins - Se eu não me sentisse confuso de como fui feito
Raúl Iturra
...o que um filho diria a um pai que se importa com ele, toma conta e é feliz…por ter um pai por perto….e não compra o filho e vai-se embora….ensaio de etnopsicologia da infância…
À minha descendência
Feito
Porque de certeza não foi o espírito que me criou. Faz já dez anos. Não foi o espírito que entrou no corpo da minha mãe e depositou aí o meu corpo. Diz a minha mãe que foi ela quem me trouxe ao mundo. Que me pôs neste mundo. Que me deu à luz. Que entregou o meu corpo à família e ao pai. E aos vizinhos. Que me viram no dia do baptismo. Diz a mãe que me levou-me no seu ventre durante cumprido tempo. Diz a mãe. A mãe sempre diz todo o que ela sofreu comigo dentro. Diz que sofreu por ter que acordar à noite para me amamentar. Diz a mãe que teve de mudar as minhas fraldas milhares de vezes quando era pequeno e não sabia usar penico. Diz a mãe.
...o que um filho diria a um pai que se importa com ele, toma conta e é feliz…por ter um pai por perto….e não compra o filho e vai-se embora….ensaio de etnopsicologia da infância…
À minha descendência
Feito
Porque de certeza não foi o espírito que me criou. Faz já dez anos. Não foi o espírito que entrou no corpo da minha mãe e depositou aí o meu corpo. Diz a minha mãe que foi ela quem me trouxe ao mundo. Que me pôs neste mundo. Que me deu à luz. Que entregou o meu corpo à família e ao pai. E aos vizinhos. Que me viram no dia do baptismo. Diz a mãe que me levou-me no seu ventre durante cumprido tempo. Diz a mãe. A mãe sempre diz todo o que ela sofreu comigo dentro. Diz que sofreu por ter que acordar à noite para me amamentar. Diz a mãe que teve de mudar as minhas fraldas milhares de vezes quando era pequeno e não sabia usar penico. Diz a mãe.
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