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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

A vida por um fio

Adão Cruz

                                       Opistótono,  (óleo sobre tela, de Charles Bell, 1809).

        
Eu acabara de comer a canja. Na minha juventude, os casamentos da minha aldeia tinham canja, frango estufado com ervilhas e vitela assada. Mas nem ao frango eu cheguei. Alguém me veio chamar para ir ver uma mulher que estava muito mal, lá para os confins da Serra da Gralheira.
Enfiei-me no meu velho Hillman Minx e fui até Junqueira, no alto da serra, onde um homem me esperava. Daí em diante o trajecto seria feito a pé por montes e vales. Quase uma hora depois chegámos a um casebre, em cima uma humilde habitação e em baixo o curral da vaca

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Paquete (estória já antiga mas bem actual)

Adão Cruz

O Paquete entrou ontem no serviço de urgência, inchado como um tonel, tenso como um balão a que só falta o alfinete para estoirar. Fígado, pulmões, ventre de pandeiro, tudo está encharcado como uma esponja, por um coração entupido.

Sem ar, como se morresse afogado, ou, dentro da linguagem médica, como peixe fora de água. Insuficiência cardíaca grave, insuficiência cardíaca descompensada, anasarca, os vários termos para rotular o sofrimento atroz de um jovem sem culpa, igual a tantos outros que jogam ténis.

Socorrido na primeira fase de compensação, e um tanto aliviado, é internado para estudo. Hoje de manhã veio fazer um ecocardiograma.

O Paquete tem vinte e seis anos e uma cara aciganada, morena de si e roxa da cianose. Começou a trabalhar como moço de trolha aos treze anos, vergado ao peso da tábua e do balde. À força de cachaços lá se erguia quando aninhava com o abafa. Nunca alguém o levara ao médico.

Não tive coragem de colher a sua história antes desta idade, a história da sua infância. A meio do exame diz-me o Paquete, a medo e quase em segredo: sr. doutor estou à rasca para mijar. Deixe-me ir mijar, pelas almas.

No meio de tais máquinas, perante aquela gente de bata branca que ele nunca vira mais gorda, o sofrimento da sua vida levava-o a pensar que pedir para mijar era quase um crime.

O Paquete tem uma gravíssima estenose mitral, com severa insuficiência mitral e tricúspide, e um coração do tamanho de uma melancia. Está numa fase inoperável, a rebentar pelas costuras. Se operado fosse, tudo não passaria de remendo em calças a desfazer-se.

Sem a mínima ideia do que se passa, ele submete-se, humilde, desconfiado, medroso como sempre aconteceu em toda a sua vida. Tem medo que lhe ponham a tábua à cabeça ou o balde na mão. E com aquela falta de ar! Ele que sempre pediu para o deixarem respirar um pouco, antes do peso de outra tábua e de outro balde.

O Paquete nunca fora ao médico e nunca ninguém lhe dera a mão para se erguer. Todos lhe esfacelaram o coração e a vida até rebentar! Pobre Paquete! Pobre barco tão frágil!

Com as lágrimas nos olhos saí do hospital e escrevi esta história de hoje, de há séculos. Escrevo-a em especial para os meninos e jovens que brincam, que jogam, que sonham, e que vão ao médico.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Abaixo de deus...acima de deus

Adão Cruz


Quando temos a sorte de fazer um diagnóstico correcto, sobretudo em situações graves, e conseguimos equacionar uma terapêutica adequada que resolva a situação, quase sempre o doente ou a doente diz: abaixo de deus foi o sr. dr. quem me salvou.

Não há muito tempo, uma doente minha e minha amiga, foi acometida de um síndrome coronário agudo grave, o que significa uma obstrução importante de uma artéria coronária, ou seja, uma situação de quase enfarte do miocárdio extenso. Teve a sorte da artéria recanalizar parcialmente, evitando, por assim dizer, o descalabro. No entanto, o perigo persistia, com a possibilidade de recidiva a cada momento. Isto é, a espada mantinha-se bem afiada por cima da cabeça. Por duas vezes recorreu ao hospital e por duas vezes recorreu ao médico assistente. Com toda a negligência e incompetência, quer num caso quer noutro, deram-lhe uma palmadinha nas costas e mandaram-na embora.

Resolveu vir ter comigo. Sem qualquer tipo de presunção, não foi difícil inteirar-me da gravidade do caso. Imediatamente foi realizado cateterismo cardíaco, com vista a angiografia coronária, tendo sido detectada uma lesão grave na principal artéria coronária. Foi feita uma angioplastia, isto é, uma desobstrução da artéria com implantação de um stent, um dispositivo metálico que impede a reestenose da artéria. Resumindo, foi afastado o perigo, e a morte, pelo menos por enquanto, meteu o rabo entre as pernas e foi-se embora.

A minha amiga virou-se para mim e segredou-me: é costume dizer-se, abaixo de deus foi o sr. dr. quem me salvou. Neste caso, acima de deus foste tu que me safaste. Se não fosses tu e as coisas fossem deixadas nas mãos de deus, bem lixada estava.

Eu respondi: olha minha menina, fico muito grato pelas tuas palavras e pelo teu reconhecimento. Apesar de nós médicos não andarmos em competição para ocupar o lugar de deus, a verdade é que é deprimente ficar sempre em segundo lugar, quando, se as coisas ficassem só nas mãos de deus, bem que os doentes iam pró galheiro.

Saúde - médicos a 100,00 Euros à hora...



Luis Moreira


Há 15 anos inventaram, a Ordem dos Médicos, as Faculdades de Medicina, o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação que havia o perigo de os médicos ,por serem tantos, poderem cair no desemprego. Era, como se compreende, uma conta fácil de fazer, bastava ir aos ficheiros dos recursos humanos dos hospitais e ver quantos médicos é que dali a 15 anos iriam para a reforma.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Uma semana em Moncorvo /Outubro de 2010 - O que move o ser humano?


Luis Rocha

Torre de Moncorvo (muitas vezes chamada simplesmente Moncorvo) é uma vila no Distrito de Bragança, com cerca de 3 000 habitantes.

O seu ex-libris é sem dúvida a Igreja Matriz, cuja construção se iniciou na primeira metade do século XVI e terminou cerca de 100 anos depois.
É de salientar, na fachada o belo pórtico em estilo renascença. O interior ostenta um grandioso retábulo setecentista e uma das mais notáveis obras de arte – o tríptico de Sant'Ana, de origem flamenga. Está classificada como Monumento Nacional por Decreto n.º 16/6/1910.

Nesta vila viveu a minha irmã desde 1978, até falecer em Novembro de 2009.
Durante esta minha estadia não pude deixar de me questionar de novo, sobre os motivos que terão levado a minha irmã (que na altura já tinha um filho) a esta emigração que ainda hoje considero insólita.

Nasceu na cidade de Castelo Branco, fez o curso de medecina em Lisboa e depois não lhe faltaram oportunidades para se realizar e evoluir profissionalmente, no que era o seu sonho desde menina – o estudo e a prática da medicina de que tanto gostava.
Perguntei-lhe várias vezes mas nunca me deu uma resposta convincente. Respondia sempre da mesma maneira: estou bem onde estou.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Salvé, Serviço Nacional de Saúde!

Luis Moreira

O maior e melhor serviço prestado ao povo português é o SNS! Faz hoje 31 anos!

Num país tão injusto, tão desigual, o SNS é um factor poderoso de nivelação, por cima, presta um serviço eficiente a toda a gente, rico ou pobre. Não tenho disso a mais pequena dúvida. Isso não quer dizer, no entanto, que não mereça melhorias a todos os níveis. Ao nível de gestão, de Recursos Humanos, de edificios e equipamentos e, muito principalmente, ao nível político.

Duas realidades como exemplo: O SMAS e o SMAS - quadros. O SMAS tem um hospital muito bom, dois centros de saúde, médicos, pessoal muito capaz, e equipamento. Eu sou um zeloso e habitual cliente, tenho um grande respeito pelo nível de cuidados a que sou sujeito. Sabemos, no entanto, que já houve uma Assembleia Geral para se tomar a decisão quanto a uma parceria com a HPP da CGD. Porquê? Porque as quotas dos sócios são praticamente absorvidas pelos salários do pessoal administrativo. O SMAS, pese o pesar, não tem viabilidade. O SMAS - quadros, tem lá umas quantas administrativas, faz uns acordos com os grupos que operam na saúde, paga umas receitas às farmácias e umas facturas aos hospitais e segue de vento em popa!