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sábado, 19 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine


Capítulo XXIV

No Caminho de Santiago

O leitor terá sem dúvida inquirido por que carga de água teimo em pernoitar nos bombeiros voluntários. Bem... Chegou o momento de reflectirmos sobre o assunto. Para além de os quartéis de bombeiros voluntários serem os lugares mais aprazíveis deste país, pela energia e humanidade que lá encontramos, eu quero fazer esta viagem, o mais possível, na pele do peregrino de base. Isto é: do peregrino que vem da França ou da Alemanha ou da Inglaterra para fazer a pé o Caminho entre Lisboa e Santiago de Compostela. (Por que razões, pouco importa, são subtilezas sobre as quais o próprio peregrino, mesmo com boa vontade, não saberá sempre responder; em cada caminhante há um caminho interior distinto de todos os outros.) Por enquanto poucos portugueses se interessam por esta aventura, haverá porém cada vez mais, não por a fé crescer, mas porque no futuro caminharemos mais: a caminhada equilibra a nossa vida citadina. Os portugueses, que o regime manteve até 1974 separados do mundo, situam-se ainda na fase que os outros europeus viveram entre a segunda guerra mundial e os anos setenta: a adoração, não do vitelo de ouro, mas do automóvel. Isto mudará aqui como tem mudado nos outros países. Lenta mas seguramente. Haverá, mesmo em Portugal, por incrível que pareça, mais passeios, mais zonas pedonais e mais percursos pedestres. A vida que os citadinos aguentam na região de Lisboa não é tolerável – cumpre mudá-la.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo XXI

Etapa 9: Na saída de Ansião

Apesar de bem instalada na camarata feminina dos bombeiros voluntários de Ansião, durmo pouco: acordo à uma hora, volto a adormecer às cinco, levanto-me às sete e meia. Sinto-me cansada. E dói-me o joelho esquerdo. Não só... Descubro uma bolha no calcanhar esquerdo. Mau... Então até as botas fiéis me aleijam?!... Serei capaz de caminhar mais trinta quilómetros? Pergunta retórica, eu sei. Uma vez começada a etapa, não será fácil interrompê-la, mesmo querendo, por não haver meios de transporte. Seguirei portanto até ao fim.

Tomo uma refeição que, pela quantidade de comida ingerida, não posso designar como pequeno almoço: duas enormes sanduíches com queijo do Rabaçal em fatias grossas, o melhor do mundo, garante a dona do café, dois copos de leite e um bolo quente. Depois, enquanto me dirijo para a saída de Ansião, ainda como duas tangerinas e um pedaço de chocolate preto com avelãs.