segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Recepção ao papa - Yo no te espero! Jo no t'espero! Eu nom te espero!




 Adão Cruz

Acordei hoje de manhã com uma grande sensação de paz. No entanto, atravessavam-me a cabeça três traves mestras. Duas delas de madeira sã, firme, sem bicho. Outra de madeira podre, carunchosa.

A primeira era uma reflexão muito agradável e confiante sobre a leitura da véspera, o maravilhoso livro de António Damásio “O livro da consciência”. Li e reli tudo o que ele escreveu. E comparando com tudo o que ele escreveu, este livro parece-me um passo gigante no sentido da firmeza, da confiança e da projecção do ser humano no caminho do conhecimento e da verdade. Quando ele diz que o “eu” que tornou possível a razão e a observação científica, e a razão e a ciência, por seu lado, têm vindo a corrigir as intuições enganadoras a que o eu, por si só, nos pode levar,
é um pensamento magistral. Nada há como a razão, a principal riqueza do ser humano.

A maravilhosa explicação que ele dá acerca dos diagramas de conexão e a forma de entender aquilo que o cérebro faz, a partir das conexões já influenciadas no útero por factores ambientais, as experiências individuais em ambientes únicos, aprimorando todos os nossos primeiros padrões de conexões, tornando-os mais fortes ou mais fracos, alargando ou estreitando a rede neuronal, sempre sob a influência da nossa actividade, da aprendizagem e da criação de memórias que nos permitem esculpir, moldar e refazer os padrões do nosso cérebro individual, é um dado de incomensurável importância para o desenvolvimento mental da humanidade.
Voltaremos mais tarde a passar as mãos pela macieza e brilho desta trave mestra que atravessa a nossa cabeça.

A segunda trave mestra que me perfurou a pinha ao acordar nesta manhã de paz, e deixou cair sobre mim aquele pó cinzento da decomposição, foi a visita do papa a Espanha. Uma trave de madeira podre e carunchosa. Este homem a quem eu chamo abutre, sem ofensa aos abutres da minha querida amiga Andreia Dias, anda, com efeito, por esse mundo fora, à procura dos restos secos e mumificados de uma humanidade que há dois mil anos procura desenvolver padrões mentais para se situar no tempo e no espaço. A sua inglória missão é reacender, impunemente, o obscurantismo e a estupidificação medievais e cavernícolas, base essencial do colossal negócio da igreja católica.

Pobre homem! Pobre homem que nem sabe que mais de metade da humanidade é obrigada a ser ateia por força da razão e do conhecimento, e como ateia se está borrifando para as suas anedóticas intervenções místicas. Pobre homem que nem na protecção divina confia, encurralando-se numa ridícula gaiola blindada. Pobre homem, que às vezes me dá pena, mas outras não dá, porque é suficientemente inteligente para saber o que quer, e o que quer resume-se à economia e às finanças do Vaticano. Já Paulo II, armado em anjinho, e isso está mais que demonstrado, sabia muito bem as linhas com que se cosia, e sabia muito bem como actuar, legal e ilegalmente, no que respeita à finalidade principal da igreja: DINHEIRO!

Vir a Espanha e à Catalunha pedir, não sei a quem, para “devolver Deus à Europa” e pedir à Europa que “se abra a Deus” trabalhando em prol da dignidade humana – talvez como faz a igreja na sua intercontinental actividade pedófila! -   é de rir e é brincar com os neurónios das pessoas, que segundo a evolução e as neurociências, estão numa fase de desenvolvimento irreversível, perfeitamente incompatível com a esclerosada   mentalidade vaticana.

E aqui entra a terceira trave mestra, de madeira firme e brilhante, que hoje, ao acordar, suavemente e deliciosamente me atravessou a cabeça. A gente da Catalunha, empunhando cartazes de toda a espécie, clamando alto e bom som: “Jo no t'espero!”. Jo no t'espero!”.

E não o esperam porque é um papa falso, hipócrita, um papa que sempre calou e se calou, nos momentos em que devia falar, um papa embalado no luxo por um poder político imbecil que se enrosca na igreja para melhor obter a absolvição e as gordas prebendas que o riquíssimo estado do Vaticano espalha pelos off-shores do planeta em nome de Deus. O Vaticano pode ser considerado o maior banco do mundo, de onde emerge o maior apoio a banqueiros, especuladores e parasitas da humanidade. Antigamente dizia-se: “quem dá aos pobres empresta a deus”. Hoje o slogan é outro: “Quem dá aos ricos empresta a deus”. E a igreja, o Vaticano e Bento 16 sabem disso muito bem!

Viva o povo da Catalunha! Viva a resistência à falsidade, ao obscurantismo e à crendice! Viva a inteligência humana! Viva o homem na magistral essência da sua razão! Viva um povo que tem os neurónios activos, e procura preservar com toda a dignidade a frescura da sua higiene mental.

5 comentários:

  1. Já se perdeu o medo; já se compreende o sentimento de culpa; já se questiona a existência de Deus; já se questiona a autoridade papal;Já se tem a clarividência e a coragem de dizer " eu não te espero". Cada vez mais há pessoas a questionar. A cultura e a ciência fazem o seu caminho. Inexoravelmente!

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  2. Viva isso tudo e viva a ti de quem gosto muito por dizeres essas coisas.

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  3. Faltou-nos isto, é verdade, e eu agora até me sinto envergonhada por ter tudo corrido tão de feição ao Joe Ratz quando ele passou por cá. Onde estavam os nossos cartazes, as faixas nas nossas varandas?

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