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sábado, 12 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra



Manuela Degerine

Capítulo XVII

Etapa 6: Fátima

Em S. Bento de Labre acolhem-me com solicitude, mostram-me o dormitório das mulheres, a casa de banho, a cozinha, inquirem se trouxe saco-cama, explicam as luzes, a abertura e o fechamento das portas. Largo a mochila, tomo banho, mudo de roupa, instalo o saco em cima de uma cama, vou – mais leve: que prazer – visitar Fátima. Sábado, duas horas e meia da tarde, os parques de estacionamento estão cheios de autocarros, as mesas de merenda repletas de farnéis: frangos e coelhos assados, panelas de arroz, centos de pastéis, imensos pães-de-ló, pacotes e pacotes de bolos... Eu comi na Giesteira duas sanduíches preparadas em Minde com um sumptuoso queijo de ovelha.

Dou uma volta completa pelos espaços religiosos do santuário. Observo o desencanto dos peregrinos, lançando as velas para um monte, por falta de espaço para elas arderem verticalmente. Sento-me na Capela das Aparições. Olho à minha volta: os peregrinos são idosos. O que será Fátima daqui por cinquenta anos? Os netos destes peregrinos continuarão a vir? É provável. O povo precisa de apoio nas dificuldades, encontra-o fazendo promessas, que devem depois ser cumpridas; Fátima reforça-lhes a esperança.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo XVI

Etapa 6: De Minde a Fátima

Saio de Minde por volta das dez horas. Previ uma etapa curta, menos de dezanove quilómetros através do campo, espero percorrê-los no júbilo e sossego dos dias precedentes. Ilusão... Encontro-me demasiado perto de Fátima, há peregrinos extraviados por todos os caminhos – mesmo aqueles que eu trilho.

Logo à saída de Minde sou apanhada por três habitantes de Salvaterra de Magos acompanhados por uma sobrinha (e prima da filha) vinda do Luxemburgo para a peregrinação. O que me incomoda: são barulhentos. Telefonam. Falam todos ao mesmo tempo. As da frente (as duas raparigas) gritam para os de trás. Queixam-se. Os pais com quarenta e tal anos. A filha com vinte e dois. A sobrinha com trinta e dois. Do género que acumula os 2F (Fátima, futebol) com os 4C (carro, comida e centro comercial). Para não carregarem com mochilas, o pai da sobrinha leva pela estrada – de carro – o almoço e as bagagens; e segue em permanente contacto telefónico com os santos peregrinos.

sábado, 15 de maio de 2010

Uma peregrinação a Fátima -IV

Carlos Loures


Estávamos já só nós na sala. Numa outra mesa, os frades e os empregados comiam. Levantámo-nos. O frade pequeno interrompeu o almoço e veio ter connosco.
– Estava tudo bem?
– O melhor possível – respondeu prontamente o Gargântua.
O frade puxou de um papelinho e mostrou-o:
– A conta.
O Gargântua pegou no papel. E olhou-o.
– Trezentos e vinte escudos – leu em voz alta – Não foi nada caro. É até mesmo um preço muito razoável, dada a qualidade da refeição.
Nós esperávamos, expectantes. O fradeco também.
– Bem, irmão – disse lentamente o Gargântua – Há só um pequeno problema: nós não temos dinheiro para pagar.
A cara do frade fechou-se, apagando instantaneamente o seu permanente e artificial sorriso. Em tom apaziguador o Gargântua apressou-se, no entanto, a acrescentar:
– Não temos dinheiro, irmão, mas temos fé. Muita fé.
O frade fez sinal aos outros para nos vedarem a saída e andou com a mão à volta de uma orelha, dizendo para um deles telefonar. Para a polícia, certamente.
– A fé não chega – disse com um ar subitamente duro – Se não têm dinheiro, vão presos.
O Gargântua fez um ar magoado. No seu gesto mais peculiar, cofiava os bigodes:
– A fé não chega? - a sua expressão revelava uma profunda mágoa e desilusão.
Porém, subitamente, antes de o outro responder, os seus cento e vinte quilos passaram da imobilidade total à rapidez de um furacão. Empurrou o frade, que caiu por cima de uma mesa, e correu para os sete ou oito que formavam uma barreira junto à saída. Nós seguimo-lo. O impacte dele no amontoado de frades e de labregos foi demolidor. Sem lhes bater, dir-se-ia que sem violência, apenas com o seu peso deslocado à velocidade de um tiro de balestra, projectou-os em diversas direcções. Um deles ao cair quebrou um dos paus que sustentava a tenda. As paredes, daquele lado, oscilaram e imobilizaram-se numa posição torcida. Nós saímos correndo. Mas o Gargântua voltou atrás. Gritou para o interior do pandemónio de lona, madeiras e corpos agitados em que a tenda se transformara:
– Isso não é coisa que se diga, irmão! A fé chega sempre. A fé move montanhas! É a fé que nos salva!
Nós não parámos para ver o efeito produzido por estas sábias palavras. Viemos a correr até à estrada. Estava calor. Ficámos, ofegantes, estoirados, à espera de que o Gargântua chegasse. Ouvimos uma sirene e desatámos novamente a correr. A polícia vinha já no nosso encalço, pensámos. Caramba, tão depressa? Que eficiência! Estávamos num ponto difícil da estrada. Um barranco de cada lado dificultava-nos a fuga. Continuámos a correr. Mas era uma tentativa votada ao fracasso. O carro, com o grito da sirene esmorecendo, imobilizou-se uns metros adiante de nós. Era uma ambulância. Parámos, na expectativa, prontos a descer o barranco. Um tipo franzino saltou do banco do motorista para o asfalto. Tratava-se de um bombeiro. O seu ar não era ameaçador, mas antes pacífico, doméstico, pelo que o deixámos aproximar, embora permanecêssemos vigilantes. Quando chegou ao pé de nós, vimos que era um sujeito já entrado na idade, magricela, de gaforina grisalha saltando por debaixo do bivaque:
– Vejo que vêm a fugir.
O Gargântua deu um passo à frente para explicar, sabe-se lá o quê. Apercebendo-se disso, o outro, com um gesto surpreendentemente enérgico, cortante, disse-lhe:
– Não quero ouvir, não quero saber nada. Já dei fuga a muitos, mas nunca quero saber dos pormenores. Entrem para a ambulância e acomodem-se o melhor que puderem.
Abriu-nos as duas portas de trás. Entrámos. Sentámo-nos na maca que vinha montada e outros no chão.
– Vão para Lisboa, não é? - Assentimos. – Eu também. Então até já.
E fechou-nos as portas. O carro arrancou a grande velocidade com a sirene a uivar e nós caímos uns para cima dos outros. O Gargântua agarrou-se com força ao respirador do tecto e aguentou-se.
– Oxalá este tipo não nos entregue à polícia – comentou o Antunes.
– Se entregar, logo se vê – respondeu serenamente o Gargântua – mas não me parece. É louco, obviamente, mas tem a honestidade e a bondade estampadas nos olhos.
– Se foo-foo-se ho-ho-nesto, n-nnão ajudava cri-cri-criminosos a fugir. – sentenciou o Cortês.
O Gargântua disse apenas:
– Nós não somos criminosos. Somos peregrinos. Peregrinos pobres. Somos pessoas de fé. O nosso único crime é sermos pobres. Ele viu a honestidade e a crença estampadas nos nossos olhos.
Ninguém ousou discordar desta verdade mais duvidosa do que uma moeda falsa. Para nos entretermos, fomos enrolando ligaduras à volta das cabeças e dos braços. Pusemos alguns adesivos. Mais criativo, o Ernesto resolveu encher a cara de mercurocromo.
Passados uns três quartos de hora de um andamento a uma velocidade que estava a prejudicar a estabilidade do cabrito à padeira nos nossos estômagos, o carro travou subitamente. O Antunes, agoirento como sempre, disse o que todos temíamos que fosse verdade:
– O gajo parou à porta de uma esquadra.
O bombeiro abriu-nos as portas:
– Parei para bebermos um copo.
E riu-se com gosto quando viu o nosso ar de acidentados. Estávamos numa aldeia, à convidativa porta de um tasco. Entrámos com o bombeiro à frente. As conversas dos bebedores e jogadores de dominó interromperam-se. Devíamos fazer um cortejo magnífico. Chegados ao balcão, o bombeiro ia a fazer a encomenda, mas o Gargântua antecipou-se. Puxou de duas notas de vinte escudos que tinha ainda num dos miraculosos bolsos da batina. Para nós anunciou:
– São as últimas. – E para o tendeiro: – Amigo, troque-nos isto por vinho e por qualquer coisa para acompanhar.
O homem disse que sim e fomo-nos sentar os sete. Passado pouco tempo, trouxe-nos um grande jarro de vinho tinto, um prato com carapaus fritos e um cesto com pão:
– Depois trago mais.
Apesar do lauto almoço, a emoção da fuga criara-nos um apetite adicional, e começámos a devorar a merenda. Quando estávamos já a reduzir a velocidade da mastigação, o Gargântua disparou mais uma das suas misteriosas perguntas:
– Vocês sabem quem foi Aícha?
Olhava-nos de soslaio, seguro de que a resposta ia ser negativa. Ninguém sabia. E percebemos logo que íamos ter o privilégio de ouvir mais um dos factos. Recomeçámos a comer os carapaus e a beber o tinto. O discurso veio em estilo de guia turístico:
– Aícha foi a terceira mulher de Maomé. Era filha de Abu Bakr, el-Siddikh, que quer dizer o Verídico, o Verdadeiro. Foi um amigo de infância do Profeta e acompanhou-o desde o princípio, quando em 610 teve uma visão no monte Hira e despertou para a consciência de ser um enviado de Alá à Terra. Abu Bakr era rico e pôs a sua fortuna ao serviço do Islão e, não contente com isso, ofereceu a sua filha Aícha como esposa a Maomé. Aícha era ainda uma criança de nove anos e quando, passados precisamente outros nove, o Profeta bateu a bota ela tinha só dezoito anos. Ficou viúva aos dezoito anos e dizem que era linda.
O Nunes deu um assobio e o Ernesto soltou um gemido obsceno. O Gargântua silenciou-os com um olhar severo:
– Linda e inteligente, pois rapidamente começou a exercer uma grande influência entre a comunidade islâmica, ao ponto de lhe chamarem a «mãe dos crentes». Quando começaram as lutas pela sucessão do Profeta, ela atirou-se como gato a bofe aos partidários do Ali, primo e genro de Maomé, pois casara com Fátima, a tal Fátima de que já vos falei. Ali tinha ido meter intrigas no cu do velho, dizendo que a Aícha lhe punha os cornos e aconselhando-o a repudiá-la como adúltera. Portanto, ela não podia com o Ali, nem pintado, e, por isso, apoiou Talha e Zobeir. Em 656 deu-se a Batalha do Camelo, assim chamada porque Aícha combateu montada num camelo. Foi vencida e aprisionada, mas parece que, apesar de tudo, o Ali a tratou bem.
O Nunes continuou a tentar avacalhar a conversa:
– Pudera, se calhar também a comeu.
Mais uma vez, o Gargântua fingiu não ouvir. O tendeiro trouxe mais acepipes e também mais um jarro com vinho tinto. Tal como no Livro Quinto do ciclo, em que Panurgo recebe do oráculo a ordem exemplar, Gargântua gritou-nos:
– Bebam!
E prosseguiu os seus ensinamentos. Nós não escutávamos com demasiada atenção, mas o bombeiro estava fascinado com aquele contínuo fluxo verbal. Como os ratos atraídos pela flauta de Hamelin, o taberneiro e os jogadores de dominó foram abandonando as suas actividades e acercando-se, fizeram roda para escutar a explicação de muitas coisas: da verdadeira diferença entre fé e crença (a primeira baseia-se na razão e cria ideias sobre Deus, a segunda é a vivência interior da divindade); da estupidez e da arrogância que representa, num universo onde, por certo, abundam biliões de biliões de formas de vida diferentes, acreditar-se que o homem foi feito à imagem e à semelhança de Deus (os imbecis não sabem ler e interpretar devidamente os livros sagrados); de que esta excessiva antropomorfização constitui a principal raiz do ateísmo, pois, rebaixando Deus à condição de coisa humana, forneceu aos filósofos do iluminismo e aos pindéricos que se seguiram argumentos contra a fé e a crença; etc. Enfim, desbobinou a essência da parte final da sua obra, uma espécie de girândola pirotécnica que, pelos vistos, e apesar da sua nobre intenção ecuménica, se fosse publicada, lhe acarretaria a excomunhão e a condenação de todas as religiões do «Deus único de Abraão». E das outras, pois na sua arenga os respeitáveis hinduísmo, budismo e tauismo, eram sempre referidas como idolatrias «pagãs». O bombeiro, o tendeiro e os frequentadores do tasco ficaram em silêncio quando ele, finalmente esgotado, se calou e, meditativo, olhou o copo vazio. Saindo do seu estupor, o dono da taberna foi reverentemente buscar mais um jarro de vinho, um grande pão caseiro e um queijo a condizer («Oferta da casa!», informou).
Era já noite quando retomámos a marcha. O bombeiro foi deixar-nos à porta do Ribatejano. Despedimo-nos desta alma nobre com efusivas juras de retribuirmos o seu gesto salvador. Entrámos no café. O próprio senhor Sousa, que costumava olhar-nos com algum desdém, impressionado e curioso com as nossas indumentárias e com as aparentes escoriações, veio-nos atender. Os satiagrás que não tinham participado na expedição punitiva lá estavam, ocupando as mesas do costume, sob um ameaçador céu de ventoinhas. Nada mudara desde sexta-feira. Quando nos sentámos, levantaram os olhos dos jornais e dos livros ou suspenderam os seus anódinos e curtos diálogos. Não ousaram fazer perguntas. O Gargântua olhou-os severamente com cintilações de excomunhão. Disse para um senhor Sousa expectante e quase respeitoso:
– Traga seis uísques para os peregrinos. – E acrescentou as palavras mágicas: – É para assentar.
Depois, voltou-se para nós, os cruzados, e disse-nos num sonhador tom de bênção:
– Tivemos uma bela ideia. Foi uma linda jornada.
Lentamente voltou-se para os outros, com o semblante anoitecido:
– E vocês, cambada de inúteis?
Lar, doce lar.
Tudo voltara à normalidade.

Excerto do livro inédito A Vida é um Desporto Violento.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Uma peregrinação a Fátima –III*

Carlos Loures

O dia estava bastante bonito e fomos beber café. Café a sério, pois o da hospedaria era uma água chilra. O Gargântua acompanhou com uma aguardente velha. E pagou. Aquela batina tinha, por certo, poderes mágicos. Dos seus bolsos o dinheiro continuava a brotar à medida justa das nossas necessidades.

– Tivemos uma boa ideia em vir – disse ele quando voltámos à rua.
Na longa alameda do Santuário, principalmente junto à Capelinha das Aparições, aglomerava-se já uma considerável multidão de fiéis. Os degraus da basílica estavam também repletos de gente que entrava para uma das muitas missas da manhã. Fomos percorrendo lentamente a alameda. Sentámo-nos num banco de pedra, à sombra de uma árvore, com o Gargântua ao centro, como, segundo as imagens clássicas, devia ocorrer na informal academia de Platão.

– Estão a ver aquelas pobres gentes? – perguntou-nos o Gargântua – Vejam ao que leva a falta de verdadeira fé e o desespero da descrença no homem e em Deus! Porque só os descrentes precisam destas manifestações exteriores de crença. Como dizia o grande Omar Khayyam: «Nos mosteiros, nas sinagogas ou nas mesquitas escondem-se os fracos que receiam o Inferno. O homem que conhece a grandeza de Alá não acolhe no seu coração as más sementes do terror e da imploração.» E disse também: «O que tem mais valor? Sentar-se numa taberna e fazer exame de consciência, ou ajoelhar numa mesquita com a alma fechada?». No fundo, ser verdadeiramente religioso é apenas estabelecer uma relação entre o homem e o universo. Nada mais simples do que isto.

Depois de uma pausa, acrescentou:
– Que mal pode fazer o vinho? O vinho faz bem a quase tudo. O Profeta apenas condenou a ingestão do vinho feito de tâmara. Alguns discípulos mais zelosos é que tornaram a proibição extensiva a todo o álcool. Em todas as obras sagradas e divinas aparecem sempre sacanas destes, artolas com excesso de zelo, para estragar o trabalho de quem sabe.

Quando ele se calou, com o ar solene, hierático, de um dervixe ou de um aiatola que tivesse posto míseros mortais em contacto com a transcendência, após um conveniente silêncio, o Cortês, a medo, gaguejando, claro, perguntou-lhe, se não seria melhor fazermo-nos à estrada e irmos andando para Lisboa. Ao cabo de um grande silêncio e quando todos julgávamos já que a pergunta não tinha sido ouvida, respondeu:

– Não. Só voltamos depois do almoço. É o que está programado. É muito importante cumprir os programas. Se não somos capazes de levar a cabo um plano tão simples que traçámos ainda anteontem à noite, como é que nos podemos atrever a encarar o futuro de olhos nos olhos? Hã?
Estava um pouco colérico e nós, envergonhados, baixámos os olhos. O Cortês ainda gaguejou:
– Só e-e-estou preocupado po-po-por causa da da ma-ma-massa!

O Gargântua encolheu os ombros e nem se dignou responder, ou melhor, respondeu com uma pergunta:
– Tens vergonha de ser gago, não tens?
O Cortês acenou timidamente que sim.
– Pois não há qualquer razão para teres. Grandes homens foram gagos. E já nem vos vou falar do Demóstenes, grande orador, grande político. Upa! Upa! Falo de um gajo muito mais importante, logo abaixo do xerife, de Jeová, a bem dizer.
Fez um silêncio de suspense, após o que lançou a revelação:
- O Moisés era gago!
- Nunca tinha ouvido dizer – comentou o Nunes, palitando um dente com um pau de fósforo, sem dar sinais da emoção com que a informação merecia ser acolhida.
– Pois não. Tem sido um segredo bem escondido. Talvez tenha sido por em bebé ter estado nas águas frias do rio dentro de uma arca de juncos até que a filha do faraó de lá o retirou. Um problema de hipotermia pode ter desencadeado a disfunção na fala. Sabe-se lá – cogitou como que para si mesmo.

– Mas há provas disso? – perguntei.
Olhou-me de alto a baixo como se a minha pergunta fosse insultuosamente disparatada.
– Provas? Claro que há provas. Vem tudo no Génesis. Foi Aarão quem teve de transmitir os mandamentos ao povo de Israel, não foi? E porquê? Porquê? É simples: já viram a barracada que era o Moisés, naquele momento solene da vida da humanidade a dizer, aqui como o Cortês, n-n-não ma-ma-tarás! Foi também por isso que ele teve de entoar aquele cântico «Cantarei ao Senhor, etc., etc.». Como se sabe os gagos a cantar não gaguejam. Provas? Ora, vai-te matar. Há montes de provas!

E lá nos confidenciou que este era outro dos factos inusitados da sua colecção destinada à obra.
Aproximava-se a hora do almoço, era o que os nossos estômagos diziam, mas nenhum de nós tinha a coragem de lhes dar voz. Até que o Gargântua verbalizou o nosso anseio colectivo:
– Bem, vamos lá almoçar com os franciscanos.

E regressámos à Hospedaria de São Francisco. Na sala das refeições estava já muita gente, mas conseguimos encontrar lugar para os seis numa das mesas. O nosso frade aproximou-se saltitante, enrolando as mãos uma na outra e perguntando o que queríamos comer. Depois de nos ter recitado a ementa e de um pequeno conciliábulo entre os seis, optámos por cabrito à padeira, acompanhado (nada de luxos!) por vinho tinto discreto, um bucelas do ano. Estava uma maravilha. Nós dissemos que não queríamos sobremesa, mas o Gargântua insistiu em que encomendássemos uns doces conventuais para os seis. E, com os cafés, veio também um uísque velho para ele. O frade veio perguntar-nos se queríamos mais alguma coisa.

– Têm cigarrilhas? – perguntou o Gargântua.
Não tinham. Mas tinham charutos.
– Ainda melhor! Venha um charuto. Um Romeo y Julieta? Viva o luxo! É o melhor que há para a digestão – explicou ele ao frade quando este trouxe a caixa. Para nós, elucidou – Eram dos preferidos do senhor rei D. Carlos.

Voluptuosamente, tirou o papel celofane do charuto, retirou a cinta e cortou-lhe a ponta. Espetou-lhe um palito e segurou a ponta entre os dentes. Acendeu-o de olhos semicerrados. Nós assistíamos a esta liturgia enquanto íamos aspirando o cheiro adocicado. Seguindo-lhe o exemplo, os que fumavam puxaram dos seus modestos cigarros, como quem come pão seco com o odor de carne assada. Lançou um olhar em redor.

Havia agora menos gente. Na parede de fundo um crucifixo presidia. Numa das paredes laterais, aquela que ficava na nossa frente, estava um Cristo segurando um coração em chamas.
– Aquela imagem está errada!
Nós olhámos com atenção e não vimos nada de estranho. Era um convencional «Sagrado Coração de Jesus», como lhe chamava o povo. O Nunes, certamente que para desconversar, disse:
– Lá isso é verdade. O Jota tem um ar esquisito.
O Gargântua perguntou:
– Esquisito, como?
– Esquisito, amaneirado, a mãozinha a segurar no coração, os olhinhos revirados para cima...
O Gargântua interrompeu-o, ameaçador:
– Ouve lá? Estás a insinuar que o filho de Deus Nosso Senhor era panilas?
O Nunes tentou uma retirada estratégica:
– Bem, não vou tão longe.
– É bom que não vás. Partia-te já os cornos.
Depois assumiu um ar didáctico:
– A imagem incorre num erro clássico.
Uma pausa:
– Jesus nunca usou cabelo comprido.
E tivemos direito ao que, por certo, era mais uma pérola da sua Crónica:
– Cristo usava o cabelo curto. E assim como a lenda da virgindade de Maria terá nascido de um erro de tradução, pois em hebraico as palavras «jovem» e «virgem» eram sinónimas [«bons tempos!», comentou o Ernesto], a ideia dos cabelos compridos de Cristo terá a sua origem numa transposição, feita pelos gnósticos no século II, da imagem dos filósofos daquele tempo, que usavam cabelos e barbas compridas. Naquela época, na Palestina, só os názires usavam cabelo comprido.

– Porra, já havia nazis nesse tempo?
O Nunes continuava a tentar estragar a conversa, mas desta vez o Gargântua não lhe deu troco.
– Só quem tinha feito voto de názir podia deixar crescer o cabelo. Em contrapartida, os názires não podiam tocar em cadáveres e se o fizessem ficavam impedidos de entrar no templo. Ora Jesus tocava nos mortos e continuava a predicar na sinagoga. Os názires não podiam beber vinho e Cristo bebia. Até São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, condena o uso de cabelos compridos pelos homens, considerando ser desonra para o varão ter cabelo crescido. Cristo só podia usar cabelo curto. As imagens, de Leonardo da Vinci a Ticiano, estão todas erradas e o santo sudário de Turim é uma contrafacção evidente. Uma trapaça, uma aldrabice do caraças. Cristo usava cabelo curto! – concluiu com ar levemente colérico, olhando-nos, desafiando-nos a discordar. O que ninguém fez, claro.

Depois voltou atrás e, após mais um olhar ameaçador para o Nunes, explicou que Cristo não terá sido, de modo algum, homossexual. Em tom confidencial, baixando a voz para não poder ser ouvido pelos frades ou seus acólitos, deu-nos outra informação: Jesus seria até, muito provavelmente, o pai de João Evangelista, o autor do Apocalipse. Resultado das suas intimidades com Maria Madalena...

(Continua)
Excerto do livro inédito A Vida é um Desporto Violento.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A mão de Fátima



Pedro Godinho

Ildefonso Falcones*, consagrado em 2006 pelo seu primeiro romance A Catedral do Mar, reincidiu em 2009 com nova novela histórica La mano de Fátima.

Os termos da rendição de Granada aos Reis Católicos de Espanha estabeleciam condições para os muçulmanos que lhes permitiam conservar língua, costumes, propriedades e autoridades.

Não obstante, passados oito anos, o cardeal Cisneros impôs a cristianização forçada dos mouros, o estabelecimento de novos e pesados impostos e a supressão da sua cultura e autonomia administrativa.

A Mão de Fátima romanceia o levantamento mouro das Alpujaras, no reino de Granada do século XVI, e a violência, a crueldade e o ódio de ambos os lados no conflito.


Traz-nos, igualmente, um fresco das condições de vida dos mouros e da sua deportação para outros reinos de Espanha, em particular Córdova, na sequência da derrota da insurreição mourisca, abandonada por argelinos e turcos com quem os revoltosos contavam.

Recomenda-se.