Muitos estrangeiros escreveram sobre Lisboa. Cervantes, Voltaire. Lord Byron... É matéria de que se ocupou o João Machado. Aqui, registamos dois desses olhares sobre a cidade - a do compositor australiano Percy Grainger (1882.1961) e a do chileno Pablo Neruda (1904-1973).
Não abunda a música sinfónica sobre Lisboa. Tentámos encontrar uma gravação de "Lisboa em Camisa" op.53", do maestro António Victorino d'Almeida, inspirada na obra homónima de Gervásio Lobato, mas não a encontrámos disponível. Ouçamos Lisbon, o primeiro andamento da sinfonia Lincolnshire Posy , de Percy Grainger, dedicado a Lisboa, interpretado pela Bay Brass Ensemble:
Pablo Neruda, o grande poeta chileno, Prémio Nobel da Literatura de 1971, dedicou este seu longo poema, La Lámpara Marina, a Álvaro Cunhal. Foi escrito em 1953 quando o dirigente do PCP estava preso e se temia pela sua vida. Sobre uma Lisboa prisioneira da ditadura salazarista, disse o poeta:
La Lámpara Marina
I
El puerto
Color de cielo
Cuando tú desembarcas
en Lisboa,
cielo celeste y rosa rosa,
estuco blanco y oro,
pétalos de ladrillo,
las casas,
las puertas,
los techos,
las ventanas,
salpicadas del oro limonero,
del azul ultramar de los navíos.
Cuando tú desembarcas
no conoces,
no sabes que detrás de las ventanas
escuchan,
rondan
carceleros de luto,
retóricos, correctos,
arreando presos a las islas,
condenando al silencio,
pululando
como escuadras de sombras
bajo ventanas verdes,
entre montes azules,
la policía
bajo las otoñales cornucopias
buscando portugueses,
rascando el suelo,
destinando los hombres a la sombra.
(in Poemas de Obras, 3 ª ed.., Buenos Aires, Editorial Losada, 1967)
Podemos agora ouvir o poema completo, excelentemente declamado pelo actor Tavares Marques, numa tradução eivada de castelhanismos e de erros, mas que, dada a beleza do original, resiste a esses equívocos linguísticos. A gravação foi feita durante uma homenagem prestada pelo PCP à memória de Álvaro Cunhal e realizou-se no claustro do Tribunal da Boa-Hora, onde funcionou o sinistro "Plenário".
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quinta-feira, 28 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Arte Poética - Sílvio Castro,Sophia de Mello Breyner Andresen e Pablo Neruda
Sílvio Castro
(Laranjais, Rio de Janeiro, 1931)
O POEMA E SEUS SENTIDOS
(exercício de falso soneto de versos brancos)
Não cinco, mais que seis sentidos são
todas as linhas primárias do poema
nascente no tempo e em seu espaço
de claridade onde sempre escorre.
O primeiro fulgor todo indistinto,
mas lampejante como a certeza
do encoberto caminho pressentido,
logo ilumina o vagar da luz insone.
Fulgor caminho corrida e luz
concorrem unidos no espaço aberto
como nuvens ácidas doces verdes.
Tudo se recolhe no edifício de
abertas janelas ao verdor de um tempo
túrgido de amor romã e aroma.
Sophia de Mello Breyner Andresen
(Porto, 1919- LIsboa, 2004)
ARTE POÉTICA V
Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado ‘Nau Catrineta’. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas –coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos depois, escrevi estes trêsversos: “A voz sobe os últimos degraus/ Oiço a palavra alada impessoal/ Que reconheço por não ser já minha”.
(De “Ilhas”).
Pablo Neruda
(Parral, 1904- Santiago do Chile, 1973)
ARTE POÉTICA
Entre sombra y espacio, entre guarniciones y doncellas,
dotado de corazón singular y sueños funestos,
precipitadamente pálido, marchito en la frente
y con luto de viudo furioso por cada día de vida,
ay, para cada agua invisible que bebo soñolientamente
y de todo sonido que acojo temblando,
tengo la misma sed ausente y la misma fiebre fría
un oído que nace, una angustia indirecta,
como si llegaran ladrones o fantasmas,
y en una cáscara de extensión fija y profunda,
como un camarero humillado, como una campana un poco
ronca,
como un espejo viejo, como un olor de casa sola
en la que los huéspedes entran de noche perdidamente ebrios,
y hay un olor de ropa tirada al suelo, y una ausencia de flores
-posiblemente de otro modo aún menos melancólico-,
pero, la verdad, de pronto, el viento que azota mi pecho,
las noches de substancia infinita caídas en mi dormitorio,
el ruido de un día que arde con sacrificio
me piden lo profético que hay en mí, con melancolía
y un golpe de objetos que llaman sin ser respondidos
hay, y un movimiento sin tregua, y un nombre confuso.
E vamos ter o privilégio de ouvir este poema dito pelo autor:
(Ilustrações de Adão Cruz)
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sábado, 18 de setembro de 2010
Coisas elementares, gente simples na transcendente poesia de Neruda
Hoje a nossa matinal hora da poesia é dedicada a Pablo Neruda, celebrando assim o Bicentenário da Independência do Chile que hoje se comemora.
Carlos Loures
«A 23 de Setembro de 1973, doze días após o Golpe Militar, morreu Pablo Neruda. Estava doente e os tristes acontecimentos desses dias acabaram com a sua vontade de viver.»(…)«que está a acontecer? Ficaram todos loucos? murmurava o poeta com a vista extraviada.»(…)«Enterraram-no no dia seguinte, numa cova emprestada, num funeral eriçado de metralhadoras ladeando as ruas por onde passou o negro cortejo. Poucos puderam ir com ele no seu último percurso, os seus amigos estavam presos ou escondidos e outros temiam as represálias.» («Paula»,). Pode, pois, dizer-se que Neruda morreu de tristeza. Uma tristeza profunda por tudo o que estava a acontecer no seu Chile. Estava doente, com um cancro na próstata; a emoção e a tristeza foram demasiadas. O coração do poeta não aguentou.
Li tudo o que pude ler de Neruda. Sempre em castelhano – naqueles anos 50, os livros dele, não só não estavam traduzidos, não se vendiam livremente, alguns livreiros tinham-nos «debaixo do balcão», como se dizia na altura. Lembro-me da emoção com que, adolescente, tocava os livrinhos de capa cinzenta da Editorial Losada, de Buenos Aires e devorava as suas páginas. Lia com a sensação transgressora de quem abre uma porta proibida, ainda com a ajuda de um velho dicionário de David Ortega Cavero. Sabia de cor muitos dos «Veinte poemas de amor y una canción desesperada» e, depois, deslumbrei-me com os ainda mais clandestinos dois volumes do épico «Canto general».
Carlos Loures
«A 23 de Setembro de 1973, doze días após o Golpe Militar, morreu Pablo Neruda. Estava doente e os tristes acontecimentos desses dias acabaram com a sua vontade de viver.»(…)«que está a acontecer? Ficaram todos loucos? murmurava o poeta com a vista extraviada.»(…)«Enterraram-no no dia seguinte, numa cova emprestada, num funeral eriçado de metralhadoras ladeando as ruas por onde passou o negro cortejo. Poucos puderam ir com ele no seu último percurso, os seus amigos estavam presos ou escondidos e outros temiam as represálias.» («Paula»,). Pode, pois, dizer-se que Neruda morreu de tristeza. Uma tristeza profunda por tudo o que estava a acontecer no seu Chile. Estava doente, com um cancro na próstata; a emoção e a tristeza foram demasiadas. O coração do poeta não aguentou.
Li tudo o que pude ler de Neruda. Sempre em castelhano – naqueles anos 50, os livros dele, não só não estavam traduzidos, não se vendiam livremente, alguns livreiros tinham-nos «debaixo do balcão», como se dizia na altura. Lembro-me da emoção com que, adolescente, tocava os livrinhos de capa cinzenta da Editorial Losada, de Buenos Aires e devorava as suas páginas. Lia com a sensação transgressora de quem abre uma porta proibida, ainda com a ajuda de um velho dicionário de David Ortega Cavero. Sabia de cor muitos dos «Veinte poemas de amor y una canción desesperada» e, depois, deslumbrei-me com os ainda mais clandestinos dois volumes do épico «Canto general».
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Maratona poética - - Aí estão Sílvio Castro, Sophia de Mello Breyner Andresen e Pablo Neruda.
Sílvio Castro
(Laranjais, Rio de Janeiro, 1931)
O POEMA E SEUS SENTIDOS
(exercício de falso soneto de versos brancos)
Não cinco, mais que seis sentidos são
todas as linhas primárias do poema
nascente no tempo e em seu espaço
de claridade onde sempre escorre.
O primeiro fulgor todo indistinto,
mas lampejante como a certeza
do encoberto caminho pressentido,
logo ilumina o vagar da luz insone.
Fulgor caminho corrida e luz
concorrem unidos no espaço aberto
como nuvens ácidas doces verdes.
Tudo se recolhe no edifício de
abertas janelas ao verdor de um tempo
túrgido de amor romã e aroma.
Sophia de Mello Breyner Andresen
(Porto, 1919- LIsboa, 2004)
ARTE POÉTICA V
Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado ‘Nau Catrineta’. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura.
Eu era de facto tão nova que nem sabia que os poemas eram escritos por pessoas, mas julgava que eram consubstanciais ao universo, que eram a respiração das coisas, o nome deste mundo dito por ele próprio.
Pensava também que, se conseguisse ficar completamente imóvel e muda em certos lugares mágicos do jardim, eu conseguiria ouvir um desses poemas que o próprio ar continha em si.
No fundo, toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente. E aqueles momentos de silêncio no fundo do jardim ensinaram-me, muito tempo mais tarde, que não há poesia sem silêncio, sem que se tenha criado o vazio e a despersonalização.
Um dia em Epidauro – aproveitando o sossego deixado pelo horário do almoço dos turistas –coloquei-me no centro do teatro e disse em voz alta o princípio de um poema. E ouvi, no instante seguinte, lá no alto, a minha própria voz, livre, desligada de mim.
Tempos depois, escrevi estes trêsversos: “A voz sobe os últimos degraus/ Oiço a palavra alada impessoal/ Que reconheço por não ser já minha”.
(De “Ilhas”).
Pablo Neruda
(Parral, 1904- Santiago do Chile, 1973)
ARTE POÉTICA
Entre sombra y espacio, entre guarniciones y doncellas,
dotado de corazón singular y sueños funestos,
precipitadamente pálido, marchito en la frente
y con luto de viudo furioso por cada día de vida,
ay, para cada agua invisible que bebo soñolientamente
y de todo sonido que acojo temblando,
tengo la misma sed ausente y la misma fiebre fría
un oído que nace, una angustia indirecta,
como si llegaran ladrones o fantasmas,
y en una cáscara de extensión fija y profunda,
como un camarero humillado, como una campana un poco
ronca,
como un espejo viejo, como un olor de casa sola
en la que los huéspedes entran de noche perdidamente ebrios,
y hay un olor de ropa tirada al suelo, y una ausencia de flores
-posiblemente de otro modo aún menos melancólico-,
pero, la verdad, de pronto, el viento que azota mi pecho,
las noches de substancia infinita caídas en mi dormitorio,
el ruido de un día que arde con sacrificio
me piden lo profético que hay en mí, con melancolía
y un golpe de objetos que llaman sin ser respondidos
hay, y un movimiento sin tregua, y un nombre confuso.
E vamos ter o privilégio de ouvir este poema dito pelo autor:
Às duas em ponto, chegam, além de Nicolas Boileau, José Saramago, Josep Anton Vidal e Hélia Correia.
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quarta-feira, 1 de setembro de 2010
AS MINHAS RECORDAÇÕES DE PABLO NERUDA - O Professor Raúl Iturra dá um valioso contibuto para o nosso debate centrado na poesia - recordações do seu convívio com Pablo Neruda, o grande poeta chileno, Prémio Nobel da Literatura em 1971
Raúl Iturra
Foi um acaso, o que se diz normalmente, uma casualidade. Tinha eu quinze anos, el deve ter tido uma idade indefinida, mas eram já os tempos da sua idade indefinida.(1) Os poetas não têm idade vivem a vida a dar saltos entre a realidade transformada em realidade en verso. Éramos vizinhos de uma das sua três casas, a de Valparaíso o La Sebastiana. Conhecemos, na nossa lua-de-mel, a minha noiva, agora esposa, a primeira que fez no Chile: Isla Negra. Não era, de facto uma ilha, era uma quinta que ficava ao pé da casa dos nossos amores, em Algarrobo, praia balnear perto de Valparaiso. Neruda não conseguia viver sem ver o amor. Entrar na Sebastiana com a minha mãe, foi uma delícia: via-se, como era da nossa vizinha casa, toda a Baia do porto e, com essa fantasia contagiante, além-mar. Sua única habitação na cidade, era La Chascona, feita para o agrado da mulher que amava, Matilde Urrutia e os seus encontros clandestinos. La Chascona, por causa do telhado de totora (2). Nem pensar que, por ser poeta, falasse em verso, falava como todo ser humano nascido no centro Sul do Chile, engolindo as consonantes e um cantar típico que compassava as suas frases.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010
Os americanos são estúpidos?
Carlos Loures
No dia 31 de Maio de 1819, nasceu Walt Whitman, o poeta que cantou a América do Norte com a emoção e o génio lírico com que outro grande poeta, Pablo Neruda, no século seguinte, cantaria a América Latina. E também cantaria Walt Whitman - YO no recuerdo \a qué edad, \ni dónde, \si en el gran Sur mojado \o en la costa \temible, bajo el breve \grito de las gaviotas, \toqué una mano y era \la mano de Walt Whitman:\pisé la tierra \con los pies desnudos, \anduve sobre el pasto, \sobre el firme rocío \de Walt Whitman.
Não vou perder tempo e gastar espaço com pormenores biográficos que podeis encontrar com abundância. Vou ocupar o meu tempo, o vosso tempo, e o espaço do blogue a transcrever os primeiros versos de uma extensa Saudação a Walt Whitman, de Álvaro de Campos, porque um génio merece ser saudado por outro génio:
Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.
No dia 31 de Maio de 1930, nasceu outro norte-americano, felizmente ainda vivo e que completa hoje 80 anos – Clint Eastwood. Actor, realizador, produtor, destacou-se nos western spaghetti, de Sergio Leone e no papel do inspector Harry Callahan, em diversos filmes de uma famosa série de acção. Mas creio que não é pelo que fez nos anos 60 a 80 que merece ser saudado. Muito menos pelas suas posições políticas como membro do partido republicano.
Clint Eastwood, quando começou a ficar velho para os papéis de «macho» e para o tipo de filmes que o tornaram famoso, desenvolveu uma série de insuspeitadas aptidões. Como actor, atenuada a agressividade dos seus papéis de juventude e meia-idade, vieram à superfície recursos histriónicos que pareciam não existir. Como realizador (embora dirigisse filmes desde há duas ou três décadas) passou a abordar temas menos superficiais e menos voltados para os imperativos do mercado: lembremo-nos apenas de A Troca (Changeling), 2008, Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima) 2006, e Menina de Ouro (Million Dollar Baby), 2004.
Mais dois norte-americanos que desmentem a generalização em que caímos quando dizemos que «os americanos são uns estúpidos». Tenho ouvido dizer isto de muitas maneiras. Eu já o disse algumas vezes e pensei-o muitas mais. No entanto, em todos os dias do ano nascem pessoas ímpares nos Estados Unidos e todos os dias se podem comemorar nascimentos de norte-americanos excepcionais.
Moral da história: as generalizações é que são estúpidas.
No dia 31 de Maio de 1819, nasceu Walt Whitman, o poeta que cantou a América do Norte com a emoção e o génio lírico com que outro grande poeta, Pablo Neruda, no século seguinte, cantaria a América Latina. E também cantaria Walt Whitman - YO no recuerdo \a qué edad, \ni dónde, \si en el gran Sur mojado \o en la costa \temible, bajo el breve \grito de las gaviotas, \toqué una mano y era \la mano de Walt Whitman:\pisé la tierra \con los pies desnudos, \anduve sobre el pasto, \sobre el firme rocío \de Walt Whitman.
Não vou perder tempo e gastar espaço com pormenores biográficos que podeis encontrar com abundância. Vou ocupar o meu tempo, o vosso tempo, e o espaço do blogue a transcrever os primeiros versos de uma extensa Saudação a Walt Whitman, de Álvaro de Campos, porque um génio merece ser saudado por outro génio:
Portugal Infinito, onze de junho de mil novecentos e quinze...
Hé-lá-á-á-á-á-á-á!
De aqui de Portugal, todas as épocas no meu cérebro,
Saúdo-te, Walt, saúdo-te, meu irmão em Universo,
Eu, de monóculo e casaco exageradamente cintado,
Não sou indigno de ti, bem o sabes, Walt,
Não sou indigno de ti, basta saudar-te para o não ser...
Eu tão contíguo à inércia, tão facilmente cheio de tédio,
Sou dos teus, tu bem sabes, e compreendo-te e amo-te,
E embora te não conhecesse, nascido pelo ano em que morrias,
Sei que me amaste também, que me conheceste, e estou contente.
Sei que me conheceste, que me contemplaste e me explicaste,
Sei que é isso que eu sou, quer em Brooklyn Ferry dez anos antes de eu nascer,
Quer pela Rua do Ouro acima pensando em tudo que não é a Rua do Ouro,
E conforme tu sentiste tudo, sinto tudo, e cá estamos de mãos dadas,
De mãos dadas, Walt, de mãos dadas, dançando o universo na alma.
No dia 31 de Maio de 1930, nasceu outro norte-americano, felizmente ainda vivo e que completa hoje 80 anos – Clint Eastwood. Actor, realizador, produtor, destacou-se nos western spaghetti, de Sergio Leone e no papel do inspector Harry Callahan, em diversos filmes de uma famosa série de acção. Mas creio que não é pelo que fez nos anos 60 a 80 que merece ser saudado. Muito menos pelas suas posições políticas como membro do partido republicano.
Clint Eastwood, quando começou a ficar velho para os papéis de «macho» e para o tipo de filmes que o tornaram famoso, desenvolveu uma série de insuspeitadas aptidões. Como actor, atenuada a agressividade dos seus papéis de juventude e meia-idade, vieram à superfície recursos histriónicos que pareciam não existir. Como realizador (embora dirigisse filmes desde há duas ou três décadas) passou a abordar temas menos superficiais e menos voltados para os imperativos do mercado: lembremo-nos apenas de A Troca (Changeling), 2008, Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima) 2006, e Menina de Ouro (Million Dollar Baby), 2004.
Mais dois norte-americanos que desmentem a generalização em que caímos quando dizemos que «os americanos são uns estúpidos». Tenho ouvido dizer isto de muitas maneiras. Eu já o disse algumas vezes e pensei-o muitas mais. No entanto, em todos os dias do ano nascem pessoas ímpares nos Estados Unidos e todos os dias se podem comemorar nascimentos de norte-americanos excepcionais.
Moral da história: as generalizações é que são estúpidas.
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