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sábado, 11 de setembro de 2010
Salvador Allende Gossens - por Raúl Iturra
Lo conocí por casualidad. Fue en la época en que se candidateaba para la Presidencia de la República de Chile. Corría contra Jorge Alessandri Rodríguez, en 1954 quien ganara la presidencia por una mayoría de votantes muy baja, pero que le permitió ser Presidente de la República sin consulta al Parlamento. Tenía yo trece años, el Senador Allende, desde 1945, tenía cincuenta y seis. Supe que visitaba nuestras tierras, en donde nuestro padre era quién poseía la jefatura de una central eléctrica, trabajaba con 350 obreros y 27 técnicos. Mandaba también sobre la fuerza policial. A nuestra casa, en época de elecciones, entraban todos los candidatos de la ideología del ingeniero especialmente la Democracia Cristiana.
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Os boys de Milton Friedman na ditadura do Chile!
Luís Moreira
A imposição do salário mínimo pela concertação social é uma boa medida? É, porque permite que os trabalhadores possam receber um salário mínimo que lhes trás alguma descompressão na sua vida cheia de dificuldades e, ainda, porque as empresas que não suportam um salário mínimo são empresas sem viabilidade económica e fecham, limpando o tecido empresarial, dando lugar a empresas mais competitivas.
Não, porque segundo a teoria Liberal, há sempre alguem disposto a receber menos até um determinado salário, abaixo do qual já ninguem vende o seu trabalho. Nesta perspectiva, o salário mínimo acima daquele mínimo, retira postos de trabalho porque as empresas não estão dispostas a pagar mais, preferindo fechar ou não empregar.
A imposição do salário mínimo pela concertação social é uma boa medida? É, porque permite que os trabalhadores possam receber um salário mínimo que lhes trás alguma descompressão na sua vida cheia de dificuldades e, ainda, porque as empresas que não suportam um salário mínimo são empresas sem viabilidade económica e fecham, limpando o tecido empresarial, dando lugar a empresas mais competitivas.
Não, porque segundo a teoria Liberal, há sempre alguem disposto a receber menos até um determinado salário, abaixo do qual já ninguem vende o seu trabalho. Nesta perspectiva, o salário mínimo acima daquele mínimo, retira postos de trabalho porque as empresas não estão dispostas a pagar mais, preferindo fechar ou não empregar.
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Como fui sabendo que choviam balas em Santiago
Augusta Clara de Matos
Não me lembro qual foi a primeira fonte que me trouxe o golpe de Estado no Chile. Já não me recordo o que os meios de comunicação social portugueses relataram. Eu trabalhava para o Estado e, embora o regime tivesse aligeirado um pouco o torniquete que nos apertava a palavra, ainda era muito cedo para alguém se afoitar por aí além. Era parca a informação.
Mas, entretanto, chegou o Joe, o nosso grande amigo preto de coração de mel. Como conhecemos e ficámos amigos do Joe não vem agora ao caso. Mas, sempre que vinha a Portugal, o Joe visitava-nos e contava-nos muito do que a cortina de silêncio não nos deixava saber. O seu nome era John Nkrumah e pertencia à família do ex-presidente do Gana. O Joe era químico e, nessa altura, era o responsável pelo restauro de pergaminhos no museu de Florença e tinha sempre o azar de chegar a nossa casa com as notícias das barbaridades que, nesses anos, iam acontecendo no chamado Terceiro Mundo. Também cá estava quando mataram o Amílcar Cabral. Do mesmo modo, não era fácil para nós porque tínhamos que o ver chorar e consolá-lo da sua revolta e do seu profundo desgosto.
Foi, pois, pelo Joe que soubemos melhor, logo nos dias seguintes ao golpe, como tinham ocorrido as acções militares no Chile, o suicídio de Allende e as prisões em massa de opositores. Tinham passado só alguns dias do 11 de Setembro de 1973. Ainda pouco se sabia da dimensão da catástrofe que se tinha abatido sobre o povo chileno.
No mês seguinte fui passar uns dias de férias a Paris e, claro, pus-me à procura de tudo o que aqui não se encontrava porque era proibido: os livros, os discos, os filmes que passavam nos cinemas do Quartier Latin e não chegavam às nossas salas. Mal nós sabíamos que, poucos meses depois, íamos poder vê-los também.
Mas o que mais me encantou nessa tarefa de catar a informação da minha sede foi chegar à cave duma livraria que mais parecia a gruta do Ali Bábá: havia, por todo o lado, jornais, revistas, folhetos de toda a espécie.
No entanto, o que, nesse dia, podia ter sido para mim um festim, transformou-se num festival dantesco de imagens impressas em páginas e páginas, arrumadas umas, desarrumadas outras, daquela multidão de periódicos, virados em todas as direcções, ostentando as fotografias, que eu via pela primeira vez, da atmosfera de terror subsequente ao golpe de Pinochet.
Foi assim que fiquei a saber como as balas tinham chovido em Santiago e como a barbárie, que se iria prolongar por muito tempo, se tinha instalado no Chile.
Não me lembro qual foi a primeira fonte que me trouxe o golpe de Estado no Chile. Já não me recordo o que os meios de comunicação social portugueses relataram. Eu trabalhava para o Estado e, embora o regime tivesse aligeirado um pouco o torniquete que nos apertava a palavra, ainda era muito cedo para alguém se afoitar por aí além. Era parca a informação.
Mas, entretanto, chegou o Joe, o nosso grande amigo preto de coração de mel. Como conhecemos e ficámos amigos do Joe não vem agora ao caso. Mas, sempre que vinha a Portugal, o Joe visitava-nos e contava-nos muito do que a cortina de silêncio não nos deixava saber. O seu nome era John Nkrumah e pertencia à família do ex-presidente do Gana. O Joe era químico e, nessa altura, era o responsável pelo restauro de pergaminhos no museu de Florença e tinha sempre o azar de chegar a nossa casa com as notícias das barbaridades que, nesses anos, iam acontecendo no chamado Terceiro Mundo. Também cá estava quando mataram o Amílcar Cabral. Do mesmo modo, não era fácil para nós porque tínhamos que o ver chorar e consolá-lo da sua revolta e do seu profundo desgosto.
Foi, pois, pelo Joe que soubemos melhor, logo nos dias seguintes ao golpe, como tinham ocorrido as acções militares no Chile, o suicídio de Allende e as prisões em massa de opositores. Tinham passado só alguns dias do 11 de Setembro de 1973. Ainda pouco se sabia da dimensão da catástrofe que se tinha abatido sobre o povo chileno.
No mês seguinte fui passar uns dias de férias a Paris e, claro, pus-me à procura de tudo o que aqui não se encontrava porque era proibido: os livros, os discos, os filmes que passavam nos cinemas do Quartier Latin e não chegavam às nossas salas. Mal nós sabíamos que, poucos meses depois, íamos poder vê-los também.
Mas o que mais me encantou nessa tarefa de catar a informação da minha sede foi chegar à cave duma livraria que mais parecia a gruta do Ali Bábá: havia, por todo o lado, jornais, revistas, folhetos de toda a espécie.
No entanto, o que, nesse dia, podia ter sido para mim um festim, transformou-se num festival dantesco de imagens impressas em páginas e páginas, arrumadas umas, desarrumadas outras, daquela multidão de periódicos, virados em todas as direcções, ostentando as fotografias, que eu via pela primeira vez, da atmosfera de terror subsequente ao golpe de Pinochet.
Foi assim que fiquei a saber como as balas tinham chovido em Santiago e como a barbárie, que se iria prolongar por muito tempo, se tinha instalado no Chile.
Redacção sobre o Chile do 11 de Setembro de 1973
Pedro Godinho
O Chile do 11 de Setembro de 1973 não existiu.
Dele não ouvira falar, como, creio, a maioria dos portugueses para quem a informação era oficialmente censurada.
Então, a repressão que me preocupava era a do polícia que nos corria do jardim e a verdade é que nos meus treze anos poder jogar à bola era a coisa mais importante do mundo; pelo menos mais importante que o distante Chile.
Para mais, Portugal era um país que transpirava medo, onde as famílias ensinavam os filhos a não falar de política e, sobretudo, a não dizer mal dos mandantes.
Só o meu avô era diferente e, apesar do temor que isso provocava à sua volta, os meus pais incluídos, dizia o que pensava – do governo, da censura, da igreja, do que quer que fosse; chamava ditadura à ditadura e falava da importância da liberdade e democracia – e portava-se como um homem livre. Para inveja de muitos.
As voltas da história que deram ao Chile o 11 de Setembro de 1973 deram a Portugal o 25 de Abril de 1974 e, assim, o primeiro aniversário do golpe militar chileno encontrou-me já, precocemente emancipado, nas manifestações de solidariedade, com o punho erguido e os pulmões a gritar nas ruas: o Chile vencerá, o Chile vencerá.
O Chile do 11 de Setembro de 1973 era tortura, sangue e morte.
Pinochet encarnava o fascismo sul-americano e contra ele cantávamos as músicas de Victor Jara, mesmo desafinados porque queríamos sentirmo-nos irmanados com o povo chileno, oprimido e espoliado da sua vontade.
Sentíamo-nos quase mais chilenos que portugueses; porque era lá, no Chile, que a alma devia estar. Chorávamos de revolta.
- Chile, presente, agora e sempre.
Allende era um herói, Salvador sacrificado, mas mais ainda admirávamos o MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) símbolo da resistência popular que combatia de armas na mão a besta fascista.
E, romanticamente, ansiava pela passagem acelerada dos cinco anos que me separavam da maioridade para me juntar à guerrilha revolucionária e ajudar a libertar o Chile. Cumprida essa missão seguiria para onde a Revolução precisasse de mim.
Pinochet agarrou o poder, brutalmente, durante 17 anos, até o Chile se libertar a si mesmo. A marca foi tão profunda que foi imensa a felicidade quando em 1998 Pinochet foi detido em Londres, onde se encontrava para tratamento médico, pela Scotland Yard concretizando um mandato de busca e apreensão internacional com vista a extradição enviado à Interpol pelo juíz espanhol Baltasar Garzón, com base na acusação de crimes de genocídio, terrorismo e tortura.
Felicidade continuada durante os 503 dias de prisão domiciliária que cumpriu em Londres. Apesar de se ter safado da extradição para julgamento em Espanha, graças à influência exercida por Tacther, teve de passar pela vergonha de serem invocadas razões médicas declarando-o mentalmente incapacitado para enfrentar um julgamento, tendo sido extraditado para o Chile pelo governo britânico.
Aí as queixas e acusações judiciais foram-se acumulando. Se é verdade que morreu antes de ser condenado, viu-se obrigado à infâmia de ter de apresentar um atestado de debilidade mental para evitar uma provável condenação.
Viu também ser abalada a pretensa fachada de patriota impoluto, cujos excessos resultavam do combate ao perigo comunista, quando além das acusações e provas de violação dos direitos humanos se juntaram as de fraude fiscal e enriquecimento ilícito. Acabou, afinal, ladrão e senil.
A paternidade dos Estados Unidos da América do Norte no golpe militar chileno, e no que se lhe seguiu – para a qual o mais forte dos adjectivos sempre pareceu insuficiente – é uma nódoa perene que muito contribuiu para criar numa geração a repulsa por (quase) tudo o que cheirasse a ianque.
E fazendo o jogo dos “Se…” na história: como o Chile e o mundo poderiam ter sido outros, e melhores, sem a bárbarie do Chile do 11 de Setembro de 1973.
O Chile do 11 de Setembro de 1973 não existiu.
Dele não ouvira falar, como, creio, a maioria dos portugueses para quem a informação era oficialmente censurada.
Então, a repressão que me preocupava era a do polícia que nos corria do jardim e a verdade é que nos meus treze anos poder jogar à bola era a coisa mais importante do mundo; pelo menos mais importante que o distante Chile.
Para mais, Portugal era um país que transpirava medo, onde as famílias ensinavam os filhos a não falar de política e, sobretudo, a não dizer mal dos mandantes.
Só o meu avô era diferente e, apesar do temor que isso provocava à sua volta, os meus pais incluídos, dizia o que pensava – do governo, da censura, da igreja, do que quer que fosse; chamava ditadura à ditadura e falava da importância da liberdade e democracia – e portava-se como um homem livre. Para inveja de muitos.
As voltas da história que deram ao Chile o 11 de Setembro de 1973 deram a Portugal o 25 de Abril de 1974 e, assim, o primeiro aniversário do golpe militar chileno encontrou-me já, precocemente emancipado, nas manifestações de solidariedade, com o punho erguido e os pulmões a gritar nas ruas: o Chile vencerá, o Chile vencerá.
O Chile do 11 de Setembro de 1973 era tortura, sangue e morte.
Pinochet encarnava o fascismo sul-americano e contra ele cantávamos as músicas de Victor Jara, mesmo desafinados porque queríamos sentirmo-nos irmanados com o povo chileno, oprimido e espoliado da sua vontade.
Sentíamo-nos quase mais chilenos que portugueses; porque era lá, no Chile, que a alma devia estar. Chorávamos de revolta.
- Chile, presente, agora e sempre.
Allende era um herói, Salvador sacrificado, mas mais ainda admirávamos o MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) símbolo da resistência popular que combatia de armas na mão a besta fascista.
E, romanticamente, ansiava pela passagem acelerada dos cinco anos que me separavam da maioridade para me juntar à guerrilha revolucionária e ajudar a libertar o Chile. Cumprida essa missão seguiria para onde a Revolução precisasse de mim.
Pinochet agarrou o poder, brutalmente, durante 17 anos, até o Chile se libertar a si mesmo. A marca foi tão profunda que foi imensa a felicidade quando em 1998 Pinochet foi detido em Londres, onde se encontrava para tratamento médico, pela Scotland Yard concretizando um mandato de busca e apreensão internacional com vista a extradição enviado à Interpol pelo juíz espanhol Baltasar Garzón, com base na acusação de crimes de genocídio, terrorismo e tortura.
Felicidade continuada durante os 503 dias de prisão domiciliária que cumpriu em Londres. Apesar de se ter safado da extradição para julgamento em Espanha, graças à influência exercida por Tacther, teve de passar pela vergonha de serem invocadas razões médicas declarando-o mentalmente incapacitado para enfrentar um julgamento, tendo sido extraditado para o Chile pelo governo britânico.
Aí as queixas e acusações judiciais foram-se acumulando. Se é verdade que morreu antes de ser condenado, viu-se obrigado à infâmia de ter de apresentar um atestado de debilidade mental para evitar uma provável condenação.
Viu também ser abalada a pretensa fachada de patriota impoluto, cujos excessos resultavam do combate ao perigo comunista, quando além das acusações e provas de violação dos direitos humanos se juntaram as de fraude fiscal e enriquecimento ilícito. Acabou, afinal, ladrão e senil.
A paternidade dos Estados Unidos da América do Norte no golpe militar chileno, e no que se lhe seguiu – para a qual o mais forte dos adjectivos sempre pareceu insuficiente – é uma nódoa perene que muito contribuiu para criar numa geração a repulsa por (quase) tudo o que cheirasse a ianque.
E fazendo o jogo dos “Se…” na história: como o Chile e o mundo poderiam ter sido outros, e melhores, sem a bárbarie do Chile do 11 de Setembro de 1973.
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