Neste vídeo ouvem-se alguns testemunhos sobre o dia 25 de Novembro de 1975. O dia do golpe militar que «eliminou a ameaça esquerdista» e restituiu o país «à normalidade». Digamos que, para uns, o sonho acabava e para outros o pesadelo terminava.
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (9)
(Continuação)
Como esses antigos amigos, Olga Murillo e Sérgio Galán, o marido da nossa amiga da infância, Olga, a nos subjugarem com o intuito de nós ajudar, mas que, como eram muito católicos, fizeram jurar a minha irmã e a mim, que o que íamos dizer era verdade. É evidente que tivemos que mentir! E, desde esse dia, a mentira foi para todos, de uma ou outra maneira. Estes amigos da família, Conservadores de Direita, já falecidos mas de feliz memória enquanto éramos todos vizinhos de Quinta no nosso lar ao pé do mar, perguntaram si éramos ou não marxistas. Quer a minha irmã quer eu, dissemos: “marxistas, nós?. Nem pensar!
Como bem sabem somos Católicos devotos”, uma das primeiras mentiras de uma lista de várias, que, no decorrer do tempo, salvaram as nossas vidas. Bom, mentiras não eram, era apenas passar pelo lado da verdade, sem se pronunciar sobre o fundo do assunto, ou passar pelo lado da verdade. O nosso problema era que tínhamos sido convocados por uma proclama do novo Governador da Província de Talca, para nos apresentarmos à Segunda Feira, 17 de Setembro de 1973, aos barracões do Exército e prestar declarações.
Como esses antigos amigos, Olga Murillo e Sérgio Galán, o marido da nossa amiga da infância, Olga, a nos subjugarem com o intuito de nós ajudar, mas que, como eram muito católicos, fizeram jurar a minha irmã e a mim, que o que íamos dizer era verdade. É evidente que tivemos que mentir! E, desde esse dia, a mentira foi para todos, de uma ou outra maneira. Estes amigos da família, Conservadores de Direita, já falecidos mas de feliz memória enquanto éramos todos vizinhos de Quinta no nosso lar ao pé do mar, perguntaram si éramos ou não marxistas. Quer a minha irmã quer eu, dissemos: “marxistas, nós?. Nem pensar!
Como bem sabem somos Católicos devotos”, uma das primeiras mentiras de uma lista de várias, que, no decorrer do tempo, salvaram as nossas vidas. Bom, mentiras não eram, era apenas passar pelo lado da verdade, sem se pronunciar sobre o fundo do assunto, ou passar pelo lado da verdade. O nosso problema era que tínhamos sido convocados por uma proclama do novo Governador da Província de Talca, para nos apresentarmos à Segunda Feira, 17 de Setembro de 1973, aos barracões do Exército e prestar declarações.
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Por que teve Allende que correr tanto - por Raúl Iturra
Salvador Allende em 1970
…resposta ao comentário de Luís Moreira….
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sábado, 11 de setembro de 2010
Os boys de Milton Friedman na ditadura do Chile!
Luís Moreira
A imposição do salário mínimo pela concertação social é uma boa medida? É, porque permite que os trabalhadores possam receber um salário mínimo que lhes trás alguma descompressão na sua vida cheia de dificuldades e, ainda, porque as empresas que não suportam um salário mínimo são empresas sem viabilidade económica e fecham, limpando o tecido empresarial, dando lugar a empresas mais competitivas.
Não, porque segundo a teoria Liberal, há sempre alguem disposto a receber menos até um determinado salário, abaixo do qual já ninguem vende o seu trabalho. Nesta perspectiva, o salário mínimo acima daquele mínimo, retira postos de trabalho porque as empresas não estão dispostas a pagar mais, preferindo fechar ou não empregar.
A imposição do salário mínimo pela concertação social é uma boa medida? É, porque permite que os trabalhadores possam receber um salário mínimo que lhes trás alguma descompressão na sua vida cheia de dificuldades e, ainda, porque as empresas que não suportam um salário mínimo são empresas sem viabilidade económica e fecham, limpando o tecido empresarial, dando lugar a empresas mais competitivas.
Não, porque segundo a teoria Liberal, há sempre alguem disposto a receber menos até um determinado salário, abaixo do qual já ninguem vende o seu trabalho. Nesta perspectiva, o salário mínimo acima daquele mínimo, retira postos de trabalho porque as empresas não estão dispostas a pagar mais, preferindo fechar ou não empregar.
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A lição do Chile
Carlos Loures
Em 11 de Setembro de 1973, ainda sob a ditadura do Estado Novo, íamos recebendo as notícias terríveis que vinham do Chile. Cerca das seis da tarde (meio-dia em Santiago), estava na estação do Cais do Sodré com o Diário de Lisboa tremendo-me nas mãos e fazendo um grande esforço para que as lágrimas não se soltassem. Tudo estava perdido. Com o violento esmagamento da Revolução chilena, para nós, os marxistas que não acreditavam que da Rússia, da China, da Coreia ou da Albânia algo de positivo viesse, com Revolução cubana cada vez mais enredada nas malhas de outro imperialismo, o Chile era um farol de esperança. Um farol cuja luz era, naquele dia, brutalmente extinta.
Em 11 de Setembro de 1973, ainda sob a ditadura do Estado Novo, íamos recebendo as notícias terríveis que vinham do Chile. Cerca das seis da tarde (meio-dia em Santiago), estava na estação do Cais do Sodré com o Diário de Lisboa tremendo-me nas mãos e fazendo um grande esforço para que as lágrimas não se soltassem. Tudo estava perdido. Com o violento esmagamento da Revolução chilena, para nós, os marxistas que não acreditavam que da Rússia, da China, da Coreia ou da Albânia algo de positivo viesse, com Revolução cubana cada vez mais enredada nas malhas de outro imperialismo, o Chile era um farol de esperança. Um farol cuja luz era, naquele dia, brutalmente extinta.
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Redacção sobre o Chile do 11 de Setembro de 1973
Pedro Godinho
O Chile do 11 de Setembro de 1973 não existiu.
Dele não ouvira falar, como, creio, a maioria dos portugueses para quem a informação era oficialmente censurada.
Então, a repressão que me preocupava era a do polícia que nos corria do jardim e a verdade é que nos meus treze anos poder jogar à bola era a coisa mais importante do mundo; pelo menos mais importante que o distante Chile.
Para mais, Portugal era um país que transpirava medo, onde as famílias ensinavam os filhos a não falar de política e, sobretudo, a não dizer mal dos mandantes.
Só o meu avô era diferente e, apesar do temor que isso provocava à sua volta, os meus pais incluídos, dizia o que pensava – do governo, da censura, da igreja, do que quer que fosse; chamava ditadura à ditadura e falava da importância da liberdade e democracia – e portava-se como um homem livre. Para inveja de muitos.
As voltas da história que deram ao Chile o 11 de Setembro de 1973 deram a Portugal o 25 de Abril de 1974 e, assim, o primeiro aniversário do golpe militar chileno encontrou-me já, precocemente emancipado, nas manifestações de solidariedade, com o punho erguido e os pulmões a gritar nas ruas: o Chile vencerá, o Chile vencerá.
O Chile do 11 de Setembro de 1973 era tortura, sangue e morte.
Pinochet encarnava o fascismo sul-americano e contra ele cantávamos as músicas de Victor Jara, mesmo desafinados porque queríamos sentirmo-nos irmanados com o povo chileno, oprimido e espoliado da sua vontade.
Sentíamo-nos quase mais chilenos que portugueses; porque era lá, no Chile, que a alma devia estar. Chorávamos de revolta.
- Chile, presente, agora e sempre.
Allende era um herói, Salvador sacrificado, mas mais ainda admirávamos o MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) símbolo da resistência popular que combatia de armas na mão a besta fascista.
E, romanticamente, ansiava pela passagem acelerada dos cinco anos que me separavam da maioridade para me juntar à guerrilha revolucionária e ajudar a libertar o Chile. Cumprida essa missão seguiria para onde a Revolução precisasse de mim.
Pinochet agarrou o poder, brutalmente, durante 17 anos, até o Chile se libertar a si mesmo. A marca foi tão profunda que foi imensa a felicidade quando em 1998 Pinochet foi detido em Londres, onde se encontrava para tratamento médico, pela Scotland Yard concretizando um mandato de busca e apreensão internacional com vista a extradição enviado à Interpol pelo juíz espanhol Baltasar Garzón, com base na acusação de crimes de genocídio, terrorismo e tortura.
Felicidade continuada durante os 503 dias de prisão domiciliária que cumpriu em Londres. Apesar de se ter safado da extradição para julgamento em Espanha, graças à influência exercida por Tacther, teve de passar pela vergonha de serem invocadas razões médicas declarando-o mentalmente incapacitado para enfrentar um julgamento, tendo sido extraditado para o Chile pelo governo britânico.
Aí as queixas e acusações judiciais foram-se acumulando. Se é verdade que morreu antes de ser condenado, viu-se obrigado à infâmia de ter de apresentar um atestado de debilidade mental para evitar uma provável condenação.
Viu também ser abalada a pretensa fachada de patriota impoluto, cujos excessos resultavam do combate ao perigo comunista, quando além das acusações e provas de violação dos direitos humanos se juntaram as de fraude fiscal e enriquecimento ilícito. Acabou, afinal, ladrão e senil.
A paternidade dos Estados Unidos da América do Norte no golpe militar chileno, e no que se lhe seguiu – para a qual o mais forte dos adjectivos sempre pareceu insuficiente – é uma nódoa perene que muito contribuiu para criar numa geração a repulsa por (quase) tudo o que cheirasse a ianque.
E fazendo o jogo dos “Se…” na história: como o Chile e o mundo poderiam ter sido outros, e melhores, sem a bárbarie do Chile do 11 de Setembro de 1973.
O Chile do 11 de Setembro de 1973 não existiu.
Dele não ouvira falar, como, creio, a maioria dos portugueses para quem a informação era oficialmente censurada.
Então, a repressão que me preocupava era a do polícia que nos corria do jardim e a verdade é que nos meus treze anos poder jogar à bola era a coisa mais importante do mundo; pelo menos mais importante que o distante Chile.
Para mais, Portugal era um país que transpirava medo, onde as famílias ensinavam os filhos a não falar de política e, sobretudo, a não dizer mal dos mandantes.
Só o meu avô era diferente e, apesar do temor que isso provocava à sua volta, os meus pais incluídos, dizia o que pensava – do governo, da censura, da igreja, do que quer que fosse; chamava ditadura à ditadura e falava da importância da liberdade e democracia – e portava-se como um homem livre. Para inveja de muitos.
As voltas da história que deram ao Chile o 11 de Setembro de 1973 deram a Portugal o 25 de Abril de 1974 e, assim, o primeiro aniversário do golpe militar chileno encontrou-me já, precocemente emancipado, nas manifestações de solidariedade, com o punho erguido e os pulmões a gritar nas ruas: o Chile vencerá, o Chile vencerá.
O Chile do 11 de Setembro de 1973 era tortura, sangue e morte.
Pinochet encarnava o fascismo sul-americano e contra ele cantávamos as músicas de Victor Jara, mesmo desafinados porque queríamos sentirmo-nos irmanados com o povo chileno, oprimido e espoliado da sua vontade.
Sentíamo-nos quase mais chilenos que portugueses; porque era lá, no Chile, que a alma devia estar. Chorávamos de revolta.
- Chile, presente, agora e sempre.
Allende era um herói, Salvador sacrificado, mas mais ainda admirávamos o MIR (Movimiento de Izquierda Revolucionaria) símbolo da resistência popular que combatia de armas na mão a besta fascista.
E, romanticamente, ansiava pela passagem acelerada dos cinco anos que me separavam da maioridade para me juntar à guerrilha revolucionária e ajudar a libertar o Chile. Cumprida essa missão seguiria para onde a Revolução precisasse de mim.
Pinochet agarrou o poder, brutalmente, durante 17 anos, até o Chile se libertar a si mesmo. A marca foi tão profunda que foi imensa a felicidade quando em 1998 Pinochet foi detido em Londres, onde se encontrava para tratamento médico, pela Scotland Yard concretizando um mandato de busca e apreensão internacional com vista a extradição enviado à Interpol pelo juíz espanhol Baltasar Garzón, com base na acusação de crimes de genocídio, terrorismo e tortura.
Felicidade continuada durante os 503 dias de prisão domiciliária que cumpriu em Londres. Apesar de se ter safado da extradição para julgamento em Espanha, graças à influência exercida por Tacther, teve de passar pela vergonha de serem invocadas razões médicas declarando-o mentalmente incapacitado para enfrentar um julgamento, tendo sido extraditado para o Chile pelo governo britânico.
Aí as queixas e acusações judiciais foram-se acumulando. Se é verdade que morreu antes de ser condenado, viu-se obrigado à infâmia de ter de apresentar um atestado de debilidade mental para evitar uma provável condenação.
Viu também ser abalada a pretensa fachada de patriota impoluto, cujos excessos resultavam do combate ao perigo comunista, quando além das acusações e provas de violação dos direitos humanos se juntaram as de fraude fiscal e enriquecimento ilícito. Acabou, afinal, ladrão e senil.
A paternidade dos Estados Unidos da América do Norte no golpe militar chileno, e no que se lhe seguiu – para a qual o mais forte dos adjectivos sempre pareceu insuficiente – é uma nódoa perene que muito contribuiu para criar numa geração a repulsa por (quase) tudo o que cheirasse a ianque.
E fazendo o jogo dos “Se…” na história: como o Chile e o mundo poderiam ter sido outros, e melhores, sem a bárbarie do Chile do 11 de Setembro de 1973.
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