Mostrar mensagens com a etiqueta salvador allende. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta salvador allende. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (25)

(Continuação)

Capítulo 7-Tricinco no Portugal de hoje e no Chile de ontem.



Torno ao texto central. Os membros que apoiaram o que após golpe foi ditadura vitalícia, ficaram horrorizados. Primeiro, por não serem convocados a governar, depois, pelas perseguições contra eles, a seguir, pelas tropelias causada pela ditadura. Como um dia me contara Patrício Aylwin Azócar , em Portugal na casa do Embaixador do Chile na Rua da Estrela em Lisboa, casa habitada, em tempos, pela consulesa Gabriela Mistral e por um nosso tio Ministro Conselheiro da Embaixada. Aylwin e outros membros do seu partido foram banidos e Frei ficou a espera de ser convocado a governar. Desencanto! Mal conheciam ao hesitante ditador, que aderiu ao golpe, um dia antes: ele estava sempre ao pé do poder. Quando o poder era do Presidente Allende, não queria participar em golpes. Teve de ser convencido pelos outros membros golpistas, de que não era apenas uma tentativa de golpe: a CIA estava com eles, o que fez tremer ao generalito e aceitou para passar a ser não apenas o melhor membro para completar o golpe, bem como mandou, no seu primeiro dia de governo, publicar um bando para ordenar que todos os partidos políticos ficavam suspensos até ele dizer outra coisa e declarava que os partidos que “vendiam ao Chile a potências estrangeiras, como PC, PS, MAPU , Esquerda Cristã, Partido Radical, e qualquer outra filiação da derrubada UP, ficavam fora da lei e proibidos de funcionar no Chile”. Foi, porém, a necessidade de fugir, de escapar, salvar a vida fora para recomeçar, mais uma vez, a nossa história pessoal, em outro sítio, com outras pessoas, em outras culturas era a ordem do dia. Pensava-mos, como sempre se pensa no Chile, sem visão do futuro e com curta memória histórica, que esta ditadura seria curta. Como habitual em processos históricos desconhecidos e novos, estava-mos enganados. Foram os que ficaram dentro do Chile, vivos, os que começaram a protestar contra esse governo, os caudilhos eram do silenciado Partido da Democracia Cristã Patrício Aylwin , e Ricardo Lagos, que formaram, em 1988, com uma ditadura debilitada, donde, a atacar fortemente a outros para se defender e sobreviver, os antigos democratas, rivais e amigos organizaram a Coligação de Partidos pela Democracia ou Concertación Nacional, referida em nota de rodapé . O novo Presidente percorreu o mundo todo para restabelecer relações com os países que tinham-se demarcado de relações diplomatas com a ditadura. O nosso trabalho no exílio, tinha sido assim feito, para acabar com essa ditadura de alguma maneira. Foi o nosso humilde contributo desde o exílio.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (24)

(Continuação)

Tricinco, no decorrer da escrita, tem passado a ser quase um conceito, um conceito metafórico. São tricinco de sobre vida, tricinco de experiências, tricinco de vida académica, tricinco de exílio, de paternidade, escrita, conhecimento de amigos, de subir os degraus da escala da vida, com persistência e decoro. É evidente que é metafórico, porque é a partir da minha sobre vida a não ser fuzilado ao 18 de Setembro de 1973, e que a contagem foi para trás para recomeçar nesse dia, um novo nascimento. Desde esse dia em frente, desconto os anos de vida que tenho e fico em tricinco, a idade que sempre refiro ter e que todos pensam que é uma brincadeira minha. Por não saber da minha vida. Tricicno anos de adesão ao nosso Presidente assassinado, tricinco desde o dia, ou melhor, noite, que a minha mulher passou a apagar, a noite toda, gravações feitas por mim as mulheres do inquérito para a nossa escola Camponesa da nossa Universidade, caso o caso for de sermos mais uma vez invadidos pelo exército na nossa casa. Inquérito feito a 2000 mulheres, ao longo de dois anos, com a minha irmã Blanquita e a nossa amiga e colega Nilsa Tápia. Esses dias eram temidos e todo ou nada podia ser usado contra nós em qualquer julgamento ou perseguição. Tricinco anos que a minha querida e destemida mulher, sem conseguir dormir, apagou gravações das entrevistas feitas a essas 2000 mulheres, para não pensar no que me puder acontecer esse dia nefasto, apagou pela noite dentro até a madrugada. No queria imaginar o que poderia acontecer comigo e os nossos amigos da Unidade Popular. Tricinco anos desde a morte do nosso Presidente e do nosso projecto de via chilena para o socialismo...

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (23)

(Continuação)

Escrita que torna para Santa Cruz e as nossas tentativas de organizar Sindicatos camponeses. Anos volvidos, foi que entendi que era a política da Democracia Cristã Chilena, a de formar Sindicatos Rurais, para promulgar uma lei sobre Sindicatos Rurais. Mas, antes, os Sindicatos deviam existir, e era essa a nossa missão, soubermos ou não os que lá estávamos em trabalho de campo de verão, alfabetizar e organizar Sindicatos Campesinos . O título do livro, tomo I de José Bengoa, dá uma ideia do medo dos inquilinos a se encontrar e manifestar de dia em prol dos Sindicatos: em castelhano castiço Chileno: El Poder y la Subordinación, ou, em português: O poder e a subordinação. O poder era do patrão, sou testemunha da subordinação, manifestada não apenas em “tirar” o chapéu para cumprimentar, bem como em aceitar despejo, mandar ir embora sem prévio aviso aos trabalhadores do campo. É suficiente ler o livros de Isabel Allende, antes citado por mim, La casa de los espíritus, de 1982, para saber que o despojo do trabalho era prévio e sem aviso, como é narrado não apenas pelo meu sabido amigo Pepe-José Bengoa-, bem como pela romancista, que tem feito do romance da América Latina uma pesquisa antes da escrita aparecer.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (22)

(Continuação)
Donde, nunca fui membro do dito partido, apesar de ter como alcunha o “comunista chileno”. Era assim que eu era denominado pelos patrões dos sítios trabalhados por mim, especialmente pelos de Ramón. A Doña Juana perguntou se eu era ou não comunista, ao dizer a frase espontânea, escrita mais acima. Eu respondi não, aliás, referi, se a Senhora repara, vamos todos à Missa do Domingo na Igreja Paroquial e comungamos juntos. Apenas, que, acrescentei, a Senhora tem um anel de diamantes que faria rico a qualquer dos seus trabalhadores! Ele não calou e disse: “Dice que no es comunista, pero sus palabras lo traicionan.

Su comunión es una herejia”, eu fechei o diálogo com esta frase. “Herejía es no trabajar y vivir del producto de los otros. ¡Eso es pecado!”. No dia a seguir, fomos todos levados, depois da Missa das 12, a Missa dos elegantes, pela policia de Santa Cruz para a cadeia local. !Éramos tantos! Dos que mais lembro, é desse novo amigo, Esteban Tomi`c, um dos vários filhos do o amigo do meu Senhor Pai, Radomiro Tomi ´c, que correu como DC juntos ao Candidato Allende para a Presidência em 1970, mas que, aos saber da conspiração para derrubar Allende antes de reconhecer o seu sucesso para à Presidência do Chile, foi o primeiro em ir cumprimentar ao seu vitorioso rival, deu um abraço em frente da multidão de “rotos” e outros descosidos, deu um abraço e publicamente admitiu a sua derrota, o que travou o plano de Frei de ser sequestrado, enviado ao exílio, organizar Junta Militar, invalidar as eleições, e sei meses após Junta, abrir eleições outra vez e Frei Montalva podia-se recandidatar e ganhar. Mas, a movimentação de Radomiro Tomi´c, inviabilizou esse projecto de golpe de palácio, apoiado pelos Carabineros do Chile.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (21)

(Continuação)

Capítulo 6-Lembranças do passado: organização de sindicatos.


Sobre Sindicatos, todos sabemos alguma coisa. Há duas formas de saber: pela lei e pelos factos. Pela lei de Portugal, os Sindicatos estão legislados no Código do Trabalho e em leis especiais, conforme a época de legislatura e de quando começaram a aparecer O Portugal após o denominado Pronunciamento Militar de 1974, que derrubou, sem guerra nem mortos nem prisioneiros, teve, no entanto, que mudar a legislação, que tratava aos trabalhadores como mercadoria para ser trocada por convénios, tratados, retirar de dinheiro como imposto para os trabalhadores que eram convidados trabalhar fora de Portugal. Como era também o caso da Galiza, narrado por mim, com lei e citações, quer nos livros referidos sobre Vilatuxe, ou, ainda, no texto escrito por mim para a Revista Galega Estúdios Migratórios. Arquivo da Emigración Galega. Consello da Cultura Galega, cuja Directora era a minha amiga, Catedrática de História Contemporânea, em Compostela, a Professora Doutora Maria Xosé Rodríguez Galdo . Tive essa grande sorte de encontrar uma foto que, apresentada aos descendentes, como refiro no livro tão citado por mim, da Profedições, o denominado mal vendido livro. Mas, ao tornar ao tema do texto, se Portugal teve que organizar a lei, no caso do Chile, Allende teve que organizar e reorganizar as leis sindicais. Nem preciso ir as páginas habituais, para me lembrar. Nos anos 50 e 60 do Século XX, eu próprio participei na organização de Sindicatos, especialmente Sindicatos de Trabalhadores rurais, omissos no Código do Trabalho Chileno.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (20)

(Continuação)

Com todo, a minha mulher tinha que tratar da casa, das compras, de comidas, da roupa, limpar a casa e não estava habituada. A pouco e pouco a sua saúde ficava em baixo. Especialmente porque a nossa casa era visitada por uma série de amigos meus ingleses da Universidade de Cambridge, entre os quais assistia muito a minha amiga, Professora Doutora Caroline Humphrey , essa amiga e colega que me dissera um dia, ao acabar a defessa da minha tese e eu comunicar a ela que John Davis e Ray Abrahams tinham aprovado o meu debate e até me tinham convidado a almoçar por pensar que a minha tese era melhor do que boa, de imediato respondeu: “Right, Rául ( à laia inglesa de pronunciar o meu nome próprio), now, is my turn to defend your thesis at the Faculty’s Committee”. O meu texto foi aprovado pelos sete júris, referidos por mim antes, que examinam a tese. A defessa é apenas uma formalidade para entender se a tese3 era feita por mim ou por outro. As questões eram mais para saber como tinha descoberto certos factos, como tinha tido a ideia que aparecia no texto para os defender, as estatísticas usadas, como tinha sido o meu trabalho de campo, já inspeccionado por Milan Stuchlick, e sabido por Jack Goody, e outras normas que eram para mi, um terror, que não podia transmitir aos membros da casa. Vivi dois meses de espera, até que chegou uma carta da Universidade para referir que era requerido no Secretariado da Faculdade para saber o resultado da aprovação, ou não, da minha tese. Eu tinha passado por situações semelhantes no Chile, no campo de concentração: era libertado, mas dia sim, um dia não, era reclamado por bando para me apresentar, mais uma vez, ao famoso Regimento! A situação era semelhante....as minhas mãos suavam!, uma pessoa perde a confiança em si, ao sermos tão metralhados no nível académico, especialmente ao saber que, até esse dia, nenhum latino-americano tinha, ainda, passado uma prova dessas em Cambridge. Desde esse dia, é que ainda fica em mim o terror de ser julgado! Em silêncio, para não alarmar a casa, fui ao gabinete da Senhora Secretária da Faculdade, não conseguia encontrar a carta, e eu, calmo, ia ai ficando calado, até a encontrar e, como manda o Regulamento, ler-me a opinião da Universidade: a minha tese tinha sido aprovada por unanimidade em todos os júris pelos quais tinha passado, ou tinha sido auferida! Tal como no Regimento, ao não ser fuzilado, fiquei sem rumo, não sabia o que fazer, excepto continuar o trabalho!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (17)

(Continuação)

E aparece esse segundo problema, o de criar crianças. Essa matéria que eu mais estudo, como especialista em Etnopsicologia da Infância , ideia derivada da minha actividade socialista! Até estas linhas, não tinha eu reparado o meu empenhamento na justiça social....Apenas pensava que tinha sido uma passagem da vida, mas esta auto-analise tem-me feito lembrar o meu desejo de igualdade, por onde comecei a escrita deste texto.

Criar crianças, é a transferência de saberes duma geração à seguinte. Tem sido a minha definição em todos os meus textos. E tem sido a minha especial atenção ao viver como tal, para exemplificar com a minha vida, a entrega à solidariedade social, aos nossos novos descendentes. Para além das minhas definições, há as denominadas abstractas . No entanto, vou ficar mais com as minhas, referidas especialmente nos textos escritos a partir dos anos 90 do Século XX. No meu livro referido já da antiga Escher, hoje Fim de Século, na capítulo 8, falo da sabedoria das crianças, sabedoria definida por mim, da seguinte maneira: “Há pois, um conhecimento que as crianças retiram da sua cultura. Quando aparecem no grupo social, o mundo já está classificado, dividido e hierarquizado e o exercício desde que nascem até adquirir aceitação ou aprovação dos adultos, é aprender critérios e classificações, noções e conceitos, distâncias e categorias sociais, o tempo e o espaço, a vida e a morte, a criação da vida e o seu objectivo.” Como é evidente. Todo retirado do meu trabalho de campo, mais, antes, da minha experiência de pais e cônjuge da mãe das nossa filhas, que é uma dimensão normalmente não pensada pelos analistas. Ser pai e marido é uma dimensão diferente do que ser apenas pai. Mais ainda, ao ser pai e cônjuge em países estranhos, sem dinheiro nem famílias.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (16)

(Continuação)

O segundo, era a ideologia. A nossa ideologia era diferente, entre os vizinhos e eu. Éra-me impossível, para guardar a minha digna reputação que me fizera ser aceite pelos vizinhos, dizer que éramos socialistas exilados, como comentou um amigo meu, trabalhador Rural em Vacas, o para mim, meu íntimo Eduardo Fernández e a sua mulher Ercanación da Paróquia, da paróquia Barcia (Santo Estevo) vizinha a de Vilatuxe –as mulheres não eram assumidas pelo nome, eram referidas pelo sítio ao qual pertenciam.

Eu relatava que era católico de Missa e Comunhão, era parte do meu trabalho de campo, para ser aceite entre a comunidade, toda a qual dizia ser católica, as a maior parte dos homens não eram crentes e iam a missa como um encontro social referidos por mim nos textos citados sobre Vilatuxe e o mal vendido da Proefedições. A minha mulher era mais directa, ela não tinha nada que provar e apenas uma vez foi a Missa, apesar dos pedidos do nosso amigo o Pároco Luís Vázquez, que costumava dizer que nunca tinha encontrado uma pessoa mais cristã do que Raúl. E foi assim que consegui imensa informação sobre as famílias de Vilatuxe. Não era um engano, era parte do meu trabalho. É o que se denomina na fé romana católica dizer a verdade ocultamente, sem entrar em detalhes. Foi preciso fornecer toda a minha opinião e história sobre a devoção, os padres amigos, os Bispos e Cardeais e outros dados, contar que no meu matrimónio tínhamos recebido um telegrama do Papa Giovanni Montini ou Paulo VI e outras referências.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (16)

(Continuação)

Eram tempos de provar a paciência e de estar à espera de saber qual podia ser o próximo passo a ser dado. Enquanto aprendiam outra vez inglês na Grã-bretanha, na nossa casa de Chesterton Road 113 A essa a minha pequena família, eu andava-me a familiarizar com a língua luso-galaica, um pandemónio de palavra ao  mesturar (misturar, seria em Português), as lusas com as castelhana. Casa visitada também pelos Stuchlick, no dia em que Milan e Jarka passaram por ai, não entraram em casa, mas deixaram um envelope, ou, mais bem, passaram-me um envelope, solicitaram para eu abrir, o que fiz, e havia um cheque por £20! Fiquei surpreendido e disse porquê?. A resposta foi simples: “é o que me é pago por orientar os teus trabalhos e como o trabalho é feito por ti, acho que mereces receber esta importância, eu fico pago com a alegria de orientar a essa mente académica tão brilhante, que até ouve as minhas desventuras e sabe guardar silêncio”, disse Milan.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (15)

(Continuação)

Capítulo 4-O exílio e as suas lutas.



That’s the fact. Words talk. Words are action. Bem sei que estou a escrever com palavras na língua saxónica inglesa, que tem palavras também em latim, poucas, mas várias, por causa dos Romanos do Império e , antes, da República, terem colonizado as Ilhas Britânicas. O Conquistador foi denominado Britannicus . Mas, não queria desviar o olhar do leitor para as minhas habituais desagregações do texto, e insistir que as palavras são acção. Nós, não apenas falamos, também pensamos e a parte mais activa do nosso pensamento, são os conceitos usados , conceitos normalmente retirados da actividade e da acção.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (14)

(Continuação)

 
Estas lembranças acompanharam o meu exílio no meu retorno à Inglaterra e eram referidas por mim em todas as conferências que eu proferia sobre o Chile do Antigamente, apesar de que as pessoas, o que queriam ouvir, era sobre Allende, o seu Governo, a denominada via chilena para o socialismo e a vida pessoal do Presidente, como era a pesquisa no Chile, a sua literatura e outros assuntos, contadas por mim neste capítulo. Foi o tempo de falar de Gabriela Mistral, a nossa poetisa, que aparece na minha memória quando lembro Arturo Pratt, o nosso parente Serrano e a Intendência Antiga, onde tive a felicidade de conhecer essa nossa poetisa laureada, que era bem conhecida no estrangeiro e não no Chile.

Depois de muitos anos de ser galardoada, foi ao Chile a convite do Presidente da República, Carlos Ibáñez del Campo, Presidente eleito, esta vez por votação livre, como digo na Introdução a este trabalho, já não ditador como era em 1927, mas votado, derrotando ao candidato Salvador Allende. Governou entre 1952 e 1958. Em 1952, convidou à Poetisa, cujo prémio tinha sido comunicado pelo o Ministro Conselheiro da Embaixada no Brasil, o irmão do meu sogro, o nosso tio Higinio González e a sua mulher, a tia Rebeca Tornero de González, os dois de feliz memória, com excelente desempenho nas Embaixadas não apenas do Brasil , bem como também Grã-bretanha, Alemanha, USA, Lisboa, entre outras . No Chile foi preciso imprimir, a toda velocidade, os livros da poetisa, desconhecida no Chile, mas o povo chileno, mal soube da notícia da visita, como não havia mais para fazer, saiu as ruas a aclamar e louvar a Gabriela Mistral.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (13)

(Continuação)

A Igreja Católica do Chile reagiu, ao nível de hierarquia, violentamente contra ideias ateias, mas teve o respeito de nunca condenar ao projecto socialista. O que sim condenava era o ateísmo que as ideias da esquerda puderem trazer à população membro da Igreja Romana. O que o Episcopado não sabia era que o povo era mais devoto nos dias da Presidência de Allende, porque estavam bem, sentiam-se apoiados, motivo que levou a muitos párocos a colaborar com o socialismo: era uma situação de justiça solidária, base fundamental do credo cristão.

domingo, 28 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (12)

(Continuação)

Tanto, por 53 Bateman Street, a casa onde morávamos e que pertencia a minha Faculdade do Trinity Hall, onde criamos às nossas filhas, Paula e, mais tarde, Camila, essa filha que conheci no aeroporto de Gatwick. Foi gerada em Talca, num ataque de paixão entre a minha mulher e eu, nesses tempos conturbados do Chile, na época de Allende, quando o golpe de Estado, relatado já, estava a ser preparado e andámos todos por sítios diferentes para poder-nos sustentar. Nasceu comigo no exílio, no Hospital de Talca, a 6 de Janeiro de 1974. Soube a notícia no dia do meu aniversário, vários dias depois do alumbramento da nossa filha. Era difícil se comunicar com o Chile. Um telegrama foi enviado à Universidade de Essex e o meu antigo colaborador, nesses dias o meu hóspede, chegou com o seu alegre sorriso: “Raúl eres un chancletero”, palavra chilena castiça que significa ser capaz de engendrar apenas mulheres, o que se esperava era sempre um filho, para perpetuar o nome e a sucessão familiar.

sábado, 27 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (10)

(Continuação)

É destas ideias que começa a nascer a noção de igualdade, tentada por nós no Chile de Allende, mas que nunca fora dinamizada, como já sabemos, até os primeiros anos do Século XXI. Devo confessar que era preciso mudar de mentalidade para se ser igual. Em casa havia vários jardineiros a tomar conta das flores da nossa Senhora Mãe. Essas flores que ganhavam prémios todos os anos no Festival de las Flores o Exposición de Flores, na Quinta Vergara de Viña del Mar, o balneário e cidade mais elegante e destemido da América do Sul. Quem morava em Viña del Mar, era um Todo, um Poderoso, um Magnate, onde morava parte da minha família e, aquando casei, nós próprios. Era elegante e prestigioso ser de Viña del Mar! (As pessoas costumevam dizer: “Yo?! Soy de Viña, pues!”, com o melhor acento betinho possível)Parecia-me, nesses tempos. Hoje, após o meu socialismo ter-se desenvolvido na minha ideologia, já não me interessa. No entanto, as flores da Senhora Mãe ganhavam prémios e , sob a ditadura, continuou a ser um sítio de exibição. Normalmente, ela era chamada para receber prémios de flores em Amores Perfeitos e na criada, após a denominada 2ª guerra mundial do Século XX, Rosa da Paz ou Peace Rose.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A burguesia chilena e a sua greve contra Allende, por Raúl Iturra

O Dr. Salvador Allende investido como Presidente do Chile em 1970, 4 de Novembro, após eleição por sufrágio universal.


 Entendo que o direito a greve é dos trabalhadores. Não há código do trabalho nos tempos que correm, que não permita ao operariado a interrupção voluntária e colectiva de actividades ou funções, por parte de trabalhadores ou estudantes, como forma de protesto ou de reivindicação.

Aliás, a lei Nº 65, de 1977, de 26 de Agosto da República de Portugal, diz: A Assembleia da República decreta, nos termos dos artigos 167º, alínea c), e 169º, nº 2, da Constituição, o seguinte:

Artigo 1º

Direito à greve

1 – A greve constitui, nos termos da Constituição, um direito dos trabalhadores.

2 – Compete aos trabalhadores definir o âmbito de interesses a defender através da greve.

3 – O direito à greve é irrenunciável.

No entanto, como é bem conhecido, a burguesia apoderou-se desse direito quando Sua Excelência – forma de tratar no Chile os Presidentes da República – o Dr. Salvador Allende, médico e político, foi eleito para a mais alta magistratura da Nação. Bem sabemos que a eleição foi renhida e teve que ser referendada pelo Congresso Nacional em pleno se o candidato não atinge a maioria absoluta.  Sua Excelência ganhou o primeiro lugar, apesar de não ter maioria absoluta, conquistou o primeiro lugar com 36,2% dos votos, contra 34.9% de Jorge Alessandri, o candidato da direita, e 27.8% do terceiro candidato, Radomiro Tomic, cuja plataforma era similar à de Allende. Como a Constituição chilena previa a necessidade de "maioria dupla" (no voto popular e no Congresso), difíceis negociações foram entabuladas para a aprovação do nome de Allende no Parlamento. Após o brutal assassinato do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas chilenas, o general constitucionalista René Schneider, perpetrado por elementos ligados à Pátria y Libertad, Allende teve, finalmente, seu nome confirmado pelo Congresso chileno.

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (8)

(Continuação)

O dia 11 de Setembro de 1973, porém, foi mais um dia de atrocidades, por acaso e infelizmente, quase costumeiras no País. Foi, também, a mais sangrenta da sua História, a seguir à referida de Santa Maria de Iquique e a mais prolongada, mas também, a única que eu tenho vivido.

No entanto, houve a ditadura de O´Higgins, que de Directo Supremo da República, passou a formar uma nação, para o qual foi-lhe necessário exilar adversários, mandar fuzilar inimigos e outros factos que a memória não quer aceitar! Sempre foi pensado que o Chile era um país pacífico, mas passou por problemas institucionais na sua formação, que a memória não quer lembrar, mas que, no entanto, é o nosso dever relatar para explicar a queda de Allende.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (7)

(Continuação)

Era o que Allende e eu sabíamos. Ele, pelo seu intenso projecto de educar às massas; eu, por filho de uma classe que fala diferente, com muito espanhol em casa, a começar pela minha Senhora Mãe! E pelo meu Senhor Pai, que punia as minhas faltas de pronúncia denominadas Correctas ou de uso Habitual , apenas que não mencionava dentro de uma certa classe social. Quer Allende, quer eu, entendíamos ao povo, éramos parte do povo e não pretendíamos mudar a sua forma da “haular”. Não entanto, não era possível outra! Mesmo, hoje em dia, se já em criança perguntavam-me se era chileno e eu enfurecia, hoje em dia ao me chamarem Mister Gringo, após 40 anos fora da minha terra, aprendi com uma amiga que a minha pronuncia tinha tudo, excepto chilena: “Mi querido Raúl: ni tu cara, ni tu ropa, ni tu forma de hablar, dicen que seas chileno. !Tienes que aceptar que eres un extranjero en tu país!”.

Abençoada Amiga, quem me ajudara a suportar o que me parecia uma ofensa! E não era, era apenas realidade! Como o caso de Allende.
Pode-se comparar o caso, antes de avançar mais sobre a História de Allende e a sua luta pelas suas promessas, com o Morgadio Português. Embora a lei mande dividir a herança por igual entre todos os descendentes do proprietário morto, mas, como tenho referido em outros livros, era uso e costume organizar o Morgadio, abolido em Portugal por Mouzinho da Silveira a partir de 1834, como é referido quer por António Pedro Manique em 1989, e estudado por Míriam Halpern Pereira, especialmente por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian . É Mouzinho da Silveira quem semeia as bases da libertação de Portugal, importadas, anteriormente, por Sebastião de Cano e Melo, quem tinha casado com uma aristocrata da Alemanha, denominado Marques de Pombal no Século VVIII, desde a Alemanha.
Tornando ao relato do que o antigo ditador queria fazer, quer no Chile, quer nós desde o exílio, não podíamos aceitar a situação e colaboramos para impedir tamanha ofensa criminosa, fosse cometida feita mais uma vez! Podia não gostar do Aylwin do tempo de traição de lesa majestade, mas respeitávamos a quem tinha encabeçado a luta contra um governo traidor, criminoso e perseguidor, por todo ou por nada, de cidadãos inocentes de crimes, apenas por serem os seus opositores.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (6)

(Continuação)

Patrício Aylwin, um outro antigo contra a vida do Allende, esse que, no ano 1998 publicamente pedia perdão pelas suas estupidezes do passado , foi feito Doutor Honoris Causa da nossa Instituição Universitária, ISCTE, de Lisboa. Foi-me perguntado o que pensava eu sobre o facto, eu ripostei que não merecia tanto mérito, estava a governar um país traído também por ele a à maneira da ditadura. No entanto, assenti, porque ajudava ao Chile e pela delicadeza dos meus colegas ao me perguntar o meu pensamento, mas a cerimónia não assisti, excepto ao jantar, por se tratar de um amigo do meu Senhor Pai. Não fui capaz de me conter e disse ao Aylwin que pedir perdão não reparava o sofrimento de um povo, não ressuscitava aos mortos vítimas da ditadura, como também não ajudava a encontrar ou saber onde estavam, o prisioneiros desaparecidos, nem como não acabava com o nosso exílio.

domingo, 21 de novembro de 2010

Para Sempre, Tricinco ALLENDE E EU - autobiografia de Raúl Iturra - (5)

CAPÍTULO I


ALLENDE NAS MINHAS TERRAS


O meu Senhor Pai e eu, sempre tivemos o que eu denominaria alegrias no lar, não Alegrias do Lar , inevitáveis flores, que, pela estética que causam, gosto de cultivar. Ou, metaforicamente falando, até tínhamos Alegrias do Lar entre ele e eu, como entre todos nós, dentro e fora de casa. Era habitual sairmos de carro desde a nossa quinta ao pé do mar, aos Domingos, ir até a cidade a percorrer a estrada que limitava com o Oceano denominado Pacífico, esse permanente furacão sempre a entrar com as suas imensas vagas, nas nossas casas ou dentro da terra, ao longo da imensa costa desse o meu país chamado Chile.

Ou, como diz Isabel Allende, desse nosso País Inventado !E, inventado como era, inventávamos também terramotos e catástrofes ou acidentes à acontecer, aos que guiavam carros pela outra via da estrada do pé do mar. Éramos muitos, o carro era imenso, lá íamos os seis de nós, os pais e o meu cão. Mais vezes das necessárias, fazíamos sinais aos condutores de contramão para avisar que levavam um pneu furado, ou que as luzes estavam acesas nos tempos que não era obrigatório liga-las de dia, para advertir aos outros que nós também íamos pela via, como hoje se faz com as luzes dos faróis baixos. Ou, era imperdoável não parar num sítio de Concón e comer ou ostras, ameixas ou os eternos ouriços chilenos, de línguas muito impressionante pela sua largura e forte sabor a iodo, sabor que precisava de sumo de limão essa fruta tão consumida no Chile nas saladas, nos mariscos, até nas carnes assadas e guisados com arroz.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Por que teve Allende que correr tanto - por Raúl Iturra

                                                                                               
                                                                                                                                                                 Salvador Allende em 1970

resposta ao comentário de Luís Moreira….

Estes dias foram de debate em muitos sítios e páginas pessoais da internet. Foi um fim-de-semana de muitas lembranças e comemorações públicas e pessoais. Como é natural, as pessoais são de quem tem essas memórias íntimas. As públicas, para contestar, debater ou responder. Sinto-me no meio das duas. Não há memórias pessoais não vinculadas às memórias públicas. Se assim não fosse, não seríamos seres sociais, que, queiramos ou não, orientamos a vida pelas pautas da cultura, sendo cultura hábitos, costumes, idioma, comportamento adequado às circunstâncias, boa educação, simpatia, solidariedade, entre ajuda e outros hábitos que fazem de nós, pessoas. Habituamo-nos a uma forma de ser, comportamento que orienta as nossas vidas de uma forma quase inalterável, quer individualmente quer em grupo.