Adão Cruz
Pensei logo que era tolo quando não vi nenhum fio preso ao ouvido do gajo. Aqui há uns anos atrás, sempre que um tipo (ou tipa) falava sozinho na rua ou no café, era rotulado de tolo. Hoje em dia, com os auriculares do telemóvel, já não é assim. Sempre que topamos alguém a falar sozinho, olhamos logo para a orelha a ver se tem um fiozinho pendurado. Se tem não é tolo, se não tem é tolo.
O homem estava sentado numa mesa em frente à minha, no café Turista. Foi há questão de uma hora. Lia o jornal enquanto falava, gesticulava, ria e fazia comentários. Claro que eu olhei logo para as suas orelhas. Numa delas não tinha nada pendurado. Na outra, que eu via mal, porque o sujeito estava um pouco de esquina, também não parecia haver qualquer ligação. Pelo sim pelo não, como quem não quer a coisa, levantei-me para espreitar melhor a sua orelha direita e cheguei à conclusão de que era tolo.
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Como se fora um conto - O Sr. Adérito, engraxador
José Fernando Magalhães
Já lá vão muitos anos, mas as lembranças fluíam com rapidez.
Sentado à mesa de um café da baixa Portuense, olhei os meus sapatos e pensei em quanto me saberia bem que aquele café tivesse um engraxador. Apeteceu-me ter os sapatos limpos, escovados e a brilhar.
Se ao menos ainda houvesse engraxadores! Já há muito que os não via. Os últimos estavam naquela entrada de um prédio da rua Sampaio Bruno, quase em frente à Casa da Sorte. Havia também um ou dois, que paravam na Praça da Liberdade, quase na esquina da rua da 'engraxadoria'.
Antigamente, não havia café que não tivesse um, e havia trabalho para todos. Todo o homem que se prezasse gostava de ter os sapatos a brilhar. Hoje são raros, os engraxadores, já que sapatos a brilhar ainda os vai havendo, e homens que se prezem ainda há um ou outro.
.O sr Adérito era franzino, pequeno, de pele muito branca e sem barba. Homem dos seus quase cinquenta anos, não parecia ter mais de trinta.
Já lá vão muitos anos, mas as lembranças fluíam com rapidez.
Sentado à mesa de um café da baixa Portuense, olhei os meus sapatos e pensei em quanto me saberia bem que aquele café tivesse um engraxador. Apeteceu-me ter os sapatos limpos, escovados e a brilhar.
Se ao menos ainda houvesse engraxadores! Já há muito que os não via. Os últimos estavam naquela entrada de um prédio da rua Sampaio Bruno, quase em frente à Casa da Sorte. Havia também um ou dois, que paravam na Praça da Liberdade, quase na esquina da rua da 'engraxadoria'.
Antigamente, não havia café que não tivesse um, e havia trabalho para todos. Todo o homem que se prezasse gostava de ter os sapatos a brilhar. Hoje são raros, os engraxadores, já que sapatos a brilhar ainda os vai havendo, e homens que se prezem ainda há um ou outro.
.O sr Adérito era franzino, pequeno, de pele muito branca e sem barba. Homem dos seus quase cinquenta anos, não parecia ter mais de trinta.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Uma história antiga
Adão Cruz
A história é antiga. E a sua recordação foi-me trazida hoje à memória por uma outra, passada hoje mesmo comigo, um tanto ou quanto semelhante, mas menos interessante, algo incomodativa e até um pouco deprimente. Mas esta de hoje não a vou contar, pelo menos por agora. O café não é o mesmo, a época não é a mesma, a vida não é a mesma, as circunstâncias são diferentes e o objecto ou objectivo ou fim da história é diferente.
Foi há muitos anos, quando eu era estudante do segundo ano de medicina. Estava no velho Café Progresso a estudar, ainda me recordo, embriologia, a estúpida abordagem da embriologia de então, que nada tem a ver com as maravilhosas lições de Richard Dawkins. Estava sentado numa daquelas pequenas mesas quadradas, mesmo junto à porta que dava para a Travessa Sá Noronha.
Tinha pedido ao empregado um café e um brandy. Pouco tempo depois, um velhinho dos seus oitentas e tal, noventas, como não tinha lugar - as mesas estavam cheias de jogadores de damas e dominó – fez um gesto para se sentar na minha mesa, ao qual eu acedi com um discreto sorriso. Sentou-se, pôs a bengalita entre as pernas, cruzou as mãos e fitou os olhos lá para o fundo do café, talvez o seu único infinito.
Estava eu embrenhado na minha leitura, com o livro a uns quarenta e cinco graus em relação ao plano da mesa, portanto com um campo visual relativamente limitado, quando vejo a mão do velhote deslizar sorrateiramente pela mesa até ao meu cálice de brandy, fazer do dedo indicador uma espécie de gatilho, arrastá-lo suavemente até si, e, rapidamente, com notório trémulo, levá-lo à boca e sorver uma boa golada. Com o copo de novo em cima da mesa, iniciou delicadamente o trajecto inverso, fazendo-o deslizar suavemente e manhosamente até debaixo das costas do meu livro.
Procurei não olhar para ele, como é óbvio, pois de modo algum pretendia denunciar o seu gesto que me encheu de ternura. A vida tem coisas cuja dimensão de simplicidade, autenticidade e verdade é tão grande que as transforma em irradiantes e majestáticos fenómenos de coerência. Deitei, contudo, o rabo do olho para a sua cara e notei que a sua fisionomia denotava a satisfação de um golpe de mestre. Que bem me soube aquele brandy, mesmo sem lhe ter tocado!
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sábado, 24 de julho de 2010
Histórias do café - ou quando o empregado perfeito não serve o cliente
Pedro Godinho
Ao fim da tarde, terminado mais um dia de trabalho, sentava-se no café de eleição – a ler e a tomar notas para uma futura criação literária.
Escolhera aquele café, em particular, por ser suficientemente distante quer do emprego quer da residência, de modo a não correr o risco de se cruzar nem com colegas nem com vizinhos, e não ter de entabular conversa, prestar contas ou dar explicações sobre a sua vida e manias.
Como queria, ali era um simples desconhecido, que podia gozar a tranquilidade oferecida por essa qualidade.
Homem de hábitos, pedia invariavelmente um galão – de máquina, precisava – e dois pastéis de bacalhau.
Fazia pouco mais de três semanas que descobrira aquele café de bairro, que passara desde logo a frequentar.
- O costume, senhor? – perguntou-lhe solícito o empregado.
Tremeu-lhe o lábio. Era o fim. Tornara-se um habitual.
Seguir-se-iam os pequenos apartes, primeiro, a tentativa de meter conversa, em suma, o reconhecimento e familiaridade que temia.
Levantou-se e saiu, dirigindo ao empregado o primeiro e último ‘boa tarde’ de sempre. Estava na hora de procurar um novo café.
Ao fim da tarde, terminado mais um dia de trabalho, sentava-se no café de eleição – a ler e a tomar notas para uma futura criação literária.
Escolhera aquele café, em particular, por ser suficientemente distante quer do emprego quer da residência, de modo a não correr o risco de se cruzar nem com colegas nem com vizinhos, e não ter de entabular conversa, prestar contas ou dar explicações sobre a sua vida e manias.
Como queria, ali era um simples desconhecido, que podia gozar a tranquilidade oferecida por essa qualidade.
Homem de hábitos, pedia invariavelmente um galão – de máquina, precisava – e dois pastéis de bacalhau.
Fazia pouco mais de três semanas que descobrira aquele café de bairro, que passara desde logo a frequentar.
- O costume, senhor? – perguntou-lhe solícito o empregado.
Tremeu-lhe o lábio. Era o fim. Tornara-se um habitual.
Seguir-se-iam os pequenos apartes, primeiro, a tentativa de meter conversa, em suma, o reconhecimento e familiaridade que temia.
Levantou-se e saiu, dirigindo ao empregado o primeiro e último ‘boa tarde’ de sempre. Estava na hora de procurar um novo café.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010
Uma medalha para Macário Correia!

O Presidente da Câmara de Faro, zangou-se com uma minoria de funcionários abusadores que prolongam o tempo necessário para beber o café. Numa circular interna, avisou que quem abusar leva com uma falta injustificada, acabou o recreio após as 10 horas e de tarde não há bica.
Diz Macário Correia, que dos 1030 funcionários há uma minoria que não respeita o cidadão/contribuinte, que vê filas de pessoas à espera enquanto o funcionário está ausente no cafèzinho.
O delegado sindical já veio dizer que precisa de ouvir os funcionários sobre o que pensam das novas medidas e que quer saber se o Presidente da Câmara tem provas dos abusos.
Eu é que não aprendo, estava à espera que o sindicato apoia-se Macário, pois este está a defender a reputação da "grande maioria" dos funcionários e a pôr nos eixos os relapsos do costume, mas não, o que o sindicato quer é manter o recreio e os abusos, que defraudam o bom serviço que o cidadão espera da Câmara!
É, óbvio, que estas medidas têm que ser tomadas sem receios, todos as compreendem, é preciso haver uma prática de mérito e de disponibilidade, principalmente nos funcionários públicos que são pagos por nós todos e que, diga-se ,gozam de privilégios que a maioria dos trabalhadores não tem!
As crises tambem dão espaço à introdução de melhorias e não se percebe a posição dos sindicatos que deveriam pugnar pela dignificação dos seus representados.
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