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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa - 4

(Continuação)

Cena 4


Ódios e necessidades



(Reunião de senhoras a tomar chá)

Ciclorama laranja, camponeses trabalham em contra-luz)



Condessa de Ficalho (com um rosário) - Deus me perdoe, não posso mais com tanta miséria que se vê aí pelas ruas.

Condessa de Tarouca – É no que deu esta República: crimes, roubos e fome.

Berta Maia – Desculpem, minhas amigas. Porquê acusar sempre a República? A miséria vem de muito longe, das injustiças que a monarquia praticava.

Condessa de Ficalho– Minha querida Berta, sei que é difícil, mas pense um pouco. Quem fez Portugal? Quem conquistou? Quem derrotou hereges? Quem espalhou a fé e o império? Fomos nós.

Condessa de Tarouca – Não é natural que tanto esforço tenha compensação? Queria que distribuíssemos riquezas pelos labregos e pelos cobardes que não derramaram o sangue na faina heróica dos nossos antepassados? Coma! Coma!

Condessa de Ficalho– Onde é que já se viu isso? Queria que os filhos dispersassem a fortuna que os pais lhes deixavam?

Condessa de Tarouca – Que falta de sensatez, minha amiga.

Berta Maia – Deus diz-nos para olharmos para os pobres e infelizes, e para remediarmos as desigualdades deste mundo.

Condessa de Tarouca – e por isso nós fazemos estes chás de caridade.

Condessa de Ficalho– E o que fazem os republicanos, os bolcheviques, quando nós queremos ir por esse caminho?

O que fizeram ao Sidónio Pais que tinha criado a sopa para os pobres e que, abençoado por Deus, ia pelos hospitais confortar os doentes da pneumónica?

Abateram-no com um tiro, como se faz a um cão raivoso.

terça-feira, 13 de julho de 2010

República nos livros de ontem nos livros de hoje - 63 e 64 (José Brandão)

História da Primeira República Portuguesa

A. H. de Oliveira Marques

Iniciativas Editoriais/Figueirinhas, 1978

A presente História da 1.ª República Portuguesa conheceu muitas vicissitudes que explicam a demora na sua conclusão. Concebida como um trabalho de equipa, veio a ressentir-se da destruição dessa mesma equipa sem possibilidade de reconstituição. De facto, só os primeiros três capítulos resultaram do esforço conjunto do autor-coordenador e dos quatro colaboradores do grupo inicial (Irene Serpa, Arlindo Manuel Caldeira, José Mariz e Manuel Roque Azevedo), Os acasos da vida fizeram sair de Lisboa, e de Portugal mesmo, os três primeiros destes colaboradores, ficando apenas o último a investigar até ao fim.

Por volta de 1974 achava-se a investigação concluída, pelo menos nas suas linhas gerais. Mas logo veio o 25 de Abril, com suas consequências nas editoras e nas tipografias, atrasar a publicação normal dos fascículos.

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História da 1ª República
Carlos Ferrão

Terra Livre, 1976

A vigência da primeira República Portuguesa correspondeu ao período compreendido entre 5 de Outubro de 1910 e 28 de Maio de 1926, portanto quinze anos, sete meses e alguns dias. Este espaço de tempo foi perturbado por acontecimentos internos e externos de grande relevância, entre os quais avultou a intervenção de Portugal na primeira guerra mundial em que o País se envolveu para acautelar os seus interesses nas colónias e a sua própria sobrevivência. Os governos republicanos, que assumiram a responsabilidade da intervenção armada no conflito travado na Europa e em África, exigiram do povo português grandes sacrifícios feitos pela maioria da população e contestados por uma minoria que procurou explorar, em proveito das suas paixões e preferências partidárias, a crise que, sob diversas formas afectou a Nação.

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domingo, 11 de julho de 2010

Outra Constituição, outra Democracia, uma Terceira República - 54

Carlos Leça da Veiga

Uma outra Constituição Política (Continuação)


A instituição municipal, cuja intervenção constante está historicamente qualificada é uma organização milenar que deve ter todo o direito de opinar directamente e ao mais alto nível sobre os problemas mais graves do País e de poder fazê-lo no Congresso da República. De facto, há afirmações autorizadas que podem asseverar a importância histórica do Município como sejam a de Royer-Collerd com a sua preposição “O município, tal como a família, existiu antes do Estado; não foi a lei política que o constituiu, porque foi achá-lo formado”, a de Savigny “Se se analisam e decompõem os elementos orgânicos dum Estado, encontramos em toda a parte o município”, a de Alexandre Herculano que, na sua História de Portugal, deixou escrito “O municipalismo, esse princípio vivificador, essa pedra angular da república” e, também, datado de 1922, proferido por C.A da Costa Gomes, ex-Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, no Congresso Nacional Municipalista “a instituição municipal foi entre nós o principal factor: 1º da formação da nacionalidade, 2º da consolidação da pátria, 3º do enfraquecimento das classes privilegiadas, 4º da supremacia do poder civil, 5º das liberdades públicas, 6º do desenvolvimento da riqueza local e 7º das utilidades gerais”.


O Congresso da República terá uma legislatura com a duração de quatro sessões legislativas e cada qual, em termos ordinários, por conveniência da entrega, discussão e votação da Lei do Orçamento do Estado, funcionará por um período de tempo correspondente ao último trimestre do ano. O Congresso da República pode ser convocado pela Mesa da sua Presidência, por solicitação do Conselho da Presidência da República, por deliberação da Assembleia Legislativa, pela da Assembleia Judicial e, também, pelo Conselho Superior Municipal.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A República nos livros de ontem nos livros de hoje - 5 e 6 (José Brandão)


Após Monsanto (Através da Decomposição dos Partidos)

Eduardo de Sousa

Lisboa, 1921

É este um livro despretensioso que se lança a correr mundo, atendendo sobretudo à circunstancialidade do momento. Não visa ele, é certo, a resolver qualquer das gravíssimas questões que ao presente tanto preocupam o espírito nacional, como soem dizer em suas prosas sisudas os pensadores omniscientes ao serviço efectivo das gazetas conspícuas ou os fazedores de relatórios profundos que ninguém lê mas a que é de regra geralmente aludir-se com arqui-profunda e sagrada veneração. Nem mesmo, - qual do seu titulo poderia, porventura deduzir-se – mira ele, perfunctóriamente sequer, a historiar criticamente os sucessos políticos nacionais subsequentes ao dia histórico em que a irreprimível indignação e o ímpeto valoroso do poro de Lisboa fez tremular de novo na iminência de Monsanto o pendão da República, a bandeira nacional, abatida assim a da restauração monárquica que, por uma imprudente audácia, ali fora.
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… E Assim se Fez a República

José Estevam

Lisboa, 1951

No primeiro e segundo capitulo deste volume, resume-se o muito que escreveu João Nunes Esteves em História das revoluções portuguesas desde o ano de 1820, que ficou no primeiro tomo, onde declara que era estabelecido na Rua do Ouro e fora de um dos corpos da tropa.

Inocêncio Francisco da Silva, que enumera este escritor no tomo II do Dicionário Bibliográfico, conta que Esteves tinha uma tipografia na Rua dos Capelistas e a morte do filho, em 1838, lhe trouxera a «disposição ou tendências mono maníacas.

No ano de 1822, apareceu em Lisboa O Martelo Político, bissemanário impresso na oficina de João Nunes Esteves, sita na Rua dos Correeiros, n.º 144, periódico de prosa parecida com a do dito livro de Esteves.