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domingo, 19 de dezembro de 2010
Paulo Autran, Fernando Pessoa & Álvaro de Campos
Ouvimos, através da dicção perfeita de Paulo Autran, um poema de Álvaro de Campos - "Poema em linha recta". Quem foi Paulo Autran? Um dos maiores actores brasileiros de sempre, pois as suas magníficas interpretações eram sustentadas por uma inteligência elevada e por uma cultura invulgar.
Paulo Paquet Autran, nasceu no Rio de Janeiro em 7 de Setembro de 1922 e faleceu em São Paulo a 12 de Outubro de 2007) Teve inesquecíveis interpretações no teatro, no cinema e na televisão. A sua voz trouxe-nos directamente, em linha recta, este clarão da galáxia que se chama Fernando Pessoa.
De Fernando Pessoa não é necessário dizer nada
Vamos então ler o Poema em linha recta. E depois de o lermos, não fazia mal ouvir de novo o Paulo Autran. Lusofonia em estado puro e em movimento.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
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sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Fernando Pessoa, Aristóteles e Manuel Bandeira - Arte Poética
Vamos hoje começar a recordar a "Maratona Poética" que organizámos. Poemas e textos sobre a Arte Poética e belíssimos quadros do Adão Cruz. Começamos com um poema de Fernando Pessoa (sob o heterónimo de Bernardo Soares), superiormente dito pelo grande actor brasileiro Paulo Autran. Aristóteles e Manuel Bandeira completam um trio fascinante.
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Aristóteles
(Séc. IV a.C.)
ORIGEM DA POESIA
Parece haver, em geral, duas causas, e duas causas naturais, na génese da Poesia. Uma é que imitar é uma qualidade congénita nos homens, desde a infância (e nisso diferem dos outros animais, em serem os mais dados à imitação e em adquirirem, por meio dela, os seus primeiros conhecimentos); a outra, que todos apreciam as imitações.
Prova disto é o que se passa na realidade. Daquilo mesmo que vemos com desagrado, apreciamos contemplar a imagem muito exacta, como, por exemplo, as formas dos animais mais desprezíveis e dos cadáveres.
Outro motivo ainda é que aprender é muito agradável, não só aos filósofos, mas aos outros homens igualmente.Porém, curta é a parte que nela têm. Por isso se regozijam, ao verem as imagens, porque têm oportunidade de aprender enquanto observam, e de compreender o que cada uma representa, por exemplo, que este assim e assim é fulano. Se se der o caso de a não terem visto anteriormente, já não é a imitação que provoca o prazer, mas a execução, o colorido, ou qualquer outro motivo neste género.
Ora, como é natural em nós a imitação, a harmonia e o ritmo (pois é evidente que os metros são partes dos ritmos), de início, os que nasceram para isso, progredindo aos poucos, criaram a Poesia, a partir dos seus improvisos.
(“Poética”, 1448 b, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira).
Manuel Bandeira
(Recife 1886-Rio de Janeiro 1968)
POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação
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AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Aristóteles
(Séc. IV a.C.)
ORIGEM DA POESIA
Parece haver, em geral, duas causas, e duas causas naturais, na génese da Poesia. Uma é que imitar é uma qualidade congénita nos homens, desde a infância (e nisso diferem dos outros animais, em serem os mais dados à imitação e em adquirirem, por meio dela, os seus primeiros conhecimentos); a outra, que todos apreciam as imitações.
Prova disto é o que se passa na realidade. Daquilo mesmo que vemos com desagrado, apreciamos contemplar a imagem muito exacta, como, por exemplo, as formas dos animais mais desprezíveis e dos cadáveres.
Outro motivo ainda é que aprender é muito agradável, não só aos filósofos, mas aos outros homens igualmente.Porém, curta é a parte que nela têm. Por isso se regozijam, ao verem as imagens, porque têm oportunidade de aprender enquanto observam, e de compreender o que cada uma representa, por exemplo, que este assim e assim é fulano. Se se der o caso de a não terem visto anteriormente, já não é a imitação que provoca o prazer, mas a execução, o colorido, ou qualquer outro motivo neste género.
Ora, como é natural em nós a imitação, a harmonia e o ritmo (pois é evidente que os metros são partes dos ritmos), de início, os que nasceram para isso, progredindo aos poucos, criaram a Poesia, a partir dos seus improvisos.
(“Poética”, 1448 b, tradução de Maria Helena da Rocha Pereira).
Manuel Bandeira
(Recife 1886-Rio de Janeiro 1968)
POÉTICA
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010
sábado, 9 de outubro de 2010
Terreiro da Lusofonia:"A bailarina" de Cecília Meireles por Paulo Autran..
Paulo Autran, diz, como só ele sabia, "A Bailarina", poema da grande Cecília Meireles.
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Terreiro da Lusofonia: Fernando Pessoa, Paulo Autran e Maria Bethania
"O Mostrengo", da "Mensagem" e "O Poema do Menino Jesus" (Alberto Caeiro). Pessoa na voz de dois grandes artistas brasileiros - Paulo Autran e Maria Bethania.
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quarta-feira, 6 de outubro de 2010
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Piadas de português ou os nossos queridos irmãos brasileiros
Carlos Loures
No romance de Mario Vargas Llosa, La tía Júlia y el escribidor, há a personagem deliciosa de Pedro Camacho, criador de rádio novelas, que tem uma obsessão contra os argentinos que chega ao ponto, de o embaixador da Argentina no Peru (no romance, entenda-se) ter ido à estação de rádio pedir a interrupção dos folhetins. As referências maldosas de Camacho aos argentinos vêm sempre, porém. embrulhadas em elogios como, «os nossos queridos irmãos portenhos, cuja proclamada virilidade é um mito, pois como se sabe são maioritariamente homossexuais passivos» ou «os nossos queridos irmãos argentinos que, como sabemos, têm a antiga tradição de fazer as necessidades fisiológicas num balde, na mesma divisão em que comem e dormem»… Não sei se a frases são exactamente assim, citei de memória, pois apenas quis dar um exemplo dos envenenados “elogios”aos argentinos que a personagem vai debitando ao longo da história. Diga-se de passagem que o livro de Vargas Llosa deu lugar a um magnífico filme americano, realizado por Jon Amiel e interpretado pelo Peter Falk, o velho Columbo, pelo Keanu Reeves e pela Barbara Hershey – Tune in Tomorrow (1990). O livro é delicioso e o filme uma pérola. Falk representa o papel de Pedro Camacho e os argentinos são substituídos pelos albaneses.
Ora bem, quando digo, os «nossos queridos irmãos brasileiros» não é com a intenção de em seguida os denegrir. Apraz-me que haja actualmente em Portugal um fluxo de imigração brasileira. Acho que, tanto quanto possível e cada um de per si o mereça, os devemos tratar tão bem como tratamos os nossos compatriotas. Nunca esquecendo também os milhões de luso-descendentes que vivem no Brasil e que são brasileiros.
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terça-feira, 22 de junho de 2010
Fernando Pessoa, Paulo Autran e Álvaro de Campos descem ao Terreiro da Lusofonia
Ouvimos, através da dicção perfeita de Paulo Autran, um poema de Álvaro de Campos - "Poema em linha recta". Quem foi Paulo Autran? Um dos maiores actores brasileiros de sempre, pois as suas magníficas interpretações eram sustentadas por uma inteligência elevada e por uma cultura invulgar. Paulo Paquet Autran, nasceu no Rio de Janeiro em 7 de Setembro de 1922 e faleceu em São Paulo a 12 de Outubro de 2007) Teve inesquecíveis interpretações no teatro, no cinema e na televisão. A sua voz trouxe-nos directamente, em linha recta, este clarão da galáxia que se chama Fernando Pessoa.
De Fernando Pessoa não é necessário dizer nada
Vamos então ler o Poema em linha recta. E depois de o lermos, não fazia mal ouvir de novo o Paulo Autran. Lusofonia em estado puro e em movimento.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
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