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sábado, 9 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -22 (última parte)

ANEXO 1


O MISTERIO DA CAMIONETA FANTASMA

A BARRACA volta a debruçar-se sobre um tema da História de Portugal. Desta vez, da nossa História recente: os crimes da “Noite Sangrenta”.




O ENQUADRAMENTO HISTÓRICO

1. No dia 19 de Outubro de 1921,desabou sobre Portugal uma horrível tragédia desmistificadora dos nossos tão celebrados brandos costumes.

Sendo presidente António José de Almeida, o governo presidido por António Granjo, heróico Republicano reconhecido “ Homem Bom “ respeitado por correligionários e adversários políticos.

A insatisfação provocada por algumas medidas necessárias e não demagógicas, era sistematicamente acirrada pela oposição monárquica e integrista através de vários órgãos de imprensa de que é essencial destacar “A Voz”, e a “Imprensa da Manhã”, propriedade de Alfredo da Silva, antigo deputado da ditadura de João Franco, industrial do Barreiro, e que se referia ao jornal como sendo “a sua amante mais cara”.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -20 e 21

(Continuação)

Cena 20

Pesadelo e melancolia

(Musica e luz intermitente)

Berta Maia – Diz-me Dente de Ouro: quem te mandou matar o meu marido?

(esta fala é repetida por outras vozes a seguir a cada fala de BM ou de AO)


Abel Olímpio – Ninguém mandou. Desconfie a senhora daqueles que mais choram o seu marido.

Berta Maia – Tu hás-de falar. Tu falarás.

Abel Olímpio – Padre Lima, ... ia receber dinheiro ao jornal “A Época”...

Berta Maia – Eles vão-te matar. Não morras sem me dizeres a verdade.

Abel Olímpio – Minha senhora, a República não avança porque os monárquicos se introduzem nela e não deixam.

Berta Maia – Fala, Dente de Ouro... fala!

Abel Olímpio – Eu fui aliciado pelo Padre Lima, residente na Rua da Assunção, 56 – Direito.

Sou o cabo de artilharia da Armada, nº 2170, e estou a prestar declarações sem coacção, nem dádivas ou promessas, para efeitos de justiça e revisão do processo das vítimas de 19 de Outubro.

O Padre Lima dizia nas reuniões: “no próximo movimento revolucionário, depois de tudo organizado, como devia ser, lançavam-se no movimento para o empalmar, e donos da situação liquidavam-se os republicanos, em especial os do 5 de Outubro, e vingava-se a morte de el-rei D. Carlos”.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -19

(Continua)Cena 19

A impunidade

(Gastão Melo Matos com Barbosa Viana)


BV – Senhor Gastão Melo Matos , como sabe foi referenciado como implicado no 19 de Outubro...

GMM – Sim, Sr. agente Belém. Fui referenciado nesse caso e com muito prazer.

BV – Sr. Gastão, não me parece que o caso seja para dar muito prazer. Foram crimes horríveis que se praticaram e a partir das confissões do Dente de Ouro, a acusação dirige-se ao vosso campo, o monárquico.

GMM – Houve um julgamento, criminosos foram condenados, e se há denúncias contra outros, prendam-nos. Não percebo o que é que o Sr. agente pretende investigar...

BV – Eu quero investigar os motivos desses crimes, quem foram os instigadores... é a opinião pública que exige ser esclarecida.

GMM – Mas se é só isso, eu informo-o. É evidente que a nossa táctica consistia em empalmar o movimento revolucionário republicano. Nem podíamos fazer outra coisa, depois das nossas invasões monárquicas de 1911 e 1919 terem falhado, da morte do Sidónio, da derrota em Monsanto (ri) ... era o único caminho que nos restava, e como vocês passavam a vida a dar-nos oportunidades sempre com golpes uns contra os outros... (ri) ... acabou por ser fácil.

BV – Mas para isso, é preciso dinheiro...

GMM – Oh, senhor agente, dinheiro é coisa que não nos falta, graças a Deus. Para esses marujos foram 100 contos dados pelo conde de Tarouca e pelo Carlos Pereira da Companhia das Águas, o palerma do tenente Mergulhão deu a camioneta a troco de trezentos mil réis e houve mais dinheiro que funcionou para outra gente... e quando for preciso mais, arranja-se...

BV – O Sr. Gastão sabe que as suas declarações são graves...

GMM – O que é grave é se o Sr. as quiser utilizar. Não percebeu que o país mudou? Não percebeu que o 28 de Maio foi feito para pôr ordem – de uma vez por todas – neste desgraçado país? O 19 de Outubro foi feito, foi bem executado, foi julgado, o caso está arquivado e acabou. Nunca mais se falará nisso. Daqui por cem anos ainda hão de dizer que foram os Republicanos que fizeram estes crimes. (Riso cínico) A você e aos seus correligionários só resta deixar esses mortos em paz e sossego, e acautelar as vossas vidas.

Porte-se bem, que não lhe acontece nada. Se alguma vez tiver um problema, diga-me. Passe muito bem.

Barbosa Viana - (Sai) Sacana!

(Continua)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -16

(Continuação)



Cena 16

O golpe em marcha


(SLIDE ROTATIVA: Redacção “Imprensa da Manhã”)


Jorn. – está aqui o artigo, chefe.

Chefe – Muito bem, óptimo. É preciso publicar que o Machado dos Santos está riquíssimo, e que convinha saber onde arranjou o dinheiro. ( rasga o artigo)

Jorn. – Mas ele está rico?

Chefe - O que é que isso interessa? A gente tem de publicar isto, e mais nada. E poucas perguntas, faça favor.

Jorn. – mas eu não sei o que hei de escrever.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -15


(Continação)

Últimas ordens

Padre Lima e Dente de Ouro põem moedas em saquinhos

(Marinheiros com Padre Lima e Dente de Ouro. A imagem sugere a ceia de Cristo)

(Padre Lima prepara beberragem no garrafão que dá aos marinheiros)


Padre Lima – Bebei, meus irmãos, este é o elixir consagrado que vos dará forças e alegrias. A palavra de Deus irá entusiasmar-vos para poderdes conquistar um lugar imperecível na nossa luminosa história.

Vós sois os apóstolos da liberdade. Não queremos Judas entre nós. Sai Satanás !

(mostra o pergaminho). Quem lutar , será recompensado. Está aqui o compromisso de gente honesta.

sábado, 2 de outubro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -13

(Continuação)


Cena 13


Sonhos de amor

( Em gravação o fado da “Triste Feia”. Berta, em casa . É jovem e espera por Carlos Deita-se num sofá fingindo dormir .Jogo de sedução entre os dois.)

Berta – meu amor

Carlos – minha mulherzinha

Berta – estás feliz?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa - 5

(Continuação)

Cena 5

1ª reunião dos conspiradores

(Reunião de conspiradores monárquicos. Padre Lima, Gastão de Matos, Carlos Pereira, Abel Olímpio ,Rudolph, agente alemão)

Gastão de Matos – O nosso movimento está mais forte do que se julga.

Carlos Pereira – Mas eu não vejo os pequenos comerciantes e industriais a reagir, não vejo essa gente a lutar pela monarquia.

Gastão de Matos – Não lutam pelo Rei, mas calam-se se a gente ganhar. Para esses, basta dar-lhes umas encomendas de meia tijela e começam logo a dizer que somos os salvadores da Pátria! (Risos).

Carlos Pereira – não tenho a certeza disso.

Gastão de Matos – é porque anda distraído. Essa gente que veio da ralé tem ódio aos mais pobres porque eles lhes lembram o buraco de onde sairam. É por isso que se juntam a nós; invejam-nos, mas andam da mão estendida à procura da migalha. E também querem mais polícia para os defenderem dos que são mais pobres que eles!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A “crise” do Teatro

Hélder Costa*

Na muito desde sempre falada “crise” do Teatro, esquece-se frequentemente que a CRISE, qualquer crise, é sempre um ponto de ruptura de uma falsa estabilidade.

Crise pressupõe que se vai operar qualquer modificação no status quo.

Crise é, portanto, fonte de movimento e nunca de estagnação.

Claro que nestas coisas do Teatro como em qualquer situação da vida, há a posição passiva e a activa; ou seja, há os que reagem e ensaiam soluções, e há os que aceitam porque “afinal, a coisa não está tão mal”, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”, e outras frases chamadas de prudência e bom senso que nos têm conduzido a muitos becos sem saída.