ANEXO 1
O MISTERIO DA CAMIONETA FANTASMA
A BARRACA volta a debruçar-se sobre um tema da História de Portugal. Desta vez, da nossa História recente: os crimes da “Noite Sangrenta”.
O ENQUADRAMENTO HISTÓRICO
1. No dia 19 de Outubro de 1921,desabou sobre Portugal uma horrível tragédia desmistificadora dos nossos tão celebrados brandos costumes.
Sendo presidente António José de Almeida, o governo presidido por António Granjo, heróico Republicano reconhecido “ Homem Bom “ respeitado por correligionários e adversários políticos.
A insatisfação provocada por algumas medidas necessárias e não demagógicas, era sistematicamente acirrada pela oposição monárquica e integrista através de vários órgãos de imprensa de que é essencial destacar “A Voz”, e a “Imprensa da Manhã”, propriedade de Alfredo da Silva, antigo deputado da ditadura de João Franco, industrial do Barreiro, e que se referia ao jornal como sendo “a sua amante mais cara”.
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sábado, 9 de outubro de 2010
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -20 e 21
(Continuação)
Cena 20
Pesadelo e melancolia
(Musica e luz intermitente)
Berta Maia – Diz-me Dente de Ouro: quem te mandou matar o meu marido?
(esta fala é repetida por outras vozes a seguir a cada fala de BM ou de AO)
Abel Olímpio – Ninguém mandou. Desconfie a senhora daqueles que mais choram o seu marido.
Berta Maia – Tu hás-de falar. Tu falarás.
Abel Olímpio – Padre Lima, ... ia receber dinheiro ao jornal “A Época”...
Berta Maia – Eles vão-te matar. Não morras sem me dizeres a verdade.
Abel Olímpio – Minha senhora, a República não avança porque os monárquicos se introduzem nela e não deixam.
Berta Maia – Fala, Dente de Ouro... fala!
Abel Olímpio – Eu fui aliciado pelo Padre Lima, residente na Rua da Assunção, 56 – Direito.
Sou o cabo de artilharia da Armada, nº 2170, e estou a prestar declarações sem coacção, nem dádivas ou promessas, para efeitos de justiça e revisão do processo das vítimas de 19 de Outubro.
O Padre Lima dizia nas reuniões: “no próximo movimento revolucionário, depois de tudo organizado, como devia ser, lançavam-se no movimento para o empalmar, e donos da situação liquidavam-se os republicanos, em especial os do 5 de Outubro, e vingava-se a morte de el-rei D. Carlos”.
Cena 20
Pesadelo e melancolia
(Musica e luz intermitente)
Berta Maia – Diz-me Dente de Ouro: quem te mandou matar o meu marido?
(esta fala é repetida por outras vozes a seguir a cada fala de BM ou de AO)
Abel Olímpio – Ninguém mandou. Desconfie a senhora daqueles que mais choram o seu marido.
Berta Maia – Tu hás-de falar. Tu falarás.
Abel Olímpio – Padre Lima, ... ia receber dinheiro ao jornal “A Época”...
Berta Maia – Eles vão-te matar. Não morras sem me dizeres a verdade.
Abel Olímpio – Minha senhora, a República não avança porque os monárquicos se introduzem nela e não deixam.
Berta Maia – Fala, Dente de Ouro... fala!
Abel Olímpio – Eu fui aliciado pelo Padre Lima, residente na Rua da Assunção, 56 – Direito.
Sou o cabo de artilharia da Armada, nº 2170, e estou a prestar declarações sem coacção, nem dádivas ou promessas, para efeitos de justiça e revisão do processo das vítimas de 19 de Outubro.
O Padre Lima dizia nas reuniões: “no próximo movimento revolucionário, depois de tudo organizado, como devia ser, lançavam-se no movimento para o empalmar, e donos da situação liquidavam-se os republicanos, em especial os do 5 de Outubro, e vingava-se a morte de el-rei D. Carlos”.
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quinta-feira, 7 de outubro de 2010
O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -19
(Continua)Cena 19
A impunidade
BV – Senhor Gastão Melo Matos , como sabe foi referenciado como implicado no 19 de Outubro...
GMM – Sim, Sr. agente Belém. Fui referenciado nesse caso e com muito prazer.
GMM – Houve um julgamento, criminosos foram condenados, e se há denúncias contra outros, prendam-nos. Não percebo o que é que o Sr. agente pretende investigar...
BV – Eu quero investigar os motivos desses crimes, quem foram os instigadores... é a opinião pública que exige ser esclarecida.
GMM – Mas se é só isso, eu informo-o. É evidente que a nossa táctica consistia em empalmar o movimento revolucionário republicano. Nem podíamos fazer outra coisa, depois das nossas invasões monárquicas de 1911 e 1919 terem falhado, da morte do Sidónio, da derrota em Monsanto (ri) ... era o único caminho que nos restava, e como vocês passavam a vida a dar-nos oportunidades sempre com golpes uns contra os outros... (ri) ... acabou por ser fácil.
BV – Mas para isso, é preciso dinheiro...
GMM – Oh, senhor agente, dinheiro é coisa que não nos falta, graças a Deus. Para esses marujos foram 100 contos dados pelo conde de Tarouca e pelo Carlos Pereira da Companhia das Águas, o palerma do tenente Mergulhão deu a camioneta a troco de trezentos mil réis e houve mais dinheiro que funcionou para outra gente... e quando for preciso mais, arranja-se...
BV – O Sr. Gastão sabe que as suas declarações são graves...
GMM – O que é grave é se o Sr. as quiser utilizar. Não percebeu que o país mudou? Não percebeu que o 28 de Maio foi feito para pôr ordem – de uma vez por todas – neste desgraçado país? O 19 de Outubro foi feito, foi bem executado, foi julgado, o caso está arquivado e acabou. Nunca mais se falará nisso. Daqui por cem anos ainda hão de dizer que foram os Republicanos que fizeram estes crimes. (Riso cínico) A você e aos seus correligionários só resta deixar esses mortos em paz e sossego, e acautelar as vossas vidas.
Porte-se bem, que não lhe acontece nada. Se alguma vez tiver um problema, diga-me. Passe muito bem.
Barbosa Viana - (Sai) Sacana!
(Continua)
A impunidade
BV – Senhor Gastão Melo Matos , como sabe foi referenciado como implicado no 19 de Outubro...
GMM – Sim, Sr. agente Belém. Fui referenciado nesse caso e com muito prazer.
BV – Sr. Gastão, não me parece que o caso seja para dar muito prazer. Foram crimes horríveis que se praticaram e a partir das confissões do Dente de Ouro, a acusação dirige-se ao vosso campo, o monárquico.
GMM – Houve um julgamento, criminosos foram condenados, e se há denúncias contra outros, prendam-nos. Não percebo o que é que o Sr. agente pretende investigar...
BV – Eu quero investigar os motivos desses crimes, quem foram os instigadores... é a opinião pública que exige ser esclarecida.
GMM – Mas se é só isso, eu informo-o. É evidente que a nossa táctica consistia em empalmar o movimento revolucionário republicano. Nem podíamos fazer outra coisa, depois das nossas invasões monárquicas de 1911 e 1919 terem falhado, da morte do Sidónio, da derrota em Monsanto (ri) ... era o único caminho que nos restava, e como vocês passavam a vida a dar-nos oportunidades sempre com golpes uns contra os outros... (ri) ... acabou por ser fácil.
BV – Mas para isso, é preciso dinheiro...
GMM – Oh, senhor agente, dinheiro é coisa que não nos falta, graças a Deus. Para esses marujos foram 100 contos dados pelo conde de Tarouca e pelo Carlos Pereira da Companhia das Águas, o palerma do tenente Mergulhão deu a camioneta a troco de trezentos mil réis e houve mais dinheiro que funcionou para outra gente... e quando for preciso mais, arranja-se...
BV – O Sr. Gastão sabe que as suas declarações são graves...
GMM – O que é grave é se o Sr. as quiser utilizar. Não percebeu que o país mudou? Não percebeu que o 28 de Maio foi feito para pôr ordem – de uma vez por todas – neste desgraçado país? O 19 de Outubro foi feito, foi bem executado, foi julgado, o caso está arquivado e acabou. Nunca mais se falará nisso. Daqui por cem anos ainda hão de dizer que foram os Republicanos que fizeram estes crimes. (Riso cínico) A você e aos seus correligionários só resta deixar esses mortos em paz e sossego, e acautelar as vossas vidas.
Porte-se bem, que não lhe acontece nada. Se alguma vez tiver um problema, diga-me. Passe muito bem.
Barbosa Viana - (Sai) Sacana!
(Continua)
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terça-feira, 5 de outubro de 2010
O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -16
(Continuação)
Cena 16
O golpe em marcha
(SLIDE ROTATIVA: Redacção “Imprensa da Manhã”)
Jorn. – está aqui o artigo, chefe.
Chefe – Muito bem, óptimo. É preciso publicar que o Machado dos Santos está riquíssimo, e que convinha saber onde arranjou o dinheiro. ( rasga o artigo)
Jorn. – Mas ele está rico?
Chefe - O que é que isso interessa? A gente tem de publicar isto, e mais nada. E poucas perguntas, faça favor.
Jorn. – mas eu não sei o que hei de escrever.
Cena 16
O golpe em marcha
(SLIDE ROTATIVA: Redacção “Imprensa da Manhã”)
Jorn. – está aqui o artigo, chefe.
Chefe – Muito bem, óptimo. É preciso publicar que o Machado dos Santos está riquíssimo, e que convinha saber onde arranjou o dinheiro. ( rasga o artigo)
Jorn. – Mas ele está rico?
Chefe - O que é que isso interessa? A gente tem de publicar isto, e mais nada. E poucas perguntas, faça favor.
Jorn. – mas eu não sei o que hei de escrever.
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segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -15
(Continação)
Últimas ordens
Padre Lima e Dente de Ouro põem moedas em saquinhos
(Marinheiros com Padre Lima e Dente de Ouro. A imagem sugere a ceia de Cristo)
(Padre Lima prepara beberragem no garrafão que dá aos marinheiros)
Padre Lima – Bebei, meus irmãos, este é o elixir consagrado que vos dará forças e alegrias. A palavra de Deus irá entusiasmar-vos para poderdes conquistar um lugar imperecível na nossa luminosa história.
Vós sois os apóstolos da liberdade. Não queremos Judas entre nós. Sai Satanás !
(mostra o pergaminho). Quem lutar , será recompensado. Está aqui o compromisso de gente honesta.
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sábado, 2 de outubro de 2010
O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -13
(Continuação)
Cena 13
Sonhos de amor
( Em gravação o fado da “Triste Feia”. Berta, em casa . É jovem e espera por Carlos Deita-se num sofá fingindo dormir .Jogo de sedução entre os dois.)
Berta – meu amor
Carlos – minha mulherzinha
Berta – estás feliz?
Cena 13
Sonhos de amor
( Em gravação o fado da “Triste Feia”. Berta, em casa . É jovem e espera por Carlos Deita-se num sofá fingindo dormir .Jogo de sedução entre os dois.)
Berta – meu amor
Carlos – minha mulherzinha
Berta – estás feliz?
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sexta-feira, 24 de setembro de 2010
O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa - 5
(Continuação)
Cena 5
1ª reunião dos conspiradores
(Reunião de conspiradores monárquicos. Padre Lima, Gastão de Matos, Carlos Pereira, Abel Olímpio ,Rudolph, agente alemão)
Gastão de Matos – O nosso movimento está mais forte do que se julga.
Carlos Pereira – Mas eu não vejo os pequenos comerciantes e industriais a reagir, não vejo essa gente a lutar pela monarquia.
Gastão de Matos – Não lutam pelo Rei, mas calam-se se a gente ganhar. Para esses, basta dar-lhes umas encomendas de meia tijela e começam logo a dizer que somos os salvadores da Pátria! (Risos).
Carlos Pereira – não tenho a certeza disso.
Gastão de Matos – é porque anda distraído. Essa gente que veio da ralé tem ódio aos mais pobres porque eles lhes lembram o buraco de onde sairam. É por isso que se juntam a nós; invejam-nos, mas andam da mão estendida à procura da migalha. E também querem mais polícia para os defenderem dos que são mais pobres que eles!
Cena 5
1ª reunião dos conspiradores
(Reunião de conspiradores monárquicos. Padre Lima, Gastão de Matos, Carlos Pereira, Abel Olímpio ,Rudolph, agente alemão)
Gastão de Matos – O nosso movimento está mais forte do que se julga.
Carlos Pereira – Mas eu não vejo os pequenos comerciantes e industriais a reagir, não vejo essa gente a lutar pela monarquia.
Gastão de Matos – Não lutam pelo Rei, mas calam-se se a gente ganhar. Para esses, basta dar-lhes umas encomendas de meia tijela e começam logo a dizer que somos os salvadores da Pátria! (Risos).
Carlos Pereira – não tenho a certeza disso.
Gastão de Matos – é porque anda distraído. Essa gente que veio da ralé tem ódio aos mais pobres porque eles lhes lembram o buraco de onde sairam. É por isso que se juntam a nós; invejam-nos, mas andam da mão estendida à procura da migalha. E também querem mais polícia para os defenderem dos que são mais pobres que eles!
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quinta-feira, 2 de setembro de 2010
A “crise” do Teatro
Hélder Costa*
Na muito desde sempre falada “crise” do Teatro, esquece-se frequentemente que a CRISE, qualquer crise, é sempre um ponto de ruptura de uma falsa estabilidade.
Crise pressupõe que se vai operar qualquer modificação no status quo.
Crise é, portanto, fonte de movimento e nunca de estagnação.
Claro que nestas coisas do Teatro como em qualquer situação da vida, há a posição passiva e a activa; ou seja, há os que reagem e ensaiam soluções, e há os que aceitam porque “afinal, a coisa não está tão mal”, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”, e outras frases chamadas de prudência e bom senso que nos têm conduzido a muitos becos sem saída.
Na muito desde sempre falada “crise” do Teatro, esquece-se frequentemente que a CRISE, qualquer crise, é sempre um ponto de ruptura de uma falsa estabilidade.
Crise pressupõe que se vai operar qualquer modificação no status quo.
Crise é, portanto, fonte de movimento e nunca de estagnação.
Claro que nestas coisas do Teatro como em qualquer situação da vida, há a posição passiva e a activa; ou seja, há os que reagem e ensaiam soluções, e há os que aceitam porque “afinal, a coisa não está tão mal”, “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”, e outras frases chamadas de prudência e bom senso que nos têm conduzido a muitos becos sem saída.
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