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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


   Faltam dois dias  e alguns minutos para 
o Ano Novo. Para se irem preparando leiam este poema que nos foi enviado pela Augusta Clara e pelo Manuel Simões.

Receita de ano novo 
 


Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade
(1902 - 1987)


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
 

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
 

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
 




segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Carlos Drummond de Andrade vem ao Terreiro da Lusofonia

trazendo "O amor natural"


Manuel Simões e Carlos Loures



O grande poeta brasileiro (1902-1987) é por demais conhecido e a sua obra (lembremos apenas Sentimento do Mundo ou A Rosa do Povo) faz parte do património das literaturas de língua portuguesa. Há uma dimensão, porém, não muito frequentada pela crítica e que se refere a um volume de poesia, O Amor Natural, até pelo modo, quase clandestino, como foi publicado. Em Agosto de 1985, a um jornalista que lhe pedia notícias sobre o livro, Drummond respondeu-lhe que não tinha intenção de publicar os seus versos eróticos, receando que o leitor os considerasse pornográficos.

Na verdade, o volume já tinha sido publicado em 1981 numa edição reservada de apenas dois exemplares, um dos quais entregue ao escritor argentino Manuel Graña Etcheverry, crítico literário e genro do poeta. O outro exemplar foi submetido à apreciação de outros amigos e estudiosos, que o avaliaram com apreço, mas Drummond continuou a mantê-lo em silêncio.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Evento - Uma "redescoberta" da literatura africana no Brasil

Adelto Gonçalves (*)

I
A Editora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) colocou no mercado uma nova coleção, Poetas de Moçambique, em que apresenta antologias dos maiores poetas modernos de língua portuguesa e origem moçambicana. Segundo a editora, os autores escolhidos estabeleceram freqüentemente diálogo com a literatura brasileira, especialmente com as obras de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cecília Meireles (1901-1964), Vinicius de Moraes (1913-1980) e Manuel Bandeira (1886-1968). Os primeiros volumes são dedicados a José Craveirinha (1922-2003) e Rui Knopfli (1932-1997).

Craveirinha, primeiro autor africano galardoado com o Prêmio Camões, em 1991, é um dos nomes fundamentais da literatura moçambicana. Filho de pai algarvio e mãe ronga, é dono de uma obra concisa, que cobre cinco livros publicados em vida e duas coletâneas póstumas, além de dezenas de poemas espalhados em periódicos e antologias. Este livro reúne os principais poemas do autor com nota biobibliográfica de Emílio Maciel.

Já Rui Knopfli produziu uma encorpada e original obra literária durante o período colonial. Seus poemas selecionados estabelecem diálogo com as principais tradições clássicas e modernas da poesia. O livro traz posfácio com texto crítico e nota biobibliográfica de Roberto Said.

Ao mesmo tempo, a Ateliê Editorial, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (Fapesp), acaba de lançar Portanto... Pepetela, organizado por Rita Chaves e Tania Macêdo, professoras de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa da Universidade de São Paulo (USP). O angolano Pepetela, nascido Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, ganhador do Prêmio Camões de 1997, é talvez o mais importante romancista de seu país. Com apresentação do moçambicano Mia Couto, o livro reúne 38 artigos e ensaios de estudiosos da obra de Pepetela.

Nada mais alvissareiro do que essa "redescoberta" da literatura africana de expressão portuguesa. Mas desses três autores, apenas José Craveirinha é resultado da mistura do sangue português com africano. O que se espera é que esse interesse não se restrinja apenas a autores lusodescendentes, mas seja aberto a todos os africanos que fazem literatura em Língua Portuguesa.

II
Nada contra Pepetela, Agualusa, Mia Couto ou Luandino Vieira, nomes hoje incontestáveis no panorama da literatura africana de expressão portuguesa. O que se estranha é por que só descendentes de portugueses que nasceram em terras africanas têm largo espaço nos veículos de comunicação de Portugal e nas universidades de Portugal e do Brasil.

Basta ver que o livro Portanto... Pepetela traz, ao final, uma lista de 56 teses de doutorado e dissertações de mestrado defendidas em universidades brasileiras sobre a obra de Pepetela. Um exagero, evidentemente, porque há muitos outros autores africanos de expressão portuguesa que poderiam ser estudados. E não o são. Não se quer acreditar que seja por racismo, pois o que se espera é que esse tipo de comportamento seja algo já superado, sem razão de existir neste começo de século XXI.

Talvez seja ainda a "saudade do império colonial perdido", como disse Patrick Chabal, professor de Estudos Africanos do King?s College, de Londres, para se citar aqui um nome isento destas questiúnculas lusófonas, que impeça os acadêmicos e editores portugueses de enxergar que a lusofonia é uma falácia - que não vai chegar a lugar nenhum - enquanto eles não aceitarem a verdadeira dimensão da língua portuguesa para além da Europa.

Em outras palavras: Pepetela, Agualusa, Mia Couto e Luandino Vieira fazem parte da última geração de lusodescendentes que, nascidos na África, praticam uma literatura com vivência africana. Dentro de 20 ou 30 anos, quando provavelmente já não estiverem mais neste mundo, quem irá representar a Literatura Africana de expressão portuguesa senão os autóctones ou um ou outro miscigenado?

Portanto, o futuro da Língua Portuguesa na África vai depender dos naturais desses países por onde os portugueses criaram raízes - e também daquelas regiões que, hoje, sofrem com a opressão de vizinhos que não falam português. É o caso da Casamansa, província do Sul do Senegal, que ainda aspira livrar-se da opressão de Dakar para se tornar um país independente e membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Será que em Casamansa não há um único poeta ou escritor que escreva em português? Ou somos nós que não queremos vê-los?



Como diz o escritor moçambicano João Craveirinha, por mais que se assumam "lusófonos", os escritores de tez escura serão sempre os "outros", os outsiders, os ex-colonizados. Entre esses, além de João Craveirinha, pode-se citar de uma enfiada Paulina Chiziane, Ungulani ba Ka Kossa, Nelson Saúte, Noémia de Sousa, Kalungano, Luís Bernardo Honwana e Suleimane Cassamo, de Moçambique; Adriano Mixinge, João Melo, Ondjaki, Victor Kajibanga, Uanhenga Xitu, Ana Paula Tavares, Luís Kandjimbo, de Angola; José Luís Hopffer Almada e Germano Almeida, de Cabo Verde; Abdulai Sila, Hélder Proença (?-2009) e Odete Semedo, da Guiné-Bissau; Alda do Espírito Santo e Tomás Medeiros, de São Tomé Príncipe. E muitos outros.

O que é preciso dizer - e quase ninguém o faz - é que persistir nessa visão preconceituosa é um erro, que equivale a dar um tiro no próprio pé, pois recusar-se a reconhecer que o futuro da Língua Portuguesa na África depende dos naturais daqueles países é condená-la ao desaparecimento. E olhem que quem escreve isto é um brasileiro de primeira geração, de pai português de Paços de Ferreira, Norte de Portugal, e de avós maternos açorianos.

III
Embora o desconhecimento no Brasil acerca dos assuntos africanos seja abissal, não se pode deixar de reconhecer que foi graças aos literatos brasileiros que a Língua Portuguesa continuou viva nas décadas de 1950, 60 e 70 na África de expressão portuguesa, especialmente entre aquela camada mais culta, que gostava de ler Jorge Amado (1912-2001), Érico Veríssimo (1905-1975), Guimarães Rosa (1908-1967) e outros tantos.
Rui Knopfli mesmo é um poeta fortemente influenciado pela literatura brasileira, além de suas grandes ligações com a poesia portuguesa moderna. De africano, só carrega o fato de ter nascido em Inhambane. Trata-se de um fino poeta, cuja poesia está entre o que de melhor se escreveu em Língua Portuguesa no século XX, mas que, ao contrário de Pepetela que permaneceu em Angola e lutou contra o colonialismo, deixou Moçambique tão logo o país se separou de Portugal. Jamais se assumiu "moçambicano" no anterior e muito menos no atual contexto africano e sociopolítico do pós-independência. Assumiu-se, sim, como um português de Moçambique agastado com os "pretos" da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) que queriam ser iguais aos "brancos".

A visão que Knopfli tinha da África era eurocêntrica, de um colono que pertencia a uma elite colonial intelectual que, provavelmente, sonhava com um Moçambique semelhante à Rodésia ou à África do Sul sem apartheid, mas com os chamados "brancos" a mandar nos "pretos", ou seja, "cada macaco no seu galho", para se repetir aqui uma expressão politicamente nada correta que se ouve ainda neste Brasil de racismo disfarçado. A lusitanidade européia de Knopfli sempre falou mais alto.

Quem conhece a vida moçambicana pré-independência sabe muito bem que Knopfli atacara a arte banta do escultor Alberto Chissano e do pintor Malangatana em termos depreciativos, como a dizer que eles nunca poderiam ascender a artistas plenos em razão de sua origem "primitiva", tal como os "bons selvagens" de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que seriam congenitamente limitados. Isto está na Revista Tempo, de Lourenço Marques (hoje Maputo), dos anos 1970-1971. Quem duvidar que consulte na Biblioteca Nacional de Lisboa a coleção da revista. Mas é claro que isto ninguém gosta de lembrar.

Como se sabe, na África os conceitos não são os mesmos vigentes no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa em relação ao ser e estar africano. Até porque na África os "nativos" não foram exterminados como os ameríndios nas Américas. E, como continuam a sê-lo no Brasil em pleno século XXI. Para se ter um exemplo desse holocausto, basta ver que os traços indígenas hoje são pouco perceptíveis no brasileiro médio, exceto talvez no homem do Centro-Oeste e do Amazonas, ao contrário do que se pode constatar no Chile, no Paraguai, na Bolívia, no Equador e até na antigamente tão conservadora Argentina. Basta ver o que fazem, nos dias de hoje, certos fazendeiros e seus capangas com os caiowás, em Mato Grosso do Sul, sem que as autoridades tomem qualquer providência mais efetiva.

Na África, os autóctones continuam a ser maioria esmagadora e isso tem um peso enorme na consciência dos africanos, mesmo em meio a crises econômicas. Até mesmo porque eles estavam num estágio de desenvolvimento superior ao dos indígenas americanos, o que obrigou a chamada colonização portuguesa a restringir-se a vilas e destacamentos litorâneos. Até mesmo para "atravessar" o comércio da escravatura, os portugueses dependiam de nações africanas que traziam subjugados seus inimigos para comercializá-los nas praias. Com isso, a ocupação européia, de um modo geral, nunca conseguiu apagar no homem africano o grande sentimento de pertença ao legado banto.

Como tudo isso são águas e ressentimentos passados, o que importa hoje é preservar a Língua de Camões também na África. E essa preservação passa por um apoio mais decisivo em favor da divulgação e estudo da literatura de expressão portuguesa que é hoje praticada por africanos de todos os matizes de pele, indistintamente.
_______________________

PORTANTO... PEPETELA, de Rita Chaves e Tania Macêdo (organizadoras). São Paulo: Ateliê Editorial/Fapesp, 2009, 389 págs., R$ 47,00.
ANTOLOGIA POÉTICA, de José Craveirinha. Organizadora: Ana Mafalda Leite. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 198 págs., R$ 38,00.
ANTOLOGIA POÉTICA, de Rui Knopfli. Organizador: Eugénio Lisboa. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010, 206 págs., R$ 38,00.
__________________________

(*)Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Réplica à carta aberta de Carlos Loures sempre sobre a Carta de Caminha

Sílvio Castro 
                                                                                
Prezado amigo Carlos Loures, agora sim começo a reconhecer a tua habitual fala, feita de ponderações; apoiada em convincente e jamais deslocada erudição; expressiva demonstração de moderna mentalidade literária. Mas, infelizmente, (me parece...) nem tudo ainda é ouro!...

Quando falo de lugar comum na tua primeira intervenção não transcuro a certeza que todo o conceito de lugar comum pode se transformar em metáfora redentora e de clara força criativa. Como é próprio de um escritor moderno, como sabes ser, tanto em prosa, quanto em poesia. No mesmo sentido considero determinados adjetivos. Sabemos que em geral o adjetivo tem a consistência passageira próprio do leve tempo de uma rosa, a não ser que esta mesma rosa não seja um “nome” e de consequência o adjetivo não possua a consistente força nominal. Assim está para os meus citados “aberrantes”, “anacronísticos”.
A historiografia literária não é uma ciência exata, certo, mas funciona cientificamente na melhor direção da posse de consciência cultural por parte de um povo.
O Brasil existe enquanto complexa realidade desde 1512, quando o cartógrafo veneziano Marini realiza o seu mapa-mundo e dá às novas terras que Caminha já revelara o nome “Brasil” (o mapa original de Marini encontra-se atualmente no Museu do Itamaraty, Rio de Janeiro).
Quando o luso-brasileiro Duarte Coelho, titular da grande Capitania de Pernambuco, escreve ao Rei de Portugal despertando-o para a realidade brasileira, já então ele sabia que o Brasil existia. E que todo o resto era uma fugaz, ainda que dolorosa, situação política, não somente para os brasileiros, como ele, mas igualmente para os portugueses, como ele.
A Carta de Caminha, o primeiro Evento da literatura brasileira, já exprime tudo isso. Esta é a razão pela qual o estudioso paulista Leonardo Arroyo, na sua edição do texto do grande Escrivão, afirmava:

“Mais do que um documento histórico essa Carta de Pero Vaz de Caminha é uma profecia e um instrumento de fé. Por isso deve andar nas mãos do povo“.

A minha posição metodológica quanto à história da literatura brasileira, caríssimo Carlos, não é patriotismo, mas a certeza da força de todos esses valores históricos. Por isso, não duvido que Tomás Antônio Gonzaga seja um poeta brasileiro; bem como não meteria jamais em dúvidas que Gonçalves Crespo pertence à literatura portuguesa.

Eu, para concluir, meu caro amigo, sou tão patriota que de pátrias tenho três, como traduzo num dos meus poemas de Gira Mu(o)ndo (Ed. Galo Branco, RJ, 2007):

Unidade terciária


                                   1.
                                   Não me chamo Raimundo
                                   Raimondo
                                   nem Edmundo;
                                   como certa unidade
                                   fora de qualquer idade
                                   por 1 terço
                                   sou brasileiro,
                                   português por um outro,
                                   italiano na comple
                                   mentaridade.
                                   Os meus 3 terços me levam
                                   a fora
                                   em busca
                                   do sentimento do mundo.

                                   2.
                                   O brasileiro encontra o seu mundo
                                   inteiro e terciário
                                   num constante frêmito vital;
                                   tudo lhe parece inédito
                                   ainda que saiba
                                   que muita descoberta
                                   é um édito
                                   repetidamente lido.

                                   3.
                                   Mar e terra a vista
                                   a bordo da nave insone
                                   conduz no sentimento
                                   do mundo
                                   o ondoso terço
                                   português;
                                   ele sabe que o infinito
                                   está atrás do olhar
                                   que descobre  com naufrágios
                                   a certeza de finisterra.

                                   4.
                                   O terço de italiano é ele
                                   e os dois distinto outros:
                                   viaja no mundo
                                   ainda quando não
                                   sai de Veneza Gênoa Florença
                                   Milão –
                                   nelas encontra horizontes
                                   pintados de azuis amarelos vermelhos
                                   tintoretos
                                    visíveis até mesmo onde
                                   ainda não chegou.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Evento da Literatura Brasileira - A propósito da polémica entre Sílvio Castro e Carlos Loures

Manuel Simões

Por circunstâncias várias, um escritor pode pertencer a duas literaturas, sendo, por vezes, até difícil determinar a qual está mais directamente ligado. O método para essa determinação costuma ter em conta três factores: a nacionalidade, a língua que veiculou a escrita e o tema privilegiado no acto de criação literária. É por isso que Gil Vicente e Francisco Manuel de Melo, por exemplo, constam dos manuaiis de literatura espanhola, porque ambos escreveram em castelhano, mas confesso que a primeira vez que constatei esse facto, tido como incontroverso, a minha perplexidade foi espontânea, como se a literatura espanhola se quisesse “apoderar” de dois autores portugueses. Não já pela língua, como é óbvio, mas pelos temas e aspectos culturais específicos, o Padre António Vieira (Lisboa, 1608-Bahia, 1697) é simultaneamente um escritor português e brasileiro: percebe-se nos escritos do jesuíta uma afinidade com as coisas e os seres brasileiros ao ponto de ele próprio se considerar “mazombo”, isto é, filho do Brasil mas de pais europeus (neste caso, portugueses).
Ora é por estas razões que não me repugna aceitar, seguindo até a historiografia literária, a “Carta” de Pero Vaz de Caminha não só como o acto de nascimento do Brasil – não obstante lhe tenha chamado “Terra de Vera Cruz “ – mas como o primeiro documento e monumento da literatura brasileira, porque nela confluem todos os temas que os escritores brasileiros usarão como traços distintivos: o mito do bom selvagem, a literatura indianista que se lhe seguiu, a feminilidade inocente e sedutora, mais tarde largamente recuperada e ressemantizada por muitos poetas e prosadores.
Isto não invalida a aceitação de que o primeiro e verdadeiro literato do Brasil colónia  tenha sido o Padre José de Anchieta, nascido em Tenerife (Canárias), chegado ao Brasil em 1553, co-fundador de S. Paulo, gramático da língua tupi, poeta lírico e dramaturgo segundo o modelo de Gil Vicente, através de autos que utilizou com a finalidade de converter os índios ao cristianismo.
Julgo por isso radical a argumentação de Carlos Loures, segundo a qual “antes de haver estado brasileiro não existe literatura brasileira”. E lembro os casos, entre outros, de Ambrósio Fernandes Leitão, funcionário da Coroa no Brasil, com os seus “Diálogos das Grandezas do Brasil”, de Cláudio Manuel da Costa ou de Gregório de Matos, mestiço, filho de pai português e de mãe bahiana. Tomás António Gonzaga (1744-1810), que viveu entre Portugal e o Brasil, pertence, por direito, quanto a mim, às duas literaturas. E algumas vezes se fez a ponte entre as duas culturas, como no caso do mulato Domingos CaldasBarbosa (1740-1800) qu difunde em Lisboa as ternas “modinhas”, talvez ligadas  às origens do fado.
Carlos Loures tem razão quando se refere aos casos de Angola, Moçambique ou Cabo Verde, Devo lembrar, todavia, que por muitos anos, mesmo depois da independência, as literaturas destes países foram designadas genericamente por “Literaturas africanas de expressão portuguesa”, “Literaturas africanas de língua oficial portuguesa” ou até “Literaturas africanas lusófonas”, não ousando a crítica conceder-lhes a “carta de alforria”. Manuel Ferreira, a quem devemos os fundamentos destas literaturas, ainda em 1986 lhes atribuía o título genérico, dividindo internamente o seu trabalho pelos vários países mas sem conceder autonomia às novas literaturas.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Carta aberta ao Professor Sílvio Castro

Carlos Loures


Sílvio Castro, meu prezadíssimo amigo, retribuo com os devidos juros os elogios que me fazes e que antecedem a tua patriótica indignação – considero-te um grande escritor, um probo intelectual e sei que és um excelso professor. Nada do que digo a seguir deve ser interpretado de outra forma que não seja a de prosseguir um diálogo entre amigos que divergem num pormenor, mas que sabem que estão de acordo em muitas coisas importantes. Conhecemo-nos há muitos anos e as nossas relações, as profissionais e as de amizade, sempre se pautaram por uma grande frontalidade. Não vamos abrir excepções.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Porque não estou de acordo com Carlos Loures no seu texto: “Evento da Literatura Brasileira ‘ qual o momento chave?”

Sílvio Castro

Estou em total desacordo com o meu caríssimo amigo Carlos Loures, do qual conheço desde há muito o empenho cultural e a consciência civil de um verdadeiro progressista, a grande erudição, a sensibilidade na criação literária. Mas, mesmo assim, não posso deixar passar despercebida a tomada de posição que ele erege com a sua conhecida sensibilidade e tato, quando elabora os raciocínios básicos da contestação ao meu texto sobre A Carta de Pero Vaz de Caminha como Evento primeiro e substancial na história da literatura brasileira.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Evento da Literatura Brasileira – qual o momento-chave?

Carlos Loures

O Professor Sílvio Castro, nosso colaborador, autor deste repto, meu querido amigo e grande especialista na LIteratura Brasileira (e na Portuguesa), afirma que o primeiro evento da literatura do seu país é a Carta de Pero Vaz de Caminha para D. Manuel I. Não concordo, mas sinto-me um pouco como quem estivesse junto de Einstein a contestar a sua Teoria da Relatividade. A idade entre as muitas coisas más que acarreta, trouxe consigo este descaramento de poder discutir Medicina com os médicos, Jardinagem com os jardineiros e, como agora acontece, História da Literatura Brasileira com um Professor Catedrático da Universidade de Pádua.

Que Santo António de Lisboa (e de Pádua) nos valha!

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Evento da Literatura Brasileira - A Carta de Pero Vaz de Caminha sobre a Descoberta do Brasil

Sílvio Castro


O documento evidentemente real, a Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita de 22 de abril a 1º de maio de 1500, enviada logo no dia seguinte a Lisboa, ao destinatário venturoso, D. Manuel, mais que um documento é um marco crucial para duas realidades ainda virtuais, a cultura e a literatura do Brasil, que imediatamente depois e a partir do evento fazem-se reais.

Ainda que saída do silêncio dos Arquivos da Torre do Tombo ao primeiro conhecimento das gentes somente no final do século XVIII, confinada que fora pela rigorosa regra do “segredo”, própria da política diplomática da Monarquia portuguesa das grandes descobertas; ainda que publicada pela primeira vez somente em 1817 pelo Pe. Manuel Aires do Casal na sua Corografia Brazílica ou Relação Histórico-Geográfica do Brasil, pela Imprensa Régia, Rio de Janeiro, a quase mágica Carta desde a sua chegada a Lisboa com a nave de Gaspar de Lemos, de retorno do Novo Mundo descoberto, passa a circular, divulgando as maravilhas que somente a partir de então o mundo começaria a conhecer. Assim acontece com a remessa das cartas de D. Manuel aos seus primos, os Soberanos de Castela, e ao Papa romano, mas igualmente através das revelações de uma outra grande potência diplomática, a veneziana, que quase tudo sabia e tudo revelava. As primeiras criações da linguagem literária brasileira, presentes na obra-prima do humanista Caminha, criações tradutoras de novas cores, luzes, perfumes, humanidade, começam assim a correr mundo.



A revelação do Brasil pela Carta de Caminha cria todo um roteiro de magia para a nova terra. As palavras do escrivão português, as primeiras palavras da literatura brasileira, revelam como que um futuro incondicional para a realidade brasileira que principia o seu percurso de realidade. A terra é cheia de graça e a consciência naturalista nasce a partir do gozo de seus ares e águas. É uma visão do paraíso, onde não importa se em verdade exista ouro ou prata ou pedras preciosas. Já a felicidade simples dos sentidos esclarece aos homens que o paraíso existe. E que nele tudo será possível.

“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até
outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte léguas por costa. A terra é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa.
A terra em si é de muitos bons ares, assim frios e temperados como os de Entre-Douro e Minho (...) As águas são muitas e infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, tudo dará nela, por causa das águas que tem
...................

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, muito novas e muito gentis, com cabelos muito pretos e compridos, caídos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.“

O evento do texto de Caminha nos guiou na elaboração de um inédita metodologia para a historiografia literária brasileira e com ela definimos um método que coloca o início da literatura nacional do Brasil com o advento do grande marco perovaziano, coincidindo assim cronologicamente a história literária com a história sócio-política (S. Castro et alii, História da Literatura Brasileira, 3 vv., Lisboa, 2000).

domingo, 7 de novembro de 2010

Evento - um jogo muito sério

O nosso colaborador Sílvio Castro que, aqui nos lançou o repto de revelarmos quais os dez livros do Século XX que mais nos tinham impressionado, lança-nos um outro desafio – Evento. Diz. «Trata-se de um jogo, sério, muito sério, que os amigos do Estrolabio de todos os Países de Expressão Portuguesa poderão enviar, exaltando um evento de uma das Literaturas dos 9 Países de Expressão Portuguesa. O conceito de evento é o mais amplo possível: pode referir-se a uma data, a uma obra, a um episódio, a um movimento etc, etc.»


E, dando o exemplo, envia-nos já três textos - um relacionado com a literatura brasileira, outro com a portuguesa, um terceiro com a angolana. Publicamos já amanhã o que se refere á literatura brasileira.


Portanto, a ideia é – colaboradores e leitores mandarem-nos textos que exaltem um evento relativo a uma das nove literaturas de língua portuguesa. Pode repetir-se literaturas já referidas. Por exemplo, quem entender que o evento mais relevante para a literatura brasileira não foi o apontado por Sílvio Castro, deve fazer um texto sobre o «seu» evento.

domingo, 24 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 13 - por Sílvio Castr

(Continuação)

Lenda de adugo, o jaguar


Num dia quente de grande sol, Tainá me disse sabe? para mim você é adugo.



Tinha uma vez no tempo mais antigo dos tempos um índio que caminhava na floresta na procura de uma boa gameleira. Queria tirar muito leite dela para com ele amolecer o urucu que lhe serviria para as festas que suas gentes faziam naqueles dias. Ele caminhava e sonhava as cores mais belas para enfeitar-se. Estava finalmente recolhendo o leite da gameleira quando foi atacado por uma onça enorme. Grande e longa foi a luta entre eles, por todo o dia, desde as primeiras luzes do amanhecer até aquele momento em que o sol começa a cair por detrás dos montes e colinas. O guerreiro se sentia já sem forças e então disse adugo, adugo, deixa-me livre, já não posso mais. Está bem, te deixo livre, mas deves prometer que me darás tua filha por mulher. O guerreiro exausto e vencido prometeu assim fazer. Tendo recebido a promessa, adugo disse ao futuro sogro deves dizer a tua filha que moro nesta floresta, mas muito longe, na última caverna. Quando ela para lá for, primeiro vai encontrar o buraco da irara, preta ao longo do corpo, mas branca no peito, e de focinho cinzento; logo depois será a vez do gato do mato, aimeareu, de listas pretas transversais; depois dele, ela vai se embater na jaguaterica, de pele manchada de escuro; estará quase chegando à última caverna, onde eu moro, mas antes encontrará aigo, a onça parda e muitos mais.

sábado, 23 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 12 - por Sílvio Castr

(Continuação)

Tainá II

Coaracy foi e tem sido o meu grande mestre no conhecimento da língua. Porém, desejo que Vossa Senhoria que me escuta com tanta atenção saiba que Tainá foi quem me fez sentir como participante vivo com a nova voz que desde então me quero dar. Não sei bem como explicar o que digo, mas vou tentar.


Desde aquele dia mágico em que eu me uni diretamente com Tainá nas águas frias do nosso rio, ela passou a ser para mim fonte de revelações. Naquele encontro, como já contei, de certa maneira superei com ela as angústias sobre o meu corpo e o dos outros. Vendo-a e a tomando para mim, compreendi o que antes não sabia sobre o corpo da mulher. Repito ainda uma vez a Vossa Senhoria que aqueles momentos foram como encontrar-me comigo mesmo, com alguém que eu sabia existir, mas não identificava.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 11 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Antônio Fragoso I



Vossa Senhoria,


é muito difícil falar de Antônio Fragoso, pois não consegui jamais saber o que se passava com ele, quais eram os seus pensamentos. A única verdade é que ele não queria viver conosco, já que vivia como se odiasse o mundo inteiro. Antônio Fragoso, agora que tudo acabou e já nada pode ser feito por ele, sempre viveu fechado em si mesmo. Por isso, seu rosto era de uma dureza que não se entendia e seus olhos pareciam sempre acesos. Se o demônio alguma vez conseguiu possuir um homem, ele tomara conta de Antônio Fragoso.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 10 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Tainá I


Como Vossa Senhoria já deve ter podido observar, a gente daqui a cada momento entra nos rios ou no mar para banhar-se. Não só os jovens, mas também os velhos e principalmente as crianças.

Tomar banhos, além de ser sempre festa, parece ser também a maneira que têm para manter a pele continuadamente fresca e bela. Os banhos fazem com que todos fiquem mais coloridos e se estão pintados, como muitas vezes acontece com homens e mulheres, ficam mais belos ainda nas várias cores que usam. O vermelho que se distingue do bronzeado natural deles se mostra então vermelho rutilante. O violeta usado pelas mulheres jovens toma matizes que parecem muitas cores numa só. E o preto que os homens gostam muito de aproximar ao vermelho se faz talvez a mais bela cor que exista. Crianças, homens e mulheres passam horas e horas a nadar em meio aos cantos dos pássaros e ao calor do sol.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 9 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Coaracy VI



Um dia contei a Coaracy que eu tivera um sonho que me apavorava e que não conseguia esquecer. Eu sonhara que caminhava sozinho pela floresta que era aquela nossa e ao mesmo tempo era uma outra. Era uma floresta que se abria sempre aos meus passos e não se fechava jamais. Mais eu andava, mais a selva se ampliava, as árvores se abriam em passagens largas e as flores se multiplicavam. Mas eu não me sentia bem naquela selva; era como se por detrás de tudo certa mão conduzisse plantas e folhas para me atirarem a um lugar aonde eu não queria chegar. Mais caminhava, mais me sentia asfixiado pelo caminho que se abria silencioso e frio. Assim foi por um tempo que parecia não acabar jamais e eu corria corria corria e as plantas e as flores e as cores me asfixiavam cada vez mais. Até que na corrida louca gritei alto e me senti cair num precip¡cio que não tinha fim.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 7 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Coaracy I


Gostaria de poder dizer com clareza a Vossa Senhoria quanto foi importante para mim o conhecimento de Coaracy. Será difícil, mas tentarei. Difícil não porque eu não saiba quem é Coaracy e da sua natureza de homem sábio. Pero Vaz é um homem sábio, ah! se o é! Pedro Álvares, o grande capitão, é um homem sábio e todos o confirmam; como eles, outros homens sábios existem, mas Coaracy é um homem sábio como só ele sabe ser.

domingo, 17 de outubro de 2010

Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 6 - por Sílvio Castro

(Continuação)

Quero confessar a Vossa Senhoria uma coisa que me inquieta. Uma coisa importante. Até agora eu não sabia que era assim, que sentia assim, mas agora sei. Me parece que isto seja o conto, foi o conto que de certo tirou de dentro de mim e me esclareceu este meu certo sentimento. Desde que vos estou contando as minhas estórias passei a compreender essas coisas escondidas que agora vos tento revelar.

Este meu novo mundo desde logo me incutiu um grande medo. Não era, depois de um primeiro momento de indecisão, o medo de sofrer dores, violências. De morrer. Em verdade a minha vida me parecia tão miserável que a morte era pouca coisa diante dela. Era um outro medo. Tudo me era desconhecido e ao mesmo tempo se revelava com clareza espantosa a cada momento. Tudo me parecia como que a perda do que eu era, e quanto mais eu entrava no contacto e no conhecimento das coisas e da gente, mais me sentia perdido. Mesmo quando a bondade de Coaracy procurava ligar-me a tudo aquilo que era o contrário da minha vida, mesmo assim a cada momento mais se fazia indefinido o meu dia, o meu ver, escutar, gostar, o meu ser todo. Eu agora sei que me confrontava a cada dia com as novas coisas e me atormentava porque ao mesmo tempo queria e não queria participar delas. Me encontrava com a gente, e não queria, como queria, conhecê-las, estar com elas. Mais ainda era silenciosa a dor quando aquele mundo parecia de repente, por tantas suas coisas, se transformar dentro de mim numa adesão.

sábado, 16 de outubro de 2010

Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 5 - por Sílvio Castro

(Continuação)

O novo amanhecer.

Uma noite, não esquecerei jamais, eu não conseguia dormir, me levantei e saí da cabana. A penumbra ainda era forte, com uma cerração fria que antecipava a alva vizinha. Tudo era silêncio na aldeia e eu me encaminhei lentamente na direção da floresta. Nela também tudo era submerso pela penumbra noturna e se percebia apenas o estalar das árvores, o sutil movimento dos insetos noturnos, o ciciar quase apagado da brisa que começava a levantar-se, o murmúrio distante de águas. Quanto mais eu caminhava, deixando o bosque para internar-me na floresta, mais a penumbra se dissolvia na luz ainda imperceptível do alvorecer e os sons se movimentavam. Caminhando eu percebia tudo de longe e me internava não só naquele espaço de sombras, mas ia comigo mesmo, rememorando e ao mesmo tempo despojado de qualquer pensamento.

Parei em um dado momento porque, por entre a penumbra que coava em meio aos galhos das árvores cerradas, surgiam raios da luz embaçada do sol que ainda não se via, mas que estava subindo lentamente no nascente, diante de mim e de todo aquele mundo novo que eu desconhecia. Saído de mim, parei num espaço da floresta mais aberto e ali fiquei, como diante do mundo. Então, devagar, muito devagar, os ramos cerrados deixaram passar mais luz e a penumbra começou a iluminar-se e a brisa a refrescar com mais vigor ainda, como se recolhece das árvores, de todo aquele mar verde, o orvalho e o espalhace por todos os lados, num toque de carícias desconhecidas. Longe, a pouca luz se fazia mais intensa e de repente eu vi o sol que subia no horizonte. Como se me estivessem seguindo e aos meus sentimentos daquele evento, os seres e coisas da natureza começaram a levantar-se e a mostrar-se. No meu espanto sem nenhum temor eu vi então definirem-se os contornos das árvores; as menores mais próximas de mim deixavam espaços para que outras maiores se mostrassem e essas se prologavam nos longes em toda uma densa floresta que se descobria novamente verde, todos os verdes, na luz sempre mais intensa do sol. Eu seguia o caminhar da luz nas copas e ramos e percebia igualmente o despertar dos pássaros, infinitos pássaros escondidos que partiam de acordes indefinidos, para quase logo chegarem a um coro que aumentava, aumentava, e se fazia uma única mas variada voz. Eu estava dentro dos muitos verdes e das vozes, procurando descobrir o sentido delas, e logo do verde me chegavam aos olhos outras cores amarelo vermelho branco azul roxo verde verdevermelho verdeazul verderoxo vermelhoverde vermelhorosabrancoamarelo.

Eu estava dentro de todas as cores da floresta e preso pelos sons e cantos de pássaros insetos feras, tudo encoberto pelo amanhecer que se fazia sempre mais claro. Como se sonhasse, todas essas coisas me envolveram, me tomaram completamente e eu já não só via os verdes e sentia os alvoroçados sons dos animais todos mas, como num mistério, de repente tudo se mostrou, flores, pequenas e grandes, margaridas, papoulas, orquídeas, rosas, e de meio a elas saiam borboletas multicolores, e papagaios, todos os papagaios, os pequeninos todo um verde, até aqueles imensos com seus rabos e bicos vermelhos e penas verdes e azuis, e melros, pintassilgos, sabiás, graúnas, canários, o anum, o bacurau, o inambu, e aves maiores, de vozes estridentes, o frango-d'água, a cegonha, e em meio às flores e às árvores de folhas curtas, compridas, ovais, quadradas, pentagonais, octagonais, filiformes, poliformes, os muitos bichos, macacos, pacas, tatus, tamanduás. Apartada, quase imóvel, a anta. Mais, ao longe, junto às águas de um riacho, a onça. Todo o mundo se mostrava aos meus olhos espantados, mas como se eu ali não estivesse.

De repente, quase sempre, me acometia uma intensa sensação de desassossego diante da minha vida. Eu não mais sabia ver o lugar onde me encontrava, perdia-o de vista, como se aquelas imensidades fossem espaços infinitos mas fechados, nos quais eu não sabia colocar os pés. Me sentia como que perdido no ar, flutuante e sem peso, levado para o cimo daquelas árvores altíssimas, mas do alto eu não via a terra, aquela terra, mas via a minha antiga de sempre e perdida. Minha mãe me aparecia de longe, e também muito próxima. Eu a chamava, ela caminhava para mim e eu lhe pedia para ficar comigo. Minha mãe me olhava com a sua doçura, o seu plácido belo rosto me sorria e eu queria que ela me abraçasse, me tomasse consigo. Ela me era como que vizinha, mas logo desaparecia e estava nas alturas sem medidas.

O medo de perder minha mãe, o grande medo de ficar sem ela naquele desassossego, me impelia a correr para ela. Mas eu não podia sair dali. Cansado, eu retomava uma quietude que não era serenidade, mas um artifício de medo que se organiza para não perder definitivamente a visão amada. Tudo então era muito difícil no desassossego e o artifício inventava de transformar-se em carta para minha mãe Minha querida e adorada mãe, como estou longe de ti e como sinto a tua ausência. O mundo‚ imenso na tua ausência e eu me sinto sempre mais pequenino diante deste mundo desconhecido. Quero que me venhas tirar daqui para levar-me à nossa casa, quero estar contigo na nossa casa. Estou aqui, mas quero sempre estar aí. Desejo sempre correr para junto de ti. Mas me sinto condenado a não poder sair daqui, estou preso para sempre à minha pena que mais aumenta quanto mais eu penso em ti. Eu não chego até aí para poder estar de novo contigo, mas terão chegado as saudades que por estarem tão distantes, comigo as tenho bem presentes.

(Continua)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os Senhores Singulares -( O romance da revelação do Brasil)- 1 - por Sílvio Castro

“Meu caro irmão, já lá terão chegado as saudades e cõ estarem tão distantes, as tenho ben presentes."


(in Carta inédita de Catarina, raínha de Inglaterra, ao seu irmão Pedro II de Portugal)


Levei muito tempo para compreender o que Coaracy me dizia. Vossa Senhoria não sabe quanto tempo levei para compreender as coisas deste mundo novo. Vossa Senhoria pode sorrir, mas foi assim. Hoje ao vos contar começo a saber realmente.


Se Vossa Senhoria quiser pode conhecer muitas e variadas estórias, pois eu vivi mais nestes tres anos desde quando me deixaram nestas terras, do que nos vinte e dois de minha vida d'antes. Meu nome‚ Afonso Ribeiro, e fui pajem do nobre Sebastião Telo, mas a desventura quis que eu tudo perdesse e me encontrasse aqui neste mundo de coisas e de gentes desconhecidas.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

José Roberto Teixeira Leite, um grande intelectual brasileiro vem, no dia do seu aniversário, ao Terreiro da Lusofonia trazido por um grande escritor brasileiro, o nosso Sílvio Castro

Sílvio Castro



Neste 16 de agosto de 2010, a cultura artística brasileira festeja o 80° aniversário do autor de E. Boudin no Brasil, nascido no Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 1930. Historiador e crítico de arte, ensaísta, professor universitário, José Roberto Teixeira Leite é certamente o mais representativo estudioso de arte do Brasil contemporâneo. Bacharel em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, não exerce a profissão de advogado e desde a sua juventude se dedica ao campo das artes visuais. Muito jovem, viaja para a Europa também com a finalidade de completar suas pesquisas sobre a pintura de Bosch, sobre a qual publica em 1956 um dos seus estudos mais significativos, Jheronimus Bosch. A partir de então a sua atividade de erudito se alarga sempre mais, publicando em 1961 o já citado E. Boudin no Brasil, importante análise do grande acervo de obras do predecessor do Impressionismo francês, presente no Museu Nacional de Belas Artes, do Rio de Janeiro. De 1967 é outro livro de arte no âmbito internacional, A pintura no Brasil Holandês, com realce para a figura de Franz Post.